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São Paulo, domingo, 09 de maio de 2010
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+(s)ociedade

O fetiche de quantidadeMetas de produtividade e burocracia acadêmica diminuem o potencial de pesquisas científicas

A criação de conhecimento não pode ser medida somente pelo número de trabalhos escritos pelos pesquisadores, como é a tendência atual no Brasil

RENATO MEZAN
COLUNISTA DA FOLHA

A cada tanto tempo, volta-se a discutir como deve ser avaliado o trabalho dos professores. O grande número de pessoas envolvidas nos diversos níveis de ensino, assim como o de artigos e livros que materializam resultados de pesquisa, tem determinado uma preferência por medidas quantitativas.
Se estas podem trazer informações úteis como dado parcial para comparar resultados de escolas em vestibulares ou o desempenho médio de alunos em determinada matéria, sua aplicação como único critério de “produtividade” na pós-graduação vem gerando -a meu ver, pelo menos- distorções bastante sérias.
Não é meu intuito recusar, em princípio, a avaliação externa, que considero útil e necessária. Gostaria apenas de lembrar que a criação de conhecimento não pode ser medida somente pelo número de trabalhos escritos pelos pesquisadores, como é a tendência atual no Brasil. Tampouco me parece correta a fetichização da forma “artigo em revista” em detrimento de textos de maior fôlego, para cuja elaboração, às vezes, são necessários anos de trabalho paciente.
A mesma concepção tem conduzido ao encurtamento dos prazos para a defesa de dissertações e teses na área de humanas, com o que se torna difícil que exibam a qualidade de muitas das realizadas com mais vagar, que (também) por isso se tornaram referência nos campos respectivos.
O equívoco desse conjunto de posturas tornou-se, mais uma vez, sensível para mim ao ler dois livros que narram grandes aventuras do intelecto: “O Último Teorema de Fermat”, de Simon Singh (ed. Record), e “O Homem Que Amava a China”, de Simon Winchester (Companhia das Letras).
O leitor talvez objete que não se podem comparar as realizações de que tratam com o trabalho de pesquisadores iniciantes; lembro, porém, que os autores delas também começaram modestamente e que, se lhes tivessem sido impostas as condições que critico, provavelmente não teriam podido desenvolver as capacidades que lhes permitiram chegar até onde chegaram.

