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“Então, [Eliseu] subiu dali a Betel; e indo ele pelo caminho, uns rapazinhos saíram da cidade, e zombavam dele, e diziam-lhe: Sobe, calvo! Sobe, calvo! Virando-se ele para trás, viu-os e os amaldiçoou em nome do Senhor; então, duas ursas saíram do bosque e despedaçaram quarenta e dois deles. Dali, foi ele para o monte Carmelo, de onde voltou para Samaria.” (2 Reis, 2: 23-25).

Convenhamos, a punição foi um pouco exagerada aos 42 rapazinhos… Eliseu bem poderia ter tido um pouco mais de bom humor…

Mas, essa capacidade psíquica para suportar o deboche… de onde ela vem? É diferente a reação do sujeito que revida o gracejo com um outro gracejo – manutenção da violência simbólica – e essa reação de Eliseu – tirando o sobrenatural da história – que “apela” pra violência física.

O que interessa dessa história é pensar na nossa capacidade de lidar com a chacota. Na clínica, é comum ouvir os efeitos do bullying. Dentre eles, um que se destaca é o desejo de vingança. Para interpretar essa cena bíblica, ninguém melhor que Melanie Klein para falar do despedaçamento desse seio mal que nos envenena. Duas ursas violentas e destruidoras fazem o trabalho sujo…

A mangação tem um papel decisivo na economia simbólica do laço social. Qual o desejo envolvido naquele que apoquenta o outro? E quais os efeitos sobre o alvo da irrisão?

Uma última observação: não me lembro de nenhum texto psicanalítico acerca do perdão. Seria o caso de se pensar  a dinâmica do perdão como uma saída desses efeitos da zombaria? Mas, o que seria o perdão de um ponto de vista dinâmico e metapsicológico?

PS: No filme Amarelo Manga, o personagem de Matheus Nachtergaele é particularmente ilustrativo desse desejo de vingança ligado à zombaria. Sua música: “Amarelou, mangou de mim, não vai ficar de graça…”