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Difícil comentar sobre esse adesivo da Presidenta nas bombas de gasolina. O que os autores querem é certamente nosso ódio. É o tipo de vilania que não deseja o diálogo. A baixeza que quer impedir o pensamento. É por isso que quero conversar sobre isso. Certamente servirá de exemplo de como o machismo é poderoso e não hesita em lançar suas garras onde quer que ele possa reduzir a mulher a um corpo penetrável, abusável, humilhado sistematicamente.

Não me lembro da popularidade de FHC no segundo mandato. Lembro que foi baixa. Lembro que foi um governo muito, muito ruim: para os mais pobres, para a Universidade, p.ex. Nunca vi, mesmo nas áreas mais duramente atacadas por sua política neoliberal mais cruel, algo desse nível difamatório. “Boca de suvaco”, acho que era essa a ofensa do Macaco Simão. Se é comum que homens se ofendam também feminilizando o corpo do outro ou sua imagem, no caso do Presidente FHC, não me lembro dessa ofensa sexual. Idem para o Presidente Lula. Muito ataque pessoal, certamente, mas não me lembro de um ataque sexual. Também para o Senador Aécio, que foi alvo de muitos ataques na campanha: o mais próximo desse ataque foi acusá-lo de ter batido certa vez em uma mulher. Nada, de novo, que atacasse seu corpo, sua dignidade sexual e de gênero.

Enfim, acho que o espírito insepulto da ditadura finalmente aparece de forma pornográfica. Impossível não lembrar das centenas de mulheres abusadas nos porões da ditadura. Choques na vagina, no ânus. Estupros coletivos, “corretivos”. E não encontravam (e ainda hoje não encontram) ambiente seguro, no laço social. Pensem nisso: medo constante de ser estuprada, de ser atacada. É nesse contexto surreal que se faz um chiste, uma piadinha de penetrar uma mulher com uma bomba de gasolina.

Freud escreve um livro sobre os chistes para dizer que o humor servirá de disfarce, atalho, para fantasias inconscientes. Esse “mas é só uma brincadeira” dos fascistas do humor é o que há de mais sério no que diz respeito à pulsão sexual de morte. Querem fazer rir para disfarçar o indisfarçável desejo de humilhar.

A mídia que divulga isso sem uma contundente crítica é absolutamente conivente com esse sadismo. No portal G1, onde vi as imagens, nenhum comentário, zero de defesa à mulher Dilma. É lamentável que o jornalismo se preste a isso. Divulgar isso sem uma nota de repúdio absoluto é ser conivente com a violência mais covarde que se pode fazer contra a cidadania das mulheres, contra as mulheres.

É um grande erro daqueles que criticam o governo atual silenciar-se diante da crítica a um só tempo hiperbólica e reducionista que se faz ao PT. Esse exemplo é apenas um dentre os muitos filhotes de serpente que já nasceram nas ruas e no Congresso. A crítica que se fecha ao diálogo abre espaço apenas para o fascismo. É um grande erro somar-se à voz de quem vê graça em estupro. Desse tipo de crítica, acreditem, não nascerá nenhuma defesa das mulheres, dos oprimidos, dos sistematicamente “fodidos”. Na verdade, juntar-se aos batedores de panela, aos que acreditam nessa farsa grotesca de reduzir o PT ao que há de pior, dará força apenas àqueles que sempre fuderam os mais pobres.

Longe de mim, como percebem, recusar o que há de sexual na política. É preciso, sempre, denunciar sua presença. Sua onipresença. O desejo de trancafiar crianças, depois de maltratá-las por anos. O desejo de recusar a existência de outros amores que não os heteronormativos. O desejo de educar e/ou punir mulheres estuprando-as… São desejos que andam de mãos dadas. Não se enganem: o inconsciente, o que há de mais mortífero em nós, não descansa jamais. E ele não perdoará a favorável contingência de um ambiente fascista para realizar-se naquilo que ele tem de mais radical, de mais mortífero.