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Interessante a notícia divulgada hoje na Folha (cópia abaixo). O caso é desses que servem para aula de psicanálise: o sujeito teme ser careca. Pois bem: lhe é oferecido finasterida, droga que lhe deixará impotente. O que ele faz? Alguns preferem ser impotentes a perder as madeixas.

Quando a psicanálise nos convida a pensar o sexual de uma forma bem mais ampla que o genital exemplos como esses tornam essa escolha conceitual mais clara. Afinal, “sexual” é a nossa imagem (fartas jubas a denunciar nossa virilidade)… talvez mais sexual que a própria potência genital. É claro: os detratores da psicanálise estarão prontos a dizer: “mas os sujeitos que tomam finasterida não querem ser impotentes! Querem apenas que seus cabelos continuem lá!” Ok, ok, mas a pergunta é: por que, sabendo desse curioso efeito colateral, continuam a tomar o pharmakon?

Minha hipótese é que o narcisismo – esse investimento sexual que fazemos na nossa imagem física e/ou moral – é muito mais importante que o nosso desempenho sexual. A imagem é pública, ela tem muito mais usos eróticos. O desempenho é privado e muitas vezes é “compensado” e substituído pelo desempenho moral e amoroso.

Pensemos no caso da mulher que não abandona seu marido impotente, pois ele sempre foi um bom sujeito. Sua insatisfação genital, por assim dizer, nem de longe se compara à satisfação narcísica (sexual) que seu marido lhe proporciona. Suponhamos ainda, nesse exemplo imaginário, que o sujeito seja um bom pai, que trate bem a esposa, que dê a ela essas outras satisfações que a psicanálise situa do lado da pulsão parcial: a comida, a imagem, a voz, o toque. Uma série de elementos que, no conjunto, podem sim servir de substituto à satisfação genital propriamente dita. Ela estaria errada de fazer essa troca? Para voltar ao caso da finasterida: ela também apoiaria a manutenção das melenas do marido ao invés de exigir mais potência?

Quando a psicanálise nos convida a alargar o conceito de sexual, isto é, de não traduzirmos sexual como sendo apenas o genital, ela está nos convidando a ser mais imaginativos em torno dos fenômenos que nos angustiam e excitam. Pensemos no imenso trabalho que temos pensando no que vamos comer e vestir, por exemplo. A comida é um objeto sexual na medida em que ela também provoca excitação e angústia. Estou comendo demais? Vou ficar gordo? Posso comer animais? Quando e com quem devo comer? Nada disso é simples de se resolver. Da mesma forma, se vestir ou dar-se a ver ao outro também não é simples: como cortar o cabelo, como vestir, como ser uma imagem. Isso também excita, satisfaz e angustia. Ter ou não cabelos é apenas um capítulo dessa história de coisas que fazemos e produzem afetos. Isso poderia ser uma definição de sexual para a psicanálise: a produção de afetos sem uma regra clara – afetos que vão da angústia mais intensa ao prazer mais sublime.

Sansão às avessas: o sujeito adere aos cabelos para perder a força. Mas as coisas não são tão simples assim: a força que ele quer preservar é a do narcisismo, da imagem. Na nossa cultura, talvez mais acentuadamente que em outros momentos da história humana, a imagem vale mais que nosso desempenho físico no amor. Isso ajuda a aumentar nossa definição do sexual: não há instinto que guie, de uma vez por todas, que o investimento libidinal deve ser em tal ou tal direção.

Pra terminar: na mesma edição de hoje da Folha, uma nota assustadora da jornalista Mônica Bergamo diz que “um sutiã cor-de-rosa com bojo de espuma imitando o formato de seios é vendido em tamanho seis (para menina de seis anos) nas Lojas Pernambucanas”. O grotesco é uma das melhores formas de se ver o que é inconsciente na norma: desejar ver seios fartos em meninas de seis anos de idade pode ser tão bizarro quanto preservar os cabelos às custas da potência genital, mas ambos exemplos mostram que a sexualidade, no humano, é feita, em grande medida, de imagem.

