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Larissa Bacelete foi minha aluna de introdução à Psicanálise, pelos idos de 2004. É dessas alunas que marcam nossa história, pois deixam claro que o desejo de saber fica ainda melhor na amizade. A amizade entendida aqui como uma relação amorosa que se assume marcada pelo acaso do encontro e pela força do desejo como única garantia do estar-junto.

Ao longo desse tempo, muitos grupos de estudo, muitos encontros, muita produção conjunta de saber. E agora temos o lançamento de um fruto maduro e precioso que é sua dissertação de mestrado em formato de livro:

Como já tentei dizer no Prefácio do livro, essa obra me parece indispensável para quem procura uma interpretação crítica da perversão. Próxima ao pensamento de Jean Laplanche e também valendo-se de outros autores (Bonnet, McDougall, Rousillon), Larissa nos apresenta uma hipótese brilhante sobre as origens da perversão. Contrariamente ao que o senso comum apressadamente conclui, o perverso não deve ser caracterizado como monstro ou radicalmente distinto de todos nós. Apontar para a história libidinal do perverso é fundamental não apenas para dar a esse arranjo psíquico uma possibilidade de escuta mais acolhedora e mais disponível para propor novos arranjos menos violentos, não no sentido moralizante, mas no sentido terapêutico naquilo que ele tem de mais precioso e ético.

O ponto alto desse livro é seu último capítulo, no qual Bacelete analisa a série Dexter. Para voltar à boa mistura da pedagogia e a amizade: foi Larissa quem me apresentou o sedutor e terrível personagem justiceiro. Posso dizer que me apresentou novamente Dexter através de sua interpretação. Mais uma vez, ela reconhece o mal, mas não se apressa em situá-lo inteiramente no “psicopata”. Sem vitimizá-lo, mas também sem demonizá-lo, Larissa recusa uma dobra ideológica que muitas teorias psicológicas têm feito quando tratam do tema: serem perversas quando tratam da perversão. A série é, o leitor verá, exemplo didático notável para compreender como a violência do outro está nas origens da perversão.

Enfim, escrevi em detalhes sobre tudo isso no Prefácio. Esse texto é apenas para saudar o tempo de minha amizade com Larissa e sua articulação com a pedagogia. De repente, a curiosidade aguçada daquela aluna se torna chamariz para meu próprio desejo de saber e trocar e construir juntos hipóteses sobre os fenômenos clínicos que tanto nos interessam. De repente, a assimetria da pedagogia dá lugar a uma relação de troca e mútuo estímulo. No fundo, acho que esse é o papel de toda pedagogia marcada pela psicanálise. Ou bem instiga-se o desejo de saber… ou não há saber. Se o vetor dessa provocação começa indo do professor à aluna, em pouco tempo, aqueles que se deixam tomar por essa curiosidade fazem girar o vetor e a troca começa. De repente, o professor aprende tanto quanto a aluna. De repente, não há mais professor, nem aluna, mas parceria profundamente marcada por esse espaço potencial e transicional produzido pelo desejo de saber.

Que o livro obtenha o êxito e o sucesso que merece.