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“Ouve-me, ouve o silêncio. O que te falo nunca é o que eu te falo, e sim outra coisa. Capta essa coisa que me escapa e no entanto vivo dela e estou à tona de brilhante escuridão.” (Clarice Lispector. Água Viva. São Paulo: Círculo do Livro, 1973, p. 14).

“Non possiamo portare al linguaggio i nostri desideri, perché li abbiamo immaginati. La cripta contiene in realtà soltanto delle immagini, come un libro di figure per bambini che non sanno ancora leggere, come le images d’Epinal di un popolo analfabeta. Il corpo dei desideri è una immagine. E ciò che è inconfessabile nel desiderio, è l’immagine che ce ne siamo fatta.” (Giorgio Agamben. Profanazioni. Roma: Nottetempo, p. 57).

O trabalho do psicanalista é ouvir esta “outra coisa” para além do dito. Tentar nomear talvez a “brilhante escuridão”: o oxímoro – muito mais que a contradição – serve para nomear o inconsciente.

Mas comparem a passagem de Clarice com a interessantíssima passagem de Agamben. O desejo é uma imagem. A brilhante escuridão é uma imagem com a qual Lispector tenta nomear o desejo. O dito para além da palavra.

Agamben ainda sugere que estas imagens são como as imagens de Epinal. Uma delas me parece interessante:

 epinal2.jpg

Imagem oxímoro. Pode-se ver uma moça ou a velha senhora na mesma imagem. Pensem na “cura” de um sintoma a partir desta imagem: basta mudar o foco do olhar e algo novo se apresenta. A cena é a mesma, o sentido muda. Nossa relação com o inconsciente é, fundamentalmente, proteiforme.

PS: Logo depois da passagem citada, Clarice fala da caverna de “aranhas penugentas e negras”, dos ratos, dos morcegos e dos caranguejos. É a cripta sobre a qual nos fala Agamben.