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into the wild

1) Bebês confiam em seus pais muito antes de acreditar neles. Estou fazendo uma distinção didática apenas. Confiar e acreditar vão sempre muito juntos, mas é preciso distinguir aqui: confiar é com o corpo, acreditar já possui um aspecto cognitivo mais complexo. A confiança tem a ver com essa ingenuidade de ir ao encontro do outro e receber o outro. Acreditar já impõe algum tipo de representação entre o outro e sua recepção. “Into the Wild” me pareceu um filme sobre isso, sobre como confiar se transforma em crença e como isso pode ser destruído pela mentira e pela manutenção do ódio como forma de estar junto.

2) “Você está errado se acha que a alegria emana somente ou principalmente das relações humanas. Deus a distribuiu em toda a nossa volta. Está em tudo ou em qualquer coisa que possamos experimentar.”. O desejo de Christopher é neutralizar o ódio da alteridade. Ficar sozinho é uma forma radical de fazer isso. Ficar sozinho nesse espaço mítico da natureza. Mas a desnutrição de Chris não seria a prova de que esse remédio do isolamento não deve ser usado com moderação? É como se o corpo dissesse: tudo bem me livrar das maldades do outro, mas fico faminto sem ninguém por perto.

3) A mentira, quando contada para proteger ou criar um mundo mágico, produz um ceticismo que ajuda a criança a se tornar mais criativa, a poder usar mais metáforas e a construir novas possibilidades de se interpretar o mundo. Saber que existe a mentira é uma possibilidade de duvidar. E isso permite questionar e redescrever as coisas que antes eram dadas como certas. [Sobre isso, vejam o breve mas muito bom artigo sobre a mentirinha do natal: https://www.researchgate.net/publ…/310789588_A_wonderful_lie]. A questão é que Chris recebeu como mensagem dos pais uma mentira permanente. Não é como as mentiras dos contos de fada ou das religiões que aos poucos vão construindo a área da ilusão compartilhada. Tratou-se da mentira do pai, da adesão da mãe a essa mentira, da adesão do casal parental ao modelo conservador sem nada questionar, nem permitir que nada de criativo ou espontâneo aparecesse ali.

4) Amar é perdoar, um dos personagens diz. E para perdoar é preciso compreender as razões do outro. Não necessariamente para reatar relações com este outro, mas para não cultivar o ódio e seus efeitos devastadores. Chris não consegue perdoar seus pais porque não consegue interpretar a posição dos dois para além da hipocrisia burguesa, do conservadorismo sádico da “happy family”. Não seria possível interpretar a relação de seus pais de forma mais solidária? Pensar nas razões que levam algumas pessoas a se manterem por tanto tempo em relações sustentadas pelo ódio e pela mútua e constante agressão: tudo isso poderia levá-lo a ser mais condescendente com eles e também consigo mesmo. Se sou fruto de uma relação de ódio e intolerância, quais destinos se colocam pra mim?

5) “A felicidade só é real quando compartilhada”. Já sob efeito da planta venenosa que o levará à morte, Chris finalmente se dá conta que não precisa inventar Alexander Supertramp para viver. O falso self não o libertará. Não é possível criar-se do nada, ex nihilo. Sempre começamos a partir daquilo que o outro implantou em nós. Nossa tarefa é metabolizar isso. Encontrar outros ao longo do caminho ajuda muito. O casal de hippies que vive cuidando um do outro – e que adota um pouco Chris – assim como o velho Ron, empacado no luto pela mulher e filha perdidas num acidente. São histórias de acolhimento que mostram a Chris que nem sempre o outro deseja viver junto para agredir ou maltratar. São fiapos de solidariedade, mas que juntos formam uma rede mais consistente. Chris não teve tempo para voltar e experimentar essa rede.

6) “E, então, acima de tudo, vc como parceira e, talvez, alguns filhos”. O “script” não é tão ruim assim. Não é pura hipocrisia. É claro que pode ser repleto de mentira e de ódio. Mas pode ser um lugar consistente o suficiente até mesmo para permitir mais questionamento, mais crítica sobre o sadismo desse modelo. Chris não teve tempo de voltar, muitos não conseguem voltar e continuar. Ron é um exemplo disso: faz do pretérito um futuro permanente. Talvez esse percurso de solidão e ter se sentido amado e desejado ao longo desse percurso pudesse ter seus efeitos terapêuticos sobre Chris. Fico com a sensação de que ele já estava preparado para voltar e amar e ser amado com a prudência de quem experimentou os efeitos mortíferos da mentira.

7) A história de Chris fica como advertência: muitas vezes, é justamente o que parece alimento o veneno que irá nos matar. No reino das similaridades dos afetos também é assim… é preciso um longo tempo para ir distinguindo o que é amor que serve para odiar e maltratar… o que é amor que cuida e adota… o que é o ódio que separa e distingue… o que é o ódio que apenas destrói e machuca. Ao contrário da botânica, não teremos a sorte de um catálogo muito preciso sobre isso… o que não impede que continuemos a tentar…