Everest da matemática
O teorema de Fermat desafiou os matemáticos por mais de três séculos, até ser demonstrado em 1994 pelo britânico Andrew Wiles. O livro de Singh narra a história do problema, cujo fascínio consiste em ser compreensível para qualquer ginasiano e, ao mesmo tempo, ter uma solução extremamente complexa. Em resumo, trata-se de uma variante do teorema de Pitágoras: “Em todo triângulo retângulo, a soma do quadrado dos catetos é igual ao quadrado da hipotenusa”, ou, em linguagem matemática, a2²=b2²+c2².
Lendo sobre esta expressão na “Aritmética” de Diofante (século 3º), o francês Pierre de Fermat (1601-65) -cuja especialidade era a teoria dos números e que, junto com Pascal, determinou as leis da probabilidade- teve a curiosidade de saber se a relação valia para outras potências: x3³= y3³ + z3, x4 = y4 + z4 e assim por diante. Não conseguindo encontrar nenhum trio de números que satisfizesse as condições da equação, formulou o teorema que acabou levando seu nome -”Não existem soluções inteiras para ela, se o valor de n for maior que 2″- e anotou na página do livro: “Encontrei uma demonstração maravilhosa para esta proposição, mas esta margem é estreita demais para que eu a possa escrever aqui”.
Após a morte de Fermat, seu filho publicou uma edição da obra grega com as observações do pai. Como o problema parecia simples, os matemáticos lançaram-se à tarefa de o resolver -e descobriram que era muitíssimo complicado.
Singh conta como inúmeros deles fracassaram ao longo dos 300 anos seguintes; os avanços foram lentíssimos, um conseguindo provar que o teorema era válido para a potência 3, outro (cem anos depois) para 5 etc. O enigma resistia a todas as tentativas de demonstração e acabou sendo conhecido como “o monte Everest da matemática”. É quase certo que Fermat se equivocou ao pensar que dispunha da prova, que exige conceitos e técnicas muito mais complexos que os disponíveis na sua época.
Quem a descobriu foi Andrew Wiles, e a história de como o fez é um forte argumento a favor da posição que defendo. O professor de Princeton [universidade americana] precisou de sete anos de cálculos e teve de criar pontes entre ramos inteiramente diferentes da disciplina, numa epopeia intelectual que Singh descreve com grande habilidade e clareza. Não é o caso de descrever aqui os passos que o levaram à vitória; quero ressaltar somente que, não tendo de apresentar projetos nem relatórios, publicando pouquíssimo durante sete anos e se retirando do “circuito interminável de reuniões científicas”, Wiles pôde concentrar-se com exclusividade no que estava fazendo.
Por exemplo, passou um ano inteiro revisando tudo o que já se tentara desde o século 18 e outro tanto para dominar certas ferramentas matemáticas com as quais tinha pouca familiaridade, mas indispensáveis para a estratégia que decidiu seguir. Questionado por Singh sobre seu método de trabalho, Wiles respondeu: “É necessário ter concentração total. Depois, você para. Então parece ocorrer uma espécie de relaxamento, durante o qual, aparentemente, o inconsciente assume o controle. É aí que surgem as ideias novas”.
Este processo é bem conhecido e costumo recomendá-lo a meus orientandos: absorver o máximo de informações e deixá-las “flutuar” até que apareça algum padrão, ou uma ligação entre coisas que aparentemente nada têm a ver uma com a outra. Uma variante da livre associação, em suma.
Ora, se está correndo contra o relógio, como o estudante pode se permitir isso? A chance de ter o “estalo de Vieira” é reduzida; o mais provável é que se conforme com as ideias já estabelecidas, o que obviamente diminui o potencial de inovação do seu trabalho.

Tarefa hercúlea
Outro exemplo de que o tempo de gestação de uma obra precisa ser respeitado é o de Joseph Needham (1900-95), cuja vida extraordinária ficamos conhecendo em “O Homem Que Amava a China”.
Bioquímico de formação, apaixonou-se por uma estudante chinesa que fora a Cambridge [no Reino Unido] para se aperfeiçoar; ela lhe ensinou a língua e, à medida que se aprofundava no estudo da cultura chinesa, Needham foi se tomando de admiração pelas suas realizações científicas e tecnológicas.
Em 1943, o Ministério do Exterior britânico o enviou como diplomata à China, então parcialmente ocupada pelos japoneses. Sua missão era ajudar os acadêmicos a manter o ânimo e a prosseguir em suas pesquisas.
Para saber do que precisavam, viajou muito pelo país e entrou em contato com inúmeros cientistas; em seguida, mandava-lhes publicações científicas, reagentes, instrumentos e o que mais pudesse obter.
Nessxe périplo, Needham se deu conta de que -longe de terem se mantido à margem do desenvolvimento da civilização, como então se acreditava no Ocidente- os chineses tinham descoberto e inventado muito antes dos europeus uma enorme quantidade de coisas, tanto em áreas teóricas quanto no que se refere à vida prática (uma lista parcial cobre 12 páginas do livro de Winchester).
Formulou então o que se tornou conhecido como “a pergunta de Needham”: se aquele povo tinha demonstrado tamanha criatividade, por que não foi entre eles, e sim na Europa, que a ciência moderna se desenvolveu?
A resposta envolvia provar que existiam condições para que isso pudesse ter acontecido, e depois elaborar hipóteses sobre por que não ocorreu. Daí a ideia de escrever um livro que mostrasse toda a inventividade dos chineses, tendo como base os textos recolhidos em suas viagens e as práticas que pudera observar.
Embora o projeto fosse ambicioso, a Cambridge University Press o aceitou, considerando que, uma vez realizado, abrilhantaria ainda mais a reputação da universidade.
“Science and Civilization in China” [Ciência e Civilização na China] teria sete volumes, e Needham acreditava que poderia escrevê-lo “num prazo relativamente curto para uma obra acadêmica: dez anos”.
Na verdade, tomou quatro vezes mais tempo, e, quando o autor morreu, em 1995, já contava 15 mil páginas. Empreendimento hercúleo, como se vê, que transformou radicalmente a percepção ocidental quanto ao papel da China na história da civilização.
O volume de trabalho envolvido era imenso: de saída, ler e classificar milhares de documentos sobre os mais variados assuntos; em seguida, organizar tudo de modo claro e persuasivo, e por fim apresentar algumas respostas à “pergunta de Needham”. Várias pessoas o auxiliaram no percurso (em particular, sua amante chinesa), mas a concepção de base, e boa parte do texto final, se devem exclusivamente a ele.

