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Atenção alunos de Sociologia do Trabalho!

(Pós em Direito do Trabalho – FDMC)

Cronograma atualizado!

Freud utilizou uma metáfora nos Três Ensaios para enfatizar o caráter contingencial da ligação entre a pulsão e os possíveis objetos através dos quais ela se satisfaz. Ele nos diz que a pulsão se liga ao objeto com uma solda. A metáfora é interessante pois deixa bem claro que não há uma ligação “natural” entre os dois elementos. É uma terceira coisa que intervém para conectar os dois. Pulsão não é instinto justamente nesse sentido: o instinto não precisa de “solda” porque seu objeto já é dado desde o princípio. Ou melhor, seria até mais apropriado dizer que o instinto e o objeto são um só. A própria ideia de que os dois são separados me parece inadequado…

Bom, mas o que quero propor é outra metáfora. Penso que a solda é ainda uma ligação muito forte, muito resistente. De maneira geral, quando soldamos algo, existe uma fixação muito intensa e de difícil desarticulação. Ora, não me parece que seja assim no campo do desejo. Usualmente, o desejo encontra muitos objetos e vários modos de satisfação. Raramente, nos contentamos com uma forma de gozo ou com apenas um objeto de amor. Isso parece ser mais a exceção que a regra.

Existe uma palavra na língua portuguesa, de origem desconhecida, que me parece mais adequada para descrever esse estado de coisas: gambiarra. O que é a gambiarra? É um arranjo contingente, um tipo de solução, geralmente inusitada para a solução de um problema. Um nó, uma amarração com arames, fitas adesivas: qualquer coisa pode ser alvo de ou servir como uma gambiarra. Seu caráter profundamente fluido e imprevisível traduz melhor, penso, a relação entre a pulsão e o objeto.

Relações amorosas são gambiarras. Elas não funcionam como um “encaixe” perfeito, mas como uma amarração, um arranjo. Isso não quer dizer que necessariamente funcionam mal. No dia a dia, temos bons exemplos de gambiarras que “quebram o galho” durante muito tempo.

Há, no entanto, um apelo nostálgico para que as relações amorosas vão além de “segurar as pontas”. A esperança de que uma solda mais potente ou uma ligação mais aguda pudesse evitar os riscos de rompimento ou mal-estares…

Uma psicanálise, talvez, sirva para melhorar essas “soluções de compromisso” – a bela expressão de Freud para descrever o sintoma, isto é, a relação entre a pulsão do eu e a pulsão sexual de morte – torná-las mais interessantes. Melhorar, eu disse: não desfazê-las por completo; não procurar “encaixes perfeitos”… Torná-las mais éticas, mais abertas às contingências, mais abertas à alteridade (interna e externa).

26/07/11

Pessoal, meu livro está à venda online aqui:

http://www.livrariaouvidor.com.br/Sinopse.aspx?id=172748

Divulguem, por favor.

Abraço!

Olá, pessoal! Na terça, dia 17 de maio de 2011, lanço meu livro Sobre o Amor e outros ensaios de Psicanálise e Pragmatismo.

Espero por todos lá na Biblioteca Pública, a partir das 19h!

Divulguem aos possíveis interessados, por favor. Compareçam!

Convite

Interessante a notícia divulgada hoje na Folha (cópia abaixo). O caso é desses que servem para aula de psicanálise: o sujeito teme ser careca. Pois bem: lhe é oferecido finasterida, droga que lhe deixará impotente. O que ele faz? Alguns preferem ser impotentes a perder as madeixas.

Quando a psicanálise nos convida a pensar o sexual de uma forma bem mais ampla que o genital exemplos como esses tornam essa escolha conceitual mais clara. Afinal, “sexual” é a nossa imagem (fartas jubas a denunciar nossa virilidade)… talvez mais sexual que a própria potência genital. É claro: os detratores da psicanálise estarão prontos a dizer: “mas os sujeitos que tomam finasterida não querem ser impotentes! Querem apenas que seus cabelos continuem lá!” Ok, ok, mas a pergunta é: por que, sabendo desse curioso efeito colateral, continuam a tomar o pharmakon?

