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São Paulo, terça-feira, 18 de outubro de 2011
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Estamos dando veneno para as crianças

MÉDICA ATACA INDÚSTRIA POR ESTIMULAR USO DE REMÉDIOS PSIQUIÁTRICOS PARA PACIENTES INFANTIS

Jodi Hilton – 23.jan.2009/The New York Times”

A médica americana Marcia Angell, 72, ex-editora da revista especializada “NEJM” e autora do livro “A Verdade sobre os Laboratórios Farmacêuticos”

CLÁUDIA COLLUCCI
DE WASHINGTON

Primeira mulher a ocupar o cargo de editora-chefe no bicentenário “New England Journal of Medicine”, a médica Marcia Angell já foi considerada pela revista “Time” uma das 25 personalidades mais influentes nos EUA.
Desde 2004, Angell, 72, é conhecida como a mulher que tirou o sossego da indústria farmacêutica e de muitos médicos e pesquisadores que trabalham na área.
Naquele ano, ela publicou a explosiva obra “A Verdade sobre os Laboratórios Farmacêuticos”, que desnuda o mercado de medicamentos.
Usando da experiência de duas décadas de trabalho no “NEJM”, ela conta, por exemplo, como os laboratórios se afastaram de sua missão original de descobrir e fabricar remédios úteis para se transformar em gigantescas máquinas de marketing.
Professora do Departamento de Medicina Social da Universidade Harvard, Angell é autora de vários artigos e livros que questionam a ética na prática e na pesquisa clínica. Tornou-se também uma crítica ferrenha do sistema de saúde americano.
Tem se dedicado a escrever artigos alertando sobre o excesso de prescrição de drogas antipsicóticas, especialmente entre crianças. “Estamos dando veneno para as pessoas mais vulneráveis da sociedade”, diz ela.
Mãe de duas filhas e avó de gêmeos de oito meses, ela diz que recebe muitos convites para vir ao Brasil, mas se vê obrigada a recusá-los. “Não suporto a ideia de passar horas e horas dentro de um avião.” A seguir, trechos da entrevista exclusiva que ela concedeu à Folha.


Folha – Houve alguma mudança no cenário dos conflitos de interesses entre médicos e indústria farmacêutica desde a publicação do seu livro?
Marcia Angell – Não. Os fatos continuam os mesmos. Talvez as pessoas estejam mais atentas. Há mais discussão, reportagens, livros, artigos acadêmicos sobre esses conflitos, então eles parecem estar mais sutis do que eram no passado. Mas é claro que as companhias farmacêuticas sempre encontram uma forma de manter o lucro.

E os pacientes? Algumas pesquisas mostram eles parecem não se importar muito com essas questões.
Em geral, os pacientes confiam cegamente nos seus médicos. Eles não querem ver esses problemas.
Além disso, as pessoas sempre acreditam que os medicamentos sejam muito mais eficazes do que eles realmente são. Até porque somente estudos positivos são projetados e publicados.
A mídia, os pacientes e mesmo muitos médicos acreditam no que esses estudos publicam. As pessoas creem que as drogas sejam mágicas. Para todas as doenças, para toda infelicidade, existe uma droga. A pessoa vai ao médico e o médico diz: “Você precisa perder peso, fazer mais exercícios”. E a pessoa diz: “Eu prefiro o remédio”.
E os médicos andam tão ocupados, as consultas são tão rápidas, que ele faz a prescrição. Os pacientes acham o médico sério, confiável, quando ele faz isso.
Pacientes têm de ser educados para o fato de que não existem soluções mágicas para os seus problemas. Drogas têm efeitos colaterais que, muitas vezes, são piores do que o problema de base.

A sra. tem escrito artigos sobre o excesso de prescrições na área da psiquiatria. Essa seria hoje uma das especialidades médicas mais conflituosas?
Penso que sim. Há hoje um evidente abuso na prescrição de drogas psiquiátricas, especialmente para crianças.
Crianças que têm problemas de comportamento ou problemas familiares vão até o médico e saem de lá com diagnóstico de transtorno bipolar, ou TDAH [transtorno de déficit de atenção e hiperatividade]. E é claro que tem o dedo da indústria estimulando os médicos a fazer mais e mais diagnósticos.
Às vezes, a criança chega a usar quatro, seis drogas diferentes porque uma dá muitos efeitos colaterais, a outra não reduz os sintomas e outras as deixam ainda mais doentes.
Drogas antipsicóticas estão claramente associadas ao diabetes e à síndrome metabólica. Estamos dando veneno para as pessoas mais vulneráveis da sociedade.
Pessoas que acham que isso não é assim tão terrível sempre argumentam comigo que essas crianças, em geral, chegaram a um estado tão ruim que algo precisa ser feito. Mas isso não é argumento.

