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chegada

 

1) Se vc soubesse o que te aconteceria no futuro, vc mudaria algo? Nietzsche já nos fez essa questão e nos convoca a responder não. Trata-se, antes, de dizer sim à vida. De viver a vida como se fosse uma experiência a se repetir eternamente. O objetivo de tal filosofia parece ser levar o sujeito a viver da melhor maneira possível, escolher o melhor possível, assumir plenamente a responsabilidade do que se faz, acolher todos os efeitos, bons e maus, de seus atos. Sob essa perspectiva nietzscheana, o filme mostra tal coragem em Louise e a covardia de Ian. Quem acolheria uma filha, antes mesmo de tê-la, sabendo de sua trágica morte por câncer? Se tivéssemos certeza absoluta da dor que essa filha iria sentir, da dor que nós sentiríamos, mesmo assim faríamos a escolha? Ao ter certeza do fim, no entanto, poderíamos viver mais plenamente os maravilhosos momentos que teremos com a filha enquanto ela estivesse viva?

1.1) O anjo da morte chegará até vc, em seu último dia, e te perguntará: vc viveria sua vida de novo e de novo e de novo, eternamente, tal como vc a viveu, sem nada mudar? Os Heptapods nos perguntam: vc irá viver, sem início e sem fim, mesmo sabendo das dores que te aguardam?

1.2) Quando interrompemos um projeto que pode nos dar muita felicidade, mas cujo risco de dor é alto, estamos dizendo sim a qual modo de viver?

2) A certeza da transitoriedade possui efeitos diversos. Em alguns de nós, ela traz a melancolia implacável, a desesperança recorrente, o desinvestimento num mundo que sabemos fadado ao nada. Em outros, no entanto, tal certeza impele a avidez por conhecer e experimentar, a alegria de poder experimentar algo raro, o prazer de ter tornado, por um mínimo tempo, necessária uma contingência qualquer. Freud demonstrou que tais efeitos vêm da capacidade para o luto de cada sujeito. Quanto maior for essa capacidade para o trabalho de luto, maior a chance de o sujeito não ser solapado pela fugacidade das coisas.

3) A melancolia é uma forma de tornar permanente aquilo que é transitório. O amor apaixonado tem algo de profundamente melancólico. Trata-se de fazer do objeto o único possível, aquele sem o qual nada faz sentido. A única narrativa possível, a única chave para uma porta singular. Perder uma filha entra, com facilidade, nesse campo da melancolia, da paixão que exige o retorno do objeto, sua permanência. Louise, no entanto, segue adiante: ela dedica seu livro a Hannah, ela se põe a trabalho, ela investe seu amor na linguagem, na ciência… objetos que a ajudam a compor novas histórias.

4) Louise fala, sabe todas as línguas. (Alguém sabe mandarim para me dizer, afinal, o que a esposa do coronel chinês disse a ele antes de morrer?!). “A chegada” é um filme sobre a magia da tradução. Para Laplanche, somos, desde que nascemos, pequenos hermeneutas impelidos a traduzir as mensagens enigmáticas provenientes do outro que cuida de nós. Mensagens enigmáticas não apenas no sentido de que ainda não temos os instrumentos necessários para a tradução, mas porque para o próprio adulto que a emite há enigma. Falamos a partir do inconsciente, atravessados por nossos desejos, por nossas fantasias. Não há uma linguagem livre de interpretações, livre de nuances que nos obrigam ao jogo infinito das traduções.

4.1) Sim, aprender uma linguagem é aprender um modo de vida. Wittgenstein tem razão: um jogo-de-linguagem implica necessariamente num modo de se ver, de ver o outro… Que espécie de linguagem seria essa cujo aprendizado nos dotaria de maior sagacidade quanto ao tempo, uma previsibilidade infinita?