Minha hipótese é que o narcisismo – esse investimento sexual que fazemos na nossa imagem física e/ou moral – é muito mais importante que o nosso desempenho sexual. A imagem é pública, ela tem muito mais usos eróticos. O desempenho é privado e muitas vezes é “compensado” e substituído pelo desempenho moral e amoroso.

Pensemos no caso da mulher que não abandona seu marido impotente, pois ele sempre foi um bom sujeito. Sua insatisfação genital, por assim dizer, nem de longe se compara à satisfação narcísica (sexual) que seu marido lhe proporciona. Suponhamos ainda, nesse exemplo imaginário, que o sujeito seja um bom pai, que trate bem a esposa, que dê a ela essas outras satisfações que a psicanálise situa do lado da pulsão parcial: a comida, a imagem, a voz, o toque. Uma série de elementos que, no conjunto, podem sim servir de substituto à satisfação genital propriamente dita. Ela estaria errada de fazer essa troca? Para voltar ao caso da finasterida: ela também apoiaria a manutenção das melenas do marido ao invés de exigir mais potência?

Quando a psicanálise nos convida a alargar o conceito de sexual, isto é, de não traduzirmos sexual como sendo apenas o genital, ela está nos convidando a ser mais imaginativos em torno dos fenômenos que nos angustiam e excitam. Pensemos no imenso trabalho que temos pensando no que vamos comer e vestir, por exemplo. A comida é um objeto sexual na medida em que ela também provoca excitação e angústia. Estou comendo demais? Vou ficar gordo? Posso comer animais? Quando e com quem devo comer? Nada disso é simples de se resolver. Da mesma forma, se vestir ou dar-se a ver ao outro também não é simples: como cortar o cabelo, como vestir, como ser uma imagem. Isso também excita, satisfaz e angustia. Ter ou não cabelos é apenas um capítulo dessa história de coisas que fazemos e produzem afetos. Isso poderia ser uma definição de sexual para a psicanálise: a produção de afetos sem uma regra clara – afetos que vão da angústia mais intensa ao prazer mais sublime.

Sansão às avessas: o sujeito adere aos cabelos para perder a força. Mas as coisas não são tão simples assim: a força que ele quer preservar é a do narcisismo, da imagem. Na nossa cultura, talvez mais acentuadamente que em outros momentos da história humana, a imagem vale mais que nosso desempenho físico no amor. Isso ajuda a aumentar nossa definição do sexual: não há instinto que guie, de uma vez por todas, que o investimento libidinal deve ser em tal ou tal direção.

Pra terminar: na mesma edição de hoje da Folha, uma nota assustadora da jornalista Mônica Bergamo diz que “um sutiã cor-de-rosa com bojo de espuma imitando o formato de seios é vendido em tamanho seis (para menina de seis anos) nas Lojas Pernambucanas”. O grotesco é uma das melhores formas de se ver o que é inconsciente na norma: desejar ver seios fartos em meninas de seis anos de idade pode ser tão bizarro quanto preservar os cabelos às custas da potência genital, mas ambos exemplos mostram que a sexualidade, no humano, é feita, em grande medida, de imagem.

São Paulo, quarta-feira, 06 de abril de 2011

Droga para calvície provoca disfunção sexual prolongada

Estudo mostra que medicamento pode causar impotência e perda da libido muito tempo depois da interrupção do uso

Pesquisa contraria bula de remédio, que menciona esses efeitos, mas diz que somem com a descontinuidade

