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Dia desses, cometi um lapso de memória. Dizia aos alunos que Freud havia escrito que o conflito psíquico era como uma luta entre a baleia e o urso polar. O trabalho analítico, dizia ainda esse Freud imaginado, teria como tarefa fabricar um ringue possível para essa luta.

Qual não foi minha surpresa, ao retomar o texto de Freud, com a promessa de endereçar a passagem correta aos alunos, encontrar algo em nada semelhante à minha lembrança. A luta era entre a psicanálise e outras teorias e nenhum sinal de trabalho para fazer a luta acontecer! Ao contrário: Freud está dizendo claramente que a luta é impossível e que tais controvérsias são infrutíferas.

Um tal lapso, por certo, não deve ser desperdiçado! Gostaria de aproveitá-lo para elaborar duas ou três questões. Primeiramente, retomo a passagem de Freud:

Baleia e urso polar, dizem, não podem fazer guerra entre si, porque, cada um limitado a seu elemento, não chegam a se encontrar. É igualmente impossível, para mim, discutir com os que, trabalhando no campo da psicologia ou da neurologia, não reconhecem os pressupostos da psicanálise e consideram artificiais os seus resultados. Mas nos últimos anos desenvolveu-se uma outra oposição, de pessoas que se acham — ou ao menos acreditam se achar — no terreno da psicanálise, que não lhe questionam a técnica e os resultados, sentindo-se apenas autorizadas a extrair outras conclusões do mesmo material e submetê-lo a outras concepções.

A controvérsia teórica é geralmente infrutífera, porém. Tão logo começamos a nos afastar do material de que nos devemos nutrir, corremos o perigo de nos inebriar com as nossas afirmações e de afinal sustentar opiniões que qualquer observação teria refutado. Daí me parecer incomparavelmente mais adequado combater concepções divergentes por meio de seu exame em casos e problemas específicos. (Freud, vol. XIV, cia. das letras, p. 43).

A passagem acima é o início da seção “Algumas Discussões”, na qual Freud irá defender o valor de realidade da cena primária, isto é, se o homem dos lobos viu ou não os pais num coitus a tergo. Apesar de iniciar a seção desvalorizando a controvérsia, ele encerra a discussão com a expressão latina non liquet, isto é, não está claro. Ou seja, a sensação que temos é que tal ponto – se as fantasias de sedução baseiam-se em vivências reais de sedução – merece ainda ampla discussão. Não entrarei no mérito dessa discussão aqui. Sobre o tópico, concordo com a leitura de Ribeiro (2000). Prefiro me valer desse non liquet e reabrir a discussão, mas pela via de meu lapso.

1. No contexto das teorias

Fazer lutar ou dialogar? A metáfora zoológica acaba não deixando muito espaço para o diálogo. Urso e baleia, oponentes teóricos, estariam fadados a, no máximo, encontrar espaço neutro para o mortífero embate. Pensemos no contexto da citação de Freud. É mesmo assim entre oponentes teóricos? Sejam eles psicanalistas ou não?

É importante observar um detalhe: “pessoas que se acham no terreno da psicanálise”. Sabemos como esse tipo de argumento de autoridade será usado ao longo da história da psicanálise. Transformar baleias em ursos é sempre um recurso importante para tornar inviável a luta… Dizer que alguém não é um psicanalista é sempre um modo de tornar mais homogêneo, pela via da hegemonia, o campo teórico. Quais os limites para retirar alguém da conversa usando esse argumento de nomeação (“Ei, baleia, você é um urso!”)?

De fato, o diálogo no campo acadêmico é tenso. Nunca é apenas debate racional. Nossas escolhas teóricas são profundamente marcadas por nossa história afetiva. Não é sem libido que se acredita numa teoria. Saber, conhecer, traduzir o mundo em teorias são processos também pulsionais e sujeitos a todas as vicissitudes da pulsão. Exatamente por saber disso, torna-se fundamental, no campo das disputas simbólicas, a constituição de um terreno forte o suficiente para sustentar os dissensos, as discordâncias, quiçá as impossibilidades de diálogo. No meu entender, tal terreno só pode ser a Universidade comprometida com o pensamento crítico e com a diferença que a mantém viva.

2. No contexto da clínica

Agora é o momento de fazer valer meu lapso. E se entendêssemos mesmo o conflito psíquico entre a mencionada luta entre o urso e a baleia? Sim, acredito que teríamos uma boa metáfora aqui, especialmente pelo detalhe que Freud quer sublinhar: a enorme dificuldade de encontrar um terreno justo para o embate. O trabalho analítico é, no limite, impossível justamente por tentar realizar esse tipo de tarefa. Fazer dialogar algo do inconsciente com elementos da consciência: como tornar isso possível, sem cair no sem-sentido disruptivo daquele e na simbolização sintética desta? Como, no entanto, recusar a tarefa quasi onírica de tornar tal luta dialógica não apenas possível, mas também terapeuticamente produtiva?

Defendo a ideia de que a psicanálise é profundamente comprometida com a democracia. Em termos metapsicológicos isso se traduz por imaginar a vida psíquica como um cenário aberto ao dissenso e sempre reanimado à reconstrução de seus pontos de solda. Tal como no cenário político, a vida anímica precisa de balizas bastante firmes para tornar possível a convivência (e não o embate mortífero) das diferenças. Também do ponto de vista psíquico, vale o paradoxo da democracia política: há uma violência originária que torna possível todo diálogo subsequente. O recalcamento originário talvez seja a operação que transforma nossas crenças e desejos em conjuntos tão distintos quanto ursos e baleias. Permanentemente separados, resta a saída, por assim dizer, ecológica, de encontrar um espaço de convivência e luta.

3. Espiral anti-totalitária

A psicanálise inaugura uma espiral anti-totalitária. Vejamos alguns desses momentos.

(a) Clinicamente, defendemos a ideia de que por mais “urso” que se pareça um desejo ele nunca será descartado por não ser “baleia”. A ideia é acolher desejos estranhos… por mais estranhos que possam ser… e por mais que isso me obrigue a expandir meu terreno, a inventar novos terrenos de convivência para esses desejos.

(b) Teoricamente, defendemos a ideia de que sob o nome “Psicanálise” haverá crenças muito diversas e que nunca saberemos ao certo o tamanho do habitat para abrigar ursos e baleias. E também sempre estaremos atentos ao movimento incoercível de fabricar um ecossistema no qual vivaapenas uma espécie ou que ela domine o campo de forma hegemônica.

(c) Politicamente, defendemos a ideia de uma pluralidade zoológica. Trata-se de uma meta utópica, mas, ainda sim, irrenunciável:encontrar e fabricar um terreno no qual seja possível o diálogo entre as diferenças, por mais radicais que sejam. O espaço público como espaço de contornos fortalecidos para que os “animais” (nossas crenças e desejos) possam se movimentar com mais liberdade. E que o conjunto dessas crenças e desejos possam, por sua vez, criticar permanentemente os contornos desse espaço público (potencial e transicional, por definição).

PS: Sempre bom lembrar que até o fim da vida, Freud falava da implantação da Psicanálise como uma luta (struggle) – http://youtu.be/WutYCooUvEQ.