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“O julgar é prosseguimento coerente daquilo que originariamente é realizado pelo princípio do prazer: a inclusão no ego ou a expulsão para fora dele.” (Freud, no texto “A negação”). 

Acho que essa é uma das ideias mais revolucionárias de Freud. Nossa razão – nossa capacidade de julgar, nossa faculdade do juízo – é decorrente de um ato que se articula ao prazer. O que é bom e prazeiroso, eu internalizo, portanto, existe. O que é mau e interrompe meu prazer, eu cuspo, portanto, não existe.

Há um longo percurso na vida de qualquer um para operar alguma mudança no julgar para que ele tome a direção do princípio da realidade. Isto é, é difícil acreditar em algo que não gostamos. É difícil compreender (aprender, apreender, engolir) o ponto de vista do outro a quem detestamos. É uma tarefa árdua pensar de uma forma que nos desagrade. Mais que isso: um trabalho gigantesco conceder a graça da existência àquilo que preferíamos destruir em mil pedaços.

Ao ver essa cozinha dos gordos do Bruegel, pensei nesse textinho do Freud. O magricela sendo expulso tem um efeito cômico pra mim. Como se dissessem: aqui só entra quem já topou se refestelar na oralidade desmedida. Não é bem-vindo quem não teve a capacidade de suportar esse prazer. Não venha nos mostrar a cara pobre da renúncia ou da fome ou da dieta ou de qualquer controle sobre este prazer.

A figura central da imagem, não por acaso, é a de uma mulher que amamenta um bebê já bem gordinho. Imagem plena do prazer ilimitado. A invasão / incorporação gozosa do que nos preenche sem interrupção, sem renúncia.

O ponto de Freud, então, seria ver essa confraria de Bruegel como qualquer grupo que se esbalda num prazer compartilhado e que não permite nenhuma presença alteritária… nada que seja diferente é autorizado: nem a entrar e, se possível, nem a existir.

O que é trágico na visão que Freud propõe da genealogia da faculdade de juízo é que nenhum pensamento, nenhuma reflexão escapa a isso. Nossos pensamentos mais complexos, sobre filosofia, moral ou astrofísica: tudo isso está contaminado pelo desejo de saber, pela forma através da qual o prazer circula em nossa vida psíquica.

Consequência ainda mais trágica: minha própria existência (e identidade) está determinada por essa lógica do prazer. Ficaria mais ou menos assim o resumo da ópera: tenho prazer, logo isso que me causa prazer existe. E é graças ao prazer que isso causa em mim (dentro de mim, com o que me identifico) que também reconheço minha existência.

Por isso, no limite, é impossível mudar a opinião de alguém apenas através do diálogo racional. (A ilusão de Habermas, poderíamos chamar). Mudar de opinião sobre algo implica sobretudo uma perlaboração de seus circuitos afetivos, de suas modalidades de prazer. Mudar de opinião tem a ver com mudança de identidade também. Essas coisas se articulam profundamente: o que somos e o que cremos, como desejamos e como pensamos.

[The Fat Kitchen, Pieter Bruegel the Elder]

The Fat Kitchen Pieter Bruegel the Elder

Sobre a fantasia
 
A fantasia é uma cicatriz do traumático. Um circuito através do qual e apenas através do qual é possível colocar a tríade excitação-prazer-apaziguamento para funcionar. A fantasia tem uma dimensão inconsciente e outra consciente. A consciente é facilmente notada em nossos devaneios diurnos, por exemplo. Trata-se de um roteiro de excitação-prazer (Lust) que quando colocado em prática tende a produzir satisfação que, por sua vez, irá exigir a repetição do mesmo percurso.
 
Do ponto de vista do processo primário, é equivocado dizer que a fantasia é um roteiro, que tenha uma lógica representacional que possa se equivaler ao mesmo “filminho” que é a parte consciente da fantasia. As raízes inconscientes da fantasia são os objetos-fonte da pulsão, isto é, excitações implantadas na superfície psicofisiológica do bebê que exigem satisfação. Esses objetos-fonte são dessignificados, não produzem, eles mesmos, nenhum sentido, nenhuma narrativa, e não se estruturam como uma linguagem. São, antes, o avesso de qualquer linguagem, qualquer código, são radicalmente dessubjetivantes.
 
