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Silêncio

Silêncio

É que eu não gosto de barulho, sabe? Pra mim, o assalto é rápido. Pano, martelo, tuf. O vidro até faz um barulhinho bom, mas não incomoda. Chato seria acordar as pessoas com a martelada na janela do carro. Assusta, né? Não pode, faz mal. Eu sempre deixo minha marca no chão. É minha assinatura. Um pano de chão dobrado. Cuidadosamente dobrado. Embolado ia perder o charme. A obra de arte se completa se o assaltado pega o pano e leva pra casa. Potlatch. Adorei aquela aula do professor maluco de sociologia na faculdade de direito. Ele falou do potlatch. Desde então não assalto sem deixar algo em troca. Só não tem aquela maluquice de botar fogo em tudo. Potlatch das dádivas e trocas. É até bonito. Até terminar a faculdade demora e preciso ainda vender essas coisas que os burguesinhos deixam no carro pra gente. No fundo, eles querem distribuir renda. Eu só tô ajudando. Tem uns que são trapaceiros mesmo. Ai, ai… Escondem debaixo do banco até notebook. Vai ser burro assim… Bom, mas, trapaceiro tem que ter do próprio veneno, não é não? Como chamava mesmo o cara italiano desse conto? Esqueci. Trapaceiros trapaceados. Acho que era isso. Putz, genial. Só perde mesmo pro Rubem Fonseca. Se bem que eu acho o Cobrador barulhento demais. Melhor ir na manha, só no silêncio. Daqui a pouco tô com o canudo na mão. Melhor que arma. Vou defender depois só quem não fizer barulho. Gente barulhenta tem que mofar na cadeia mesmo. Incomoda as pessoas, né?