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pedra pluma

 

Eu quero falar do amor e também da democracia usando essa imagem. São coisas próximas, a gente sabe, o amor e a democracia. 

Ambos são leves, frágeis demais, mas conseguem carregar coisas enormes, pesadas, duras… conseguem produzir um equilíbrio entre o que são e estas outras coisas terríveis.

O amor é uma pluma: o desejo de ficar com o outro, de compartilhar espaços, de se reconhecer no outro, de permitir que o outro se reconheça em nós, de brincar junto, num tempo e num espaço que não é nem de um, nem do outro… É uma pluma isso… é leve demais… de repente, vem a pedra das diferenças, do que não faz interseção de jeito maneira… vem o ódio, vem o insuportável da alteridade, o desencontro, a violência… pedra, dura, dura, dura.

A democracia é uma pluma: o desejo de acolher as diferenças, de ser mais solidário, de criar um espaço de todos e todas, para que todos e todas possam existir em paz, sem serem agredidos por serem o que são. A democracia é uma pluma… de repente, a pedra da maioria, da homogeneidade, da indiferença, do apagamento das singularidades; de repente, a fúria dos que têm certeza; a vida fascista que quer se impor a todos, todas, tudo…

Entre a pluma e a pedra, vamos tentando construir um espaço habitável, algum lugar no qual possamos reconhecer a leveza e a dureza, a alegria e o horror. Mas como são frágeis essas gambiarras que inventamos para colocar as duas em equilíbrio… cai, levanta, equilibra de novo… e assim vamos, na balança, no balanço.



1) Confiabilidade é uma das formas mais concretas e remotas e necessárias do amor. Acreditar que o outro estará lá, quando vc precisar dele. Que ele não vai te deixar… além disso: que ele saberá, muitas vezes, se antecipar para te acolher de tal forma que seu gesto pareça mesmo inventar aquilo que efetivamente encontra. As relações precoces com adultos confiáveis geram segurança em si mesmo, são paliativos contra agonias impensáveis.

2) Que tais relações sejam, mais tarde, deslocadas, transferidas para a religião não torna essas relações menos importantes. Muitos precisam e precisarão manter a crença infantil num outro confiável. Mas o infantil aqui não é sinônimo de ingênuo ou falso ou menor… Significa ainda a potência da fantasia, sua importância fundamental…

3) Há outros deslocamentos da confiabilidade… Podemos crer até mesmo na ciência como um outro confiável q irá apaziguar nossas angústias diante das incertezas do mundo… Freud usou uma expressão bizarra no “Futuro de uma ilusão”, seu livro sobre religião: ele dizia acreditar no deus Logos… Olhem q contradição: num livro no qual ele tenta desmontar a idealização dos outros originários, ele produz uma idealização tão infantil quanto as outras… tão supostamente à prova do pulsional quanto as outras…

4) É preciso então prudência ao desejar retirar ou criticar o deus / as crenças-de-garantia dos outros: cada um vai ter o seu / as suas… Imagine a importância de acreditar que há mesmo um outro que não vai te trair, que vai te deixar seguro sempre, que vai te dar a certeza de estar lá… Em troca do que, em nome de qual sadismo, vamos lá dizer pro sujeito: ou, isso é ilusão, fica aqui na angústia, diante dos excessos e das incertezas…

5) Nada impede, no entanto, que cada um possa falar do que lhe angustia e do que lhe apazigua. Mas ninguém tem o direito de achar que isso que lhe apazigua deva necessariamente apaziguar o outro… cada um com seus objetos e crenças de segurança. Respeitar isso é bem importante.