O que torna a análise possível, isto é, a mudança de nossos circuitos fantasísticos é justamente o fato de que as traduções conscientes do ataque pulsional (a raiz inconsciente da fantasia) podem ser modificadas.
 
Não é possível relacionar-se com o objeto senão através da fantasia. Isso se dá desde a constituição da relação com o objeto. É a excitação proveniente do objeto, isto é, do outro, que será a excitação interna que exigirá uma tradução, um roteiro, um circuito através do qual tal excitação poderá ser apaziguada.
 
Isso quer dizer que não há apreensão da realidade-em-si no campo do humano? Sim, num certo sentido, uma realidade-em-si, percebida em sua fenomenologia pura, sem ser interpretada pela fantasia que me permite vê-la, é, ela mesma, uma fantasia: o desejo de controlar o que vem do mundo.
 
Mas isso quer dizer que cada um vive um mundo privado, um mundo à parte de todos os outros? Não, pois o que nos permite perceber o mundo são os códigos (em especial os de linguagem) compartilhados que são, por sua vez, constitutivos de toda e qualquer percepção-com-sentido. O sentido só faz sentido quando codificado, quando transicional em alguma medida.
 
Isso quer dizer que minha relação com o objeto vai ser sempre minha relação com a fantasia e não com o objeto mesmo? Em certa medida sim: é através da fantasia que o objeto se torna desejável, obstáculo ou facilitador da excitação/apaziguamento. Em certa medida não: não é qualquer objeto que tem esse poder de sedução, de reabrir o jogo pulsional. Há algo no objeto – mesmo que não possamos identificar exatamente o quê – que permite que o circuito funcione.
 
Importante salientar que há sim um risco de a fantasia substituir a realidade. O transicional é uma capacidade também constituída historicamente. É possível pensar num continuum entre a fantasia e o delírio. O delírio seria a forma menos flexível da fantasia, um circuito inflexível, que situa o outro em lugares quase imutáveis. Há também fantasias neuróticas cuja inflexibilidade podem ser tão graves quanto os delírios. Uma análise parece sempre passar pelo reconhecimento de como nossas fantasias determinam o que pensamos e percebemos; como elas nos guiam e determinam o que somos e como amamos. Parece haver um ideal analítico aqui: tornar nossas fantasias um pouco mais flexíveis, um pouco mais abertas às suas origens transicionais.
 
Daí a radicalidade trágica de uma frase formulada por Freud nos idos de 1905: o encontro com o objeto é, de fato, um reencontro. Não se trata de dizer que o encontro com o objeto é uma tentativa de reencontrar o objeto perdido… isso é Aristófanes, coisa de comediante. O trágico é perceber que o encontro com o objeto é sempre uma espécie de repetição, de fazer circular a excitação-prazer (Lust) de uma forma muito específica, muito singular.
 
Para ser didático: é bastante óbvio que encontremos semelhança entre nossos parceiros amorosos e nossos pais. O complexo de Édipo quer dizer isso: amamos, necessariamente, guiados pelos circuitos instaurados pelas nossas primeiras relações amorosas. Isso quer dizer que no inconsciente encontraremos “papai” e “mamãe”? Não, pois estes são códigos pré-conscientes e conscientes que organizaram as excitações inomináveis, desligantes e desligadas que eles endereçaram juntamente com esses códigos organizadores, ligados, ligantes.
 
Portanto, a fantasia é, a um só tempo, uma excitação dilacerante e dessignificada nela mesma (objeto-fonte pulsional, excitações parciais) e uma resposta a estas excitações, isto é, a fantasia é também um roteiro consciente de prazer-apaziguamento. O poder da análise é tornar possível no encontro com o objeto-analista um reencontro com o objeto de tal forma a produzir a reabertura da situação originária, para que se torne possível perceber o modo como esse circuito de prazer se repete e procurar vias de tradução diversas àquelas que produzem muita dor e sofrimento psíquico.
 
