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Silêncio? Será mesmo?

A performance de 4’33”, de John Cage, talvez mostre a impossibilidade do silêncio.

Há um poema, lindíssimo, de Gregório Duvivier, chamado “Escuta Só”. Vale a pena lê-lo:

num dia ensolarado, eu disse,
você pode ouvir o big bang até
hoje, eu li num jornal, até hoje,
é um barulho ensurdecedor, eu
disse, mas como é, você disse,
como é que não estamos ouvindo
nada agora, você disse, mas nós
estamos ouvindo ele agora, eu
disse, só não estamos escutando,
porque sempre ouvimos, desde
pequenos, mas se ouvíssemos
agora pela primeira vez seria
ensurdecedor, eu disse, e você
de repente disse, e eu nunca
me esqueci, disse que talvez por
isso as pessoas não se entendam
direito, por causa do estrondo,
e nós voltamos a ouvir música,
e ninguém disse mais nada.

(e eu pensei: talvez por isso
a música – para calar o estrondo)

[http://blog.7letras.com.br/2010/03/estrondo.html]

Pois bem, e quando a música se cala? E quando ela é silêncio e deixa ouvir o estrondo?




Paulo é um profissional exemplar. Trabalha num banco e deseja escrever um livro. Ele imagina:

“A bem da verdade, o livro dos mandarins será útil para qualquer um que queira refinar sua vida profissional ou simplesmente aprender um pouco com cases de sucesso.” (LM: 206)

Paulo é o típico empreendedor que o discurso liberal demanda. Ele enuncia, por exemplo, o “paradoxo corporativo” ou o “paradoxo da demissão”: se o sujeito tivesse mais iniciativa, teria arranjado outro trabalho… mas, pessoas determinadas não perdem o emprego. (LM: 158 e 162). Paulo escapa ao paradoxo antecipando-se às expectativas do outro-patrão que não cessa de demandar novas qualificações. É justamente isso o que acontece quando ele fica sabendo que o banco preparar investimentos para a China.

Ele estuda mandarim, estuda cultura chinesa, se prepara arduamente para ser enviado para… o Sudão. Isso mesmo… Mas, isso é missão secreta do banco: para todos, Paulo deve dizer que está na China.

A história fica ainda mais interessante quando Paulo sustenta a fantasia que esteve mesmo na China e, ao voltar para o Brasil, resolve montar uma consultoria com os “valores chineses”. O curioso é que Paulo conhece prostitutas e gigolôs no Sudão. E eles o acompanham na sua volta ao Brasil e na fundação da consultoria.

O discurso que anuncia a consultoria é, então, esse: valores chineses, empreendedorismo, coaching… toda a lenga-lenga liberal. Mas, na verdade, o que os “clientes” de Paulo vão buscar é simplesmente sexo. Ou melhor, não simplesmente: há um detalhe nas prostitutas oferecidas por Paulo. Um detalhe que é um “diferencial do negócio”: a ausência de clitóris.

Eis aí um brevíssimo resumo do romance O Livro dos Mandarins, de Ricardo Lísias. Trata-se de uma narrativa vigorosa, contemporânea e que dá o que pensar sobre esse discurso do capitalismo atual. Do ponto de vista literário, ressalte-se, o livro tem uma série de procedimentos narrativos “pós-modernos” que valorizam muito sua leitura. Não se trata, portanto, de um simples pastiche dos livros de auto-ajuda-para-empresários. Trata-se de literatura mesmo, trabalho com a palavra no sentido mais denso que isso pode ter. Alguns exemplos.

1) O nome “Paulo” e suas variações: há muitos personagens com variações desse nome. Paul, Paulson, Paula… É como se o narrador brincasse, talvez, com a massificação narcísica que o capitalismo opera, dando a vários sujeitos o mesmo nome.

2) O nome do personagem principal, Paulo, vai aos poucos desaparecendo da narrativa. Primeiro, com asteriscos: Paul*, Pau**, Pa***, P****, *****. Depois, ele é chamado por uma série infindável de nomes: “o branquelo”, “este aqui”, “Belé porra nenhuma”, “bobo”… Mais uma vez, o recurso narrativo trabalha sobre o nome e mais uma vez, tenho a impressão, para mostrar o apagamento identitário que o sujeito contemporâneo vive sob o regime econômico liberal. Reduzido a mero “operador financeiro”, eu sou o que compro / vendo / negocio… a identidade ela é fluída como a mercadoria, como o dinheiro que pode se transformar em qualquer coisa. Sou plena força de trabalho, plena mercadoria, portanto, sem nome. Ou melhor: sem cessar nomeada, heteronomeada.