Monumento
Needham não publicou uma linha de bioquímica durante os últimos 30 anos de sua carreira.
Tampouco tinha formação acadêmica em história das ideias -mas isso não o impediu de, com talento e disciplina, redigir uma das obras mais importantes do século 20.
Se tivesse sido atrapalhado por exigências burocráticas, se tivesse de orientar pós-graduandos, se a editora o pressionasse com prazos ou não o deixasse trabalhar em seu ritmo (o primeiro volume levou seis anos para ficar pronto), teria talvez escrito mais um livro interessante, mas não o monumento que nos legou.
O que estes exemplos nos ensinam é que um trabalho intelectual de grande alcance só pode ser feito em condições adequadas -e uma delas é a confiança dos que decidem (e manejam os cordões da bolsa) em quem se propõe a realizá-lo.
Tal confiança envolve não suspeitar que tempo longo signifique preguiça, admitir que pensar também é trabalho, que a verificação de uma ideia-chave ou de uma referência central pode levar meses -e que nada disso tem importância frente ao resultado final.
Em tempo: um dos motivos encontrados por Needham para o estancamento da criatividade chinesa a partir de 1500 foi justamente a aversão de uma estrutura burocrática acomodada na certeza de sua própria sapiência a tudo que discrepasse dos padrões impostos.
Enquanto isso, na Europa (e depois na América do Norte) a inovação era valorizada, e o talento individual, recompensado. Nas palavras de um sinólogo citado no fim do livro, o resultado da atitude dos mandarins foi que “o incentivo se atrofiou, e a mediocridade tornou-se a norma”. Seria uma pena que, em nome da produtividade medida em termos somente quantitativos, caíssemos no mesmo erro.


RENATO MEZAN é psicanalista e professor titular na Pontifícia Universidade Católica de SP. Escreve na seção “Autores”, do Mais!.

297. Freilich, wenn das Wasser im Topf kocht, so steigt der Dampf aus dem Topf und auch das Bild des Dampfes aus des Topfes. Aber wie, wenn man sagen wollte, im Bild des Topfes müsse auch etwas kochen? (Wittgenstein, Philosophische Untersuchungen I).

E, então, temos lá a imagem da água fervendo, o vapor saindo da panela. Wittgenstein se pergunta: e se alguém insistir que deve haver alguma coisa cozinhando na panela?

Nessa passagem das Investigações, Wittgenstein está argumentando contra a ideia de uma “imagem privada”, de uma sensação que só nós temos e que não podemos descrever. O inefável, o que não se pode compartilhar.

Pra falar de qualquer coisa de “dentro da panela” devemos usar a linguagem. E a linguagem é pública, um jogo de regras públicas, forjado na nossa forma de vida.

Silêncio? Será mesmo?

A performance de 4’33”, de John Cage, talvez mostre a impossibilidade do silêncio.

Há um poema, lindíssimo, de Gregório Duvivier, chamado “Escuta Só”. Vale a pena lê-lo:

num dia ensolarado, eu disse,
você pode ouvir o big bang até
hoje, eu li num jornal, até hoje,
é um barulho ensurdecedor, eu
disse, mas como é, você disse,
como é que não estamos ouvindo
nada agora, você disse, mas nós
estamos ouvindo ele agora, eu
disse, só não estamos escutando,
porque sempre ouvimos, desde
pequenos, mas se ouvíssemos
agora pela primeira vez seria
ensurdecedor, eu disse, e você
de repente disse, e eu nunca
me esqueci, disse que talvez por
isso as pessoas não se entendam
direito, por causa do estrondo,
e nós voltamos a ouvir música,
e ninguém disse mais nada.

