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Folha de São Paulo, quinta-feira, 10 de novembro de 2011

CONTARDO CALLIGARIS

Homofobia e homossexualidade

Experiência mostra que indivíduos homofóbicos sentem excitação diante a de estímulos homossexuais

Desde o fim do ano passado, em São Paulo, assistimos a uma série de ataques brutais contra homossexuais ou homens que seriam homossexuais aos olhos de seus agressores.

No fim de 2010, por decreto da Presidência da República, foi estabelecida a finalidade do Conselho Nacional de Combate à Discriminação e Promoção dos Direitos de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (parte da Secretaria de Direitos Humanos).

Mais recentemente, o Supremo Tribunal Federal reconheceu a união entre pessoas do mesmo sexo como unidade familiar. Não me surpreende que uma explosão de homofobia aconteça logo agora, pois, em geral, o ódio discriminatório aumenta de maneira diretamente proporcional aos avanços da tolerância.

Funciona assim: quanto mais sou forçado a aceitar o outro como igual a mim, tanto mais, num âmago que mal reprimo, eu o odeio e quero acabar com ele. Mas por que eu preferiria que o outro se mantivesse diferente de mim? Por que não quero reconhecê-lo como igual? O termo de homofobia, inventado no fim dos 1960, designa, mais que um preconceito, uma reação emocional à presença de homossexuais (ou presumidos homossexuais), num leque que vai do desconforto à ansiedade, ao medo e, por fim, à raiva e à agressão.

Numa entrevista na “Trip” de outubro (http://migre.me/6563w), apresentei a explicação clássica da homofobia do ponto de vista da psicanálise: “Quando as minhas reações são excessivas, deslocadas e difíceis de serem justificadas é porque emanam de um conflito interno. Por que afinal me incomodaria meu vizinho ser homossexual e beijar outro homem na boca? De forma simples, o que acontece é: ‘Estou com dificuldades de conter a minha própria homossexualidade, então acho mais fácil tentar reprimir a homossexualidade dos outros, ou seja, condená-la, persegui-la e reprimi-la, se possível até fisicamente, porque isso me ajuda a conter a minha’”.

Exemplo: se eu sinto (e não quero sentir) atração por um colega de classe do mesmo sexo, o jeito, para me convencer que não sinto atração alguma, é chamar esse colega de veado, juntar um grupo que, como eu, odeie homossexuais e esperar o colega na saída da escola para enchê-lo de porradas.

Um amigo me perguntou se essa interpretação da homofobia não era sobretudo uma forma de vingança: você gosta de agredir homossexuais pelas ruas da cidade? Olhe o que isso significa: você mesmo é homossexual. Gostou? O amigo continuou: “Isso não é bonito demais para ser verdade?”.

Pois bem, anos atrás, pesquisadores da Universidade da Georgia selecionaram 64 homens que (na escala Kinsey) se apresentavam como sendo exclusivamente heterossexuais. Todos foram testados por uma entrevista (clássica, o IHP) que estabelece o índice de homofobia, de 0 a 100. Com isso, foram compostos dois grupos: os não homofóbicos (IHP de 0 a 50) e os homofóbicos (IHP de 50 a 100).

Nota: chama-se pletismógrafo um instrumento com o qual se registram as modificações de tamanho de uma parte do corpo. Pois bem, todos vestiram um pletismógrafo peniano, graças ao qual qualquer ereção, até incipiente e mínima, seria medida e registrada. Depois disso, todos os 64 foram expostos a vídeos pornográficos de quatro minutos mostrando atividade sexual consensual entre adultos heterossexuais, homossexuais masculinos e homossexuais femininos.

À diferença do que aconteceu com o grupo de controle (ou seja, com os não homofóbicos), a maioria dos homofóbicos teve tumescência e ereção significativas diante dos vídeos de sexo entre homossexuais masculinos. Confirmando a interpretação da psicologia dinâmica: indivíduos homofóbicos demonstram excitação sexual diante de estímulos homossexuais.

