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repeticao

Uma prova contundente da existência do inconsciente é quando, num namoro, trocamos o nome dela(e) por de um(a) outra(o). Eis a treta armada… rs… 

Pensemos no caso de João que, sem querer, coitado, troca o nome de Luísa pelo de Adelaide. Luísa, com razão, perguntará: “João, who the fuck is Adelaide?!”… E João não poderá dizer, acreditando piamente nas recentes pesquisas neurocientíficas que asseguram a morte da psicanálise… “puxa, foi só um erro de sinapse… foi mal!”.

O ponto aqui é tb poder conversar sobre esse pré-consciente do João… Nesse lugar onde depreendemos, com razão, que ele ainda mantém relações com Adelaide… Mas acho que o ponto do inconsciente é ainda outro: não é tão simples quanto uma troca (queria que Luísa fosse Adelaide!)… é muito pior…

Pensem numa hipótese para interpretar alguns lapsos… João está preso numa repetição: algo nele faz com que todos os objetos sejam o mesmo. O encontro com novos objetos é uma repetição infinita de um mesmo encontro… Essa tal Adelaide não é um nome de uma outra, mas dele mesmo… O que se convoca no lapso não é a Adelaide, mas o João que estava lá com a Adelaide e que de repente se vê no mesmo lugar agora que está com Luísa… É triste do mesmo jeito… rs… mas é diferente, entendem? É mais trágico…

A soberania do inconsciente não está nessa formosura de simplesmente trocar o nome (e o desejo por) um objeto X por um objeto Y… Quem dera! Sua soberania mortífera está em colocar de joelhos o sujeito que acredita que pode se livrar de si mesmo, ou melhor, disso que há nele, que sempre o atacará, a cada vez que se relacionar com um novo objeto… A crença de que posso mudar, ser totalmente outro, de repente, fracassa e me leva de volta ao mesmo, à repetição do que exige ser ouvido e reconhecido.

A cena do lapso pode, claro, significar o desejo de trocar o objeto de desejo… mas não devemos desconsiderar a hipótese de que o horror que João produz em Luísa é para que ele mesmo escute: “como ousas me confundir com outro? como ousas desafiar minha identidade? como ousas crer que podes te livrar assim do que te habita e que mal reconheces?”. Adelaide talvez nem esteja mais na jogada… rs… Ela é apenas esse pivô de fantasia que torna a cena possível. Em muitos casos, o foco pode não ser ela, mas algo em João que persiste qualquer que seja a relação que mantenha…

Pra terminar: claro, para se haver com isso, reconhecer o que há de inconsciente no lapso, o que insiste em repetir, João deverá ir à análise… Caso contrário, corre o risco de repetir uma vez mais e sempre essa troca de nomes indiscreta e bem desconfortável… Até que um dia ele possa entender a importância de nomear o que é um tanto sem nome e que, no entanto, o habita e domina.