GUILHERME GENESTRETI
DE SÃO PAULO

A finasterida, droga mais usada contra a calvície, pode reduzir a libido e causar impotência mesmo após a suspensão do uso, segundo estudo da Universidade George Washington, nos EUA.
A pesquisa avaliou 71 homens entre 21 e 46 anos que se queixavam das reações. Segundo os autores do trabalho, publicado no “Journal of Sexual Medicine”, os efeitos colaterais persistiam por 40 meses após a interrupção do tratamento, em média.
Foram observados impotência e perda da libido até seis anos após o uso, em um quinto dos pesquisados.
Para o endocrinologista Michael Irwig, um dos autores, os homens devem estar cientes do risco. “O estudo deve mudar a forma como médicos conversam com pacientes sobre a medicação.”
No Brasil, assim como nos EUA, a bula da finasterida menciona a diminuição da libido e a impotência como efeitos colaterais, mas afirma: “Esses efeitos desapareceram nos homens que descontinuaram a terapia e em muitos que mantiveram”.
A Merck Sharp & Dohme, que produz o remédio Propecia, à base de finasterida, contesta a metodologia do estudo (leia nesta página).
A finasterida bloqueia a ação da enzima 5-alfa-redutase, que transforma o hormônio testosterona em DHT (dihidrotestosterona).
Em homens com folículos capilares mais sensíveis à ação da DHT, os fios de cabelo ficam mais finos e caem.
A dihidrotestosterona também atua na estimulação sexual. Ao inibir a produção desse hormônio, a droga pode interferir nessas funções.

SINAL AMARELO
Segundo o cirurgião plástico Marcelo Pitchon, especializado em implantes capilares, a pesquisa lança um “sinal amarelo” no tratamento da calvície. “Sempre se considerou que as funções sexuais voltavam ao normal depois de interrompido o tratamento”, diz. “Agora, precisamos revisar o estudo.”
Elaine Costa, endocrinologista do Hospital das Clínicas de São Paulo, não estranha os efeitos colaterais prolongados. “Bloqueando um hormônio, pode ser que ele demore a voltar ao normal.”
Costa diz que os resultados reforçam a necessidade de analisar o custo-benefício do tratamento. “Cabe discutir se vale retardar a queda e perder um pouco da libido.”
Segundo Jackeline Mota, que coordena a área de cabelos da Sociedade Brasileira de Dermatologia, finasterida é uma boa medicação para a calvície. “Mas, se o médico percebe que o paciente tem disfunção, melhor não usar.”

Ainda estão disponíveis os vídeos das aulas preparatórias para o II CONPDL – que ocorreu no ano passado – na Milton Campos.

Aos possíveis interessados em ler e estudar a Hermenêutica do Sujeito:

http://mural.mcampos.br/servicos/outros/videopalestras.php

Nos primeiros parágrafos da Segunda Dissertação, de Genealogia da Moral, Nietzsche faz uma interessante correlação entre a promessa e a responsabilidade:

Para poder dispor de tal modo do futuro, o quanto não precisou o homem aprender a distinguir o acontecimento casual do necessário, a pensar de maneira causal, a ver e antecipar a coisa distante como sendo presente, a estabelecer com segurança o fim e os meios para o fim, a calcular contar, confiar – para isso, quanto não precisou antes tornar-se ele próprio confiável, constante, necessário, também para si, na sua própria representação, para poder enfim, como faz quem promete, responder por si como porvir! (Nietzsche, 2001 [1887]: 48)

Para Nietzsche, essa é “longa história da origem da responsabilidade”. Ser responsável implica transformar o sujeito “necessário, uniforme, igual entre iguais, constante e, portanto confiável”. O filósofo mostra como “ser responsável” tem várias raízes. Certamente, podemos ver nesse sujeito que se mantém o mesmo alguém interessante, alguém que pode se contrapor à moral dos costumes. Mas, o sujeito incapaz de esquecer uma dívida, em muitos sentidos, é também um sujeito incapaz de mudar. O sujeito responsável está muito próximo do devedor que pode sofrer na mão do credor.

