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Ele é coerente. Ele diz a verdade. Ele se liga ao que diz. Sua verdade é sua prática e sua identidade. E diz ao outro de forma clara e corre todos os riscos de dizer essa verdade. Risco de ser odiado… mas não nos enganemos: é desse ódio que ele se nutre e regozija.

Ele não hesita em enunciar seus discursos verdadeiros: a mulher que merece ser estuprada, o gay a ser curado de sua orientação sexual, o marginal amarrado ao poste, a ditadura militar que só torturou vagabundo.

O que é a verdade, quando pensada no campo moral? É apenas um tipo de elogio às práticas concretas que se articulam a discursos específicos. O machismo, enquanto prática e discurso, é uma verdade, é um discurso verdadeiro e enseja práticas morais claras, concretas: da exigência de depilações e regimes aos espancamentos e assassinatos de lgbts e mulheres.

E qual é a parrésia ubuesca do machista? Dizer de forma clara o que se é, o que se deve ser e como o outro deve ser: não apenas como fanfarronice ou deboche cínico, mas como signo de sua conduta, como prova contundente do que endereça a si mesmo e ao outro.

Quando alguém diz, de um lugar legítimo de enunciação, que uma mulher merece ser estuprada ou que tortura e estupros são métodos legítimos de confissão, não se pode duvidar: ele é capaz de estuprar, de agredir, de conduzir sua existência de tal modo que esse recurso à violência esteja disponível, seja possível.

A meu ver, é preciso reconhecer uma parrésia do mal ligada ao fascismo. Há pessoas que acreditam na verdade desses discursos, isto é, fomentam o desejo de produzir um mundo no qual a violência tem prioridade na resolução de conflitos morais. Um mundo no qual a alteridade está fixada de uma vez por todas como objeto: de uso, de escárnio, de extermínio.

Covardia e sadismo são práticas concretas, sustentadas por discursos verdadeiros. É preciso manter em mente essa articulação entre processos de subjetivação, jogos/dispositivos de poder e discursos verdadeiros. Três eixos indissociáveis para se entender a sempre urgente necessidade de manter os discursos e as práticas fascistas afastados dos campos democráticos de enunciação legítima (o congresso nacional, a universidade…).

A exaustão da democracia – a dificuldade em fazer acordos amplos, em fazer concessões, em abrir mais e mais espaços para alteridades, para diferenças – é a brecha predileta da fantasia fascista da resolução rápida e fácil de conflitos morais. Ao invés das infinitas conversas e discussões, acata-se ao ato imperativo, conclusivo. Esse ato, sempre sádico e covarde, impede de pulsar o que é o coração da democracia: o empoderamento dos mais fracos, o reconhecimento e o empoderamento sistemático da verdade de outras práticas de vida e outras práticas discursivas que por sua vez também são parresiásticas em grande medida.

O fato de negros, índios, gays e mulheres continuarem pagando com a própria vida pelo simples fato de serem o que são, por agirem de acordo com suas verdades que em nada agridem a ninguém, é prova suficiente que a democracia ainda é frágil e que precisamos ser enérgicos em denunciar, discordar, se contrapor a esses discursos e essas práticas.