São Paulo, quarta-feira, 06 de abril de 2011

Droga para calvície provoca disfunção sexual prolongada

Estudo mostra que medicamento pode causar impotência e perda da libido muito tempo depois da interrupção do uso

Pesquisa contraria bula de remédio, que menciona esses efeitos, mas diz que somem com a descontinuidade

GUILHERME GENESTRETI
DE SÃO PAULO

A finasterida, droga mais usada contra a calvície, pode reduzir a libido e causar impotência mesmo após a suspensão do uso, segundo estudo da Universidade George Washington, nos EUA.
A pesquisa avaliou 71 homens entre 21 e 46 anos que se queixavam das reações. Segundo os autores do trabalho, publicado no “Journal of Sexual Medicine”, os efeitos colaterais persistiam por 40 meses após a interrupção do tratamento, em média.
Foram observados impotência e perda da libido até seis anos após o uso, em um quinto dos pesquisados.
Para o endocrinologista Michael Irwig, um dos autores, os homens devem estar cientes do risco. “O estudo deve mudar a forma como médicos conversam com pacientes sobre a medicação.”
No Brasil, assim como nos EUA, a bula da finasterida menciona a diminuição da libido e a impotência como efeitos colaterais, mas afirma: “Esses efeitos desapareceram nos homens que descontinuaram a terapia e em muitos que mantiveram”.
A Merck Sharp & Dohme, que produz o remédio Propecia, à base de finasterida, contesta a metodologia do estudo (leia nesta página).
A finasterida bloqueia a ação da enzima 5-alfa-redutase, que transforma o hormônio testosterona em DHT (dihidrotestosterona).
Em homens com folículos capilares mais sensíveis à ação da DHT, os fios de cabelo ficam mais finos e caem.
A dihidrotestosterona também atua na estimulação sexual. Ao inibir a produção desse hormônio, a droga pode interferir nessas funções.

SINAL AMARELO
Segundo o cirurgião plástico Marcelo Pitchon, especializado em implantes capilares, a pesquisa lança um “sinal amarelo” no tratamento da calvície. “Sempre se considerou que as funções sexuais voltavam ao normal depois de interrompido o tratamento”, diz. “Agora, precisamos revisar o estudo.”
Elaine Costa, endocrinologista do Hospital das Clínicas de São Paulo, não estranha os efeitos colaterais prolongados. “Bloqueando um hormônio, pode ser que ele demore a voltar ao normal.”
Costa diz que os resultados reforçam a necessidade de analisar o custo-benefício do tratamento. “Cabe discutir se vale retardar a queda e perder um pouco da libido.”
Segundo Jackeline Mota, que coordena a área de cabelos da Sociedade Brasileira de Dermatologia, finasterida é uma boa medicação para a calvície. “Mas, se o médico percebe que o paciente tem disfunção, melhor não usar.”

Ainda estão disponíveis os vídeos das aulas preparatórias para o II CONPDL – que ocorreu no ano passado – na Milton Campos.

Aos possíveis interessados em ler e estudar a Hermenêutica do Sujeito:

http://mural.mcampos.br/servicos/outros/videopalestras.php

Nos primeiros parágrafos da Segunda Dissertação, de Genealogia da Moral, Nietzsche faz uma interessante correlação entre a promessa e a responsabilidade:

Para poder dispor de tal modo do futuro, o quanto não precisou o homem aprender a distinguir o acontecimento casual do necessário, a pensar de maneira causal, a ver e antecipar a coisa distante como sendo presente, a estabelecer com segurança o fim e os meios para o fim, a calcular contar, confiar – para isso, quanto não precisou antes tornar-se ele próprio confiável, constante, necessário, também para si, na sua própria representação, para poder enfim, como faz quem promete, responder por si como porvir! (Nietzsche, 2001 [1887]: 48)

Para Nietzsche, essa é “longa história da origem da responsabilidade”. Ser responsável implica transformar o sujeito “necessário, uniforme, igual entre iguais, constante e, portanto confiável”. O filósofo mostra como “ser responsável” tem várias raízes. Certamente, podemos ver nesse sujeito que se mantém o mesmo alguém interessante, alguém que pode se contrapor à moral dos costumes. Mas, o sujeito incapaz de esquecer uma dívida, em muitos sentidos, é também um sujeito incapaz de mudar. O sujeito responsável está muito próximo do devedor que pode sofrer na mão do credor.

