Blog

Estava lendo alguns contos de fada para meu filho, Antônio, quando me deparei com o clássico “A Princesa e o Sapo”. Ao lê-lo, as imagens (retiradas do ótimo aplicativo para iPad, Tabtable Books) me chamaram a atenção. A primeira é a expressão de nojo da princesa:

A segunda é a cena clássica do beijo transformador:

E a terceira é a aparição do príncipe:

1. Pedagogia amorosa

Ao fazer uma pesquisa para escrever esse texto, qual não é minha surpresa de descobrir, através do indispensável Fadas no Divã (Corso & Corso, 2006), que a cena do beijo é uma adaptação moderna. Na verdade, a história dos irmãos Grimm nos conta que a princesa, não suportando o nojo de ter que conviver com o sapo, o joga contra a parede. E é isso que o faz transformar-se em príncipe.

Voltemos, porém, ao início. Trata-se de uma mocinha mimada que perde sua bola num poço. Um sapo diz que poderia pegar a bola, desde que ela o levasse para sua casa: comesse, brincasse e até dormisse com ele! Ela, mentirosa, diz que sim. Ao recuperar o brinquedo, a menina mimada corre pra casa descumprindo o acordo. O sapo vai atrás dela e narra o acontecido ao Rei. O pai da princesa, então, faz com que ela cumpra o combinado. Ela suporta jantar com o sapo e até brincar, mas é tomada pelo nojo ao ter que dormir com ele. E é aí que ela o joga contra a parede. Para sua surpresa, seu ato de rebeldia é recompensado com o aparecimento do belo príncipe.

A primeira interpretação de Corso & Corso salienta a perspectiva de uma educação sentimental:

O jogo erótico-agressivo evidencia que um pacto amoroso não é inicialmente pacífico, só depois que o sapo se tornou inconveniente ao extremo e a princesa totalmente intolerante é que eles descobrem o amor. A primeira marca não é de fascínio mútuo. Antes que o amor os torne sempre tão repetitivamente belos, eles terão que vencer a fera que há dentro de cada um. (Corso & Corso, 2006: 131)

Os autores lembram que a descoberta do vínculo amoroso leva os envolvidos a lidarem com as diferenças e essa proximidade repleta de atritos contribui para o caráter agressivo dos primeiros amores.

A segunda interpretação dos autores, leva em consideração a descoberta de Freud de que o ato sexual é compreendido como violento pelas crianças. Bettelheim (1980) lembra a semelhança entre o sapo e o pênis (p. 330) e Corso & Corso (2006) lembram que a princesa talvez tenha nojo do sapo, pois ele tem o “péssimo hábito de inchar e intumescer, como soe ocorrer aos órgãos sexuais quando excitados” (ibid.: 134). Ultrapassada a concepção infantil, a princesa poderá ver que o homem (e seu pênis!) não é tão asqueroso, mas um objeto de amor através do qual ela pode sentir prazer.

2. O desejo onipotente de mudar o outro

Gosto das interpretações de Betelheim e do casal Corso. Acredito, no entanto, que podemos ir além. Tenho duas interpretações que gostaria de compartilhar aqui pensando num fenômeno clínico descrito como esse mau encontro de um casal. O desencontro de se deparar com alguém com quem o sujeito deseja mudar. Essa é a primeira interpretação: tratar o outro como sapo é parte do meu desejo de mudá-lo com meus “beijos” – ou, como na versão mais antiga – com minha violência.

Ora, amar alguém, querer permanecer com alguém a quem desejamos modificar substancialmente… parece um desses momentos de irracionalidade que denunciam a presença de desejos e fantasias inconscientes em ação. Um racionalista diria simplesmente: se as diferenças entre vocês são tão grande, se, para ficarem bem um com o outro, um dos dois teria que mudar radicalmente, não seria melhor procurar um novo parceiro?

É claro que em toda relação amorosa há um intenso jogo de poder. Poder aqui compreendido no sentido mais amplo possível: o desejo e a ação de conduzir as condutas do outro, de exercer sobre elas domínio, controle ou forte influência. Do jeito de se vestir ao que dizer em público, das carícias à escolha do que fazer no final de semana. Tudo o que se faz é fruto de acordo, de concessão, de solidariedade ou, em casos mais explícitos, de controle e submissão.

Não é disso que estou falando. Falo da situação na qual o parceiro é visto como alguém intolerável ou como agente de uma ou mais ações intoleráveis. Pode ser um traço de caráter (é preguiçoso, é guloso, é workaholic…), pode ser um hábito ou vício (não transa tanto quanto gostaríamos, bebe demais, não consegue se desligar dos pais, não gosta das mesmas músicas ou dos mesmos programas de entretenimento…). Estou enfatizando esses casos nos quais a velha e boa “conversa sobre a relação” não opera mais nenhum efeito. A situação limite na qual nos vemos efetivamente casados com um batráquio. Isso serve para qualquer relação amorosa: entre pais e filhos, entre namorados e também para muitas relações de trabalho. Uma situação da qual queremos nos ver livres, mas na qual, mesmo assim, permanecemos.

