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“A disciplina muda a animalidade em humanidade. Um animal é já tudo por seu instinto; uma razão exterior, sem espera, arranjou tudo para ele. O homem, quanto a ele, tem necessidade de sua própria razão. Desprovido de instinto, ele deve fabricar para seu uso o plano de sua conduta. Mas, por que ele, de início, como realizar o conjunto dessa tarefa e que, justo ao contrário, ele nasce em estado bruto, outros devem poder fazê-lo [realizar a tarefa do plano de conduta] no seu lugar.” (Kant, (1986 [1803]): 1149)

(…)

“E agora, o homem é por natureza moralmente bom ou mal? Não é nenhum, nem outro, pois ele não é de forma nenhuma por natureza um ser moral; ele só se torna um ser moral se sua razão se eleva aos concitos de dever e de lei. Pode-se dizer então que ele porta nele, desde a origem, as incitações a todos os vícios, pois há tendências e institntos que o estimulam, se bem que a razão lhe puxa em sentido contrário. Ele só pode, portanto, se tornar moralmente bom pela virtude, isto é, pela força que ele exerce sobre ele mesmo, ainda que possa ser inocente na ausência de incitações.” (ibid.: 1197).

Final do século XVIII, começo do XIX… e Kant já destruia o instinto como conceito aplicável à humanidade. É importante apontar que essa crítica vem colocada a (1) o imperativo de se fazer um “plano de conduta” para a vida humana; (2) o imperativo da educação mediada pelo outro. Além disso, é importante ressaltar que Kant não comete o equívoco tão comum seja de pressupor que este estado de natureza é bom (à la Rousseau, talvez) ou mau (à la Hobbes). Ele está simplesmente fora da moral. Então, a partir de Kant, não poderíamos dizer que o mal é algo proveniente da “animalidade” interna a nós. É nesse sentido específico que acredito ser possível uma articulação muito consistente com o pensamento de Freud… 200 anos adiante.

O texto citado acima é Propos de pédagogie. (Oeuvres Philosophiques, vol. II. Paris: Gallimard), a tradução é minha.