(e eu pensei: talvez por isso
a música – para calar o estrondo)

[http://blog.7letras.com.br/2010/03/estrondo.html]

Pois bem, e quando a música se cala? E quando ela é silêncio e deixa ouvir o estrondo?




Paulo é um profissional exemplar. Trabalha num banco e deseja escrever um livro. Ele imagina:

“A bem da verdade, o livro dos mandarins será útil para qualquer um que queira refinar sua vida profissional ou simplesmente aprender um pouco com cases de sucesso.” (LM: 206)

Paulo é o típico empreendedor que o discurso liberal demanda. Ele enuncia, por exemplo, o “paradoxo corporativo” ou o “paradoxo da demissão”: se o sujeito tivesse mais iniciativa, teria arranjado outro trabalho… mas, pessoas determinadas não perdem o emprego. (LM: 158 e 162). Paulo escapa ao paradoxo antecipando-se às expectativas do outro-patrão que não cessa de demandar novas qualificações. É justamente isso o que acontece quando ele fica sabendo que o banco preparar investimentos para a China.

Ele estuda mandarim, estuda cultura chinesa, se prepara arduamente para ser enviado para… o Sudão. Isso mesmo… Mas, isso é missão secreta do banco: para todos, Paulo deve dizer que está na China.

A história fica ainda mais interessante quando Paulo sustenta a fantasia que esteve mesmo na China e, ao voltar para o Brasil, resolve montar uma consultoria com os “valores chineses”. O curioso é que Paulo conhece prostitutas e gigolôs no Sudão. E eles o acompanham na sua volta ao Brasil e na fundação da consultoria.

O discurso que anuncia a consultoria é, então, esse: valores chineses, empreendedorismo, coaching… toda a lenga-lenga liberal. Mas, na verdade, o que os “clientes” de Paulo vão buscar é simplesmente sexo. Ou melhor, não simplesmente: há um detalhe nas prostitutas oferecidas por Paulo. Um detalhe que é um “diferencial do negócio”: a ausência de clitóris.

Eis aí um brevíssimo resumo do romance O Livro dos Mandarins, de Ricardo Lísias. Trata-se de uma narrativa vigorosa, contemporânea e que dá o que pensar sobre esse discurso do capitalismo atual. Do ponto de vista literário, ressalte-se, o livro tem uma série de procedimentos narrativos “pós-modernos” que valorizam muito sua leitura. Não se trata, portanto, de um simples pastiche dos livros de auto-ajuda-para-empresários. Trata-se de literatura mesmo, trabalho com a palavra no sentido mais denso que isso pode ter. Alguns exemplos.

1) O nome “Paulo” e suas variações: há muitos personagens com variações desse nome. Paul, Paulson, Paula… É como se o narrador brincasse, talvez, com a massificação narcísica que o capitalismo opera, dando a vários sujeitos o mesmo nome.

2) O nome do personagem principal, Paulo, vai aos poucos desaparecendo da narrativa. Primeiro, com asteriscos: Paul*, Pau**, Pa***, P****, *****. Depois, ele é chamado por uma série infindável de nomes: “o branquelo”, “este aqui”, “Belé porra nenhuma”, “bobo”… Mais uma vez, o recurso narrativo trabalha sobre o nome e mais uma vez, tenho a impressão, para mostrar o apagamento identitário que o sujeito contemporâneo vive sob o regime econômico liberal. Reduzido a mero “operador financeiro”, eu sou o que compro / vendo / negocio… a identidade ela é fluída como a mercadoria, como o dinheiro que pode se transformar em qualquer coisa. Sou plena força de trabalho, plena mercadoria, portanto, sem nome. Ou melhor: sem cessar nomeada, heteronomeada.