6) Todos já foram, em alguma medida, traídos. Todos tb, mais ou menos voluntariamente, traíram alguém. Desde o caso mais banal, de uma expectativa que não foi dita e que, por isso, não foi realizada, até os casos mais trágicos da traição (amorosa, política, moral…). A traição também tem matizes importantes, mas é notável como é tarefa árdua reparar o objeto traído, como essa ferida narcísica é dificilmente cicatrizável. Afinal, algo do constitutivo foi reaberto… Perder a confiabildidade de alguém tende a ser algo irrecuperável / irreparável… A capacidade de perdoar (e a de ser perdoado tb…) muito provavelmente tem muito a ver com história libidinal que constituiu a confiabilidade do sujeito…

7) Deus é fiel… fundamental lembrar a dobra perversa que estabelece a confiabilidade… é justamente por essa assimetria radical que os pactos sadomasoquistas mais radicais podem se estabelecer… pensem na história de Jó como paradigmática aqui: o sujeito crê tanto no outro, confia tanto no amor do outro, espera tanto do outro… q pode se submeter a tudo, q vê sentido pleno e construtivo em toda violência e destruição que o outro lhe endereça… É por isso que os crimes contra as crianças nos geram tanto ódio… Além da violência, há o abuso pela confiança que a criança deposita…

confiança

Até que a morte os una.

Há um modo terrível de controlar a dor proveniente do passado (da situação originária, dos momentos constitutivos do eu): produzir situações de dor. Como se o eu dissesse: não me causaram dor, eu mesmo me causo dor! E ai de quem encontrar um(a) parceiro(a) com esse regime de funcionamento. O sujeito pode muito bem estragar tudo para causar dor no outro e esta dor, por sua vez, vai lhe causar dor, desta vez, com clara autoria. O sujeito irá se culpar – uma das grandes traduções internas da dor – pelo seu fracasso, pela sua burrice, por mais um mau passo.

O mortífero une: é esse o risco. Se articular com um outro que nos cause dor é também uma forma de lidar com nossas dores originárias. É uma forma de tornar consciente e presente um tormento inconsciente e pretérito. O masoquismo é, antes de tudo, uma forma de controlar a dor, tentar fazer um circuito inteligível pra ela.

A relação amorosa pode ser, então, uma articulação para repetir uma situação de dor anterior. Repetimos causando dor no outro, fazendo com que essa dor nos cause dor e ainda entrando, repetidamente, em relações que nos cause dor. São múltiplas derivações de uma defesa: atualizar o pretérito, revivê-lo no presente é uma forma, na maior parte das vezes, malograda de elaborá-lo.

A análise talvez nos ajude a pensar no uso de nossas dores e das do outro. O quanto é tolerável, desejável (já que é parte importante de nossas defesas), causar e sentir? A questão se impõe, pois, convenhamos, parece inevitável que isso aconteça em alguma medida.

Em alguma medida… Uma advertência importante quanto a isso: não se trata de quantidade, mas de potência. Sabemos dos venenos cuja potência não se mede pela quantidade, mas pelo efeito que causam. Uma gota é suficiente para nos trucidar. Em outras palavras: o objeto pode ser amabilíssimo, mas se ele possui aquele traço, aquela gota venenosa, que provoca aquela dor específica, desestruturante, devastadora: isso basta. Basta uma gota… mesmo num amável oceano de tranquilidade. (Afinal, o que faz holding também não é quantidade, mas qualidade, potência do afeto).

Até que o mortífero os separe… até que saibamos lidar melhor com o nosso mortífero e o do outro… essa é certamente uma das tarefas precípuas do cuidado de si engendrado por uma análise. Desprezar esse achado é insistir em fazer do laço uma mortalha – como nas impressionantes imagens de Mapplethorpe. Pode até funcionar, mas cabe colocar em questão se é assim, necessariamente, que deve ser e continuar.

ROBERT MAPPLETHORPE: IMAGEM DA SÉRIE WHITE GAUZE, 1984 ROBERT MAPPLETHORPE: IMAGEM DA SÉRIE WHITE GAUZE, 1984

repeticao

Uma prova contundente da existência do inconsciente é quando, num namoro, trocamos o nome dela(e) por de um(a) outra(o). Eis a treta armada… rs… 

Pensemos no caso de João que, sem querer, coitado, troca o nome de Luísa pelo de Adelaide. Luísa, com razão, perguntará: “João, who the fuck is Adelaide?!”… E João não poderá dizer, acreditando piamente nas recentes pesquisas neurocientíficas que asseguram a morte da psicanálise… “puxa, foi só um erro de sinapse… foi mal!”.

