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O interessante conto “Cryptology”, de Leonard Michaels, conta um bizarro episódio na vida de Nachman. Ele vai até Nova York – saindo da Califórnia – a convite de uma empresa, a Delphic Corporation. Trata-se de uma possível proposta de emprego que Nachman de antemão já sabe que vai recusar. Na verdade, aceitara ir a NY porque aproveitaria para visitar o pai a quem não via há muitos anos.

Pois bem, na hora marcada com o representante da empresa, ninguém aparece. Posteriormente temos uma explicação: ninguém, em NY, dá a mínima para ninguém. Eles devem ter arrumado um outro empregado e simplesmente esqueceram dele.

Quem dá essa explicação é uma outra personagem, Helen Ferris, com quem ele encontra na rua. Não é bem um encontro casual: ela o segue por cinco quarteirões e só então se apresenta. É curioso que Nachman não reconhece Helen. E mesmo depois de alguma conversa, ele ainda não se lembra de onde ele a conhecia. Mas, tamanha é a intimidade que Helen parecia ter com ele que ela lhe ofereceu as chaves de seu apartamento e o convidou para jantar com seu marido.

Chegando nesse apartamento, Nachman percebe que não está sozinho. Os dois estão no banheiro, tomando banho, e falando sobre ele.

Bom, o resto tem que ler… o conto é bom e o final bem interessante.

Meu comentário é breve: achei uma excelente alegoria da vida burocrática. O sujeito é um matemático, representa bem esse sujeito moderno “racional”. Sem vínculos aparentes ou estáveis – o pai quase nunca visitado. (Durante o conto ele não o visita, talvez nem o faça, pois o pai não atendia ao telefone, pois era muito “esquecido”).

Essa situação cotidiana das grandes metrópoles – encontrar alguém e não se lembrar exatamente quem é a pessoa ou de onde a conhecemos – marca bem a dimensão do anonimato, da fluidez do laço social hoje em dia. O desfecho do conto mostra bem que até a tentativa de reencontro é um tanto problemática.

Conviver com o outro nos obriga, quase sempre, a ser outro, a se tornar outro – e quase nunca estamos dispostos a abandonar a segurança de nossa identidade, a certeza do que somos, gostamos, pensamos. Uma forma de lidar com isso é simplesmente manter o laço com os outros o mais superficial possível, o mais breve, ou para usar uma feliz expressão de Bauman, líquido. Nachman, em alemão, é quase nach man, isto é, em direção a alguém. Mas, no caso, de Nachman, esse movimento em direção ao outro parece interrompido permanentemente.

Uma entrevista de emprego que sei que vou recusar… um encontro com um pai “esquecido” que talvez não aconteça… um encontro casual com uma mulher que eu já não me lembro quem é… e que, na iminência de redescobrir, vejo que para reconhecê-la devo reconhecer-me… e é isso, no fundo, que quero evitar.

O conto pode ser lido aqui: http://www.newyorker.com/archive/2003/05/26/030526fi_fiction?currentPage=1

E pode ser ouvido aqui: http://www.newyorker.com/online/2010/06/07/100607on_audio_galchen