3) Frases cortadas, palavras que faltam. Esse é um recurso narrativo também de muito efeito. Por exemplo: “O investigador que fez a massagem oriental antiestresse com Liu Xin não conseguiu explicar para os colegas o que era exatamente a cicatriz que a garota tinha na. Ele nunca viu nada parecido. A bem da verdade, o rapaz disse que era feio, mas muito gostoso. Para que a mulher fica mais.” (LM: 261)

É evidente para o leitor as palavras que faltam. Mas, a ausência delas torna a presença da falta ainda mais presente. E isso é um fato relevante quanto à ablação do clitóris. Ao final do romance, há uma discussão – com o mesmo tom cínico que perpassa todo o romance – sobre a possível “excisão na área da.” (LM: 324) que uma garota brasileira poderia fazer com um cirurgião plástico (Dr. Paulo) para não atrapalhar os negócios na Confucius, a consultoria de Paulo.

Essa discussão, acredito, é o reverso da moeda liberal. O biopoder, por um lado, manipula a vida e a disciplina de tal forma a aumentar a segurança das populações e a sua sobrevida. Novas tecnologias de poder, sob o liberalismo, deixaram a vida, para certos grupos populações, em certos meios, mais “limpa”, mais “viva”. O problema é que essa operação higiênica deixa restos. Há o que se pode chamar tanatocracia: um governo da morte. Quem é o lixo da cultura? Quem contribui com a mutilação do seu próprio corpo? Quem é o explorado até a morte para tudo funcionar bem? Quanto mais limpo de um lado, parece, mais sujo deve estar do outro.

E, para terminar esse meu comentário, mais dois pontos.

(a) “Ele sentiria uma raiva enorme se soubesse que, caso fosse para a China, descobriria com dois ou três meses em Pequim a cama Ceragem e os seus problemas nas costas ficariam praticamente resolvidos.” (LM: 107)

O narrador vai repetir essa ideia várias vezes. Se ele tivesse ido para China, ele teria encontrado a tal cama Ceragem e teria se livrado de uma dor terrível nas costas. Mas… não foi e continuou com a dor. Mais um recurso narrativo importante: apontar para um tipo de futuro do pretérito, um tipo de espaço que poderia fazer as coisas acontecerem melhor do que previstas. Mas, a sensação que o leitor tem é de que esse grande empreendedor fracassa em dar conta do mais importante: a dor que lhe derruba. Um sintoma sem nome, que aparece na carne mesmo.

(b) O amigo imaginário de Paulo, Rincão e a língua que os dois falam juntos, o rinconês. Esses breves “surtos” de Paulo me parecem importantes na narrativa também. Seria rasteiro demais dizer apenas: paranóia. (Teríamos ainda a relação de Paulo e Godói, a quem ele odeia, pois julga que este o inveja). Não bastaria um diagnóstico aqui, mas, claro, pensar no que, talvez, haja de delirante também na estrutura econômica ou política que faz aparecer um sujeito que vai para o Sudão-China, mantém a crença nisso e faz o outro acreditar nisso. Que abre um prostíbulo e vende o seu produto como consultoria empresarial. Artimanha delirante da literatura? Não apenas: acho que temos aqui também algo da própria construção do discurso social que invisibiliza ou dá outra imagem ao que nos sucede. O “made in China” dos gadgets brilhantes não nos diz nada a respeito, p.ex., da condição dos direitos trabalhistas daqueles que fizeram esses brinquedinhos chegarem até nós.

Enfim, é um romance de primeira linha. Recomendo.

Ref:

Lísias, Ricardo. O livro dos mandarins. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2009.

Êthopoien, quer dizer: fazer o êthos, produzir o êthos, modificar, transformar o êthos, a maneira de ser, o modo de existência de um indivíduo. Aquilo que é êthopoiosé alguma coisa que tem a qualidade de transformar o modo de ser de um indivíduo.” (Foucault, L’Herméneutique du Sujet, p. 227).

Essa definição de etopoético já responde à nossa questão. É bastante evidente que o direito é um saber etopoético. Resta, no entanto, pesquisar como se estabelecem as modificações perpetradas pelo direito na vida de cada um de nós.

Casos mais visíveis como a luta por direitos de “minorias” são exemplos muito potentes do caráter etopoético do campo jurídico. Pensemos nas conquistas das mulheres, dos negros, dos homossexuais, apenas para ficarmos nos mais recentes.