O ponto aqui é tb poder conversar sobre esse pré-consciente do João… Nesse lugar onde depreendemos, com razão, que ele ainda mantém relações com Adelaide… Mas acho que o ponto do inconsciente é ainda outro: não é tão simples quanto uma troca (queria que Luísa fosse Adelaide!)… é muito pior…

Pensem numa hipótese para interpretar alguns lapsos… João está preso numa repetição: algo nele faz com que todos os objetos sejam o mesmo. O encontro com novos objetos é uma repetição infinita de um mesmo encontro… Essa tal Adelaide não é um nome de uma outra, mas dele mesmo… O que se convoca no lapso não é a Adelaide, mas o João que estava lá com a Adelaide e que de repente se vê no mesmo lugar agora que está com Luísa… É triste do mesmo jeito… rs… mas é diferente, entendem? É mais trágico…

A soberania do inconsciente não está nessa formosura de simplesmente trocar o nome (e o desejo por) um objeto X por um objeto Y… Quem dera! Sua soberania mortífera está em colocar de joelhos o sujeito que acredita que pode se livrar de si mesmo, ou melhor, disso que há nele, que sempre o atacará, a cada vez que se relacionar com um novo objeto… A crença de que posso mudar, ser totalmente outro, de repente, fracassa e me leva de volta ao mesmo, à repetição do que exige ser ouvido e reconhecido.

A cena do lapso pode, claro, significar o desejo de trocar o objeto de desejo… mas não devemos desconsiderar a hipótese de que o horror que João produz em Luísa é para que ele mesmo escute: “como ousas me confundir com outro? como ousas desafiar minha identidade? como ousas crer que podes te livrar assim do que te habita e que mal reconheces?”. Adelaide talvez nem esteja mais na jogada… rs… Ela é apenas esse pivô de fantasia que torna a cena possível. Em muitos casos, o foco pode não ser ela, mas algo em João que persiste qualquer que seja a relação que mantenha…

Pra terminar: claro, para se haver com isso, reconhecer o que há de inconsciente no lapso, o que insiste em repetir, João deverá ir à análise… Caso contrário, corre o risco de repetir uma vez mais e sempre essa troca de nomes indiscreta e bem desconfortável… Até que um dia ele possa entender a importância de nomear o que é um tanto sem nome e que, no entanto, o habita e domina.

frankenstein

[Sobre Frankenstein] A consciência de sua monstruosidade é diretamente proporcional a saber-se radicalmente desacolhido, não-amado. Por mais que Frankenstein tenha conhecido um ou outro momento de alegria, de amor, de reconhecimento… sua escolha final, procurar o abrigo de impossível hospitalidade, o pólo norte, é sinal de que nunca pudera vencer a grotesca ambivalência de ser a um só tempo filho desejado e amontoado de cadáveres. Imaginem o quão horripilante é Frankenstein. Suas cores fétidas e cadavéricas… É uma metáfora muito potente da coincidência entre ser e ser abjeto.

As origens alteritárias disso não podem ser esquecidas. De repente, o susto do pai: o que foi que fiz? O que desejei? Hybris do pai: desejar fazer um bebê sozinho, sem a presença de nenhum outro (não somente de uma mulher)… A hybris da onipotência é um outro nome para a solidão. Frankenstein, o filho, apenas leva adiante, de forma ainda mais aguda, o que lhe foi transmitido. E se Frankenstein tivesse tido um bebê (como a menininha da foto)? E se ele pudesse reparar seu abandono acolhendo alguém com quem se identificasse projetivamente?

