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Num belo poema chamado “O Louva-Deus”, Ferreira Gullar nos fala de um louva-deus que “se faz de vegetal / de talo seco” e que “sabe” que por ali “deliciosas voam libélulas / besouros todos / comestíveis / que (sem vê-lo) dele / se aproximarão para morrer”.

Quero começar essa série de pequenos textos sobre a contingência e a injustiça pensando nessa cena do poema de Gullar. Primeiro ponto, então, da diferença entre a contingência e a injustiça: essa diferença parece estar suprimida, radicalmente, no campo da natureza. É por um esforço antropológico, por uma humanização, que o natural pode vir a ter uma coloração moral. Afinal, sabemos o quão desastroso seria “proteger” as libélulas de serem devoradas por um louva-deus. A contingência desse mortífero encontro nada tem de injustiça.

Conclui Gullar o seu poema: “ou não / ou sim / ou tanto faz // pois que / na natureza / não há crimes nem culpas.”

(Cf. Gullar, Ferreira. em alguma parte alguma. Rio de Janeiro: José Olympio, 2010: p. 100)

Em tempo: a domesticação dos animais – as aves (pensem nos galos de briga, nas assas cortadas dos papagaios), os cães, os gatos, os bois – torna bem mais complexa essa ausência de contingência. Não é contingente o confinamento de animais… Observem, porém: é apenas na humanização desse campo, a sua colonização pelo pulsional, que o torna moral, que o torna digno do jogo-de-linguagem “justo – injusto”.