Claro, não se pode dizer que é apenas através do direito que as parcerias homoeróticas vão fazer valer seus direitos civis. Tamém não é por decreto que as mulheres entram no campo do trabalho ou dirimem a dominação masculina. E, certamente, não será apenas pela invenção de leis que o racismo e suas consequências vão desaparecer. Mas, parece-nos impossível que essas lutas não passem pelo campo jurídico. Afinal, a questão da parceria homoafetiva sempre vai esbarrar nos entraves da lei: a adoção, a herança, os benefícios do cônjuge… A mulher muitas vezes também terá que recorrer às leis que não só garantem seu acesso ao trabalho e à cidadania, mas também a protegem da possível violência contra ela. E o negro se valerá dos recursos jurídicos – das leis contra o racismo às quotas universitárias – para fazer valer seus direitos.

Esses exemplos também deixam bem claro que o direito pode ter um caráter reverso. Inventemos um nome: eto-mortífero… eto-paralisante… Ou seja: as engrenagens jurídicas podem “engessar” a criação ou a modificação de novos êthos, de novas formas de vida, pois há forças “conservadoras” que mantem o laço social fixo, tal como está. Pior: avesso à qualquer mudança. Sabemos como essas conquistas são demoradas, são “forçadas”. Não se realizam da noite para o dia. É isso que interessa pesquisar, não? Quais são as forças aqui pró e contra o etopoético? O que impede e o que promove essa mudança no laço social, no nosso modo de ser?

São questões como essas que queremos estudar no II Congresso de Psicanálise, Direito e Literatura, cujo tema será Ética e Estética da Existência. Para mais informações, clique aqui: www.conpdl.com.br

As Viúvas das Quintas-Feiras, romance de Claudia Piñeiro (2005), pode ser lido como um tipo advertência sobre as possíveis ruínas do humano diante da decadência do aparato neoliberal que o sustenta.

A história é bem simples: narra-se a dolce vita de alguns burgueses abastados vivendo num condomínio fechado, nos arredores de Buenos Aires. A sensação que temos – e isso é um indicativo muito importante – é que essa descrição serviria a qualquer condomínio nos arredores de qualquer metrópole. Mas… ocorre um “acidente”: três corpos são encontrados na piscina de uma das belas casas daquele lugar. Não vou dizer aqui o motivo do crime, mas ele tem muito a ver com a temática desenvolvida no romance de forma quase caricatural.

Piñeiro tem um objetivo: fazer uma caricatura dessas pessoas que vivem nesses bunkers de luxo, cercados não apenas pelas flores, campos de golfe e academias de ginástica. Cercados por muros altos, guardas bem armados que os protegem dos “pobres” lá fora. Esses, os pobres, só são bem-vindos ali para o trabalho sujo, repetitivo e braçal. Além desse cliché, Piñeiro mostra o mundinho imoral das famílias: o marido que espanca a mulher, o outro que vive sustentado pela esposa, a esposa alcoolatra traída pelo marido, a estupidez iletrada dos novos ricos… O rol de bizarrices e caricaturas é bem grande.

A forma através da qual a autora desenha essas caricaturas é perspicaz e crítica. Seria interessante comparar a narrativa desses momentos com a justificativa dada pelos dois adolescentes que de vez em quando filmavam às escondidas a vida íntima das pessoas do condomínio: “Também tem gente que dorme tranquila. Famílias que jantam em aparente cordialidade. Crianças no computados ou vendo televisão. Mas isso não os entretém, não é isso que procuram. Porque não acreditam. Ou acreditam, mas não entendem.” (p. 198). É esse estranhamento diante da normalidade que é ressaltado no romance. Não é possível fingir que ali dentro de Los Altos de la Cascada (o condomínio) a vida era real life, como diz um outro personagem. A vida dos condomínios, sabemos, é a vida escotomizada: um grande corte (perverso) denegatório da vida que não queremos ver. Mas… eis que essa vida retorna… geralmente, na forma da morte.

A ruína do sistema financeiro argentino está por todos os lados no romance. O desemprego – mesmo quando atinge gente milionária – é devastador. A autora descreve bem como nossa vida está completamente articulada ao trabalho: não ao que fazemos, mas ao que ganhamos. Uma vez “fora”, não sabemos mais o que somos, muito menos sabemos o que fazer.