Há algo em nós mesmos e no outro que é dessa ordem, da monstruosidade… Inacolhível, intratável? Questão de grau, talvez… cada um com um tipo de monstruosidade, com uma quantidade dela… alguns controlam bem a sua e toleram bem a do outro… a psicanálise coloca, me parece, essa questão: como tratar a minha monstruosidade? Como lidar com a do outro? Como traçar sua história e mudá-la de alguma maneira? Existem lugares não tão inóspitos nos quais a monstruosidade de alguém pode ser reconhecida de outra forma, não-monstruosa? (O conto de fada do patinho feio é uma versão mais feliz desse mito).

burro

Um dos fenômenos clínicos mais potentes para se mostrar como a razão é colonizada pelo pulsional é a teimosia, a burrice, a inibição intelectual pra uma tarefa (cognitiva ou afetiva). O sujeito pode ser advertido, inclusive por ele mesmo: “não vá nesse caminho!” ou “vá por ali, por ali é melhor!” e mesmo assim… persiste, burramente, no caminho que lhe conduzirá ao seu conhecido abismo, seu atoleiro mortífero… Dali ele dificilmente consegue sair: o absurdo prazer do masoquismo, o faz existir resistindo à mudança, repetindo infinitamente, disco arranhado, a mesma toada. Repetir (mesmo que seja a desgraça) é uma garantia de controle sobre como existimos. Repetir nos dá uma consistência ontológica… e se a repetição for marcada pela dor essa consistência parece ainda mais concreta, indubitável. “Sinto dor, logo existo”: é esse o melô do masô. Não é apenas porque é “gostoso apanhar” (muitas vezes esse prazer consciente da dor não está presente nos casos de masoquismo!)… é porque o prazer que dá consistência à tópica do eu é um prazer paradoxal: só sinto que existo na iminência de ser dilacerado. A repetição boçal, a estupidez afetiva, a teimosia que aponta para o fracasso: tudo isso são fenômenos clínicos importantes para demonstrar derivações do masoquismo mortífero…

 

V CONPDL

Vem aí o V Congresso Nacional de Psicanálise, Direito e Literatura!

Com o tema “Leituras interdisciplinares sobre violências de gênero: ‘o remorso de baltazar serapião’, de valter hugo mãe“, nesta edição o CONPDL se propõe a promover o diálogo entre a Psicanálise, o Direito e a Literatura no que diz respeito às violências de gênero.

A obra literária eleita para esta edição é o romance “o remorso de baltazar serapião“, de valter hugo mãe, que aborda, entre outros temas, o amor de um homem por uma mulher em meio a uma cultura patriarcal que supervaloriza os sentimentos dos homens em detrimento do reconhecimento da condição das mulheres como sujeitos de direito e de desejo. O livro representará no V CONPDL um aporte literário para se trabalhar asviolências de gênero sem pretender ser a única via para discutir essa questão sob os olhares da Psicanálise, do Direito e da Literatura.

O V Congresso Nacional de Psicanálise, Direito e Literatura acontecerá na cidade de Belo Horizonte, Minas Gerais, entre os dia 14 e 16 de setembro de 2016. O envio de trabalhos a serem apresentados no Congresso e publicados nos anais do evento deve ser feito até o dia 30 de julho de 2016 e, para terem o seu trabalho aceito, as/os autoras/es devem se inscrever para participar do evento. As inscrições devem ser feitas no site da FUNDEP com prazo e endereço de página ainda a serem divulgados aqui no site, em breve. Para mais informações, clique aqui.

A falta da falta: nome da onipotência. A falta começa quando o bebê tem q lidar com o excesso deixado pelo(a) cuidador(a). A falta concreta do abraço que dá contorno e trilhamento pra essas primeiras excitações pulsionais circularem de forma não disruptiva, não caótica… Holding que faz tópica, faz um lugar, um contorno pro corpo. A falta do holding constitutivo, na justa medida, vai dando a certeza que existimos sem o outro, que podemos estar sozinhos na presença de alguém. No entanto, a falta desmedida nos ensina de forma bastante vigorosa: os excessos internos, por serem alteritários, precisam do outro para algum apaziguamento. Os apaixonados entendem isso perfeitamente!! Não é apenas a ausência de seu objeto de amor que lhes atormenta! É a presença permanente das marcas desse objeto, dentro do sujeito, em todos os seus poros, que é doloroso ter que suportar. E que grande alívio sentimos quando somos correspondidos, quando, no abraço do objeto, preservada sua autonomia como outro sujeito, sabemos que não estamos sós.

