Blog

Chama a atenção o título da matéria e seu conteúdo: http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2014/04/1435877-pesquisa-que-indica-apoio-a-ataques-a-mulheres-esta-errada-diz-ipea-so-26-concordam.shtml

Primeiro: não é “só” 26%. Isso é mais q um quarto da população…

O detalhe que me chamou a atenção foi a outra pergunta: “A questão perguntava aos entrevistados se eles concordavam com a afirmação de que “mulher que é agredida e continua com o parceiro gosta de apanhar”. Neste caso, 65,1% concordavam, segundo a errata divulgada pelo órgão (na primeira divulgação, esse percentual era de 26%)”.

Ora, tal percepção, aí, nesse caso, não é equivocada, apesar de bastante perigosa. Há uma questão política muito relevante que o masoquismo enseja. Vejam bem, há dois campos: o clínico e o político. Clinicamente, é possível dizer: “desejo apanhar, desejo que me estuprem, desejo ser agredido etc.”. Ou seja: é possível, clinicamente, responsabilizar a vítima. Num certo sentido, ALGUMAS vítimas em ALGUMAS situações são sim co-responsáveis pela agressão que sofrem. Admitir essa responsabilidade, aliás, é condição indispensável para que as vítimas possam escolher um outro encaminhamento de seu desejo, de seu lugar frente ao outro. Em muitos casos sem um “sim, eu queria apanhar, eu solicitei essa violência a um outro”, é completamente impossível um (e super desejável do ponto de vista ético): “puxa vida, não quero mais apanhar; é absurdo me tornar tão passivo assim; que horror eu sinto diante de alguém que deseja bater; que terrível ter confundido ser amada com ser espancada” etc.

Ok, essa constatação clínica em nada diminui a responsabilidade total do agressor. Mesmo que alguém te peça para bater, estuprar, violentar, matar… vc não deve fazer isso… Ou melhor, isso em nada te eximirá da responsabilidade de ser assassino, agressor, estuprador… O campo jurídico-político é um, o campo clínico é outro. Há interseções fundamentais aqui e são elas que interessam à psicanálise.

Ao ponto do erro da pesquisa: do sadismo velado ao reconhecimento do masoquismo, estamos ainda com o mesmo abacaxi político para resolver. Reconhecer que uma mulher “gosta de apanhar” é muito, muito pouco. É inclusive empobrecedor reduzir o masoquismo a isso, a um “gosto de apanhar”… Seria o mesmo que reduzir a fundamental questão levantada por Etienne de la Boétie sobre a servidão voluntária do povo a uma passividade coletiva…

O ponto é: por que nosso pacto social como um todo cria tamanhas condições de possibilidade para que esse modo de subjetivação se instale? A mulher que se vê presa, completamente presa ao agressor, por um lado. E o sempre presente e impune algoz que a mantém ali?