3) Frases cortadas, palavras que faltam. Esse é um recurso narrativo também de muito efeito. Por exemplo: “O investigador que fez a massagem oriental antiestresse com Liu Xin não conseguiu explicar para os colegas o que era exatamente a cicatriz que a garota tinha na. Ele nunca viu nada parecido. A bem da verdade, o rapaz disse que era feio, mas muito gostoso. Para que a mulher fica mais.” (LM: 261)

É evidente para o leitor as palavras que faltam. Mas, a ausência delas torna a presença da falta ainda mais presente. E isso é um fato relevante quanto à ablação do clitóris. Ao final do romance, há uma discussão – com o mesmo tom cínico que perpassa todo o romance – sobre a possível “excisão na área da.” (LM: 324) que uma garota brasileira poderia fazer com um cirurgião plástico (Dr. Paulo) para não atrapalhar os negócios na Confucius, a consultoria de Paulo.

Essa discussão, acredito, é o reverso da moeda liberal. O biopoder, por um lado, manipula a vida e a disciplina de tal forma a aumentar a segurança das populações e a sua sobrevida. Novas tecnologias de poder, sob o liberalismo, deixaram a vida, para certos grupos populações, em certos meios, mais “limpa”, mais “viva”. O problema é que essa operação higiênica deixa restos. Há o que se pode chamar tanatocracia: um governo da morte. Quem é o lixo da cultura? Quem contribui com a mutilação do seu próprio corpo? Quem é o explorado até a morte para tudo funcionar bem? Quanto mais limpo de um lado, parece, mais sujo deve estar do outro.

E, para terminar esse meu comentário, mais dois pontos.

(a) “Ele sentiria uma raiva enorme se soubesse que, caso fosse para a China, descobriria com dois ou três meses em Pequim a cama Ceragem e os seus problemas nas costas ficariam praticamente resolvidos.” (LM: 107)

O narrador vai repetir essa ideia várias vezes. Se ele tivesse ido para China, ele teria encontrado a tal cama Ceragem e teria se livrado de uma dor terrível nas costas. Mas… não foi e continuou com a dor. Mais um recurso narrativo importante: apontar para um tipo de futuro do pretérito, um tipo de espaço que poderia fazer as coisas acontecerem melhor do que previstas. Mas, a sensação que o leitor tem é de que esse grande empreendedor fracassa em dar conta do mais importante: a dor que lhe derruba. Um sintoma sem nome, que aparece na carne mesmo.

(b) O amigo imaginário de Paulo, Rincão e a língua que os dois falam juntos, o rinconês. Esses breves “surtos” de Paulo me parecem importantes na narrativa também. Seria rasteiro demais dizer apenas: paranóia. (Teríamos ainda a relação de Paulo e Godói, a quem ele odeia, pois julga que este o inveja). Não bastaria um diagnóstico aqui, mas, claro, pensar no que, talvez, haja de delirante também na estrutura econômica ou política que faz aparecer um sujeito que vai para o Sudão-China, mantém a crença nisso e faz o outro acreditar nisso. Que abre um prostíbulo e vende o seu produto como consultoria empresarial. Artimanha delirante da literatura? Não apenas: acho que temos aqui também algo da própria construção do discurso social que invisibiliza ou dá outra imagem ao que nos sucede. O “made in China” dos gadgets brilhantes não nos diz nada a respeito, p.ex., da condição dos direitos trabalhistas daqueles que fizeram esses brinquedinhos chegarem até nós.

Enfim, é um romance de primeira linha. Recomendo.

Ref:

Lísias, Ricardo. O livro dos mandarins. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2009.

Êthopoien, quer dizer: fazer o êthos, produzir o êthos, modificar, transformar o êthos, a maneira de ser, o modo de existência de um indivíduo. Aquilo que é êthopoiosé alguma coisa que tem a qualidade de transformar o modo de ser de um indivíduo.” (Foucault, L’Herméneutique du Sujet, p. 227).

Essa definição de etopoético já responde à nossa questão. É bastante evidente que o direito é um saber etopoético. Resta, no entanto, pesquisar como se estabelecem as modificações perpetradas pelo direito na vida de cada um de nós.

Casos mais visíveis como a luta por direitos de “minorias” são exemplos muito potentes do caráter etopoético do campo jurídico. Pensemos nas conquistas das mulheres, dos negros, dos homossexuais, apenas para ficarmos nos mais recentes.