Não poderíamos ver aí, do lado da “princesa” (obviamente, isso vale para ambos os sexos), um desejo onipotente de transformar o outro? Não é isso que vemos naqueles que começam um relacionamento movidos pela esperança de que o outro vai mudar? Bruno Bettelheim situa a mocinha da estória do lado do princípio do prazer:

Ainda dominada pelo princípio do prazer, a mocinha faz promessas para conseguir o que quer, sem pensar nas consequências. Mas a realidade se afirma. Tentar fugir dela fechando a porta para o sapo. Mas o superego, na forma do rei, entra em cena: quanto mais a princesa tenta ir contra as solicitações do sapo, tanto mais o rei insiste em que ele cumpra suas promessas integralmente. O que começou na brincadeira torna-se sério: a princesa deve crescer à medida que é forçada a aceitar os compromissos que fez. (Bettelheim, 1980: 328)

Duas observações aqui: (1) há algo de infantil no desejo de mudar o outro; (2) e, como no conto de fada, aquele que deseja mudar o outro parece dependente dele: seja para pegar a bola no poço, seja porque se sente compelida a permanecer com o outro. (Mais uma vez, a leitura feminista poderia nos alertar para o sadismo desse pai que não propõe nenhuma solução de compromisso com o sapo: você pode até brincar e comer com ela, mas só dorme com ela, se ela quiser…)

3. Com a outra ele vai ser príncipe!

Uma fantasia típica nessas “princesas” é que, quando finalmente conseguem terminar a relação, imaginam que seus sapos serão príncipes com o próximo cônjuge.

O “osso duro” finalmente se transformará em macio filé. Não será, entretanto, para o deleite de quem amargou tanta dureza! Será para a outra!

Ali, onde havíamos pressentido a fantasia onipotente de mudar o outro, agora, observamos a falência do eu, sua máxima impotência, corroído pela inveja do terceiro que granjeará todos os encantos do objeto a nós recusados!

A repetição de relações amorosas desse tipo apontam para uma incapacidade de integrar em si mesmo e no outro aspectos bons e maus. Um dos primeiros mecanismos de defesa, a cisão, separa o bem e o mal de forma muito radical. Melanie Klein e Donald Winnicott apontam como sinal de desenvolvimento psíquico uma maior integração desses elementos:

Se o desenvolvimento transcorre favoravelmente, o indivíduo torna-se capaz de enganar, mentir, negociar, aceitar o conflito como um fato, e abandonar as idéias extremas de perfeição e do seu oposto, que tornam a existência intolerável. O compromisso não é uma característica dos insanos. // O homem maduro nem é tão bonzinho nem tão desprezível quanto o imaturo. A água no copo é barrenta, mas não é barro. (Winnicott, 1990: 160)

O compromisso não é uma característica dos insanos… e nem das crianças imaturas. Aceitar que temos e que o outro tem defeitos, que todos nós somos uma espécie de sapríncipes… é sinal de que as fortes cisões que nos protegiam no início da vida já não são mais necessárias. Isso não quer dizer que devemos aceitar tudo o que incomoda em nós mesmos ou nos outros. É claro que é possível mudar algumas coisas. O que estou sugerindo é que esse desejo de mudança (1) não deve partir de uma exigência idealizada; (2) deve ser mais aberto aos matizes e ao “barrento” da vida cotidiana e (3) não deve se balizar por valores universais muito abstratos (lembrar que, para alguém que deseja ser sapo, a princesa é uma chata), isto é, levar em consideração que cada um vai se arranjar como pode (de forma singular) diante desses ideais de perfeição.

4. Complexo de Édipo como matriz amorosa

O Complexo de Édipo ainda continua a ser uma importante referência para compreendermos a vida amorosa. Por Complexo de Édipo, compreendo todo o conjunto de relações amorosas que temos com os adultos que cuidaram de nós nos primeiros anos de vida.

No caso da fantasia de ter se casado com um sapo e ter que passar pelo suplício de transformá-lo em príncipe, encontramos uma explicação na triangulação típica do Édipo. Temos que convencer um dos cônjuges a mudar radicalmente de posição: um dos pais deve deixar o lugar de pai e trocar de posição com o filho. É como se o filho, por exemplo, pedisse à mãe para mudar: seja minha mulher e façamos desse terceiro um outro qualquer! É como se a filha pedisse ao pai: seja meu marido e largue esse vício que é minha mãe!

O recalcamento de nossos desejos incestuosos se encarrega de colocar sobre todos esses desejos incestuosos o manto do nojo e do asco. Aqui, o conto de fada é preciso ao fazer do parceiro um sapo. É disso que se trata: beijar esse sapo seria nojento demais, horrível demais. Desejar transformá-lo em príncipe requer uma mudança radical, muito além do possível.