A discussão, claro, é bastante complexa e se relaciona com outros aspectos da filosofia de Nietzsche. O que me interessa aqui é destacar, mais uma vez, que a noção de responsabilidade, na filosofia moral clássica, não leva em conta essa genealogia que Nietzsche, a seu modo, e a psicanálise, de outras formas, tentam fazer aparecer. Voltemos à Primeira Dissertação, numa famosa passagem:

(…) A fraqueza é mentirosamente mudada em mérito, não há dúvida (…)  e a impotência que não acerta contas é mudada em ‘bondade’; a baixeza medrosa, em ‘humildade’; a submissão àqueles que se odeia em ‘obediência’ (há alguém que dizem impor essa submissão – chamam-no Deus). O que há de inofensivo no fraco, a própria covardia na qual é pródigo, seu aguardar-na-porta, seu inevitável ter-de-esperar, recebe aqui o bom nome de ‘paciência’, chama-se também a virtude; o não-poder-vingar-se chama-se não-querer-vingar-se, talvez mesmo perdão (…). (Nietzsche, 2001 [1887]: 38)

Um pouco mais adiante, Nietzsche cita Tomás de Aquino, “suave como um cordeiro”: “os abençoados no reino dos céus verão as penas dos danados, para que sua beatitude lhes dê maior satisfação” (apud. Nietzsche, 2001 [1887]: 40). Essa frase deixa bem claro uma ideia que me parece muito próxima da psicanálise: o que parece apenas virtude é também, no inconsciente, desejo comprometido com uma satisfação sexual inaudita, infantil e perversa. Ser responsável muitas vezes é garantido pelo desejo inconsciente de ver os irresponsáveis “penando”.

O ponto é: aquele sujeito responsável – o plenamente capaz de fazer promessas – no auge de sua suposta autonomia, de sua “constância”, de sua “confiabilidade”… deve admitir que não é tão inteiro assim. Talvez, o sujeito da psicanálise não seja tanto o sujeito da promessa – tão requisitado pela religião, como sabemos (quem não se lembra de Dias Gomes e seu pagador de promessa?) – mas o sujeito de uma resposta ao outro que pode mudar pela via da elaboração. Nem tanto a ausência de um com-prometimento, mas o reconhecimento de que exigir garantias eternas do que se diz ou do que se deseja é perder, de forma radical, a possibilidade de novos arranjos junto ao outro.

Esse é mais um dos temas que pode ser explorado no III Congresso Nacional de Psicanálise, Direito e Literatura. Participe!

Fábio Belo, 05/03/11

Muitas vezes, quando algumas pessoas querem terminar uma relação amorosa, mas não querem assumir a responsabilidade dessa experiência, devaneiam que seu objeto de amor poderia morrer, dessa forma, a livrariam do fardo e do mal-estar de dirigir a ele o fim do seu desejo.

Obviamente, uma fantasia desse tipo – a morte de nosso objeto de amor – possui infinitas interpretações. Quero pensar aqui apenas nesse contexto: desejo o fim da relação amorosa e não tenho coragem de endereçar ao outro isso que penso.

Para pensar no tema desse III CONPDL – responsabilidade e resposta – imagino as possíveis relações entre a morte, a reposta e o amor.

Desejar a morte do outro, mesmo estando bastante longe de qualquer tentativa de realizar essa fantasia na realidade, é uma resposta que parece tomar a via do infantil. Fazer desaparecer o outro é uma resposta sem restos. O ódio, no limite, é uma resposta que se quer pelo avesso: reposta para não responder.

A difícil tarefa de endereçar ao outro o mal-estar que ele nos produz sempre deixa restos. O outro interno – nossos desejos inconscientes – já é demasiadamente exigente.

Pensem também quando esse devaneio atormenta os enamorados: imaginamos a morte da pessoa amada e isso produz uma intensa angústia. Nesse caso, talvez o devaneio indica a impossibilidade de tomarmos a completa responsabilidade pelo outro. A todo momento ele nos escapa.

É bastante impressionante como usamos a morte do outro como um marcador moral. “Se ele morrer, nada sou”; “se ela morrer, poderei viver uma outra vida”; “o que seria de mim, sem ele(a)?”; “deverei continuar a amá-lo(a) depois de sua morte?”. O que me parece importante é lembrar, a partir da psicanálise, que a morte… nem sempre é o que parece.

Envie seu texto! Participe do III CONPDL!

Pessoal, já começamos a organizar o III CONPDL:

http://www.conpdl.com.br/?p=317

O tema esse ano será “Responsabilidade e Resposta”. Escrevi um texto sobre o tema. Veja lá no site do CONPDL!

