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burro

Um dos fenômenos clínicos mais potentes para se mostrar como a razão é colonizada pelo pulsional é a teimosia, a burrice, a inibição intelectual pra uma tarefa (cognitiva ou afetiva). O sujeito pode ser advertido, inclusive por ele mesmo: “não vá nesse caminho!” ou “vá por ali, por ali é melhor!” e mesmo assim… persiste, burramente, no caminho que lhe conduzirá ao seu conhecido abismo, seu atoleiro mortífero… Dali ele dificilmente consegue sair: o absurdo prazer do masoquismo, o faz existir resistindo à mudança, repetindo infinitamente, disco arranhado, a mesma toada. Repetir (mesmo que seja a desgraça) é uma garantia de controle sobre como existimos. Repetir nos dá uma consistência ontológica… e se a repetição for marcada pela dor essa consistência parece ainda mais concreta, indubitável. “Sinto dor, logo existo”: é esse o melô do masô. Não é apenas porque é “gostoso apanhar” (muitas vezes esse prazer consciente da dor não está presente nos casos de masoquismo!)… é porque o prazer que dá consistência à tópica do eu é um prazer paradoxal: só sinto que existo na iminência de ser dilacerado. A repetição boçal, a estupidez afetiva, a teimosia que aponta para o fracasso: tudo isso são fenômenos clínicos importantes para demonstrar derivações do masoquismo mortífero…