Blog

Dois dispositivos sócio-econômicos de manutenção do poder são a herança e os impostos.

A herança torna a competição individual bastante injusta, pois aqueles que têm “direito” aos bens de seus antepassados precisa fazer menos esforço que aquele que teve o azar de nascer numa família pobre. Os impostos sobre herança poderiam corrigir parcialmente o problema.

Quanto aos impostos, no caso do Brasil, a coisa fica ainda mais absurda. A partir de um certo valor de ganho mensal – mais ou menos 5 mil reais -,  todos pagam a mesma taxa: 27,5%. Ou seja: se eu ganho 10 mil por mês e meu vizinho ganha 1 milhão por mês, nós dois pagaremos os mesmos 27,5%. À primeira vista, meu vizinho vai pagar mais que eu: ele paga 275 mil e eu pago 2750. O problema é que sobram para meu vizinho 725 mil e para mim 7250. Descontado os nossos gastos, suponhamos de 5 mil por mês, a diferença fica ainda maior. Pra piorar as coisas: meu vizinho investe o que lhe sobrou na poupança – suponhamos 700 mil – e ganha de juros (1%a.m., p.ex.) 7  mil reais sem fazer qualquer esforço… isso é praticamente o que me sobrou sem os meus gastos! A longo prazo, essa diferença só vai aumentar…

Há outros mecanismos jurídicos “legítimos” para a manutenção da desigualdade social. Lembro, rapidamente, as benesses e sinecuras do funcionalismo público: aposentadorias integrais e pensões são apenas dois exemplos…

Acabo de ler Fora de Série – Outliers, de Macolm Gladwell. O livro é excelente. A tese do autor é que o sucesso individual está profundamente ligado às condições econômicas, sociais e morais nas quais o sujeito se encontra durante a vida. Ele traz diversos exemplos de casos nos quais aparentemente o sucesso é fruto apenas do esforço individual, mas que sempre encontram muitos outros fatores que contribuíram para o crescimento daquele sujeito em particular.

O primeiro capítulo tem como epígrafe a passagem de Mateus, 25:29: “Porque a todo aquele que tem será dado e terá em abundância; mas daquele que não tem, até o que tem lhe será tirado”. A ideia aqui é simples: quem tem as condições adequadas, no momento certo, para o sucesso, ganhará mais. Quem não tem perderá mais. Um exemplo muito curioso é o caso dos jogadores de hóquei no gelo no Canadá. Uma pesquisa mostrou que a maioria dos jogadores das principais ligas nasceu nos primeiros meses do ano. Isso se deve à vantagem que esses meninos vão ter sobre os outros no momento das seletivas. A seletiva é no final do ano: se dois meninos de 10 anos competem a chance dos que nasceram no início do ano serem mais fortes é maior. Essa pequena vantagem – contingencial, pois poderíamos fazer várias seletivas por ano… – se transforma numa exclusão de quase todas as crianças nascidas fora das datas “propícias”.

Bill Gates, os Beatles e outros casos de sucesso são analisados com muita clareza no livro. Todos eles mostram um padrão bem curioso: muita prática – cerca de 10 mil horas de prática! – e as condições adequadas devem estar juntas para que haja sucesso nessa sociedade “meritocrática”. O mérito “individual”, na verdade, é social também e principalmente. Pensemos nos casos que Gladwell compara de dois homens de QI elevadíssimo. O primeiro teve uma família terrível: muita violência doméstica, muito desquilíbrio emocional. O outro teve uma família que o apoiava, além das condições econômicas para desenvolver sua inteligência nas melhores universidades do mundo. O destino dos dois foi completamente diferente mesmo tendo os dois o mesmo QI.

Enfim, o livro desmonta com maestria o mito do selfmade man. As contingências biológicas e sociais – nossa beleza física, nossa inteligência, nossa habilidade corporal, a riqueza de nossa família, a estabilidade econômica do nosso país – do nosso nascimento devem ser levadas – e muito! – em consideração antes de analisarmos a (in)justiça de nossa posição social.