Preparem seus textos. Chamada de artigos em breve!

Passem adiante aos possíveis interessados, por favor!

Conversei por e-mail com o Prof. Wildmann, autor do texto abaixo, e pedi a ele a autorização para divulgar aqui o que achei o melhor parecer sobre o absurdo assassinato do Prof. Kássio Vinícius Castro Gomes. Concordo com o Prof. Wildmann e acho que o caso nos obriga a pensar e a tomar uma atitude mais enérgica no que tange à violência na relação pedagógica. Enfim… a discussão está aberta!

J’ACCUSE !!!
(Tributo ao professor Kássio Vinícius Castro Gomes)

« Mon devoir est de parler, je ne veux pas être complice. (Émile Zola)
Meu dever é falar, não quero ser cúmplice. (…) (Émile Zola)

Foi uma tragédia fartamente anunciada. Em milhares de casos, desrespeito. Em outros tantos, escárnio. Em Belo Horizonte, um estudante processa a escola e o professor que lhe deu notas baixas, alegando que teve danos morais ao ter que virar noites estudando para a prova subsequente. (Notem bem: o alegado “dano moral” do estudante foi ter que… estudar!).

A coisa não fica apenas por aí. Pelo Brasil afora, ameaças constantes. Ainda neste ano, uma professora brutalmente espancada por um aluno. O ápice desta escalada macabra não poderia ser outro.

O professor Kássio Vinícius Castro Gomes pagou com sua vida, com seu futuro, com o futuro de sua esposa e filhas, com as lágrimas eternas de sua mãe, pela irresponsabilidade que há muito vem tomando conta dos ambientes escolares.
Há uma lógica perversa por trás dessa asquerosa escalada. A promoção do desrespeito aos valores, ao bom senso, às regras de bem viver e à autoridade foi elevada a método de ensino e imperativo de  convivência supostamente democrática.

No início, foi o maio de 68, em Paris: gritava-se nas ruas que “era proibido proibir”. Depois, a geração do “não bate, que traumatiza”. A coisa continuou: “Não reprove, que atrapalha”. Não dê provas difíceis, pois “temos que respeitar o perfil dos nossos alunos”. Aliás, “prova não prova nada”. Deixe o aluno “construir seu conhecimento.” Não vamos avaliar o aluno. Pensando bem, “é o aluno que vai avaliar o professor”. Afinal de contas, ele está pagando…

E como a estupidez humana não tem limite, a avacalhação geral epidêmica, travestida de “novo paradigma” (Irc!), prosseguiu a todo vapor, em vários setores: “o bandido é vítima da sociedade”, “temos que mudar ‘tudo isso que está aí’; “mais importante que ter conhecimento é ser ‘crítico’.”

Claro que a intelectualidade rasa de pedagogos de panfleto e burocratas carreiristas ganhou um imenso impulso com a mercantilização desabrida do ensino: agora, o discurso anti-disciplina é anabolizado pela lógica doentia e desonesta da paparicação ao aluno – cliente…

Estamos criando gerações em que uma parcela considerável de nossos cidadãos é composta de adultos mimados, despreparados para os problemas, decepções e desafios da vida, incapazes de lidar com conflitos e, pior, dotados de uma delirante certeza de que “o mundo lhes deve algo”.

Um desses jovens, revoltado com suas notas baixas, cravou uma faca com dezoito centímetros de lâmina, bem no coração de um professor. Tirou-lhe tudo o que tinha e tudo o que poderia vir a ter, sentir, amar.

Ao assassino, corretamente, deverão ser concedidos todos os direitos que a lei prevê: o direito ao tratamento humano, o direito à ampla defesa, o direito de não ser condenado em pena maior do que a prevista em lei. Tudo isso, e muito mais, fará parte do devido processo legal, que se iniciará com a denúncia, a ser apresentada pelo Ministério Público. A acusação penal ao autor do homicídio covarde virá do promotor de justiça. Mas, com a licença devida ao célebre texto de Emile Zola, EU ACUSO tantos outros que estão por trás do cabo da faca:

EU ACUSO a pedagogia ideologizada, que pretende relativizar tudo e todos, equiparando certo ao errado e vice-versa;

EU ACUSO os pseudo-intelectuais de panfleto, que romantizam a “revolta dos oprimidos”e justificam a violência por parte daqueles que se sentem vítimas;

