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O poder pastoral coloca para funcionar tecnologias que fabricam a um só tempo o indivíduo e o rebanho. De maneira geral, tal modo de dominação se exerce a partir de práticas de exame de si mesmo, geralmente conduzidas por um outro ou já internalizadas ao longo do tempo. A psicoterapia, a meu ver, continua a história dessas práticas confessionais.

Um conceito começa a aparecer no século XX de forma mais clara, mais precisa e mais impositiva: a responsabilidade. A impressão é que vamos laicizando a culpa. O ideal externo passa do par alma/deus para o par indivíduo/cidadão-empreendedor de si mesmo. Ainda há um ideal externo, um modelo a ser seguido pelo indivíduo e pelo rebanho. A responsabilidade é um conceito-dobradiça, é a charneira entre o individual e o coletivo. Pede-se sempre que o sujeito se responsabilize e ao fazer isso estamos conduzindo-o a um certo modo de agir.

É muito interessante perceber em quais discursos e práticas o conceito de responsabilidade é usado, quais são os seus fins, quais os modos de operar esse conceito. É possível encontrá-lo seja nos estatutos de órgãos sociais que cuidam dos “adolescentes infratores”, nos discursos jurídicos mais variados, nos discursos religiosos e também no discurso psiquiátrico (psicológico, psicanalítico, incluídos).

Pensemos no sujeito responsável. Qual sua genealogia? Uma hipótese de trabalho aqui é pensar nesse sujeito como parte das revoluções (neo)liberais que aconteceram ao longo do século XX e continuam no século XXI. O sujeito empreendedor de si mesmo, que deflaciona o papel do outro na sua própria constituição, que toma o Estado e o outro apenas como pontos de apoio, mas nunca como co-responsáveis pelo seu sucesso. Essa imagem me parece o modelo-ideal que está sendo erigido como prática discursiva fundamental. Uma das táticas discursivas aqui é justamente o exemplo moral: Silvio Santos era pobre e conseguiu…

Obviamente, a questão da responsabilidade faz aparecer o paradoxo de uma mesma prática se constituir como (1) dominação e (2) constituição de um sujeito moral que desejamos. O ponto aqui é pesquisar quais são os matizes e efeitos entre esses dois extremos. Parte do sujeito moral que a revolução burguesa deseja construir é exatamente esse: um sujeito que se veja como obra de arte, que imponha a si a responsabilidade por suas escolhas, que não se veja tão vítima ou passivo diante do mundo, do outro ou de seus afetos… Ao mesmo tempo, essa imagem parece recusar excessivamente o papel do outro e do Estado nas práticas de subjetivação. A noção de responsabilidade tem um efeito de solipsismo bem importante, nesse sentido é altamente problemático, pois recusa de forma muito peremptória a ideia de há condições ambientais e políticas para a constituição do sujeito livre e responsável.

Uma hipótese a fazer trabalhar é pensar, com Winnicott e Laplanche, em alguns pontos: 1) enunciação das condições de possibilidade (afetivas e políticas) para os processos de subjetivação; 2) promover matizes mais densos e tensos entre o que Laplanche distingue em termos de responsabilidade e resposta, isto é, mostrar que a presença do inconsciente diante de uma noção que nos parece excessivamente egóica, excessivamente individualista.