Escrevi alguns pontos a desenvolver sobre a perversão sob a ótica da teoria da sedução generalizada, de Jean Laplanche. São apenas notas, insisto, para começar a mapear esse problema.

Leia o texto AQUI.

Leia aqui a crítica que escrevi, com uma aluna de Iniciação Científica, com relação ao livro “Mentes Perigosas”. Precisamos repensar esse mito do psicopata:

Conceitos Perigosos, de Fábio Belo e Luíza Campos.

Lindo conto de Saer:

http://jocareinersterron.wordpress.com/2010/11/05/1352/

A interpretação mais rasteira, mais rápida: a vida passa pelo inconsciente. Que seja o óbvio! Mas que maneira delicada de dizê-lo.

Por precaução cito o conto aqui também:

Ao abrigo

Um comerciante de móveis que acabara de comprar uma poltrona de segunda mão descobriu que num oco do espaldar alguma antiga proprietária ocultara o seu diário íntimo. Por razão incerta — morte, esquecimento, fuga precipitada, proibição — o diário havia ficado ali, e o comerciante, especialista em construção de móveis, o encontrara por acaso, ao examinar o encosto para testar sua solidez. Nesse dia ele permaneceu até tarde no negócio abarrotado de camas, cadeiras, mesas e guarda-roupas, lendo na salinha dos fundos o diário íntimo à luz da lâmpada, inclinado sobre a escrivaninha. O diário revelava, dia a dia, os problemas sentimentais de sua autora, e o vendedor de móveis, homem inteligente e discreto, logo compreendeu que a mulher vivera dissimulando a sua verdadeira personalidade e que — por um acaso inconcebível — a conhecia muito melhor que todas as pessoas que tinham vivido junto a ela e que apareciam mencionadas no diário. O comerciante ficou pensativo. Durante um bom tempo a idéia de que alguém pudesse ter em sua casa, ao abrigo do mundo, algo oculto — um diário, ou o que quer que fosse —, lhe pareceu estranha, quase impossível, até que minutos depois, no momento em que se levantava e punha seu escritório em ordem para ir para casa, lembrou-se, não sem estupor, de que ele mesmo guardava, em alguma parte, coisas ocultas cuja existência o mundo ignorava. Em sua casa, por exemplo, no alto de um móvel, numa caixa de lata entre revistas velhas e trastes inúteis, o comerciante tinha guardado um rolo de notas, que ia engrossando de tanto em tanto, e cuja existência até sua mulher e filhos desconheciam; o vendedor de móveis não podia dizer de maneira precisa com qual objetivo guardava tais notas, porém pouco a pouco desenvolvia a desagradável certeza de que sua vida inteira não se definia pelas atividades cotidianas exercidas à luz do dia, e sim por esse rolo de notas que se carcomia no desvão. E que de todos os atos, o fundamental era, sem dúvida, o de agregar de vez em quando uma nota ao rolo carcomido.
Enquanto acendia o letreiro luminoso enchendo de uma luz violeta o ar negro acima da calçada, o comerciante foi assaltado por outra recordação: procurando um apontador no quarto de seu filho maior, encontrara casualmente uma série de fotografias pornográficas que ele escondia na gaveta da cômoda. O comerciante as devolvera rapidamente ao seu lugar, nem tanto por pudor e mais pelo medo de que seu filho pensasse que ele se acostumara a bisbilhotar suas coisas. Na ocasião, o comerciante de móveis se pôs a observar sua mulher: pela primeira vez depois de trinta anos lhe vinha à cabeça a idéia de que também ela devia guardar algo oculto, algo tão próprio e profundo que, ainda que ela mesma o quisesse, nem sequer a tortura poderia fazê-la confessar. O comerciante sentiu uma espécie de vertigem. Não era o medo banal de ser traído ou enganado o que lhe fazia dar voltas como se um vinho lhe subisse à cabeça, e sim a certeza de que, justo quando atingia o umbral da velhice, ver-se-ia talvez obrigado a modificar noções as mais elementares que constituíam sua vida. Ou o que havia chamado de vida: porque sua vida, sua verdadeira vida, segundo sua nova intuição, transcorria em alguma parte, na escuridão, ao abrigo dos acontecimentos, e lhe parecia mais inalcançável que os arrabaldes do universo.