Claro, não se pode dizer que é apenas através do direito que as parcerias homoeróticas vão fazer valer seus direitos civis. Tamém não é por decreto que as mulheres entram no campo do trabalho ou dirimem a dominação masculina. E, certamente, não será apenas pela invenção de leis que o racismo e suas consequências vão desaparecer. Mas, parece-nos impossível que essas lutas não passem pelo campo jurídico. Afinal, a questão da parceria homoafetiva sempre vai esbarrar nos entraves da lei: a adoção, a herança, os benefícios do cônjuge… A mulher muitas vezes também terá que recorrer às leis que não só garantem seu acesso ao trabalho e à cidadania, mas também a protegem da possível violência contra ela. E o negro se valerá dos recursos jurídicos – das leis contra o racismo às quotas universitárias – para fazer valer seus direitos.

Esses exemplos também deixam bem claro que o direito pode ter um caráter reverso. Inventemos um nome: eto-mortífero… eto-paralisante… Ou seja: as engrenagens jurídicas podem “engessar” a criação ou a modificação de novos êthos, de novas formas de vida, pois há forças “conservadoras” que mantem o laço social fixo, tal como está. Pior: avesso à qualquer mudança. Sabemos como essas conquistas são demoradas, são “forçadas”. Não se realizam da noite para o dia. É isso que interessa pesquisar, não? Quais são as forças aqui pró e contra o etopoético? O que impede e o que promove essa mudança no laço social, no nosso modo de ser?

São questões como essas que queremos estudar no II Congresso de Psicanálise, Direito e Literatura, cujo tema será Ética e Estética da Existência. Para mais informações, clique aqui: www.conpdl.com.br

As Viúvas das Quintas-Feiras, romance de Claudia Piñeiro (2005), pode ser lido como um tipo advertência sobre as possíveis ruínas do humano diante da decadência do aparato neoliberal que o sustenta.

A história é bem simples: narra-se a dolce vita de alguns burgueses abastados vivendo num condomínio fechado, nos arredores de Buenos Aires. A sensação que temos – e isso é um indicativo muito importante – é que essa descrição serviria a qualquer condomínio nos arredores de qualquer metrópole. Mas… ocorre um “acidente”: três corpos são encontrados na piscina de uma das belas casas daquele lugar. Não vou dizer aqui o motivo do crime, mas ele tem muito a ver com a temática desenvolvida no romance de forma quase caricatural.

Piñeiro tem um objetivo: fazer uma caricatura dessas pessoas que vivem nesses bunkers de luxo, cercados não apenas pelas flores, campos de golfe e academias de ginástica. Cercados por muros altos, guardas bem armados que os protegem dos “pobres” lá fora. Esses, os pobres, só são bem-vindos ali para o trabalho sujo, repetitivo e braçal. Além desse cliché, Piñeiro mostra o mundinho imoral das famílias: o marido que espanca a mulher, o outro que vive sustentado pela esposa, a esposa alcoolatra traída pelo marido, a estupidez iletrada dos novos ricos… O rol de bizarrices e caricaturas é bem grande.

A forma através da qual a autora desenha essas caricaturas é perspicaz e crítica. Seria interessante comparar a narrativa desses momentos com a justificativa dada pelos dois adolescentes que de vez em quando filmavam às escondidas a vida íntima das pessoas do condomínio: “Também tem gente que dorme tranquila. Famílias que jantam em aparente cordialidade. Crianças no computados ou vendo televisão. Mas isso não os entretém, não é isso que procuram. Porque não acreditam. Ou acreditam, mas não entendem.” (p. 198). É esse estranhamento diante da normalidade que é ressaltado no romance. Não é possível fingir que ali dentro de Los Altos de la Cascada (o condomínio) a vida era real life, como diz um outro personagem. A vida dos condomínios, sabemos, é a vida escotomizada: um grande corte (perverso) denegatório da vida que não queremos ver. Mas… eis que essa vida retorna… geralmente, na forma da morte.

A ruína do sistema financeiro argentino está por todos os lados no romance. O desemprego – mesmo quando atinge gente milionária – é devastador. A autora descreve bem como nossa vida está completamente articulada ao trabalho: não ao que fazemos, mas ao que ganhamos. Uma vez “fora”, não sabemos mais o que somos, muito menos sabemos o que fazer.