5) O filme traz um dilema moral interessante. Louise só fala para Ian sobre o câncer ainda por vir de sua filha quando ela já estava grande. Isso foi justo? O trauma me parece redobrado aqui. Além de ter que lidar com a situação em si – que é quase impossível de se elaborar – Ian ainda tem que lidar com o fato de que Louise sabia e não disse. Não é curioso que aquela convocada para traduzir a fim de evitar uma tragédia, deixe de dar ao futuro pai de sua filha o mesmo direito concedido a ela, isto é, de escolher ter o bebê sabendo da morte precoce da filha?

5.1) A história de “a chegada” é o avesso do mito de Cassandra. A profetisa dedicada de Apolo que, por não ter cedido aos caprichos sexuais do deus, foi punida: ninguém acreditaria em suas profecias… Louise topa tirar a roupa de proteção, topa correr o risco de contaminação. O poder que ela ganha decorre desse contato direto. Os Heptapods não são como os deuses machistas gregos: dão o presente e ela tem a coragem de aceitar e usar.

6) É lindíssima a metáfora das palavras de fumaça. Nossa tentativa de fotografá-las, de fixá-las por mais tempo. A escrita exige essa materialidade da fixação. Exigência de permanência, por assim dizer, a escrita é a ferramenta que permite ir e voltar quantas vezes forem necessárias para que se interprete mais e mais vezes. E sempre haverá restos das traduções. Sempre teremos que voltar a essa tentativa de fixar algo, chegar a um denominador comum.

7) “A Chegada” é um mito anti-babélico, anti-bélico. É uma aposta na força da tradução, no acolhimento prudente do que o outro tem a nos dizer. Um exercício radical de prestar atenção à alteridade do outro sem impor o que queremos ver nele muito rapidamente. Não é um dos sinais do apaixonamento reconhecer os sinais do outro, os mínimos sinais?

8) Tempo e tradução têm relações afetivas originárias – Laplanche deixa isso bem claro no artigo “le temps et l’autre”. A temporalidade psíquica só pode surgir se houver o funcionamento dessa pulsão a traduzir. A constituição do eu implica necessariamente num eu que se localiza no tempo. A própria ideia de identidade tem a ver com a permanência (a duração constante do tempo). Traduzir em termos psíquicos equivale a constituir um antes e um depois, a constituir diferenças.

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cachinhos

Li o conto “História da sua vida”, de Ted Chiang. Muitas diferenças para o filme “a chegada” q se baseou nele.

No conto aparece a questão q me incomodou no filme q é o lance de Louise não falar para Gary (no filme, Ian) o q ela sabia sobre o futuro da filha (q ela morreria de câncer no filme e de uma queda na escalada no conto).

A discussão sobre o princípio de Fermat é super interessante, assim como a menção a um conto de Borges que menciona um livro no qual se relata tudo o q vai acontecer. Daí o paradoxo: se eu lesse o livro e me recusasse a fazer o q eu li sobre meu futuro isso tb deveria estar previsto ali, num looping infinito… Daí a conclusão: não saber do futuro, de forma radical, é o preço q pagamos para ter livre-arbítrio. Só sou livre se eu realmente não sei de antemão o q vai suceder de minhas ações…

A gente até poderia dizer: bom, então, Louise quer preservar o livre-arbítrio de Ian/Gary… mas isso seria mantido, dado o paradoxo acima, mesmo se ela dissesse, não? E até de forma mais consistente… escolher sabendo do “risco” (q no caso de ter um filho sempre existe…).

Há uma outra cena bonitinha do conto: a filha pede pra mãe ler a história direito pq ela quer escutar… mesmo sabendo como a história termina…

Em tempo: no conto não há nada da cena bélica produzida por Hollywood, a coisa dos chineses malvados… há mais atenção à labuta da tradução…

Enfim, filme e conto são ótimas narrativas pra gente pensar nisso: linguagem, o q devemos / podemos dizer ao outro, quais os efeitos disso… como interpretar / traduzir o q o outro nos diz…