Nude Model with Drapery, Maurice Prendergast
[Nude Model with Drapery, Maurice Prendergast]

Há forças colossais em jogo muito antes que o gênero venha desempenhar seu papel no recalcamento secundário. Nos tempos originários, na fundação do que se pode chamar o sujeito psíquico, dois modos de funcionamento psíquico se opõem. De um lado, as forças desligadas e desligantes provenientes das excitações depositadas nas zonas erógenas e em toda superfície psicofisiológica do bebê. Do outro lado, as forças ligadas e ligantes provenientes dos circuitos de excitação-prazer-satisfação estáveis e constantes do holding da mãe (ou dos adultos que cuidam do bebê). Esse duplo conjunto de forças (sexuais, pois sempre e necessariamente provenientes do outro humano), sempre conflitivos, organizam-se de forma dinâmica, um contra o outro, no recalcamento originário. Organização lenta, cheia de idas e vindas, ao longo dos primeiros meses da vida do bebê. Grandes marcadores dessa organização determinam a precipitação da divisão trágica que determina o humano, destaco em especial: o aparecimento da temporalidade e suas oposições – o antes e o depois; o aparecimento da tópica: o dentro e o fora; o reconhecimento da continuidade do ser: idas e vindas entre desintegrar-se e integrar-se numa totalidade.

Só depois dessa organização primária e radical, o gênero vem fazer seu papel determinante na constituição da identidade humana. A temporalidade é colonizada pela lógica do a posteriori que traduz todos aqueles marcadores de organização psíquica para a linguagem da genitalidade e do gênero. A questão da tópica é traduzida pelo penetrável e o penetrante. O ser ou não-ser é traduzido em ativo e passivo.

[na imagem, montagem sobre "Tristan Tzara", de Man Ray, https://www.metmuseum.org/art/collection/search/271958]

Tristan Tzara, Man Ray

 


Participei de uma entrevista/roda de conversa na rádio inconfidência AM sobre as paternidades…

Acho fundamental tentar transmitir os resultados das pesquisas na UFMG para o grande público… Sempre me surpreendo positivamente com os efeitos desse tipo de transmissão…

http://inconfidencia.com.br/modules/debaser/singlefile.php?id=15802

Pra quem se interessar sobre o tema a partir de um ponto de vista mais teórico, os resultados de minhas pesquisas sobre o tema estão reunidos aqui:

 

Livro Cassandra

 

Acabo de ler o livro “Nem sapo, nem princesa: terror e fascínio pelo feminino”, da Profa. Cassandra Pereira França.

O livro é a narrativa de um caso clínico de um menino de pouco mais de 4 anos de idade. A demanda dos pais: o extremo incômodo (principalmente do pai) com o fato de a criança só querer se vestir como mulher, querer bonecas de presente, enfim, querer ser uma menina.

Várias sessões do caso clínico são narradas de meneira envolvente, fazendo com o que o leitor queira seguir a história até o final. Aos poucos, vamos entendendo de onde vem o desejo de B. em ser menina: o desejo da mãe ter uma menina parece ter papel importante nessa trama, assim como a posição que o pai assume diante da díade mãe-filho.

O livro apresenta os desenhos que B. (a identificação do paciente) faz durante o processo analítico. A técnica do desenho foi usada de tal forma que a criança possa dizer, através deste recurso, o que só aos poucos vai encontrando outros modos de simbolizar. São impressionantes as interpretações e os diálogos em torno dos desenhos da criança e os efeitos que tais interpretações vão tendo sobre o psiquismo de B. O material selecionada das mais de 300 sessões – quatro sessões semanais, durante dois anos de análise – vai deixando claro para o leitor como o dispositivo analítico é também constitutivo no sentido de fornecer o material simbólico necessário para a elaboração dos violentíssimos ataques que B. sofria.

Cassandra traz de forma corajosa e aberta suas interpretações, suas questões quanto à direção do tratamento e também excelentes hipóteses sobre a complexa dinâmica da designação do gênero e a constituição psicossexual deste paciente.

A autora faz dialogar de forma didática as teorias de Melanie Klein e Silvia Bleichmar apresentando hipóteses gerais relevantes ao final do relato não apenas quanto ao caso em questão, mas também quanto à constituição psicossexual (identidade de gênero, em especial) de forma geral. É instigante a hipótese da autora de articular o caso apresentado com o fenômeno do “crossdressing”: ela o faz tendo o cuidado de respeitar a densa complexidade do fenômeno abrindo um campo de pesquisa importante. Afinal, dentro do campo da constituição sexual (gênero, identidade e orientação) dos homens, trata-se de um fenômeno relevante: vestir-se de mulher, querer ser uma mulher. Quais as origens disso? Quais os possíveis destinos? Como tal desejo pode estar articulado a outras defesas psíquicas?

