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Lacan, na entrevista publicada no livrinho que se chama Le Triomphe de La Religion, brinca com o significante foi (fé). Ele diz, por exemplo, que “L’angoisse est une chose tout à fait futile, foireuse.” (A angústia é algo bem fútil, coisa de feira.). Ele lembra que hoje em dia até os cientistas têm medo: “avoir les foies” (ter os fígados, literalmente).

A análise, segundo ele, cuida das coisas que não funcionam. E o real é aquilo que não funciona. Frente a essa perspectiva fatalista, ele lembra: “Les choses sont faites de drôleries.” (As coisas são feitas de bobagens.).

Lacan lembra que a religião, “sobretudo a verdadeira”, pode dar sentido a tudo. Daí, ele insistir: a religião é invencível. Ela triunfará porque sempre produz sentido. Ela explica tudo. A religião, diz ele, é feita para isso: para curar os homens, isto é, para eles não se apercebam do que não funciona.

A psicanálise, ao contrário, é um sintoma: o sintoma é o que há de mais real. Por silogismo: ela é o que menos funciona. Mais: ela é o que mais mostra o não-funcionamento das coisas, seu mau-funcionamento (quem sabe o funcionamento do mal?).

A relação entre psicanálise e religião é de conflito: a religião encontra correspondência de tudo com tudo, é a sua função, diz Lacan. A psicanálise não faz isso também? Ela não é uma hermenêutica? Talvez haja aqui uma crítica semelhante àquela feita por Laplanche: a psicanálise é uma anti-hermenêutica. Ela assume a paradoxal condição de ser um exercício hermenêutico a fim de mostrar que toda interpretação é falha, incompleta, sujeita aos mais diversos equívocos. Lacan é pessimista quanto a esse exercício: “(…) on guérira l’humanité de la psychanalyse. À force de le noyer dans le sens, dans le sens religieux bien entendu, on arrivera à refouler ce symptôme.” (…vai se curar a humanidade da psicanálise. À força de afogá-la no sentido, no sentido religioso bem entendido, chegaremos a recalcar o sintoma.).

O que é incompreensível nessa entrevista é o motivo pelo qual Lacan diz que “La vraie religion, c’est la romaine. (…) Il y a une vraie religion, c’est la religion chrétienne.”. Ora, seria isso mais uma das bobagens (drôleries) de Lacan? Ironia para mostrar uma das principais características do discurso religioso de se desejar único? Aposto minhas fichas nessa hipótese.

A coisa fica mesmo engraçada quando Lacan começa a falar de seus Écrits: “eu não os escrevi para que sejam compreendidos, eu os escrevi para sejam lidos.” As pessoas não compreendem os escritos, mas eles causam algo nelas. A interpretação de Lacan é curiosa: mais uma vez lutando contra o sentido. O paradoxo, no entanto, permanece: o que é essa “coisa” que a leitura de seus textos produzem em seus leitores? Isso não parece… religioso demais? Algo do tipo: não é para entender, mas para sentir. Não é para compreender, mas fazer…

Ainda mais drôle é a passagem na qual Lacan brinca com o som foi. Transcrevo:

Je vous le demande, qu’est-ce qui n’est pas um acte de foi?

C’est ça qu’il y a d’horrible, c’est qu’on est toujours dans la foire.

J’ai dit “foi”, je n’ai pas dit “foire”.

C’est ma façon de traduir “foi”. La foi, c’est la foire. Il y a tellement de fois, de fois qui se nichent dans les coins, que malgré tout, ça ne se dit bien que sur le forum, c’est-à-dire la foire.

“Foi”, “forum”, “foire”, ce sont des jeux de mots.

C’est du jeu des mots, c’est vrai. Mais j’attache énormément d’importance aux jeux de mots, vous le savez. Cela me paraît la clé de la psychanalyse.

Eu gostaria de comentar essa passagem.

Em primeiro lugar: o jogo de palavras. Fé / feira / fórum. Imediatamente, o leitor vai ligar esses sentidos, vai tentar unir esses sentidos. O efeito desconstrutor, por assim dizer, do jogo de palavras – mostrar semelhanças inesperadas, aproximar coisas diferentes, tornar absurdo aquilo que é ordinário etc. – é muito rapidamente colonizado pelo desejo de sentido, desejo religioso, podemos dizer. Sim: a fé é questão comunitária, da feira, do fórum.

E ainda temos um duplo sentido que torna ainda mais engraçado o jogo de palavras: foire é também diarréia, em francês. O que temos, então? “(…) on est toujours dans la foire”: estamos sempre na merda, na feira… Não saímos mesmo desse lugar religioso que é o compartilhado. Ser-falante é ser-de-fé: “L’être parlant est um animal malade” (o ser falante é um animal doente), diz Lacan, um tanto pessimista.

Mas, qual não é a surpresa de ver Lacan, mais uma vez, esboçando uma idéia… religiosa: “a chave da psicanálise”. Ora, quem procura a chave, no singular mesmo, é a religião. Nem a psicanálise, nem qualquer outro saber possuem uma “chave”. O jeu des mots (jogo de palavras) é apenas uma pequena chave. Tem o valor de chiste, talvez, que, aliás, só funciona na feira dos falantes…

Então, a fé: diaféia? A coisa é véia, está nas nossas veias, mas é feia assim?

“Il est vrai que je suis incompréhensible.” (É verdade que sou incompreensível). O desejo de ser incompreensível… Como interpretá-lo? Se eu não posso compreender, devo ter… fé?

Eu já não me recordo onde – peço ajuda a um bom leitor – Winnicott diz que a criança, em primeiro lugar, acredita na mãe, só depois, talvez, começa a compreendê-la. Talvez porque a compreensão será sempre atravessada pelo amor dessa crença, pela fé de que o seio bom sempre estará ali…

O incompreensível sempre tem razão. Se eu não sou claro sobre o que falo, se eu jogo com as palavras, se essa é a minha chave, eu desconstruo o tempo todo e fico imune a qualquer crítica… isso não é uma outra forma de religião? Ela aqui não encontra também o seu triunfo?

As citações são do livro: Lacan, Jacques. Le triomphe de la religion. Paris: Seuil, 2005.