Hoje, fala-se muito em medicina personalizada. Na oncologia, há uma aposta de que drogas desenvolvidas para grupos específicos de pacientes serão uma arma eficaz no combate ao câncer. A sra. acredita nessa possibilidade?
Para mim, isso é só propaganda. Não faz o menor sentido uma companhia farmacêutica desenvolver uma droga para um pequeno número de pessoas. E que sistema de saúde aguentaria pagar preços tão altos?

Algumas escolas de medicina nos EUA começaram a cortar subsídios da indústria farmacêutica e de equipamentos na educação médica continuada. No Brasil, essa dependência é ainda muito forte. É preciso eliminar por completo esse vínculo ou há uma chance de conciliar esses interesses?
Deve ser completamente eliminado. Professores pagam para fazer cursos de educação continuada, advogados fazem o mesmo, por que os médicos não podem? A diferença é que você não precisa ir a um resort no Havaí para ter educação médica continuada. É preciso pensar em modelos de capacitação mais modestos. E, com a internet, todos os países, mesmo os pobres ou em desenvolvimento, podem fazer isso. A educação médica não pode ser financiada por quem tem interesse comercial no conteúdo dessa educação.

Se você quer saber o que é pragmatismo, sugiro um texto introdutório de Richard Rorty.

Rorty, Richard. Pragmatismo. In Carrilho, Manuel Maria (Dir.). Dicionário do pensamento contemporâneo. Lisboa: Publicações D. Quixote, 1991, pp. 265-277.

Nessa pasta do 4shared, procure por Rorty Pragmatismo.pdf

Tenho o prazer de fazer parte de um grupo que se reúne anualmente para discutir um romance tendo em vista a relação da psicanálise, do direito e da literatura. O Núcleo de Direito e Psicanálise, da UFPR, tem se mostrado um espaço aberto e interdisciplinar, como deveria ser todo espaço de debate intelectual abrigado numa Universidade Pública. Nessas reuniões, o debate franco e a troca de ideias não presta serviço às “igrejas” teóricas, nem tampouco assinam o famigerado “pacto da mediocridade” que demanda compadrio e cordialidade sem debate real. Quero expressar aqui, publicamente, meu agradecimento ao Prof. Jacinto Coutinho e aos demais colegas do grupo por me presentearem com essa oportunidade de troca cada vez mais rara no campo do saber universitário e das escolas de psicanálise.

Na reunião desse ano (2011), discutimos o romance O Leitor, de Bernard Schlink. A discussão foi excelente justamente por ter feito aparecer duas vertentes teóricas, duas leituras, do romance. Tentei capturar o essencial disso no meu texto que exponho aqui ao debate.

Aqueles que desejarem: leiam meu texto e mandem seus comentários. O debate está aberto!

Atenção alunos de Sociologia do Trabalho!

(Pós em Direito do Trabalho – FDMC)

Cronograma atualizado!

Freud utilizou uma metáfora nos Três Ensaios para enfatizar o caráter contingencial da ligação entre a pulsão e os possíveis objetos através dos quais ela se satisfaz. Ele nos diz que a pulsão se liga ao objeto com uma solda. A metáfora é interessante pois deixa bem claro que não há uma ligação “natural” entre os dois elementos. É uma terceira coisa que intervém para conectar os dois. Pulsão não é instinto justamente nesse sentido: o instinto não precisa de “solda” porque seu objeto já é dado desde o princípio. Ou melhor, seria até mais apropriado dizer que o instinto e o objeto são um só. A própria ideia de que os dois são separados me parece inadequado…

Bom, mas o que quero propor é outra metáfora. Penso que a solda é ainda uma ligação muito forte, muito resistente. De maneira geral, quando soldamos algo, existe uma fixação muito intensa e de difícil desarticulação. Ora, não me parece que seja assim no campo do desejo. Usualmente, o desejo encontra muitos objetos e vários modos de satisfação. Raramente, nos contentamos com uma forma de gozo ou com apenas um objeto de amor. Isso parece ser mais a exceção que a regra.