O ponto que gostaria de colocar em discussão é a hipótese levantada pela autora (p. 175-6) de que “a fascinação narcisista de B. pelo corpo feminino denunciava, exatamente, muito mais o fracasso de uma identificação do que a sua instalação. Fracasso que demandava a envoltura da roupagem materna em uma função de segunda pele.” (França, 2017).

Será possível pensar em modos de identificação, por exemplo? Identificações mais coladas à imagem ou mais compulsivas em detrimento de outras, mais simbólicas e com uma carga mais livre de tradução/criação por parte da criança? Enfim, a hipótese faz sentido e acredito que a partir dela podemos discutir esse caso clínico em debates mais ampliados.

Recomendo a leitura deste livro não apenas àquelas(es) interessados na clínica psicanalítica com crianças, mas às(aos) interessadas(os) no debate sobre gênero e psicanálise de forma geral. O livro é um exemplo notável da metodologia clássica estabelecida por Freud: o caso clínico fazendo a teoria trabalhar.

Pessoal, vou dar uma palestra em Bom Despacho sobre os ciúmes dos homens. Pra ocasião, pedi à editora um desconto de 60% para quem comprar a edição impressa. Está valendo.

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Entre os anéis de Saturno, seguimos

entre o ínfimo e o infinito,

procurando novo tempo-espaço.

Entre os anéis de Saturno, sonhamos

o futuro para não sermos devorados.

Entre os anéis de Saturno, olhamos

as estrelas – e isto é sempre observar o passado.

Siderada, pequena enorme cela,

segue a arcaica cardiosonda

levada pela gravidade dos corpos,

entre a repetição e o inédito.

Entre os anéis de Saturno, esperamos

o encontro-impulso,

que nos leve do cisco ao colosso.

Entre os anéis de Saturno, ouvimos

o absurdo silêncio de uma explosão estrelar!

terra entre os aneisA Terra, vista de entre os anéis de Saturno, a partir da Sonda Cassini.

[https://www.jpl.nasa.gov/spaceimages/details.php?id=PIA21445]

julieta

 

1) “Sou eu quem devo te agradecer por não me deixar sozinha comigo mesma”, é assim que Julieta responde ao agradecimento que Lorenzo faz a ela: “obrigado por não me deixar envelhecer sozinho”. De um lado, a recusa em compartilhar uma história de dor, de tentar elaborá-la com alguém; por outro lado, a crença confiante de que há companhia genuína, desejo de estar junto. Ao que parece, Lorenzo é como um elemento de segurança, um tipo de vedação que se rompe tão logo Julieta recebe notícias de Antía, através de um encontro fortuito com Beatriz.

2) “Tua ausência enche minha vida por completo e a destrói”. Perder uma filha / um filho serão as tragédias que unirão Julieta e Antía ao final do filme. No caso de Julieta, ela pôde recuperar sua filha, mas poderá usar a experiência de sua dor para auxiliar Antía no trabalho de luto que terá que fazer pelo filho afogado – assim como o pai – aos 9 anos de idade. Parece não haver dor comparável a essa perda. São tamanhos os investimentos narcísicos, são tantas as identificações que parece ser impossível viver sem a espera da filha que partiu.

4) Um dos elementos mais fundamentais do filme é o silêncio. Efeito da dor, o silêncio que Antía endereça a Julieta e, depois, o que Julieta endereça a Lorenzo é o dispositivo trágico que tem por principal efeito reduzir o sentido da separação. A morte de um filho é talvez o paradigma dessa ruptura radical de sentido. O curso natural da vida oferece uma via facilitada e precisa para que dotemos de sentido nossa existência. Se a morte torna impossível a continuidade da conversa, há algo ainda mais trágico quando a filha se recusa a conversar com a mãe, a abrir espaço para o diálogo, mesmo que seja para a expressão de um ódio incontornável ou de uma mágoa intransponível. Antía destrói Julieta pelo silêncio que lhe endereça. Se há algo que encarne a ingratidão, o silêncio daquelas de quem cuidamos é um candidato exemplar.

4.1) Lorenzo perdoa Julieta por ela ter escondido dele, por tanto tempo, sua história de dor. Ele insiste e se põe ao lado dela. Em sua tentativa de suicídio, é ele quem cuida dela. Um ponto fundamental: ele não invade seu espaço, ele aguarda, espera, sem forçar muito, para entrar. Mas é claro o desejo e a disponibilidade dele em participar dessa história, em acompanhá-la. Ao final do filme, Julieta aceita ser cuidada por Lorenzo, assim como foi por Xoan.

