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Notas p/ um artigo sobre livre-arbítrio:

1. A tese de Agostinho gira em torno de atrelar o mal ao livre-arbítrio. O objetivo é impedir que deus seja responsabilizado pelo mal. Se ele é eternamente bom, não pode ser autor do mal. E por que o mal existe? Porque há o livre-arbítrio. E por que há o livre-arbítrio? Para provar que o homem escolhe a deus e não sua ausência…

1.2. Se tomarmos – um pouco como faz Agamben – algo da teologia como modelo político, não teríamos nesse tipo de tese agostiniana uma das fontes genealógicas da excessiva responsabilização dos mais pobres para sempre resguardar o poder? (Pode-se, evidentemente, dar vários nomes aqui a esse arranjo social: sistema, família, sociedade de bem, homens de bem, sujeitos responsáveis… etc.). Ou seja, por que o sujeito faz o mal? Porque ele escolheu fazê-lo, é responsável por ele. Sua história política, seu lugar-no-mundo social não poderá, no limite, ser usado como argumento ou co-responsabilidade pelo mal.

2. O filmes de zumbi, como contra-exemplo. A questão fascinante nos filmes de zumbis é que eles perdem justamente a capacidade de escolher. São humanos tomados pela fúria (um vírus, uma influência maligna…) e incapacitados de livre-arbítrio. São uma imagem de nós mesmos, ou melhor, desse outro interno que temos que controlar, frente ao qual o tempo todo respondemos como livres. Não ser dominado pelas paixões é sempre o grande diferencial da liberdade. Liberdade se mede, fundamentalmente, a partir da minha relação com esse outro interno. O zumbi é a representação da derrota frente a esse outro. Em espelho, esse outro devora aqueles que resistem a ele…

3. Já insisti, em outro texto, na responsabilidade como charneira indivíduo / social, dispositivo exemplar do poder pastoral. Em que medida o livre-arbítrio só pode ser reconhecido como responsabilidade? Em que medida pode ser questionado na medida em que co-responsabilizamos o entorno social e deslocamos a noção de responsabilidade para a noção de resposta? Esse deslocamento não é justamente a tarefa que o inconsciente, tal como descrito pela psicanálise, impõe à noção de liberdade?