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O conto “Pai contra Mãe”, de Machado de Assis, é uma aula sobre o que se pode chamar perversão social. De forma sucinta: só há o caçador de escravos e a impiedade com relação a eles numa dada cultura escravocrata. Essa forma de perversão específica, esse tipo de gozo, é possível ali. Num certo sentido, toda perversão é social. O conceito de perversão é altamente problemático exatamente pelo relativismo moral que ele faz aparecer. O gozo perverso é um gozo não compartilhado… por algum grupo específico, mas talvez não por outro…

Pensem em outro conto: o caso de Morell, de Jorge Luís Borges, na História Universal da Infâmia. Mais uma vez, a situação do escravo. A perversão, mais uma vez, aquele tipo específico de perversão, só é possível ali, naquele contexto social. Seria interessante comparar os dois contos.

Li A Parte Obscura de Nós Mesmos, de Roudinesco. O livro é muito interessante, mas parece que a autora comete esse erro do presentismo. Ela compara um perverso como Gilles de Rais, o barba azul, com um nazista como Hoss. Ora, há enormes diferenças entre um caso e outro. É verdade que há semelhanças. É preciso, então, uma teoria que dê conta dos dois pesos. A diferença e a semelhança. Pra ficar nesse exemplo. As condições da nobreza francesa davam a de Rais a possibilidade de seqüestrar as crianças camponesas e assassiná-las. As condições do regime nazista também ofereciam possibilidade de gozo para gente como Eichmann e Hoss. Mas, são as mesmas condições? O “gozo” é o mesmo?

Há, em toda categoria nosográfica, uma tendência ao universalismo e ao essencialismo. Isso parece inevitável. Se eu digo “perversão”, necessariamente digo que os comportamentos a, b e c, de motivações x, y e z, quando acontecem – em qualquer tempo e em qualquer contexto – significam algo semelhante? Se assim for, as categorias nosográficas são conceitos sempre em “xeque”. Mas, haverá limite para esse relativismo historicista? Penso que não. Não há algo como “gozo do mal”, uma essência a-histórica, que caracterizaria toda e qualquer perversão, em qualquer contexto histórico-social.

A psicanálise tem algo importante a oferecer a essa “visada” historicista ao apontar para singularidade do sujeito. Ao rejeitar noções como “inconsciente coletivo”, de Jung, Freud, acredito, estava apontando para a individualidade do processo de se constituir sujeito. Sem negar o peso da cultura sobre nós, Freud apontava diversas vezes para essa singularidade. Um perverso só existe numa sociedade, a partir de uma história específica. Ok, podemos dizer que perversão é uma tentativa de negar as normas sociais aceitas pela maioria. Mas, e os heróis, os visionários?

Pra terminar: o perigo do reducionismo ao biológico é justamente esse. Quando tememos não ter uma base sólida para dizer o que é a perversão independente do contexto, desejamos que o “cérebro” seja essa base invariável. Passamos, então, a procurar algo que não varie nunca. Roudinesco fala bem dessas tentativas “perversas” do reducionismo biológico… O melhor exemplo é a psiquiatria contemporânea que deseja uma explicação genético-hormonal para qualquer comportamento humano…