A discussão, claro, é bastante complexa e se relaciona com outros aspectos da filosofia de Nietzsche. O que me interessa aqui é destacar, mais uma vez, que a noção de responsabilidade, na filosofia moral clássica, não leva em conta essa genealogia que Nietzsche, a seu modo, e a psicanálise, de outras formas, tentam fazer aparecer. Voltemos à Primeira Dissertação, numa famosa passagem:

(…) A fraqueza é mentirosamente mudada em mérito, não há dúvida (…)  e a impotência que não acerta contas é mudada em ‘bondade’; a baixeza medrosa, em ‘humildade’; a submissão àqueles que se odeia em ‘obediência’ (há alguém que dizem impor essa submissão – chamam-no Deus). O que há de inofensivo no fraco, a própria covardia na qual é pródigo, seu aguardar-na-porta, seu inevitável ter-de-esperar, recebe aqui o bom nome de ‘paciência’, chama-se também a virtude; o não-poder-vingar-se chama-se não-querer-vingar-se, talvez mesmo perdão (…). (Nietzsche, 2001 [1887]: 38)

Um pouco mais adiante, Nietzsche cita Tomás de Aquino, “suave como um cordeiro”: “os abençoados no reino dos céus verão as penas dos danados, para que sua beatitude lhes dê maior satisfação” (apud. Nietzsche, 2001 [1887]: 40). Essa frase deixa bem claro uma ideia que me parece muito próxima da psicanálise: o que parece apenas virtude é também, no inconsciente, desejo comprometido com uma satisfação sexual inaudita, infantil e perversa. Ser responsável muitas vezes é garantido pelo desejo inconsciente de ver os irresponsáveis “penando”.

O ponto é: aquele sujeito responsável – o plenamente capaz de fazer promessas – no auge de sua suposta autonomia, de sua “constância”, de sua “confiabilidade”… deve admitir que não é tão inteiro assim. Talvez, o sujeito da psicanálise não seja tanto o sujeito da promessa – tão requisitado pela religião, como sabemos (quem não se lembra de Dias Gomes e seu pagador de promessa?) – mas o sujeito de uma resposta ao outro que pode mudar pela via da elaboração. Nem tanto a ausência de um com-prometimento, mas o reconhecimento de que exigir garantias eternas do que se diz ou do que se deseja é perder, de forma radical, a possibilidade de novos arranjos junto ao outro.

Esse é mais um dos temas que pode ser explorado no III Congresso Nacional de Psicanálise, Direito e Literatura. Participe!

Fábio Belo, 05/03/11

Muitas vezes, quando algumas pessoas querem terminar uma relação amorosa, mas não querem assumir a responsabilidade dessa experiência, devaneiam que seu objeto de amor poderia morrer, dessa forma, a livrariam do fardo e do mal-estar de dirigir a ele o fim do seu desejo.

Obviamente, uma fantasia desse tipo – a morte de nosso objeto de amor – possui infinitas interpretações. Quero pensar aqui apenas nesse contexto: desejo o fim da relação amorosa e não tenho coragem de endereçar ao outro isso que penso.

Para pensar no tema desse III CONPDL – responsabilidade e resposta – imagino as possíveis relações entre a morte, a reposta e o amor.

Desejar a morte do outro, mesmo estando bastante longe de qualquer tentativa de realizar essa fantasia na realidade, é uma resposta que parece tomar a via do infantil. Fazer desaparecer o outro é uma resposta sem restos. O ódio, no limite, é uma resposta que se quer pelo avesso: reposta para não responder.

A difícil tarefa de endereçar ao outro o mal-estar que ele nos produz sempre deixa restos. O outro interno – nossos desejos inconscientes – já é demasiadamente exigente.

Pensem também quando esse devaneio atormenta os enamorados: imaginamos a morte da pessoa amada e isso produz uma intensa angústia. Nesse caso, talvez o devaneio indica a impossibilidade de tomarmos a completa responsabilidade pelo outro. A todo momento ele nos escapa.

É bastante impressionante como usamos a morte do outro como um marcador moral. “Se ele morrer, nada sou”; “se ela morrer, poderei viver uma outra vida”; “o que seria de mim, sem ele(a)?”; “deverei continuar a amá-lo(a) depois de sua morte?”. O que me parece importante é lembrar, a partir da psicanálise, que a morte… nem sempre é o que parece.

Envie seu texto! Participe do III CONPDL!