EU ACUSO os burocratas da educação e suas cartilhas do politicamente correto, que impedem a escola de constar faltas graves no histórico escolar, mesmo de alunos criminosos, deixando-os livres para tumultuar e cometer crimes em outras escolas;

EU ACUSO a hipocrisia de exigir professores com mestrado e doutorado, muitos dos quais, no dia a dia, serão pressionados a dar provas bem tranqüilas, provas de mentirinha, para “adequar a avaliação ao perfil dos alunos”;

EU ACUSO os últimos tantos Ministros da Educação, que em nome de estatísticas hipócritas e interesses privados, permitiram a proliferação de cursos superiores completamente sem condições, freqüentados por alunos igualmente sem condições de ali estar;

EU ACUSO a mercantilização cretina do ensino, a venda de diplomas e títulos sem o mínimo de interesse e de responsabilidade com o conteúdo e formação dos alunos, bem como de suas futuras missões na sociedade;

EU ACUSO a lógica doentia e hipócrita do aluno-cliente, cada vez menos exigido e cada vez mais paparicado e enganado, o qual, finge que não sabe que, para a escola que lhe paparica, seu boleto hoje vale muito mais do que seu sucesso e sua felicidade amanhã;

EU ACUSO a hipocrisia das escolas que jamais reprovam seus alunos, as quais formam analfabetos funcionais só para maquiar estatísticas do IDH e dizer ao mundo que o número de alunos com segundo grau completo cresceu “tantos por cento”;

EU ACUSO os que aplaudem tais escolas e ainda trabalham pela massificação do ensino superior, sem entender que o aluno que ali chega deve ter o mínimo de preparo civilizacional, intelectual e moral, pois estamos chegando ao tempo no qual o aluno “terá direito” de se tornar médico ou advogado sem sequer saber escrever, tudo para o desespero de seus futuros clientes-cobaia;

EU ACUSO os que agora falam em promover um “novo paradigma”, uma “ nova cultura de paz”, pois o que se deve promover é a boa e VELHA cultura da “vergonha na cara”, do respeito às normas, à autoridade e  do respeito ao ambiente universitário como um ambiente de busca do conhecimento;

EU ACUSO os  “cabeça – boa” que acham e ensinam que disciplina é “careta”, que respeito às normas é coisa de velho decrépito;

EU ACUSO os métodos de avaliação de professores, que se tornaram templos de vendilhões, nos quais votos são comprados e vendidos em troca de piadinhas, sorrisos e notas fáceis;

EU ACUSO os alunos que protestam contra a impunidade dos políticos, mas gabam-se de colar nas provas, assim como ACUSO os professores que, vendo tais alunos colarem, não têm coragem de aplicar a devida punição;

EU VEEMENTEMENTE ACUSO os diretores e coordenadores que impedem os professores de punir os alunos que colam, ou pretendem que os professores sejam “promoters” de seus cursos;

EU ACUSO os diretores e coordenadores que toleram condutas desrespeitosas de alunos contra professores e funcionários, pois sua omissão quanto aos pequenos incidentes é diretamente responsável pela ocorrência dos incidentes maiores;

Uma multidão de filhos tiranos que se tornam alunos – clientes, serão despejados na vida como adultos eternamente infantilizados e totalmente despreparados, tanto tecnicamente para o exercício da profissão, quanto pessoalmente para os conflitos, desafios e decepções do dia a dia.

Ensimesmados em seus delírios de perseguição ou de grandeza, estes jovens mostram cada vez menos preparo na delicada e essencial arte que é lidar com aquele ser complexo e imprevisível que podemos chamar de “o outro”.

A infantilização eterna cria a seguinte e horrenda lógica, hoje na cabeça de muitas crianças em corpo de adulto: “Se eu tiro nota baixa, a culpa é do professor. Se não tenho dinheiro, a culpa é do patrão. Se me drogo, a culpa é dos meus pais. Se furto, roubo, mato, a culpa é do sistema. Eu, sou apenas uma vítima. Uma eterna vítima. O opressor é você, que trabalha, paga suas contas em dia e vive sua vida. Minhas coisas não saíram como eu queria. Estou com muita raiva. Quando eu era criança, eu batia os pés no chão. Mas agora, fisicamente, eu cresci. Portanto, você pode ser o próximo.”