[ Juan José Saer, do volume de contos La Mayor (1976) — tradução de JRT, publicada originalmente no blogue Hotel Hell, em 2002 ]

No livro O Flerte, de Adam Phillips, há um texto chamado “Contigência para principiantes”. Há três pontos do texto que quero retomar.

(1) “O lapso freudiano – cujo próprio nome é uma revelação involuntária – é o acidente que está fadado a acontecer.” (Phillips, 1998: 39).

O lapso, o ato falho, o sonho e até mesmo o sintoma: as formações do inconsciente usam os “acidentes” da vida cotidiana para a construção de um sentido. Obviamente, esse sentido não é ele mesmo contingente. O sentido dos sintomas, aliás, é transformar o acidente… em sentido. De certa forma, o funcionamento do aparelho psíquico pode ser descrito como fabricação de sentido.

(2) Phillips faz uma citação do romance Foe, de J. M. Coetzee, a qual vale a pena reproduzir:

Em um universo de acaso há um melhor e um pior? Rendemo-nos ao abraço de um estranho ou entregamo-nos às ondas, mediante um pestanejar, nossa vigilância se relaxa; estamos adormecidos, e quando despertamos perdemos o rumo de nossas vidas. O que são tais pestanejares, contra os quais a única defesa é uma eterna e desumana vigilância? Não poderiam ser as rachas e as fendas através das quais uma outra voz, outras vozes, falam em nossas vidas? Com que direito tapamos os ouvidos a elas?

Essas outras vozes – brechas e fendas da e para a alteridade – são a possibilidade de um outro rumo: para o melhor e/ou para o pior. O amor é um momento de distração, um pestanejar contra a vigilância do desejo de sermos os mesmos. O ponto inicial da justiça – lembrem-se que Coetzee escreve sobre um dos mais terríveis regimes autoritários que o Ocidente pôs em prática – é abrir espaço para essas outras vozes. Não há democracia sem abertura para o acaso, sem acolhimento da diferença: para o melhor e para o pior. Não temos, porém, na democracia, o direito de “tapar os ouvidos”. Esse é o início inexorável da injustiça.

(3) Phillips começa seu texto com uma epígrafe na qual cita um trecho importante do artigo de Freud sobre Leonardo: “Se o acaso é considerado indigno de determinar nosso destino, trata-se simplesmente de uma recaída na visão religiosa do universo, que o próprio Leonardo estava em via de superar quando escreveu que o Sol não se move.”

O acaso não é digno de determinar nosso destino. O ponto aqui é o esforço incessante e duplo: (a) acolher o acaso e a contingência como determinante radical da existência; (b) dar sentido e modificar, na medida do possível, o non-sense radical da vida. O acaso está no centro da teoria psicanalítica: o conceito de pulsão serve para dizer, em primeiro lugar, que não somos controlados pelo instinto – em grande medida a versão laica-cientificista da visão religiosa do universo. A pulsão é afirmação de que nosso destino é aberto às contingências: nosso desejo depende de nossa história e não de um script pré-determinado pela biologia ou pela religião. Isso nos abre de maneira radical – e apenas a nós, humanos – ao campo moral, no qual a justiça e a injustiça são valores que valem a pena discutir. A religião é um conversation stopper, nos dizeres de Richard Rorty, e, nesse sentido, anti-democrática por excelência. A psicanálise, ao contrário, se estabelece sobre o ideal – e isso é importante ser frisado: é um ideal – de uma conversa livre, cuja direção não pode ser pré-determinada por nenhum interesse prévio. A livre associação, idealmente, é quando conseguimos estar mais preparados para a contingência… e para a democracia (o regime de governo que acolhe sistematicamente o “marginal”, a “minoria”, o “reprimido”).