Existe uma palavra na língua portuguesa, de origem desconhecida, que me parece mais adequada para descrever esse estado de coisas: gambiarra. O que é a gambiarra? É um arranjo contingente, um tipo de solução, geralmente inusitada para a solução de um problema. Um nó, uma amarração com arames, fitas adesivas: qualquer coisa pode ser alvo de ou servir como uma gambiarra. Seu caráter profundamente fluido e imprevisível traduz melhor, penso, a relação entre a pulsão e o objeto.

Relações amorosas são gambiarras. Elas não funcionam como um “encaixe” perfeito, mas como uma amarração, um arranjo. Isso não quer dizer que necessariamente funcionam mal. No dia a dia, temos bons exemplos de gambiarras que “quebram o galho” durante muito tempo.

Há, no entanto, um apelo nostálgico para que as relações amorosas vão além de “segurar as pontas”. A esperança de que uma solda mais potente ou uma ligação mais aguda pudesse evitar os riscos de rompimento ou mal-estares…

Uma psicanálise, talvez, sirva para melhorar essas “soluções de compromisso” – a bela expressão de Freud para descrever o sintoma, isto é, a relação entre a pulsão do eu e a pulsão sexual de morte – torná-las mais interessantes. Melhorar, eu disse: não desfazê-las por completo; não procurar “encaixes perfeitos”… Torná-las mais éticas, mais abertas às contingências, mais abertas à alteridade (interna e externa).

26/07/11

Pessoal, meu livro está à venda online aqui:

http://www.livrariaouvidor.com.br/Sinopse.aspx?id=172748

Divulguem, por favor.

Abraço!

Olá, pessoal! Na terça, dia 17 de maio de 2011, lanço meu livro Sobre o Amor e outros ensaios de Psicanálise e Pragmatismo.

Espero por todos lá na Biblioteca Pública, a partir das 19h!

Divulguem aos possíveis interessados, por favor. Compareçam!

Convite

Interessante a notícia divulgada hoje na Folha (cópia abaixo). O caso é desses que servem para aula de psicanálise: o sujeito teme ser careca. Pois bem: lhe é oferecido finasterida, droga que lhe deixará impotente. O que ele faz? Alguns preferem ser impotentes a perder as madeixas.

Quando a psicanálise nos convida a pensar o sexual de uma forma bem mais ampla que o genital exemplos como esses tornam essa escolha conceitual mais clara. Afinal, “sexual” é a nossa imagem (fartas jubas a denunciar nossa virilidade)… talvez mais sexual que a própria potência genital. É claro: os detratores da psicanálise estarão prontos a dizer: “mas os sujeitos que tomam finasterida não querem ser impotentes! Querem apenas que seus cabelos continuem lá!” Ok, ok, mas a pergunta é: por que, sabendo desse curioso efeito colateral, continuam a tomar o pharmakon?

Minha hipótese é que o narcisismo – esse investimento sexual que fazemos na nossa imagem física e/ou moral – é muito mais importante que o nosso desempenho sexual. A imagem é pública, ela tem muito mais usos eróticos. O desempenho é privado e muitas vezes é “compensado” e substituído pelo desempenho moral e amoroso.

Pensemos no caso da mulher que não abandona seu marido impotente, pois ele sempre foi um bom sujeito. Sua insatisfação genital, por assim dizer, nem de longe se compara à satisfação narcísica (sexual) que seu marido lhe proporciona. Suponhamos ainda, nesse exemplo imaginário, que o sujeito seja um bom pai, que trate bem a esposa, que dê a ela essas outras satisfações que a psicanálise situa do lado da pulsão parcial: a comida, a imagem, a voz, o toque. Uma série de elementos que, no conjunto, podem sim servir de substituto à satisfação genital propriamente dita. Ela estaria errada de fazer essa troca? Para voltar ao caso da finasterida: ela também apoiaria a manutenção das melenas do marido ao invés de exigir mais potência?