Como o romance é recente não vou analisar o final… mas, leiam e vocês vão perceber que a saída encontrada é o reverso do biopoder engendrado pelo liberalismo. Agamben está certo ao ler Foucault como leu: só se pode falar de biopoder quando se fala também de tanatocracia. É impossível deixar de pensar que a vida sob o neoliberalismo não trará consequências sobre as formas que escolhemos morrer e como “capitalizamos” nossa morte. Nem ela escapa da fúria liberal: afinal, o empreendedor de verdade, aquele que tiver mais coragem, tem que fazer até sua morte render alguns trocados.

A denúncia dessa lógica cínica está em quase todos os capítulos do romance. Muito bem escrito, dividido em 48 capítulos curtos, a autora nos leva até a última página não só à revelação do assassinato anunciado no primeiro capítulo, mas à revelação de um mundo perigosamente em ruínas, mesmo quando cercado de muros altos, mesmo na aparente assepsia dos condomínios fechados.

Edição brasileira: Alfaguara, 2007.

Veja mais detalhes:

“Então, [Eliseu] subiu dali a Betel; e indo ele pelo caminho, uns rapazinhos saíram da cidade, e zombavam dele, e diziam-lhe: Sobe, calvo! Sobe, calvo! Virando-se ele para trás, viu-os e os amaldiçoou em nome do Senhor; então, duas ursas saíram do bosque e despedaçaram quarenta e dois deles. Dali, foi ele para o monte Carmelo, de onde voltou para Samaria.” (2 Reis, 2: 23-25).

Convenhamos, a punição foi um pouco exagerada aos 42 rapazinhos… Eliseu bem poderia ter tido um pouco mais de bom humor…

Mas, essa capacidade psíquica para suportar o deboche… de onde ela vem? É diferente a reação do sujeito que revida o gracejo com um outro gracejo – manutenção da violência simbólica – e essa reação de Eliseu – tirando o sobrenatural da história – que “apela” pra violência física.

O que interessa dessa história é pensar na nossa capacidade de lidar com a chacota. Na clínica, é comum ouvir os efeitos do bullying. Dentre eles, um que se destaca é o desejo de vingança. Para interpretar essa cena bíblica, ninguém melhor que Melanie Klein para falar do despedaçamento desse seio mal que nos envenena. Duas ursas violentas e destruidoras fazem o trabalho sujo…

A mangação tem um papel decisivo na economia simbólica do laço social. Qual o desejo envolvido naquele que apoquenta o outro? E quais os efeitos sobre o alvo da irrisão?

Uma última observação: não me lembro de nenhum texto psicanalítico acerca do perdão. Seria o caso de se pensar  a dinâmica do perdão como uma saída desses efeitos da zombaria? Mas, o que seria o perdão de um ponto de vista dinâmico e metapsicológico?

PS: No filme Amarelo Manga, o personagem de Matheus Nachtergaele é particularmente ilustrativo desse desejo de vingança ligado à zombaria. Sua música: “Amarelou, mangou de mim, não vai ficar de graça…”

Há muitas relações possíveis entre a escrita e a lei. Pense, por exemplo, no belo ensaio de Pierre Clastres sobre os índios que escrevem sua lei no corpo. Pense ainda na linguagem jurídica que valoriza imensamente o que está escrito: a assinatura, a autenticação…
Mas, pensemos, rapidamente, nessa cena:
Moisés prestes a quebrar a tábua das leis

Moisés prestes a quebrar a tábua das leis

A cena é conhecida de todos. Nesse quadro de Rembrandt, assim como na estátua de Michelangelo – segundo a interpretação de Freud – o que se vê é o momento imediatamente anterior à destruição das tábuas da Lei. A escrita que se dissipa diante do ódio de Moisés frente à cena da dança de seu povo em adoração ao bezerro de ouro. Eis o retrato da cena que faz Poussin:
Um momento antes de Moisés chegar