Pensem na cena: um bebê é lançado para fora do carro, durante um terrível acidente. Ele passa rente a uma árvore, e vai cair justamente num canteiro gramado ao lado da movimentada avenida na qual estava o carro. O bebê sobrevive sem nenhum arranhão.

Agora nessa: João, de 28 anos, varria a calçada de sua casa. Um pneu de um grande caminhão se desprende da auto-estrada que passa a 5km de sua casa. O pneu ganha grande velocidade e acerta em cheio a cabeça de João, matando-o instantaneamente.

As duas cenas levam muitos a conclusões diametralmente opostas:

(a) O puro acaso: se o carro tivesse a 1km/h mais lento ou mais rápido… os resultados poderiam ter sido outros; se João tivesse saído de casa 30 segundos mais tarde, o pneu não o acertaria…

(b) O sentido absoluto: deus existe ou existe uma “ordem cósmica” que organiza completamente os eventos do mundo humano.

Para a psicanálise, na vida psíquica nada é por acaso… mas, no mundo, a ideia é mesmo se alinhar com a ciência: não há uma ordem plena que justifique fatos morais ou fatos históricos. A hora da morte, nos exemplos citados, é, a princípio, o mais contingente dos eventos humanos. E é justamente aí, no máximo da contingência, que fazemos intervir algo do pleno sentido. Isso pode ser interpretado como uma defesa contra a angústia radical advinda desse tipo de evento de absoluto non-sense.

Quando a morte sai do campo puramente eventual – um vírus, uma bala perdida… – e entra no campo moral, o que era contingente entra no jogo-de-poder justiça / injustiça. No campo do direito, ao que parece, as noções de dolo e culpa giram em torno desse ponto: quando é contingente? Quando há responsabilidade?

Num belo poema chamado “O Louva-Deus”, Ferreira Gullar nos fala de um louva-deus que “se faz de vegetal / de talo seco” e que “sabe” que por ali “deliciosas voam libélulas / besouros todos / comestíveis / que (sem vê-lo) dele / se aproximarão para morrer”.

Quero começar essa série de pequenos textos sobre a contingência e a injustiça pensando nessa cena do poema de Gullar. Primeiro ponto, então, da diferença entre a contingência e a injustiça: essa diferença parece estar suprimida, radicalmente, no campo da natureza. É por um esforço antropológico, por uma humanização, que o natural pode vir a ter uma coloração moral. Afinal, sabemos o quão desastroso seria “proteger” as libélulas de serem devoradas por um louva-deus. A contingência desse mortífero encontro nada tem de injustiça.

Conclui Gullar o seu poema: “ou não / ou sim / ou tanto faz // pois que / na natureza / não há crimes nem culpas.”

(Cf. Gullar, Ferreira. em alguma parte alguma. Rio de Janeiro: José Olympio, 2010: p. 100)

Em tempo: a domesticação dos animais – as aves (pensem nos galos de briga, nas assas cortadas dos papagaios), os cães, os gatos, os bois – torna bem mais complexa essa ausência de contingência. Não é contingente o confinamento de animais… Observem, porém: é apenas na humanização desse campo, a sua colonização pelo pulsional, que o torna moral, que o torna digno do jogo-de-linguagem “justo – injusto”.

Há dois contos de Guimarães Rosa muito bons.

“Sinhá Secada” conta a história de um trabalho de luto.

“Quadrinho de Estória” conta a história de um sujeito, dentro da prisão, que amarga a culpa de um homicídio.

Leiam aqui.

Gosto muito de um filme chamado Virgina. Infelizmente, não o encontro para comprar ou alugar aqui em BH. Felizmente, há um torrent com legendas em português:

Torrent E aqui um link alternativo.

Escrevi um pequeno texto sobre o filme. Clique aqui.