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Escrevi o conto abaixo à la Moacyr Scliar, nas suas colunas da Folha. A reportagem-inspiração segue abaixo.

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Seu sonho de ficção científica finalmente havia se realizado. Dez anos depois do primeiro anúncio sobre as pesquisas do Grupo de Kyoto, liderado pelo Dr. Kamitani, a máquina seria lançada. Ele não esperava ver isso ainda vivo. Ele sabia e desejava profundamente que isso se tornasse realidade.

A KBR, Kamitani Brain Reader, seria comercializada a preços populares. Depois dos testes feitos em presidiários, loucos e crianças infratoras, a máquina estava liberada para o grande público.

Tratava-se de um pequeno vídeo instalado acima do crânio. Feita de titânio e silício, a máquina não incomodava. Ao contrário: era um gadget de design arrojado. Era mesmo um sinal que o futuro havia chegado.

Sim: os pensamentos eram públicos. Finalmente, ele poderia saber o que os outros pensam. Bastava ver… Lá estava a televisão: textos e imagens desfilavam claramente. O Grupo de Kyoto já pesquisava o som do aparelho. Mas a escrita bastava. Era suficiente para tornar a telepatia – sempre suspeita – enterrada para sempre.

Ele fora um dos primeiros a adquirir a máquina. Comprou duas: a outra era para a esposa.

(…)

Um mês após o lançamento, a KBR começou a apresentar defeitos em todo o mundo. Reclamações choviam: o pensamento não era assim tão claro. Ainda precisava ser lido, interpretado. Na verdade, a telepatia não foi alcançada. Nenhuma transparência. Nenhum acesso ao recôndito da alma alheia.

Ele, então, guardou sua KBR. Seu sonho futurista continuava melhor na ficção científica. Nenhuma máquina seria capaz de eliminar o sentido? Por que nosso desejo não pode ser reduzido a uma substância? Estaríamos, afinal, para sempre, condenados a sermos intérpretes uns dos outros? A ciência não nos salvaria disso?

Depois de guardar sua KBR, ele voltou a ler sua empoeirada coleção de Assimov.

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Para quem não é assinante do UOL ou da Folha, segue abaixo o texto retirado do seguinte link: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/fe1512200801.htm

São Paulo, segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Grupo cria programa que lê pensamento

Usando ressonância magnética, japoneses conseguiram decodificar a visão de uma pessoa examinando o seu cérebro

Aprimoramento pode levar nova tecnologia a ser capaz de registrar sonhos; método remete a debate sobre ética e privacidade no futuro

DA “NEW SCIENTIST”

As letras para as quais você olha agora podem ser recriadas com um programa de computador usando mapeamento cerebral por ressonância magnética. Em um feito inédito na neurociência, um grupo de cientistas japoneses anunciou pela primeira vez uma tecnologia de “leitura da mente” capaz de recriar imagens a partir de nada mais do que puro pensamento.
O método foi apresentado em estudo sexta-feira na revista “Neuron”. Experimentos semelhantes já haviam sido feitos, mas as imagens observadas eram “escolhidas” pelos cientistas e não produzidas diretamente pela máquina de leitura cerebral, como feito agora.
O neurocientista Jack Gallant, autor dos primeiros trabalhos nessa linha, já havia mostrado no início do ano que era possível identificar qual imagem, num grupo de várias, estava sendo observada pelos voluntários dos experimentos. Para fazer isso, criou um programa capaz de comparar a atividade cerebral das pessoas durante a observação de um objeto com a atividade pré-registrada num “treinamento”. O programa conseguia então apontar qual imagem era a observada.
Agora, Yukiyasu Kamitani, do Laboratório de Neurociência Computacional ATR, em Kyoto, foi um passo além. Sua equipe usou uma imagem de atividade cerebral obtida em uma máquina de ressonância magnética funcional para recriar imagens em preto-e-branco a partir do zero.
“Ao analisar sinais cerebrais quando alguém vê uma imagem, podemos reconstruí-la”, afirma Kamitani. Isso significa que a leitura da mente poderia ser usada para “extrair” qualquer coisa sobre a qual uma pessoa está pensando, sem os cientistas terem a menor idéia do que poderá vir.

Pixels mentais
“É absolutamente espantoso”, comenta John-Dylan Haynes, do Instituto Max Planck para Cognição Humana, de Leipzig (Alemanha). “Isso é um passo realmente importante.”
O experimento de Kamitani começa com uma pessoa observando uma seleção de imagens compostas de quadrados brancos ou pretos numa grade de dez por dez. Ao mesmo tempo, mapeia seus cérebros. Cada quadrado é como um pixel, um ponto na tela de computador.
O programa, então, acha os padrões de atividade cerebral que correspondem a cada pixel. Depois, a pessoa se senta na máquina de ressonância funcional e passa a olhar para figuras novas. É aí que um outro programa compara essa nova leitura com a anterior e reconstrói o quadro de pixels.
A qualidade de imagens obtida no experimento era um pouco baixa, mas foi suficiente para identificar as letras da palavra “neuron” (neurônio em inglês). Números e formas também foram mostrados às pessoas e puderam ser reconstruídos da mesma maneira (veja quadro à direita). Já vale como uma prova de princípio, diz Haynes .
Como a ressonância magnética funcional tem se aprimorado muito nos últimos anos, Kamitani afirma que seu quadro pode no futuro ser produzido com um número maior de pixels, produzindo imagens com muito mais qualidade.
O próximo passo dos cientistas é tentar reconstruir imagens sobre as quais as pessoas estão apenas pensando, sem vê-las diretamente. Seria então possível “fazer a filmagem de um sonho”, diz Kamitani.
Haynes diz que isso pode levantar questões éticas no futuro. Publicitários, por exemplo, poderiam tentar ler os pensamentos dos transeuntes para adequar seus anúncios a elas.

Ladrões de sonhos
“Isso [a nova pesquisa] não leva necessariamente àquilo, mas o espírito do que está sendo feito está alinhado com com a leitura cerebral e com as aplicações que viriam com ela”, afirma o neurocientista.
“Com uma técnica que permite ler o que as pessoas pensam, nós claramente precisamos de diretrizes éticas sobre quando e como isso pode ser feito”, diz. “Muitas pessoas querem que seja possível ler suas mentes -uma pessoa paralisada, por exemplo. Mas não deveria ser permitido fazer isso com um propósito comercial.”
O próprio Kamitani se diz ciente dos potenciais abusos que a tecnologia poderia propiciar. “Se a qualidade de imagens melhorar, poderia haver um sério impacto em nossa privacidade”, diz. “Nós teremos que discutir com muitas pessoas -não apenas os cientistas- sobre como aplicar essa tecnologia. (CELESTE BEVIER)