Um momento antes de Moisés chegar

Mal se vê, nesse quadro de Poussin, Moisés, no canto esquerdo, ao alto, descendo com as tábuas na mão. O foco de Poussin é a festa para a nova divindade.
A troca das estátuas pela escrita. Talvez, possamos resumir assim essa história. Onde era a imagem, lá deverá advir a escrita na forma da palavra.
Mas, chegará um dia, sabemos, que a própria palavra se tornará uma imagem. O devir-imagem da palavra. Seus adoradores não cessam de cultuá-la. E não adianta mais espatifar as tábuas da lei. Ao contrário: pensemos nesse espatifar como origem justamente da infinita dispersão dos cacos-palavras, dos sentidos da lei, das interpretações possíveis.
Não, não deve ser por acaso que um dos prováveis (e obscuros) sentidos do verbo espatifar é “abrir, rasgar as entranhas”.
Lembrem-se: a psicanálise valoriza o que deve ser deixado de lado. Dessa cena de Moisés, é importante trazer adiante esses cacos das tábuas. São eles a verdade do infinito da lei. (Ah, é muito diferente dizer o infinito da lei e dizer o não-todo da lei, da mesma forma que há diferença radical entre dizer que a verdade é não-toda e dizer a verdade são infinitas).
É sobre esse tipo de tema que versará o congresso que ajudo a organizar (para maio/2009): www.conpdl.com.br. Participe!

Numa entrevista a F. Ewald, Michel Foucault lembra o que pode ser a ética de um intelectual: tornar-se capaz permanentemente de se desprender de si mesmo (isso que é o contrário da atitude da conversão).

Foucault localiza na Universidade o espaço adequado para essa ética. “Ser ao mesmo tempo um universitário e um intelectual, é tentar fazer jogar um tipo de saber e de análise que é ensinada e recebida na universidade de forma a modificar não somente o pensamento dos outros, mas também o seu próprio. Esse trabalho de modificação de seu próprio pensamento e aquele dos outros me parece ser a razão de ser dos intelectuais.”

Ewald compara, então, essa atitude de Foucault àquela de Sartre que passou sua vida desenvolvendo uma intuição fundamental. E pergunta se essa vontade de se “desprender de si mesmo” é uma forma de se singularizar.

É muito interessante a resposta de Foucault:

“Eu não diria que há algo de singular. Mas, o que sustento, é que essa mudança não toma a forma nem de uma iluminação súbita que “abre os olhos” nem de uma permeabilidade a todos os movimentos da conjuntura; eu queria que isso fosse uma elaboração de si por si [soi par soi], uma transformação estudiosa, uma modificação lenta e árdua pelo cuidado constante da verdade.”

O que acho interessante nessa resposta é o seguinte: Foucault nega, mas não se detém em explicar por que essa ética do intelectual não levaria, necessariamente, a uma singularidade. Acho que deveríamos explorar isso de alguma forma, pois muito é “incensado” em torno da singularidade hoje em dia.

É curioso também como Foucault localiza na Universidade o espaço para essa ética, não? Se tomarmos essa ética como ideal, é preciso estudar quais são as forças que parecem lutar a favor da conversão nesses espaços onde deveria reinar o desprendimento.

Finalmente, essa passagem me faz lembrar de algo que Bion fala acerca da importância do pensamento como atividade libidinal. O pensar como um jogo. O desejo de mudar o próprio pensamento e o pensamento dos outros: seria isso uma forma de tornar mais aprazível o que Bion chamava de transformação dos elementos beta em elementos alfa? O que antes não podia ser pensado… agora, devidamente transformado, pode.  Então, eu quero dizer que o intelectual pode agir como uma mãe em sua capacidade de rêverie? Aqui é preciso muito cuidado: na mesma entrevista, Foucault lembra que o papel de um intelectual não é dizer aos outros o que eles devem fazer (p. 1495). O insight que quero desenvolver aqui é outro: o intelectual como lugar de rêverie é simplesmente manter o movimento psíquico do pensamento possível, transformando elementos-beta em elementos-alfa e deixando-os mais livres.

Obs: todas as citações desse post estão na p. 1494, do II vol., da edição nova dos Dits et Écrits. O texto, pra quem tem outras edições, é o de n. 350 e se chama “La souci de la vérité”.