A mesma matriz edípica explica a fantasia pós-término. De fato, é assim que acontece: o pai prefere ficar com a mãe, a mãe permanece com o pai. É como se a criança pudesse dizer: “por mim, ele não mudou, mas com (ou por) ela, ele muda!”.

Espero que o leitor compreenda aqui que estou sendo didático. Não é preciso um pai e uma mãe para haver Édipo. Nem casamento heterossexual típico. Basta haver esse cuidado de um ou mais adultos endereçado à criança. Basta que a criança possa tomar esses adultos como alvo de seus desejos. Diante disso, a repressão – a começar pela recusa ao incesto – e o recalcamento desses desejos fecha a cena edípica.

O que é importante nessa primeira interpretação é guardar o caráter onipotente, tipicamente infantil, que vemos nesse desejo de acusar o outro de sapo, de querer mudá-lo. Percebam que há também uma boa dose de sadismo aqui: permanecer com o outro e passar o tempo todo demandando que ele mude, que ele se emende, que se corrija, não deixa de ser sádico, principalmente, quando o sujeito conta com o álibi social de que o que é demandado é a correção de um vício ou hábito socialmente menosprezado.

5. O sapo e seu brejo

Se há sadismo em criticar o outro permanentemente, em não saber conviver com os “defeitos” que nos incomodam… há também masoquismo.

Antes do moralismo, da pedagogia sentimental, da onipotência de tentar mudar o outro, há o masoquismo de se desejar permanecer com o sapo, de permanecer em seu brejo fétido.

Ao contrário do que aparece na consciência, o sujeito não quer que o outro mude. É seu manancial de sofrimento, sua fonte inesgotável de dor. A experiência da passividade devidamente garantida: o outro nunca vai mudar, sempre vai me fazer sofrer e eu sempre vou poder acusá-lo disso. Um duplo ganho! O masoquismo de permanecer no brejo das diferenças radicais e o sadismo de poder acusar o outro de me fazer sofrer e de ser “errado”.

As raízes desse masoquismo são pré-edípicas. Antes talvez da entrada de um terceiro ou de alguém que pudesse competir com a díade formada entre o bebê e sua mãe. A passividade experimentada pelo bebê junto à mãe é, em grande parte, prazerosa. Ele pode, quando estamos diante de uma mãe suficientemente boa, se entregar a ela tranquilamente. No entanto, quando essa mãe não é boa o suficiente (está deprimida ou preocupada demais, p.ex.), esses momentos de passividade são sempre traumáticos e precisam de elaboração posterior. Uma forma de elaborar esse trauma é revivendo essa experiência, como num experimento controlado. É como se quiséssemos reviver uma situação de acusação-e-demanda com uma mãe que sempre deu insuficientemente ou precariamente ou venenosamente… Um parceiro “errado” cumpre bem essa função. Queremos, inconscientemente, convencer nossas mães de que elas estão mesmo erradas e que devem deixar de ser sapas e se transformar em princesas generosas… A grande questão é que esse tempo já passou e que o recalcamento desse tempo pré-edípico fará seu retorno nessas relações amorosas mortíferas e repetitivas, nas quais nos sentiremos dependentes do outro (só o sapo sabe pegar a bola de dentro do poço!), um outro ao qual o tempo todo desejamos mudar de forma radical.

É bem possível, como acontece na histeria, que, se o outro mudasse e finalmente se transformasse em príncipe, o sujeito em questão arrumaria um outro sapo. A questão não é esse parceiro específico, mas a parceria (e a parceira) inicial. É essa demanda que tem que ser formulada e renunciada ao longo de uma análise. Querer apenas o seio bom e não reconhecer que ele é o mesmo que o seio mau, exigir que o objeto de amor seja todo-bom, é a receita para o sadomasoquismo. Por isso é, muitas vezes, tão difícil terminar relações amorosas desse tipo. Admitir nosso sadismo e nosso masoquismo já é complicado. É ainda mais complexo renunciar aos prazeres daí provenientes e dar a eles outros destinos.

Duas tirinhas que indicam um pouco desse acolhimento dos matizes do amor:

Não precisamos aceitar tudo o que vem do outro… principalmente se for “over”. O outro não é também obrigado a aceitar tudo o que vem de nós…

E muitas vezes, o melhor a fazer é deixar o siri (o sapo… curiosa animalidade do outro-indesejável) tal como ele está.

Referências

Bettelheim, Bruno. A psicanálise dos contos de fada. Trad. Arlene Caetano. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980.

Corso, Diana Lichtenstein & Corso, Daniel. Fadas no divã: psicanálise nas histórias infantis. Porto Alegre: ArtMed, 2006.

Winnicott, Donald. Natureza Humana. Trad. Davi Litman Bogomoletz. Rio de Janeiro: Imago, 1990.