O ódio ama a hipérbole: “todos são canalhas”; “todos corruptos”; “tudo errado”.

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O ódio ama a metonímia: “se há um x em y, todo y terá x”; “se fez isso uma vez, sempre fará”.

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O ódio odeia o perdão e ama o que é fixo e imutável. O ódio faz acreditar que a alma humana é imutável: em sua maldade e/ou bondade.

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O ódio odeia o matiz, a nuance, a transitoriedade das fronteiras e das identidades.

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O ódio ama a certeza e despreza a dúvida, o pensamento e o diálogo (interno e também com o outro externo).

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O ódio deseja, no limite, o apagamento de toda alteridade, de toda diferença.

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Viver com o outro é uma espécie sofisticada de esconde-esconde, no qual é uma alegria se esconder e uma desgraça não ser encontrado… Façam trabalhar essa ideia de Winnicott… O ódio é sempre invasivo. O ódio odeia o respeito pelo espaço do outro.

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O ódio sustenta a crença de que é possível eliminar, para sempre, o mal. O ódio, aliás, é mestre em designar o que é o mal e tem a renovada esperança de distingui-lo completamente do bem.

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Para elaborar o ódio é preciso saber generalizações são sempre abstrações perigosas, um modo fácil de operar com a angústia produzida pela multiplicidade de sentidos da realidade humana.

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Para elaborar o ódio é preciso um exercício contra metonímias, contra a lógica cínica de reduzir a parte pelo todo. A estratégia é sempre mostrar como outras partes, outros sentidos, estão sempre presentes.

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Para elaborar o ódio é preciso saber que o perdão não significa esquecer, mas sustentar uma barreira contra o que nos violenta e invade. Manter esse não vivo, porém sem que ele vise a destruição do ódio ao qual visa barrar. É preciso sustentar a imagem do horror, lembar-se dele para que ele não se repita.

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Para elaborar o ódio é preciso estar disposto à conversa infinita, a sustentar o exercício da suspeita permanente sobre nossas certezas. Criar um espaço no qual seja mais autorizado descontruir para reconstruir diferentemente. O avesso do ódio é tomar a estética como modo de vida: é sempre preciso criar mais, reinventar, mantendo vivo o processo dialético entre desconstruir e reconstruir.

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O ódio sustenta a distinção entre o eu e o não-eu. Separar-se, constituir-se como unidade requer ódio. É preciso o lento trabalho do amor para lembrar que a tópica da diferença assim instituída admite porosidades, fronteiras mais fluídas. Abrir espaço para as delícias das identificações, dos compartilhamentos, do estar junto: sem perder-se e sem se impor em demasia. Sustentar a tensão, muito mais que tentar resolvê-la…

É preciso ainda fazer trabalhar a ideia de que durante muito tempo ouvimos e compreendemos o outro antes, muito antes, de poder articular uma palavra. Muito antes ainda de poder articulá-las com sentido para nós mesmos e para o outro. E ainda muito antes de poder falar sobre o que falamos.

Bem, penso que essa passividade radical marcada pela escuta (já denunciada há muito por Plutarco) será recalcada como o é, em grande medida, as múltiplas formas da passividade da situação antropológica fundamental.

E qual é o principal retorno desse recalcado? Aí é q está: a recusa a ouvir o outro. É como se disséssemos: “vc que me obrigou a te ouvir, muito antes de meu eu estar lá… q me obrigou a te ouvir de tal forma a para sempre te ser devedor da palavra, bem, agora, não te escuto mais… me recuso. Falo como se nunca tivesse te escutado, falo como se a incompreensão fosse o principal da comunicação, falo para não ser compreendido, falo, enfim, para não ser escutado, tal como gostaria de não ter escutado nas origens, prova máxima de minha passividade excitante e angustiante”.