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Ser interdisciplinar é, antes de tudo, ser indisciplinado. Explico: os saberes se constituem como grandes campos de força: atraem certos discursos, repelem outros. Diz Pierre Bourdieu, na sua teoria dos campos, que há dois grandes movimentos aqui, obviamente, sem muitas fronteiras nítidas: o da ortodoxia e o da heresia. Como circula o capital simbólico dentro desses campos? De maneira geral, o campo está estruturado para se manter e o faz, fundamentalmente, criando táticas de identidade. Identidade no sentido mais cru: tornar-se idêntico a si mesmo, evitar a diferença, o de “fora” deve ser claramente identificado como o de “fora”. Voltando: ser interdisciplinar é ser indisciplinado. É recusar, em primeiro lugar, a semelhança/identidade como princípio organizador fundamental dos saberes.

Isso traz à tona uma das descobertas mais importantes da Psicanálise, a meu ver: nossa identidade está profundamente marcada pelo afeto. Não somos o que somos porque nascemos assim. Somos o que somos porque há um maciço investimento libidinal na imagem que acreditamos ser. Se Freud denunciou isso através do mito de Narciso, Lacan tentou explicitar isso ainda mais falando de um “estádio do espelho”. Os dois, mutatis mutandis, diziam algo semelhante: nossa identidade não é dada desde o início, como um a priori, mas é sempre a partir do olhar de um outro e sempre a partir do investimento amoroso do outro sobre essa imagem.

Sejamos interdisciplinares aqui: o que a sociologia das ciências de Bourdieu tem a ver com a teoria psicanalítica sobre o narcisismo? O próprio Freud já nos alertava quando falava do “narcisismo das pequenas diferenças”. É o português fazendo piada do espanhol. É o brasileiro fazendo piada do português. O narcisismo pode ser compreendido como um tipo de defesa contra o de “fora”. É um exercício tautológico: desejar ser sempre o mesmo. É repetir, à exaustão, 1 = 1.

Soma-se a isso o fato de, na nossa cultura, o pertencimento ser ainda um rígido valor moral. É quase sinônimo de virtude: pertencer. Esse pertencimento que está talvez entre a submissão e a fidelidade. De um ponto de vista clínico, sabemos como são poderosos os fantasmas de traição. Talvez essas esferas da vida social – a moral amorosa burguesa e a moral dos campos simbólicos – se comuniquem aqui também. “Pular o muro” ou trazer alguém de “fora” pode desarranjar a casa…

Mas, é claro que a interdisciplinaridade não tem a ver apenas com a indisciplina. Ser interdisciplinar é estar aberto ao diálogo e à desconstrução de fronteiras imaginárias. Aliás, é sempre manter em mente que as fronteiras são sempre imaginárias e são um tributo ao nosso desejo de sentido e permanência. Desejo de dialogar: abrir espaço para a hospitalidade. Não foi Derrida quem brincou com os termos hóspede/hospedeiro? Quem tem medo de interdisciplinaridade sempre trata o hóspede como um hospedeiro.