Quando a psicanálise nos convida a alargar o conceito de sexual, isto é, de não traduzirmos sexual como sendo apenas o genital, ela está nos convidando a ser mais imaginativos em torno dos fenômenos que nos angustiam e excitam. Pensemos no imenso trabalho que temos pensando no que vamos comer e vestir, por exemplo. A comida é um objeto sexual na medida em que ela também provoca excitação e angústia. Estou comendo demais? Vou ficar gordo? Posso comer animais? Quando e com quem devo comer? Nada disso é simples de se resolver. Da mesma forma, se vestir ou dar-se a ver ao outro também não é simples: como cortar o cabelo, como vestir, como ser uma imagem. Isso também excita, satisfaz e angustia. Ter ou não cabelos é apenas um capítulo dessa história de coisas que fazemos e produzem afetos. Isso poderia ser uma definição de sexual para a psicanálise: a produção de afetos sem uma regra clara – afetos que vão da angústia mais intensa ao prazer mais sublime.

Sansão às avessas: o sujeito adere aos cabelos para perder a força. Mas as coisas não são tão simples assim: a força que ele quer preservar é a do narcisismo, da imagem. Na nossa cultura, talvez mais acentuadamente que em outros momentos da história humana, a imagem vale mais que nosso desempenho físico no amor. Isso ajuda a aumentar nossa definição do sexual: não há instinto que guie, de uma vez por todas, que o investimento libidinal deve ser em tal ou tal direção.

Pra terminar: na mesma edição de hoje da Folha, uma nota assustadora da jornalista Mônica Bergamo diz que “um sutiã cor-de-rosa com bojo de espuma imitando o formato de seios é vendido em tamanho seis (para menina de seis anos) nas Lojas Pernambucanas”. O grotesco é uma das melhores formas de se ver o que é inconsciente na norma: desejar ver seios fartos em meninas de seis anos de idade pode ser tão bizarro quanto preservar os cabelos às custas da potência genital, mas ambos exemplos mostram que a sexualidade, no humano, é feita, em grande medida, de imagem.

São Paulo, quarta-feira, 06 de abril de 2011

Droga para calvície provoca disfunção sexual prolongada

Estudo mostra que medicamento pode causar impotência e perda da libido muito tempo depois da interrupção do uso

Pesquisa contraria bula de remédio, que menciona esses efeitos, mas diz que somem com a descontinuidade

GUILHERME GENESTRETI
DE SÃO PAULO

A finasterida, droga mais usada contra a calvície, pode reduzir a libido e causar impotência mesmo após a suspensão do uso, segundo estudo da Universidade George Washington, nos EUA.
A pesquisa avaliou 71 homens entre 21 e 46 anos que se queixavam das reações. Segundo os autores do trabalho, publicado no “Journal of Sexual Medicine”, os efeitos colaterais persistiam por 40 meses após a interrupção do tratamento, em média.
Foram observados impotência e perda da libido até seis anos após o uso, em um quinto dos pesquisados.
Para o endocrinologista Michael Irwig, um dos autores, os homens devem estar cientes do risco. “O estudo deve mudar a forma como médicos conversam com pacientes sobre a medicação.”
No Brasil, assim como nos EUA, a bula da finasterida menciona a diminuição da libido e a impotência como efeitos colaterais, mas afirma: “Esses efeitos desapareceram nos homens que descontinuaram a terapia e em muitos que mantiveram”.
A Merck Sharp & Dohme, que produz o remédio Propecia, à base de finasterida, contesta a metodologia do estudo (leia nesta página).
A finasterida bloqueia a ação da enzima 5-alfa-redutase, que transforma o hormônio testosterona em DHT (dihidrotestosterona).
Em homens com folículos capilares mais sensíveis à ação da DHT, os fios de cabelo ficam mais finos e caem.
A dihidrotestosterona também atua na estimulação sexual. Ao inibir a produção desse hormônio, a droga pode interferir nessas funções.

SINAL AMARELO
Segundo o cirurgião plástico Marcelo Pitchon, especializado em implantes capilares, a pesquisa lança um “sinal amarelo” no tratamento da calvície. “Sempre se considerou que as funções sexuais voltavam ao normal depois de interrompido o tratamento”, diz. “Agora, precisamos revisar o estudo.”
Elaine Costa, endocrinologista do Hospital das Clínicas de São Paulo, não estranha os efeitos colaterais prolongados. “Bloqueando um hormônio, pode ser que ele demore a voltar ao normal.”
Costa diz que os resultados reforçam a necessidade de analisar o custo-benefício do tratamento. “Cabe discutir se vale retardar a queda e perder um pouco da libido.”
Segundo Jackeline Mota, que coordena a área de cabelos da Sociedade Brasileira de Dermatologia, finasterida é uma boa medicação para a calvície. “Mas, se o médico percebe que o paciente tem disfunção, melhor não usar.”