Existe a possibilidade de que a excitação manifestada pelos homofóbicos seja efeito, por exemplo, de sua vontade de quebrar a cabeça dos protagonistas dos vídeos -existe, mas é remota (porque os 64 indivíduos da amostra passaram todos por um questionário que mede a agressividade, e ninguém se mostrou especialmente agressivo).

Para quem quiser conferir, a pesquisa, de Henry E. Adams e outros, foi publicada no “Journal of Abnormal Psychology” (1996, vol. 105, n.3), com o título “Is Homophobia Associated with Homosexual Arousal?” (a homofobia é associada à excitação homossexual?) e é acessível na internet:http://migre.me/656Z4.

Uma boa alma disponibiliza online o dicionário de psicanálise, de Roudinesco e Plon, em pdf:

Clique aqui.

Podemos ver as não coisas propostas por Flusser não apenas como a informação. Propomos pensá-las paradigmaticamente como a representação. Nossa cultura nos convida ao excesso de representações na forma do que Débord chamou espetáculo. Contrariamente a esse movimento, a arte contemporânea tem mostrado como as coisas só ganham sentido historicamente e de forma contingencial. Ao contrário do que a cultura do espetáculo deseja reiterar, alguns artistas tem tentado mostrar que é o uso e o sentido, muito mais do que a própria coisa, o que importa. Nas fotografias de Rulfo isso aparece de forma clara. Importante ressaltar que essa crítica não é a tentativa de um retorno à natureza ou à metafísica das coisas. Interpretamos esse movimento da arte contemporânea muito mais como resistência política, pois ele esclarece as motivações históricas e políticas dos lugares que as coisas ocupam em nosso mundo.

Leia o texto completo aqui.

São Paulo, terça-feira, 18 de outubro de 2011
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Estamos dando veneno para as crianças

MÉDICA ATACA INDÚSTRIA POR ESTIMULAR USO DE REMÉDIOS PSIQUIÁTRICOS PARA PACIENTES INFANTIS

Jodi Hilton – 23.jan.2009/The New York Times”

A médica americana Marcia Angell, 72, ex-editora da revista especializada “NEJM” e autora do livro “A Verdade sobre os Laboratórios Farmacêuticos”

CLÁUDIA COLLUCCI
DE WASHINGTON

Primeira mulher a ocupar o cargo de editora-chefe no bicentenário “New England Journal of Medicine”, a médica Marcia Angell já foi considerada pela revista “Time” uma das 25 personalidades mais influentes nos EUA.
Desde 2004, Angell, 72, é conhecida como a mulher que tirou o sossego da indústria farmacêutica e de muitos médicos e pesquisadores que trabalham na área.
Naquele ano, ela publicou a explosiva obra “A Verdade sobre os Laboratórios Farmacêuticos”, que desnuda o mercado de medicamentos.
Usando da experiência de duas décadas de trabalho no “NEJM”, ela conta, por exemplo, como os laboratórios se afastaram de sua missão original de descobrir e fabricar remédios úteis para se transformar em gigantescas máquinas de marketing.
Professora do Departamento de Medicina Social da Universidade Harvard, Angell é autora de vários artigos e livros que questionam a ética na prática e na pesquisa clínica. Tornou-se também uma crítica ferrenha do sistema de saúde americano.
Tem se dedicado a escrever artigos alertando sobre o excesso de prescrição de drogas antipsicóticas, especialmente entre crianças. “Estamos dando veneno para as pessoas mais vulneráveis da sociedade”, diz ela.
Mãe de duas filhas e avó de gêmeos de oito meses, ela diz que recebe muitos convites para vir ao Brasil, mas se vê obrigada a recusá-los. “Não suporto a ideia de passar horas e horas dentro de um avião.” A seguir, trechos da entrevista exclusiva que ela concedeu à Folha.


Folha – Houve alguma mudança no cenário dos conflitos de interesses entre médicos e indústria farmacêutica desde a publicação do seu livro?
Marcia Angell – Não. Os fatos continuam os mesmos. Talvez as pessoas estejam mais atentas. Há mais discussão, reportagens, livros, artigos acadêmicos sobre esses conflitos, então eles parecem estar mais sutis do que eram no passado. Mas é claro que as companhias farmacêuticas sempre encontram uma forma de manter o lucro.

