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Acabo de ler O Queijo e os Vermes, de Carlo Ginzburg (1976). “O cotidiano e as idéias de um moleiro perseguido pela Inquisição”, como diz o subtítulo, é o tema desse ensaio brilhante. O tal moleiro, Menocchio, falava demais. Falou tanto que a Santa Inquisição o prendeu por três anos e depois de o ter libertatado, por ter voltado a falar, o matou.

Mas, o que ele falava? Que o mundo vinha do caos. Que os anjos surgiam desse caos, assim como os vermes surgem do queijo. Que Maria não era virgem, que os padres vendiam suas mercadorias… E  mais: que turcos, judeus e cristãos seriam salvos igualmente.

A pesquisa de Ginzburg é tentar articular esse saber de Menocchio com o saber culto da época e tenta entender como se dá a passagem desse saber para o campo da sabedoria popular. Menocchio é, segundo o autor, um caso raro. Ele sabia ler e havia lido alguns trechos da Bíblia, além de alguns outros textos tais como o Deccameron. Espalham-se pelo livro essas análises de Ginzburg, seu ponto forte.

Mas, nesse comentário aqui, desejo apenas mencionar o item 5, do Prefácio à Edição Italiana, no qual Ginzburg critica duramente Michel Foucault. Ele diz: “O que interessa sobretudo a Foucault são os gestos e os critérios da exclusão; os exclusos, um pouco menos.” (p. 16, da edição de bolso, da Cia. das Letras, 2006, trad. Maria Betânia Amoroso).

No mesmo parágrafo, citando a critica de Derrida a Foucault, ele continua: “Não se pode falar numa linguagem historicamente participante da razão ocidental e, portanto, do processo que levou à repressão da própria loucura. O que ponto em que se apóia a pesquisa de Foucault – disse Derrida em poucas palavras – não existe, não pode existir. A essas alturas o ambicioso projeto foucaultiano de uma “arqueologia do silêncio” transformou-se em silêncio puro e simples – por vezes acompanhado de uma muda contemplação estetizante.” (p. 17)

Muito bem. O que Ginzburg está criticando? Duas formas de se fazer história: um positivismo ingênuo de poder saber o que um moleiro do século XVI realmente pensava e porque falava o que dizia… e uma posição diametralmente oposta, a contemplação estetizante de um evento histórico, cujo sentido, por inapreensível, recusamos articular. É nesse segundo grupo que Ginzburg situa Foucault. Citanto o livro de Pierre Rivière, tal postura é chamada “irracionalismo estetizante”.

No Posfácio dessa edição, Renato Janine Ribeiro lembra que essa crítica a Foucault é para dizer que há respeito à diferença de Menocchio, mas esse respeito à diferença – procedimento metodológico de um fazer histórico – não é afirmação de uma diferença irredutível e que por isso mesmo culminaria numa decisão de nada dizer. (p. 194). Em nota, diz Ribeiro, defendendo Foucault, ao que parece: “o respeito à diferença não o dispensou de investigar que lógicas sustentam discursos e práticas dos mais variados. É claro que esse tipo de leitura tem o risco de quem a faz pretender saber mais do que os práticos ou discursadores que ele está falando. Desse risco vem, certamente, a cautela extrema de Pierre Rivière.” (p.194n1).

Ou seja: o que Ginzburg está interpretando como irracionalismo mudo, Ribeiro sugere ver como cautela extrema. Claro, concordo com Ribeiro.

Quanto à leitura de História da Loucura também não me parece verdade que a loucura vira silêncio puro e simples. Nada disso: ela ganha várias definições, um novo e importante conceito é forjado nessa pesquisa de Foucault: o conceito de Desrazão. A velha crítica do paradoxo – você não pode usar uma linguagem da Razão para falar da Desrazão – é pobre. Há aqui uma confusão: a linguagem não é uma rede homogênea e sem furos, reino e morada da razão pura. A linguagem é um conjunto infinito de jogos, cujas regras variam e são coladas às formas de vida das quais esses jogos emergem. Racionalidade não é uma propriedade inerte e a-histórica. É apenas o nome para o nosso desejo de compreender o mundo através da conversa. (Como vêem, sigo Rorty bem de perto aqui).

Pra concluir, então: a história de Menocchio, narrada por Ginzburg, é muito interessante. Pode ser lida em articulação com o que Foucault fala sobre a loucura no século XVI. Aliás, o tema da loucura aparece também em O Queijo e os Vermes, afinal, foi uma questão para os inquisidores saber se Menocchio era ou não louco. (p. 37-8, p. ex.). O próprio Ginzburg assevera: hoje ele seria um louco com “delírio religioso” (p. 38)… seria mesmo?