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As Viúvas das Quintas-Feiras, romance de Claudia Piñeiro (2005), pode ser lido como um tipo advertência sobre as possíveis ruínas do humano diante da decadência do aparato neoliberal que o sustenta.

A história é bem simples: narra-se a dolce vita de alguns burgueses abastados vivendo num condomínio fechado, nos arredores de Buenos Aires. A sensação que temos – e isso é um indicativo muito importante – é que essa descrição serviria a qualquer condomínio nos arredores de qualquer metrópole. Mas… ocorre um “acidente”: três corpos são encontrados na piscina de uma das belas casas daquele lugar. Não vou dizer aqui o motivo do crime, mas ele tem muito a ver com a temática desenvolvida no romance de forma quase caricatural.

Piñeiro tem um objetivo: fazer uma caricatura dessas pessoas que vivem nesses bunkers de luxo, cercados não apenas pelas flores, campos de golfe e academias de ginástica. Cercados por muros altos, guardas bem armados que os protegem dos “pobres” lá fora. Esses, os pobres, só são bem-vindos ali para o trabalho sujo, repetitivo e braçal. Além desse cliché, Piñeiro mostra o mundinho imoral das famílias: o marido que espanca a mulher, o outro que vive sustentado pela esposa, a esposa alcoolatra traída pelo marido, a estupidez iletrada dos novos ricos… O rol de bizarrices e caricaturas é bem grande.

A forma através da qual a autora desenha essas caricaturas é perspicaz e crítica. Seria interessante comparar a narrativa desses momentos com a justificativa dada pelos dois adolescentes que de vez em quando filmavam às escondidas a vida íntima das pessoas do condomínio: “Também tem gente que dorme tranquila. Famílias que jantam em aparente cordialidade. Crianças no computados ou vendo televisão. Mas isso não os entretém, não é isso que procuram. Porque não acreditam. Ou acreditam, mas não entendem.” (p. 198). É esse estranhamento diante da normalidade que é ressaltado no romance. Não é possível fingir que ali dentro de Los Altos de la Cascada (o condomínio) a vida era real life, como diz um outro personagem. A vida dos condomínios, sabemos, é a vida escotomizada: um grande corte (perverso) denegatório da vida que não queremos ver. Mas… eis que essa vida retorna… geralmente, na forma da morte.

A ruína do sistema financeiro argentino está por todos os lados no romance. O desemprego – mesmo quando atinge gente milionária – é devastador. A autora descreve bem como nossa vida está completamente articulada ao trabalho: não ao que fazemos, mas ao que ganhamos. Uma vez “fora”, não sabemos mais o que somos, muito menos sabemos o que fazer.

Como o romance é recente não vou analisar o final… mas, leiam e vocês vão perceber que a saída encontrada é o reverso do biopoder engendrado pelo liberalismo. Agamben está certo ao ler Foucault como leu: só se pode falar de biopoder quando se fala também de tanatocracia. É impossível deixar de pensar que a vida sob o neoliberalismo não trará consequências sobre as formas que escolhemos morrer e como “capitalizamos” nossa morte. Nem ela escapa da fúria liberal: afinal, o empreendedor de verdade, aquele que tiver mais coragem, tem que fazer até sua morte render alguns trocados.

A denúncia dessa lógica cínica está em quase todos os capítulos do romance. Muito bem escrito, dividido em 48 capítulos curtos, a autora nos leva até a última página não só à revelação do assassinato anunciado no primeiro capítulo, mas à revelação de um mundo perigosamente em ruínas, mesmo quando cercado de muros altos, mesmo na aparente assepsia dos condomínios fechados.

Edição brasileira: Alfaguara, 2007.

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