E os pacientes? Algumas pesquisas mostram eles parecem não se importar muito com essas questões.
Em geral, os pacientes confiam cegamente nos seus médicos. Eles não querem ver esses problemas.
Além disso, as pessoas sempre acreditam que os medicamentos sejam muito mais eficazes do que eles realmente são. Até porque somente estudos positivos são projetados e publicados.
A mídia, os pacientes e mesmo muitos médicos acreditam no que esses estudos publicam. As pessoas creem que as drogas sejam mágicas. Para todas as doenças, para toda infelicidade, existe uma droga. A pessoa vai ao médico e o médico diz: “Você precisa perder peso, fazer mais exercícios”. E a pessoa diz: “Eu prefiro o remédio”.
E os médicos andam tão ocupados, as consultas são tão rápidas, que ele faz a prescrição. Os pacientes acham o médico sério, confiável, quando ele faz isso.
Pacientes têm de ser educados para o fato de que não existem soluções mágicas para os seus problemas. Drogas têm efeitos colaterais que, muitas vezes, são piores do que o problema de base.

A sra. tem escrito artigos sobre o excesso de prescrições na área da psiquiatria. Essa seria hoje uma das especialidades médicas mais conflituosas?
Penso que sim. Há hoje um evidente abuso na prescrição de drogas psiquiátricas, especialmente para crianças.
Crianças que têm problemas de comportamento ou problemas familiares vão até o médico e saem de lá com diagnóstico de transtorno bipolar, ou TDAH [transtorno de déficit de atenção e hiperatividade]. E é claro que tem o dedo da indústria estimulando os médicos a fazer mais e mais diagnósticos.
Às vezes, a criança chega a usar quatro, seis drogas diferentes porque uma dá muitos efeitos colaterais, a outra não reduz os sintomas e outras as deixam ainda mais doentes.
Drogas antipsicóticas estão claramente associadas ao diabetes e à síndrome metabólica. Estamos dando veneno para as pessoas mais vulneráveis da sociedade.
Pessoas que acham que isso não é assim tão terrível sempre argumentam comigo que essas crianças, em geral, chegaram a um estado tão ruim que algo precisa ser feito. Mas isso não é argumento.

Hoje, fala-se muito em medicina personalizada. Na oncologia, há uma aposta de que drogas desenvolvidas para grupos específicos de pacientes serão uma arma eficaz no combate ao câncer. A sra. acredita nessa possibilidade?
Para mim, isso é só propaganda. Não faz o menor sentido uma companhia farmacêutica desenvolver uma droga para um pequeno número de pessoas. E que sistema de saúde aguentaria pagar preços tão altos?

Algumas escolas de medicina nos EUA começaram a cortar subsídios da indústria farmacêutica e de equipamentos na educação médica continuada. No Brasil, essa dependência é ainda muito forte. É preciso eliminar por completo esse vínculo ou há uma chance de conciliar esses interesses?
Deve ser completamente eliminado. Professores pagam para fazer cursos de educação continuada, advogados fazem o mesmo, por que os médicos não podem? A diferença é que você não precisa ir a um resort no Havaí para ter educação médica continuada. É preciso pensar em modelos de capacitação mais modestos. E, com a internet, todos os países, mesmo os pobres ou em desenvolvimento, podem fazer isso. A educação médica não pode ser financiada por quem tem interesse comercial no conteúdo dessa educação.

Se você quer saber o que é pragmatismo, sugiro um texto introdutório de Richard Rorty.

Rorty, Richard. Pragmatismo. In Carrilho, Manuel Maria (Dir.). Dicionário do pensamento contemporâneo. Lisboa: Publicações D. Quixote, 1991, pp. 265-277.

