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Paulo é um profissional exemplar. Trabalha num banco e deseja escrever um livro. Ele imagina:

“A bem da verdade, o livro dos mandarins será útil para qualquer um que queira refinar sua vida profissional ou simplesmente aprender um pouco com cases de sucesso.” (LM: 206)

Paulo é o típico empreendedor que o discurso liberal demanda. Ele enuncia, por exemplo, o “paradoxo corporativo” ou o “paradoxo da demissão”: se o sujeito tivesse mais iniciativa, teria arranjado outro trabalho… mas, pessoas determinadas não perdem o emprego. (LM: 158 e 162). Paulo escapa ao paradoxo antecipando-se às expectativas do outro-patrão que não cessa de demandar novas qualificações. É justamente isso o que acontece quando ele fica sabendo que o banco preparar investimentos para a China.

Ele estuda mandarim, estuda cultura chinesa, se prepara arduamente para ser enviado para… o Sudão. Isso mesmo… Mas, isso é missão secreta do banco: para todos, Paulo deve dizer que está na China.

A história fica ainda mais interessante quando Paulo sustenta a fantasia que esteve mesmo na China e, ao voltar para o Brasil, resolve montar uma consultoria com os “valores chineses”. O curioso é que Paulo conhece prostitutas e gigolôs no Sudão. E eles o acompanham na sua volta ao Brasil e na fundação da consultoria.

O discurso que anuncia a consultoria é, então, esse: valores chineses, empreendedorismo, coaching… toda a lenga-lenga liberal. Mas, na verdade, o que os “clientes” de Paulo vão buscar é simplesmente sexo. Ou melhor, não simplesmente: há um detalhe nas prostitutas oferecidas por Paulo. Um detalhe que é um “diferencial do negócio”: a ausência de clitóris.

Eis aí um brevíssimo resumo do romance O Livro dos Mandarins, de Ricardo Lísias. Trata-se de uma narrativa vigorosa, contemporânea e que dá o que pensar sobre esse discurso do capitalismo atual. Do ponto de vista literário, ressalte-se, o livro tem uma série de procedimentos narrativos “pós-modernos” que valorizam muito sua leitura. Não se trata, portanto, de um simples pastiche dos livros de auto-ajuda-para-empresários. Trata-se de literatura mesmo, trabalho com a palavra no sentido mais denso que isso pode ter. Alguns exemplos.

1) O nome “Paulo” e suas variações: há muitos personagens com variações desse nome. Paul, Paulson, Paula… É como se o narrador brincasse, talvez, com a massificação narcísica que o capitalismo opera, dando a vários sujeitos o mesmo nome.

2) O nome do personagem principal, Paulo, vai aos poucos desaparecendo da narrativa. Primeiro, com asteriscos: Paul*, Pau**, Pa***, P****, *****. Depois, ele é chamado por uma série infindável de nomes: “o branquelo”, “este aqui”, “Belé porra nenhuma”, “bobo”… Mais uma vez, o recurso narrativo trabalha sobre o nome e mais uma vez, tenho a impressão, para mostrar o apagamento identitário que o sujeito contemporâneo vive sob o regime econômico liberal. Reduzido a mero “operador financeiro”, eu sou o que compro / vendo / negocio… a identidade ela é fluída como a mercadoria, como o dinheiro que pode se transformar em qualquer coisa. Sou plena força de trabalho, plena mercadoria, portanto, sem nome. Ou melhor: sem cessar nomeada, heteronomeada.

3) Frases cortadas, palavras que faltam. Esse é um recurso narrativo também de muito efeito. Por exemplo: “O investigador que fez a massagem oriental antiestresse com Liu Xin não conseguiu explicar para os colegas o que era exatamente a cicatriz que a garota tinha na. Ele nunca viu nada parecido. A bem da verdade, o rapaz disse que era feio, mas muito gostoso. Para que a mulher fica mais.” (LM: 261)

É evidente para o leitor as palavras que faltam. Mas, a ausência delas torna a presença da falta ainda mais presente. E isso é um fato relevante quanto à ablação do clitóris. Ao final do romance, há uma discussão – com o mesmo tom cínico que perpassa todo o romance – sobre a possível “excisão na área da.” (LM: 324) que uma garota brasileira poderia fazer com um cirurgião plástico (Dr. Paulo) para não atrapalhar os negócios na Confucius, a consultoria de Paulo.

Essa discussão, acredito, é o reverso da moeda liberal. O biopoder, por um lado, manipula a vida e a disciplina de tal forma a aumentar a segurança das populações e a sua sobrevida. Novas tecnologias de poder, sob o liberalismo, deixaram a vida, para certos grupos populações, em certos meios, mais “limpa”, mais “viva”. O problema é que essa operação higiênica deixa restos. Há o que se pode chamar tanatocracia: um governo da morte. Quem é o lixo da cultura? Quem contribui com a mutilação do seu próprio corpo? Quem é o explorado até a morte para tudo funcionar bem? Quanto mais limpo de um lado, parece, mais sujo deve estar do outro.

E, para terminar esse meu comentário, mais dois pontos.

(a) “Ele sentiria uma raiva enorme se soubesse que, caso fosse para a China, descobriria com dois ou três meses em Pequim a cama Ceragem e os seus problemas nas costas ficariam praticamente resolvidos.” (LM: 107)

O narrador vai repetir essa ideia várias vezes. Se ele tivesse ido para China, ele teria encontrado a tal cama Ceragem e teria se livrado de uma dor terrível nas costas. Mas… não foi e continuou com a dor. Mais um recurso narrativo importante: apontar para um tipo de futuro do pretérito, um tipo de espaço que poderia fazer as coisas acontecerem melhor do que previstas. Mas, a sensação que o leitor tem é de que esse grande empreendedor fracassa em dar conta do mais importante: a dor que lhe derruba. Um sintoma sem nome, que aparece na carne mesmo.

(b) O amigo imaginário de Paulo, Rincão e a língua que os dois falam juntos, o rinconês. Esses breves “surtos” de Paulo me parecem importantes na narrativa também. Seria rasteiro demais dizer apenas: paranóia. (Teríamos ainda a relação de Paulo e Godói, a quem ele odeia, pois julga que este o inveja). Não bastaria um diagnóstico aqui, mas, claro, pensar no que, talvez, haja de delirante também na estrutura econômica ou política que faz aparecer um sujeito que vai para o Sudão-China, mantém a crença nisso e faz o outro acreditar nisso. Que abre um prostíbulo e vende o seu produto como consultoria empresarial. Artimanha delirante da literatura? Não apenas: acho que temos aqui também algo da própria construção do discurso social que invisibiliza ou dá outra imagem ao que nos sucede. O “made in China” dos gadgets brilhantes não nos diz nada a respeito, p.ex., da condição dos direitos trabalhistas daqueles que fizeram esses brinquedinhos chegarem até nós.

Enfim, é um romance de primeira linha. Recomendo.

Ref:

Lísias, Ricardo. O livro dos mandarins. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2009.