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O projeto de Bataille na Revista Documents é criticar a noção clássica de identidade. Segundo a leitura de G. Didi-Huberman, Bataille deseja fazer ver que a noção de identidade que temos construído no Ocidente é demasiadamente teológica. Ela encontra suas raízes no mito da imagem e semelhança entre Homem e Deus. É contra essa imagem divina do humano que Bataille deseja lutar. Afinal, a idealização da identidade gera fenômenos como o nazismo, para citar apenas o mais evidente e um dos mais cruéis.

Num determinado momento da revista, aparecem duas imagens contrapostas. São as seguintes:

fox-follies

abattoir

Acima temos pernas de mulheres. Abaixo patas de boi no muro de um abatedouro. Quais são as semelhanças – as identidades – possíveis aqui? O corte da cortina é um corte-sedução, o corte do abate é um corte-mortífero. Será que não há nada de mortífero no corte-sedução? E será que nada seduz nesse corte da morte?

Pensem no seguinte: quem propõe a animalização da mulher? Para ficar no ordinário: o funk carioca. As “cachorra”, as “potranca”, as “eguinha pocotó”… O devir-animal da mulher – um dos aspectos da dominação masculina – se dá, portanto, na articulação identitária entre o animal e o humano. Essa redução, ou melhor, essa identificação deve ser desconstruída: e é isso o que Bataille faz ao contrapor essas duas imagens.

A Psicanálise nos convida a criticar radicalmente as identidades propostas pela “cultura”. Aparentemente, as crenças sobre o que somos não são construídas socialmente. Ao contrário: a todo momento somos convidados a articular nossa identidade com uma nossa suposta natureza. Bataille, leitor de Freud, sabe que não há nenhuma natureza a-histórica a garantir qualquer traço identitário. É preciso mostrar sua origem histórica.

Em tempo: pensar nas raízes teológicas da identidade é também levar Nietzsche em consideração.