Nessa pasta do 4shared, procure por Rorty Pragmatismo.pdf

Tenho o prazer de fazer parte de um grupo que se reúne anualmente para discutir um romance tendo em vista a relação da psicanálise, do direito e da literatura. O Núcleo de Direito e Psicanálise, da UFPR, tem se mostrado um espaço aberto e interdisciplinar, como deveria ser todo espaço de debate intelectual abrigado numa Universidade Pública. Nessas reuniões, o debate franco e a troca de ideias não presta serviço às “igrejas” teóricas, nem tampouco assinam o famigerado “pacto da mediocridade” que demanda compadrio e cordialidade sem debate real. Quero expressar aqui, publicamente, meu agradecimento ao Prof. Jacinto Coutinho e aos demais colegas do grupo por me presentearem com essa oportunidade de troca cada vez mais rara no campo do saber universitário e das escolas de psicanálise.

Na reunião desse ano (2011), discutimos o romance O Leitor, de Bernard Schlink. A discussão foi excelente justamente por ter feito aparecer duas vertentes teóricas, duas leituras, do romance. Tentei capturar o essencial disso no meu texto que exponho aqui ao debate.

Aqueles que desejarem: leiam meu texto e mandem seus comentários. O debate está aberto!

Atenção alunos de Sociologia do Trabalho!

(Pós em Direito do Trabalho – FDMC)

Cronograma atualizado!

Freud utilizou uma metáfora nos Três Ensaios para enfatizar o caráter contingencial da ligação entre a pulsão e os possíveis objetos através dos quais ela se satisfaz. Ele nos diz que a pulsão se liga ao objeto com uma solda. A metáfora é interessante pois deixa bem claro que não há uma ligação “natural” entre os dois elementos. É uma terceira coisa que intervém para conectar os dois. Pulsão não é instinto justamente nesse sentido: o instinto não precisa de “solda” porque seu objeto já é dado desde o princípio. Ou melhor, seria até mais apropriado dizer que o instinto e o objeto são um só. A própria ideia de que os dois são separados me parece inadequado…

Bom, mas o que quero propor é outra metáfora. Penso que a solda é ainda uma ligação muito forte, muito resistente. De maneira geral, quando soldamos algo, existe uma fixação muito intensa e de difícil desarticulação. Ora, não me parece que seja assim no campo do desejo. Usualmente, o desejo encontra muitos objetos e vários modos de satisfação. Raramente, nos contentamos com uma forma de gozo ou com apenas um objeto de amor. Isso parece ser mais a exceção que a regra.

Existe uma palavra na língua portuguesa, de origem desconhecida, que me parece mais adequada para descrever esse estado de coisas: gambiarra. O que é a gambiarra? É um arranjo contingente, um tipo de solução, geralmente inusitada para a solução de um problema. Um nó, uma amarração com arames, fitas adesivas: qualquer coisa pode ser alvo de ou servir como uma gambiarra. Seu caráter profundamente fluido e imprevisível traduz melhor, penso, a relação entre a pulsão e o objeto.

Relações amorosas são gambiarras. Elas não funcionam como um “encaixe” perfeito, mas como uma amarração, um arranjo. Isso não quer dizer que necessariamente funcionam mal. No dia a dia, temos bons exemplos de gambiarras que “quebram o galho” durante muito tempo.

Há, no entanto, um apelo nostálgico para que as relações amorosas vão além de “segurar as pontas”. A esperança de que uma solda mais potente ou uma ligação mais aguda pudesse evitar os riscos de rompimento ou mal-estares…

Uma psicanálise, talvez, sirva para melhorar essas “soluções de compromisso” – a bela expressão de Freud para descrever o sintoma, isto é, a relação entre a pulsão do eu e a pulsão sexual de morte – torná-las mais interessantes. Melhorar, eu disse: não desfazê-las por completo; não procurar “encaixes perfeitos”… Torná-las mais éticas, mais abertas às contingências, mais abertas à alteridade (interna e externa).

26/07/11

Pessoal, meu livro está à venda online aqui:

http://www.livrariaouvidor.com.br/Sinopse.aspx?id=172748

Divulguem, por favor.

Abraço!

Olá, pessoal! Na terça, dia 17 de maio de 2011, lanço meu livro Sobre o Amor e outros ensaios de Psicanálise e Pragmatismo.

Espero por todos lá na Biblioteca Pública, a partir das 19h!

Divulguem aos possíveis interessados, por favor. Compareçam!

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