Blog

Acabei de ler o interessante romance de João Gilberto Noll, A Céu Aberto (1996).

Há aspectos muito bons neste livro, se analisado a partir de Bataille. E é apenas desta perspectiva que falo aqui.

Para começar, a narrativa não é linear. O espaço e o tempo no romance são bastante fluídos. Um dos centros narrativos é o corpo. O corpo do personagem-narrador, o corpo das pessoas que ele vai encontrando. Toda esta fluidez faz lembrar o conceito de informe, de Georges Bataille.

O informe qualifica um certo poder que as formas têm de se deformar, de passar do semelhante ao des-semelhante. Criações artísticas podem mostrar esta qualidade das coisas e das imagens. Mostrar como as formas se abrem, se dilaceram. Quando aplicado ao universo humano, o informe ganha precisamente um sentido ideológico forte: as formas humanas mesmo dilaceradas, abertas, perfuradas, despedaçadas permanecem formas humanas. As terríveis formas dos corpos em mutação – mesmo quando acompanhadas de gozo – são ainda nossos semelhantes e nosso destino possível.

Pois bem, o romance de Noll coloca o processo do informe em movimento. O protagonista tem um irmão, por exemplo, cujo corpo doente se transforma em mulher com quem se casa. Incesto, androgenia, doença.

O clima no início do romance é de guerra. O narrador, não nomeado, vai procurar o pai que está no front. Os lugares não têm nome. Tudo pode ser em qualquer lugar. De fato, a impressão é esta: a estória pode acontecer em qualquer lugar. A heterotopia é levada ao seu limite.

Mas, já na página 26, o narrador fala de seu romance com Artur. Não só nesta relação, mas em outras posteriormente no romance, a homossexualidade será explorada como mais um recurso de choque, dentre vários outros recrutados pelo escritor. Aqui parece estar o ponto fraco, me parece, do livro. As relações são descritas como pornografia simples (cf. p. 27). Ao contrário do excelente recurso da androgenia, p.ex., voltamos ao século XIX, quando o homoerotismo ainda era o bicho-papão do pequeno burguês envergonhado.

Permitam-me explicar isto melhor a partir de duas definições de cultura que encontrei no Mal-Estar da Pós-Modernidade, de Bauman. A primeira, atribuída a Pierre Boulez, diz: “a cultura consiste em transformar o inacreditável no inevitável” (p. 167). A segunda, do próprio Bauman assevera: a cultura é um “dispositivo de antialeatoriedade, um esforço para estabelecer e manter uma ordem; como numa guerra contínua contra a aleatoriedade e esse caos que a aleatoriedade ocasiona” (p. 164).

Quando Noll traz elementos inverossímeis para o campo do literário, ele interrompe o processo padrão de transformar o inacreditável em inevitável. Não queremos saber de corpos que se transformam, de falta de sentido, de caos. Geralmente, tratamos nossas crenças como inevitáveis. O típico pensamento burguês que diz: “não pode ser de outro jeito”. Há, no romance de Noll, cenas brilhantes que mostram que pode sim ser de outro jeito, que nossas vidas podem tomar formas inimagináveis, ou melhor, absolutamente evitáveis. Mostrar a vida como mera contingência é ir contra o modo de pensamento burguês clássico, ideal e idealizante.

O romance, aliás, começa justamente com a procura pelo “pai” que estava na guerra. Vejam: é tentador intpretar isto como uma crítica à sociedade falocêntrica que não se sustenta mais. A cena do cuspe no olho do pai é exemplar. O pai é conspurcado, não pode mais nada. Sem o pai, o que sobra?

Pois bem, há inúmeras maneiras de ir contra este pensamento burguês-religioso. Uma delas é mostrar o que a cultura tenta esconder o tempo todo. Mostrar seu lado aleatório, contingencial também. Durante séculos, a homossexualidade foi um tema e uma forma de vida proibidos. Mostrá-la seria uma forma de chocar, de mostrar uma “verdade” que estava sendo negligenciada.

Há um terrível paradoxo nesse tipo de crítica. Burgueses adoram o proibido também. Aliás, sempre produziram sua moral ilibada sobre os excrementos que desejavam esconder. A prostituta e o amante sempre sustentaram os “bons casamentos”… Falar do proibido, então, pode contribuir para o formato do pensamento burguês que queremos criticar. A homossexualidade, a prostituição, o incesto, p.ex., são temas que a moralidade burguesa suporta bem… (Pensem na indústria da pornografia, no tráfico de mulheres, na pedofilia… são práticas cotidianas, mas “escondidas”). Mas, não venham falar de corpos que se transformam, de aleatoriedade, de falta de sentido, de corpos dilacerados… Não falem do informe, pois isto destrói a segurança do pensamento religioso-burguês. (Tudo tem um lugar certo, naturalmente garantido).

Pois bem, o uso que Noll faz da homossexualidade no seu romance me pareceu pornográfico. E, neste sentido, contrário ao projeto estético muito mais eficaz de outros trechos do romance. Pensem no diálogo das páginas 71-2, sobre a morte do padre que fingia morrer toda noite. Um dia, ele morre de verdade. Claro, não é por acaso que um padre finge de morto toda noite.

Uma outra cena “pornográfica” que merece ser citada se desenrola entre as pgs. 103-7. Vejam o problema de Noll: a linguagem é bem fragmentada (crítica ao sentido linear). O parceiro é “filho de Artur”, novamente algo incestuoso no ar… A relação homossexual-violenta oscila entre a pornografia e o informe. De um lado a “carne” (sangue, violência), do outro sadismo regado a ácido para não sentir dor (106). Mais burguês, impossível…

(Cabe um parêntese aqui. Não tenho dúvidas de que o vínculo homoerótico pode ter vários sentidos no romance. Acho, aliás, que estes vários sentidos devem ser explorados e contrapostos a fim, justamente, de evitar a redução deste vínculo ao pornográfico.)

A parte final do livro, quando o narrador fica no navio é especialmente bem escrita. Novamente, a heterotopia em primeiro plano. Quer um lugar mais não-lugar que uma cabine fechada dentro de um navio? A única presença, a figura destentada do velho capitão do mar, novamente traz o elemento homossexual. Mais uma vez ligado ao abjeto, ao sujo… Até âncora tatuada no peito ele tinha (p. 142). Mais clichê impossível.

Na última página, uma frase que merece ser citada: “Eu parecia de fato me encontrar na passagem do estado bruto da vida para uma espécie de existência mais difusa e elementar.” (164). Ora, o “retorno ao inorgânico”, a pulsão sexual de morte, o sem-sentido: tudo isto vai contra a moral burguesa, a “alta” cultura. E é exatamente para onde Noll parece querer conduzir seu leitor. Ele quer deixá-lo “a céu aberto”, sem nenhuma proteção moral, sem nenhuma certeza. Mas, muitas vezes, ele mesmo volta a dar as velhas certezas da cultura burguesa que ele parece querer criticar: mulher/prostituta, homossexualismo/violência, incesto/prazer…

Observações importantes:

Para entender a diferença entre o erotismo que traz os elementos da pulsão sexual de morte e a pornografia a serviço da moral burguesa leiam: O Erotismo, de Bataille, Penser la pornographie, de Ruwen Ogien e La pornographie ou l’épuisement du désir, de Michela Marzano.