4.2) A cena do suicídio no trem é reveladora quanto aos potenciais efeitos mortíferos do silêncio. O sujeito que puxa conversa – de forma desastrosa e, de fato, ameaçadora – com Julieta precisava ser ouvido. A recusa de Julieta, obviamente, deve ter sido apenas mais uma gota no oceano de histórias de abandono e não reconhecimento daquele sujeito. Mas é essa nossa hipótese básica sobre o suicídio: resposta diante do silêncio do outro. Resposta que torna quase impossível não ser ouvido, resposta-limite que obriga o outro a escutar.

5) O filme de Almodóvar é sobre a possibilidade do reencontro. Quais as condições mínimas para que haja uma retomada de uma relação partida? Como unir de novo as pontas dos nós que constituía uma relação? É possível, depois de tantos anos (13, no caso de Julieta e Antía), uma reaproximação? Se sim, que tipo de elaboração deve ter sido feita, tendo em vista a ruptura com tão pouco sentido e tão abrupta?

5.1) Há muitos elementos do mundo grego no filme. Cito dois deles que nos ajudam a pensar na lógica do reencontro. (A) Antía é o nome de uma personagem do romance “Os Efésios”, cuja autoria é atribuída a Xenofonte de Éfeso. Trata-se da história de dois apaixonados, Antía e Habrócomes, que depois de muitos desencontros, ao fim, se reencontram e ficam juntos. (B) Julieta conta numa aula a história de Ulisses e Calipso que também é a história de um desencontro, mas sobretudo uma história de amor: Ulisses recusa a juventude eterna e a imortalidade para retornar para Penélope e à sua morada.

5.2) Encontrar um objeto é sempre reencontrá-lo. A famosa frase de Freud ganha seu sentido quando o reencontro não cessa de acontecer mesmo quando o objeto não está presente. A representação do objeto funciona como um animal furioso que só se acalma quando é alimentado. A presença concreta do objeto parece ser uma condição para que essa representação não funcione como produtora de dor. E aqui vemos, mais uma vez, a importância da conversa, do sentido compartilhado, da explicitação do desejo de estar junto.

6) A história do pai de Julieta, apesar de coadjuvante no filme, é importante pois mostra a potência do recomeço. Seja mudando de profissão como ele faz, seja constituindo uma nova parceria amorosa, uma nova família, ele mostra que é possível viver grandes perdas e longos processos de cuidado – a mãe de Julieta ao que parece passa alguns anos demenciada (Alzheimer?) e é cuidada pelo marido e a ajudante que ele assume posteriormente como nova esposa. É uma história marginal no filme, mas não é desprezível quanto à sua força.

7) Imagino que precisaremos desconfiar da posição, digamos, vitimizada de Julieta. É verdade que ela demonstra irritação com Xoan sobre o fato de ele ainda transar com Ava, mas ela só demonstra essa irritação muito tempo depois. Aqui já aparece o dispositivo do silêncio que produz um efeito de bomba-relógio. Observem como essa é a lógica do trauma: Julieta sabe de algo que a machuca; espera muito tempo e vive como se nada estivesse acontecendo; e só então, mais tarde, revela sua irritação e sua dor. Isso deixa Xoan com uma culpa irreparável: o tempo já passou. O silêncio visa produzir o irreparável, deixa o outro de mãos atadas, preso para sempre a seu mal-feito. Reparem que de vítima – que ela de fato foi – podemos também pensar na posição sádica de Julieta. É exatamente nessa posição que Antía se reconhece e é dela que parece pretender sair quando finalmente diz à mãe algo de sua dor.

8) O filme de Almodóvar é brilhante: no roteiro, nas cores, no melodrama. É uma obra que nos ajuda a pensar em como é trabalhoso nos mantermos juntos. Parte deste trabalho implica, ao que parece, em nunca endereçar silêncio demais. (Isso vale, claro, tb para os analistas!). O trabalho de amor faz girar o desejo de escutar e o desejo de ser escutado. O de cuidar e o de ser cuidado. Ser flexível nesse pêndulo é preservar o que temos de transicional. E este espaço, como sabemos, conserva toda potência criativa para continuarmos a nos inventar.