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Numa entrevista a F. Ewald, Michel Foucault lembra o que pode ser a ética de um intelectual: tornar-se capaz permanentemente de se desprender de si mesmo (isso que é o contrário da atitude da conversão).

Foucault localiza na Universidade o espaço adequado para essa ética. “Ser ao mesmo tempo um universitário e um intelectual, é tentar fazer jogar um tipo de saber e de análise que é ensinada e recebida na universidade de forma a modificar não somente o pensamento dos outros, mas também o seu próprio. Esse trabalho de modificação de seu próprio pensamento e aquele dos outros me parece ser a razão de ser dos intelectuais.”

Ewald compara, então, essa atitude de Foucault àquela de Sartre que passou sua vida desenvolvendo uma intuição fundamental. E pergunta se essa vontade de se “desprender de si mesmo” é uma forma de se singularizar.

É muito interessante a resposta de Foucault:

“Eu não diria que há algo de singular. Mas, o que sustento, é que essa mudança não toma a forma nem de uma iluminação súbita que “abre os olhos” nem de uma permeabilidade a todos os movimentos da conjuntura; eu queria que isso fosse uma elaboração de si por si [soi par soi], uma transformação estudiosa, uma modificação lenta e árdua pelo cuidado constante da verdade.”

O que acho interessante nessa resposta é o seguinte: Foucault nega, mas não se detém em explicar por que essa ética do intelectual não levaria, necessariamente, a uma singularidade. Acho que deveríamos explorar isso de alguma forma, pois muito é “incensado” em torno da singularidade hoje em dia.

É curioso também como Foucault localiza na Universidade o espaço para essa ética, não? Se tomarmos essa ética como ideal, é preciso estudar quais são as forças que parecem lutar a favor da conversão nesses espaços onde deveria reinar o desprendimento.

Finalmente, essa passagem me faz lembrar de algo que Bion fala acerca da importância do pensamento como atividade libidinal. O pensar como um jogo. O desejo de mudar o próprio pensamento e o pensamento dos outros: seria isso uma forma de tornar mais aprazível o que Bion chamava de transformação dos elementos beta em elementos alfa? O que antes não podia ser pensado… agora, devidamente transformado, pode.  Então, eu quero dizer que o intelectual pode agir como uma mãe em sua capacidade de rêverie? Aqui é preciso muito cuidado: na mesma entrevista, Foucault lembra que o papel de um intelectual não é dizer aos outros o que eles devem fazer (p. 1495). O insight que quero desenvolver aqui é outro: o intelectual como lugar de rêverie é simplesmente manter o movimento psíquico do pensamento possível, transformando elementos-beta em elementos-alfa e deixando-os mais livres.

Obs: todas as citações desse post estão na p. 1494, do II vol., da edição nova dos Dits et Écrits. O texto, pra quem tem outras edições, é o de n. 350 e se chama “La souci de la vérité”.