Como o romance é recente não vou analisar o final… mas, leiam e vocês vão perceber que a saída encontrada é o reverso do biopoder engendrado pelo liberalismo. Agamben está certo ao ler Foucault como leu: só se pode falar de biopoder quando se fala também de tanatocracia. É impossível deixar de pensar que a vida sob o neoliberalismo não trará consequências sobre as formas que escolhemos morrer e como “capitalizamos” nossa morte. Nem ela escapa da fúria liberal: afinal, o empreendedor de verdade, aquele que tiver mais coragem, tem que fazer até sua morte render alguns trocados.

A denúncia dessa lógica cínica está em quase todos os capítulos do romance. Muito bem escrito, dividido em 48 capítulos curtos, a autora nos leva até a última página não só à revelação do assassinato anunciado no primeiro capítulo, mas à revelação de um mundo perigosamente em ruínas, mesmo quando cercado de muros altos, mesmo na aparente assepsia dos condomínios fechados.

Edição brasileira: Alfaguara, 2007.

Veja mais detalhes:

“Então, [Eliseu] subiu dali a Betel; e indo ele pelo caminho, uns rapazinhos saíram da cidade, e zombavam dele, e diziam-lhe: Sobe, calvo! Sobe, calvo! Virando-se ele para trás, viu-os e os amaldiçoou em nome do Senhor; então, duas ursas saíram do bosque e despedaçaram quarenta e dois deles. Dali, foi ele para o monte Carmelo, de onde voltou para Samaria.” (2 Reis, 2: 23-25).

Convenhamos, a punição foi um pouco exagerada aos 42 rapazinhos… Eliseu bem poderia ter tido um pouco mais de bom humor…

Mas, essa capacidade psíquica para suportar o deboche… de onde ela vem? É diferente a reação do sujeito que revida o gracejo com um outro gracejo – manutenção da violência simbólica – e essa reação de Eliseu – tirando o sobrenatural da história – que “apela” pra violência física.

O que interessa dessa história é pensar na nossa capacidade de lidar com a chacota. Na clínica, é comum ouvir os efeitos do bullying. Dentre eles, um que se destaca é o desejo de vingança. Para interpretar essa cena bíblica, ninguém melhor que Melanie Klein para falar do despedaçamento desse seio mal que nos envenena. Duas ursas violentas e destruidoras fazem o trabalho sujo…

A mangação tem um papel decisivo na economia simbólica do laço social. Qual o desejo envolvido naquele que apoquenta o outro? E quais os efeitos sobre o alvo da irrisão?

Uma última observação: não me lembro de nenhum texto psicanalítico acerca do perdão. Seria o caso de se pensar  a dinâmica do perdão como uma saída desses efeitos da zombaria? Mas, o que seria o perdão de um ponto de vista dinâmico e metapsicológico?

PS: No filme Amarelo Manga, o personagem de Matheus Nachtergaele é particularmente ilustrativo desse desejo de vingança ligado à zombaria. Sua música: “Amarelou, mangou de mim, não vai ficar de graça…”

Há muitas relações possíveis entre a escrita e a lei. Pense, por exemplo, no belo ensaio de Pierre Clastres sobre os índios que escrevem sua lei no corpo. Pense ainda na linguagem jurídica que valoriza imensamente o que está escrito: a assinatura, a autenticação…
Mas, pensemos, rapidamente, nessa cena:
Moisés prestes a quebrar a tábua das leis

Moisés prestes a quebrar a tábua das leis

A cena é conhecida de todos. Nesse quadro de Rembrandt, assim como na estátua de Michelangelo – segundo a interpretação de Freud – o que se vê é o momento imediatamente anterior à destruição das tábuas da Lei. A escrita que se dissipa diante do ódio de Moisés frente à cena da dança de seu povo em adoração ao bezerro de ouro. Eis o retrato da cena que faz Poussin:
Um momento antes de Moisés chegar

Um momento antes de Moisés chegar

Mal se vê, nesse quadro de Poussin, Moisés, no canto esquerdo, ao alto, descendo com as tábuas na mão. O foco de Poussin é a festa para a nova divindade.
A troca das estátuas pela escrita. Talvez, possamos resumir assim essa história. Onde era a imagem, lá deverá advir a escrita na forma da palavra.
Mas, chegará um dia, sabemos, que a própria palavra se tornará uma imagem. O devir-imagem da palavra. Seus adoradores não cessam de cultuá-la. E não adianta mais espatifar as tábuas da lei. Ao contrário: pensemos nesse espatifar como origem justamente da infinita dispersão dos cacos-palavras, dos sentidos da lei, das interpretações possíveis.
Não, não deve ser por acaso que um dos prováveis (e obscuros) sentidos do verbo espatifar é “abrir, rasgar as entranhas”.
Lembrem-se: a psicanálise valoriza o que deve ser deixado de lado. Dessa cena de Moisés, é importante trazer adiante esses cacos das tábuas. São eles a verdade do infinito da lei. (Ah, é muito diferente dizer o infinito da lei e dizer o não-todo da lei, da mesma forma que há diferença radical entre dizer que a verdade é não-toda e dizer a verdade são infinitas).
É sobre esse tipo de tema que versará o congresso que ajudo a organizar (para maio/2009): www.conpdl.com.br. Participe!

