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Da obra de Fabíola Tasca

Da obra de Fabíola Tasca

A intervenção artística de Fabíola Tasca, Primeira Pessoa, traz uma bela metáfora para pensarmos nas relações amorosas. Um vídeo sobre a obra pode ser visto aqui: http://vimeo.com/19717261

O outro (tu, ela, ele, vós, nós, vós…), não raro, nos faz a vez de boia.

A começar pelo início do início. Palavra-boia pra navegar no social.

Depois e sempre: reconhecimento-boia pra navegar no amor.

O eu também é uma espécie de boia, por certo… É nele que navegamos… Mas não é por acaso que os gregos alertaram para o amor excessivo por si mesmo como um tipo de afogamento… Freud vai recuperar o mito de Narciso para nos alertar sobre isso: o egoísmo é um investimento libidinal nesse objeto paradoxal que é o eu. A um só tempo objeto e também eu, boia e navegante.

O eu é uma boia que funciona apenas em seu devir outro para outrem. Não existe em si mesmo, para si mesmo, à revelia do outro. Só existe plenamente a partir do outro, com o outro.

O perigo é desejar ser boia eterna para alguém. Ou desejar que alguém ou algo ocupe também essa função… Há um modo paradoxal de não viver procurando a salvação (essa espécie de estar apenas vivo, sem risco algum…).

No mar aberto da vida, há tantas boias que passam por nós! Umas pequenas demais, murchas demais, grandes demais, algumas cheias demais, sempre prestes a estourar e a nós deixar em e com pedaços…

E como é bom encontrar para o eu o bom abraço de uma boia. A sábia boia que sabe aproveitar as forças da maré e deslizar suave conosco para outras praias, nunca conhecidas de antemão… (Como não pensar na paixão como uma espécie de surf?)

Amar é o jogo entre nadar e voltar ao descanso da boia. Saber que há algum repouso em alto mar, mas também estar ciente de que não é possível colar-se à boia. Que é preciso ir e voltar, estar por perto, saber de outras boias, talvez, e, por isso mesmo, reiterar a escolha daquela que nos faz flutuar melhor, que nos convida melhor a não afogar em si mesmo ou na busca desenfreada por uma boia perfeita…

Sim, é também o eu que enche a boia-outro de ar. O eu não ocupa a posição apenas de ser salvo… É preciso cuidar da boia que nos fornece apoio. Há que se reconhecer o direito de toda boia murchar sem o sopro quente e vital do eu que a anima a continuar flutuando. Para ser salvo, é preciso também esse esforço, esse trabalho de fôlego, com e para o outro…

Primeira pessoa: a que somos e a que nos reconhece como tal. Boia e sopro um do outro. No mar (infinitos jogos-de-amar) de ambos.