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O ciumento, muitas vezes, se comporta como a criança que deseja exclusividade do amor dos pais. Algumas crianças se sentem angustiadas quando veem seus pais dando atenção a outras pessoas ou a outras crianças (os irmãos, incluídos). É como se ainda não conseguissem compreender que seus pais podem amar outras pessoas sem deixar de amá-las. Exigem uma permanência concreta do amor, como se o afastamento momentâneo colocasse em risco a própria existência da relação. O ciumento é apaixonado: a passividade que expressa diante de seu objeto de amor é de tal ordem que o faz imaginar que, sem esse amor, ele não seria ninguém.

O ciúme é uma das primeiras formas de simbolização do desamparo. O ciumento diz claramente: não ame ninguém para além de mim; sem seu amor, eu morro. Desamparo invertido e transformado num insaciável desejo de onipotência, onipresença e onisciência. O ciumento quer tudo do objeto. Quer ser o único a produzir alegria no objeto de amor, quer saber de tudo dele, quer estar o tempo todo presente. Numa palavra: quer ter poder total sobre seu alvo amado. O ciúme é como o amor dos que amam os pássaros apenas nas gaiolas. O ciúme é o contrário da liberdade: tanto para o ciumento quanto para o próprio alvo desse afeto. É estar aprisionado ao outro desejando fundir-se a ele. No limite, a única forma de controlar completamente o outro é se transformando nele. O amor enciumado tem uma viscosidade paralisante e mortífera para todos os envolvidos.

Como é comum encontrar na criança também a exigência de exclusividade, de preferências nítidas! “Você gosta mais de qual heroi? De qual cor? De qual time de futebol?” Assim, aos poucos, aprendem que os jogos de amor são feitos de idealizações da exclusividade. Vale escolher apenas um, não mais que um. O ciúme é profundamente monótono. Um só tom, disco arranhado. É uma forma de medo da pluralidade do desejo. A angústia da abertura radical que o pulsional nos impõe: nosso desejo é contingencial. Dizia Freud que entre a pulsão e seu objeto existe apenas uma solda. O ciumento deseja transformar essa solda num tipo de liame indestrutível.

Do ponto de vista político, o ciúme é anti-democrático e totalitário. É fácil encontrarmos casos nos quais o parceiro se autoriza a ter seus casos extra-conjugais, mas se enfurece quando sua parceira também deseja amar outras pessoas. Vale para um apenas, nunca para todos, de forma igual. É um totalitarismo, aliás, monárquico, e é Sua Majestade, o Bebê, ainda quem deseja governar a cena.

O ciúme é também uma forma de inveja. O ciumento se atormenta pelas capacidades de seduzir e pelo supostamente insaciável desejo de seu objeto de amor. Ele deseja destruir sua beleza e faz de tudo para fazer girar apenas em torno de si o desejo solar de seu amante. O universo do ciumento é ptolomaico: o ciumento é um planeta sem luz que deseja fazer girar em torno de si uma estrela cuja luz engole vorazmente, mas que deseja apagar para todo e qualquer outro concorrente. No limite, como nos mostram alguns casos trágicos, é melhor matar o objeto de amor do que perdê-lo para outrem.

O ciúme, porém, é também excitante. Afinal, a passividade do ciumento é um reencontro com a passividade efetivamente vivida anteriormente com os pais. Curto-circuito: quanto mais me angustio em te perder para um terceiro, mais me motivo a te controlar. Reproduzo infinitamente a cena infantil para me assegurar que nunca perderei a exclusividade do amor de meus pais. A cada vitória do ciumento – o controle dos olhares, dos amigos, dos círculos sociais, do que se fala, como se veste… – fecha-se o ciclo: ainda sou o bebê onipotente que controla o desejo do outro.

Há ainda uma segunda fonte de excitação para o ciumento. Freud insiste, em seus textos sobre o ciúme, na seguinte tese: o ciumento projeta seus desejos no outro e os realiza através da fantasia. O exemplo clássico é o do homem que sente ciúmes da mulher, pois projeta nela seu desejo pelos homens. (Obviamente, a regra freudiana vale para as mulheres também.) Ele, por não autorizar-se a desejar os homens, projeta em sua mulher o seu desejo e só assim pode “controlá-lo”. Não são raros os casos nos quais algumas pessoas só conseguem ter prazer imaginando seus parceiros com um outro. Muitas vezes, não basta imaginar: isso é explicitamente solicitado, como é o caso do personagem Tertuliano, cujo sintoma era exatamente esse. (Na companhia de Lucio Marzagão e Paulo César Ribeiro, analisei esse caso nesse livro.). É como se o ciumento, por não reconhecer nada da mulher nele, acabasse por controlá-la, projetivamente, a mulher (que ele julga) dele. Para voltar à metáfora política, é como se, nesses casos, o tirano agisse como aqueles religiosos corruptos que defendem a moral sexual “civilizada” mais rígida, mas que se excitam com a devassidão que condenam.

A excitação presente no ciúme é certamente onde se sustenta o prazer do sujeito que provoca o ciúme no outro. De maneira geral, aqueles que provocam o ciúme são os que se mostram autônomos, “senhores” do seu desejo. Eles podem abusar do ciumento, pois sabem como essa insegurança onipotente é alimentada justamente pela idealização que conseguem ser. A suposta soberania sobre seu desejo é a armadilha sempre pronta para aprisionar o ciumento. De repente, é o ciumento-passarinheiro quem se vê na gaiola de seu objeto. O sadismo do provocador de ciúme só vai funcionar se encontrar o solo fértil do masoquismo enciumado. O ciúme, aliás, quase sempre é a charneira que possibilita um jogo sadomasoquista entre dois.