Qualquer um de nós pode ser o próximo, por qualquer motivo. Em qualquer lugar, dentro ou fora das escolas. A facada ignóbil no professor Kássio dói no peito de todos nós. Que a sua morte não seja em vão. É hora de repensarmos a educação brasileira e abrirmos mão dos modismos e invencionices. A melhor “nova cultura de paz” que podemos adotar nas escolas e universidades é fazermos as pazes com os bons e velhos conceitos de seriedade, responsabilidade, disciplina e estudo de verdade.

Igor Pantuzza Wildmann
Advogado – Doutor em Direito. Professor universitário

Acabo de ver o excelente Entre les murs (Entre os muros da escola, de Laurent Cantet). Algumas notas:

1) A escola como reprodutora da desigualdade social fica bem evidente. Tenho a impressão que o estrangeiro na escola torna isso ainda mais concreto e evidente.

1.1) Os alunos cujos pais não falam francês e não são escolarizados sofrem mais. A escola é apenas parte do processo de aprendizagem. Se não há pais atentos, dispostos a compartilhar a aprendizagem escolar, aos poucos, o aluno vai desistindo. Aqui temos um problema importante: se a maior parte da famílias trata o poder simbólico como trivialidade – o exemplo da conjugação verbal no subjuntivo – como esperar que a escola consiga fazer seu trabalho? E como a escola pode bolar estratégias para fisgar justamente esse aluno sem apoio familiar?

2) Do ponto de vista psicanalítico, a escola traz à tona relações transferenciais importantes.

2.1) Do lado do professor, há o desejo onipotente de transmitir o saber, de “guiar” os alunos, de levá-los para o caminho do bem.

2.2) Do lado dos alunos, há sempre o desejo de serem ouvidos, de serem atendidos, de não cumprirem as regras – como prova de amor, talvez.

3) A síndrome de burn out fala justamente da crença que o sujeito tem de que o resultado do trabalho não compensa o esforço. O trabalho é puro sacrifício. Ouço relatos – e no filme há uma cena de um professor desabafando – dos professores se queixando de que os alunos não querem nada, não leem nada, que são medíocres, que estão sempre a plagiar, copiar, colar, que se recusam de maneira sistemática a pensar.

4) Do lado dos alunos as reclamações não são menos numerosas. O professor é extremamente agressivo, exigente, autoritário. Os alunos sempre se queixam das injustiças das provas. Elas são, na verdade, apenas mais uma violência do professor – servem apenas para mostrar o seu poder. Alunos reclamam sempre de que não são ouvidos. Não são avaliados individualmente, no que diz respeito à sua “particularidade”.

4.1) Convenhamos: são anos de escola que ensina um “saber” que não serve para nada. Há um problema sério quanto à metodologia de ensino. Muitos adolescentes reclamam: para que aprender isso e aquilo? O saber tende a ser bem pouco prático… mais uma vez a impressão é que o saber tem mais a função de ser simples violência simbólica do que um conjunto de crenças que podem me auxiliar a melhorar ou reconstruir o mundo onde vivo… Faz todo o sentido sua recusa por parte dos alunos, não?

5) Tenho dado aulas em faculdades – públicas e privadas – há 12 anos. A impressão que tenho é que ambos os lados estão certos. Professores estão realmente cansados da falta de reciprocidade. Alunos estão realmente entediados frente a saberes tão pouco práticos. A relação pedagógica parece mesmo aquelas relações amorosas nas quais os cônjuges se mantem juntos apenas para brigar um com o outro. (Um pouco como aquele casal de Who’s afraid of Virginia Woolf, de Albee).

5.1) O curioso caso de quando os professores são avaliados pelos alunos por instrumentos tipo questionário de valoração: o mesmo professor é avaliado como excelente por 70% da sala e péssimo para 5 ou 10%… (ou vice-versa!). Obviamente, os professores também têm raiva dessas avaliações… Como avaliá-los? Como tentar controlar melhor os afetos nesse momento?

6) O fracasso escolar é, antes de tudo, o fracasso da escola. Colocar a culpa no aluno parece duplamente perverso: esquecemos que a escola é uma instituição que sempre esteve ligada à distinção (Bourdieu), isto é, ao incremento das diferenças sociais, à atribuição de poder simbólico a uns e à destituição recíproca a outros… ao culpar o aluno, a escola, além de se eximir, duplica a violência da exclusão.

