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um dos textinhos mais geniais de freud é “atos obsessivos e práticas religiosas”. nele, freud vai apontar pro caráter neurótico da religião e a dimensão religiosa do ato obsessivo. um duplo golpe aqui: a religião tem razões sexuais, muito mundanas, está a serviço do recalcamento do sexual e só se mantém por conta dessas forças narcísicas que nos protegem contra a sexualidade “demoníaca”. Segundo golpe: respeitem o ato obsessivo, por mais tolo que ele pareça… ele é sagrado à sua maneira e as pessoas se agarram às suas tolices porque precisam muito delas…

freud, no entanto, parece nunca ter abandonado a esperança de que o religioso reconhece a ilusão de suas crenças – oriundas de fantasias infantis que recusam abandonar a onipotência – e a de que o obsessivo deflacione o alto valor que atribui aos circuitos que lhe prendem e atormentam. rir do que é sério, levar a sério o que parece trivial: eis uma metodologia clínica fundamental…

para lembrar a magnífica foto de man ray, oremos:

“Sob esse aspecto a neurose obsessiva parece uma caricatura, ao mesmo tempo cômica e triste, de uma religião particular, mas é justamente essa diferença decisiva [a aparente tolice dos atos obsessivos e a seriedade das práticas religiosas] entre o cerimonial neurótico e o religioso que desaparece quando penetramos, com o auxílio da técnica psicanalítica de investigação, no verdadeiro significado dos atos obsessivos.” (Freud, 1907)

Prayer, Man Ray


[Prayer, Man Ray]