7) Por outro lado, há um pacto da mediocridade – acredito, oriundo desse fracasso “escolar” – da instituição escola – que faz aparecer o aluno absolutamente incompetente e avesso ao saber. Esse é o ponto central dos afetos na escola. É em torno desse aluno que os afetos vão ficar mais fortes, mais violentos.

8) A aluna que ri sem parar na reunião dos professores, que responde com arrogância, que provoca… é essa aluna o alvo do ódio do professor. Ao chamá-la de pétasse (vagabunda), o professor perde a razão. Essa mesma aluna, lembremos, é a que leu La République, de Platão… O que faltou? Um método mais adequado para incluir mais o aluno? Lembremos de Os Anormais, de Foucault: a criança masturbadora, o louco… e o retardado… esse último, o incapaz de ser bem escolarizado, é também um sintoma dessa relação de normalização, de padronização.

9) A relação pedagógica – sendo o campo transferencial que é – está repleta de fantasias de uma relação que pode ser o “bom encontro”, no qual todos sairão bem e felizes. É preciso estudar bem esse ideal: sempre perigoso e exigente demais. Se do lado do aluno temos a mediocridade, do lado do professor, temos a desistência… (Lembro de um professor que tive numa pós em filosofia… antes mesmo de apresentar a teoria do filósofo, ele dizia: “não importa se vocês acham se ele está certo ou não… se achar, tudo bem e se não, tudo bem também…” Ou seja, a crítica, com o tempo, foi-lhe tomando o aspecto de “burrice” contra a qual não valia a pena se opor… o resultado não compensa o sacrifício).

10) Por fim, insisto: a relação pedagógica é uma relação amorosa com todas as vicissitudes próprias desse tipo de arranjo. Ódio, amor, sedução, desilusão… tudo isso deve ser levado em consideração, assim como, claro, as condições práticas, sociais, políticas da instalação desse jogo.

Sobre a síndrome do burn out, uma matéria resumida e bem explicativa: http://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/824508-transtorno-psiquico-burn-out-ataca-desiludidos-com-o-proprio-trabalho.shtml

Aqui uma entrevista interessante com o diretor do filme: http://g1.globo.com/Noticias/Cinema/0,,MUL1039085-7086,00.html

“(…) dass hier zwischen Sexualtrieb und Sexualobjekt eine Verlötung vorliegt (…)” [Freud, GW, V, 46] – (…) que entre a pulsão sexual e o objeto sexual há uma solda.

A tradução brasileira (ESB, VII, 138) traz ainda nessa frase “apenas uma solda”, reforçando a ideia que vem adiante, quando Freud nos convida a afrouxar (lockern) os laços / as associações (die Verknüpfung) entre a pulsão e o objeto.

Há quem pense que a metáfora da solda em Freud aponta para uma fixação impossível de se desfazer. Prefiro pensar que a metáfora aponta fundamentalmente para a contingência dessa ligação entre o objeto e a pulsão. Não penso que essa ligação esteja feita de uma vez por todas. Claro: trata-se de alguma fixação, mas não alguma coisa fusionada. Como na solda real, as cicatrizes estão lá… e caso haja uma grande tensão é justamente na solda que ocorre o rompimento entre as partes.

Tudo isso para dizer que ouvi hoje uma canção do CD “O Silêncio”, de Arnaldo Antunes. Ele diz:

o que signifinca isso?
o que swingnifica isso?
o que signifixa isso?

Essa bela brincadeira com o verbo significar pode nos ajudar a entender como essa “solda” funciona no que tange à pulsão de saber. Quando signficamos algo, “ligamos” uma coisa à outra. Entre o swing e a fixação: o aprender, o pensar, se situa aí. Não estamos o tempo todo no vai-e-vem das possibilidades de ligação, nem o tempo todo fixados em sentidos imutáveis.

(Pensemos no inferno do surto psicótico: um objeto que não cessa de emitir sentidos infinitamente… ou uma infinidade de objetos emitir o mesmo sentido sempre).

A música nos diz ainda que essa pergunta é endereçada, mas para além da obviedade: “o motorista motora, o advogado advoga”… ninguém sabe o que swingnifica / signifixa / significa isso.

Talvez porque, justamente, é a partir d’isso que significamos: essa parte – a um só tempo estrangeira e interna a nós mesmos – à qual tentamos dar sentido.