Numa entrevista a F. Ewald, Michel Foucault lembra o que pode ser a ética de um intelectual: tornar-se capaz permanentemente de se desprender de si mesmo (isso que é o contrário da atitude da conversão).

Foucault localiza na Universidade o espaço adequado para essa ética. “Ser ao mesmo tempo um universitário e um intelectual, é tentar fazer jogar um tipo de saber e de análise que é ensinada e recebida na universidade de forma a modificar não somente o pensamento dos outros, mas também o seu próprio. Esse trabalho de modificação de seu próprio pensamento e aquele dos outros me parece ser a razão de ser dos intelectuais.”

Ewald compara, então, essa atitude de Foucault àquela de Sartre que passou sua vida desenvolvendo uma intuição fundamental. E pergunta se essa vontade de se “desprender de si mesmo” é uma forma de se singularizar.

É muito interessante a resposta de Foucault:

“Eu não diria que há algo de singular. Mas, o que sustento, é que essa mudança não toma a forma nem de uma iluminação súbita que “abre os olhos” nem de uma permeabilidade a todos os movimentos da conjuntura; eu queria que isso fosse uma elaboração de si por si [soi par soi], uma transformação estudiosa, uma modificação lenta e árdua pelo cuidado constante da verdade.”

O que acho interessante nessa resposta é o seguinte: Foucault nega, mas não se detém em explicar por que essa ética do intelectual não levaria, necessariamente, a uma singularidade. Acho que deveríamos explorar isso de alguma forma, pois muito é “incensado” em torno da singularidade hoje em dia.

É curioso também como Foucault localiza na Universidade o espaço para essa ética, não? Se tomarmos essa ética como ideal, é preciso estudar quais são as forças que parecem lutar a favor da conversão nesses espaços onde deveria reinar o desprendimento.

Finalmente, essa passagem me faz lembrar de algo que Bion fala acerca da importância do pensamento como atividade libidinal. O pensar como um jogo. O desejo de mudar o próprio pensamento e o pensamento dos outros: seria isso uma forma de tornar mais aprazível o que Bion chamava de transformação dos elementos beta em elementos alfa? O que antes não podia ser pensado… agora, devidamente transformado, pode.  Então, eu quero dizer que o intelectual pode agir como uma mãe em sua capacidade de rêverie? Aqui é preciso muito cuidado: na mesma entrevista, Foucault lembra que o papel de um intelectual não é dizer aos outros o que eles devem fazer (p. 1495). O insight que quero desenvolver aqui é outro: o intelectual como lugar de rêverie é simplesmente manter o movimento psíquico do pensamento possível, transformando elementos-beta em elementos-alfa e deixando-os mais livres.

Obs: todas as citações desse post estão na p. 1494, do II vol., da edição nova dos Dits et Écrits. O texto, pra quem tem outras edições, é o de n. 350 e se chama “La souci de la vérité”.

1. História dos conceitos

O famoso primeiro parágrafo de “Pulsões e Destino da Pulsão”, de Freud (2004 [1915]), pode ser lido como uma importante advertência com relação à transitoriedade dos conceitos de uma ciência. O que dá a qualquer conceito esse caráter transitório é a insuperável distância entre nossas definições e o mundo empírico. Essas definições iniciais são sempre convenções, isto é, sempre fruto de escolhas arbitrárias e de nosso aparato sensitivo. “Confinar conceitos em definições” é o último passo de um longo percurso arbitrário. Mas, esse suposto último passo – um mínimo de certeza – logo se mostra um mal passo e exige a retomada do caminho investigativo. Cito o parágrafo na íntegra:

Ouvimos muitas vezes a opinião de que uma ciência deve se edificar sobre concei­tos básicos claros e precisamente definidos, mas, na realidade, nenhuma ciência, nem mesmo a mais exata, começa com tais definições. O verdadeiro início da ati­vidade científica consiste muito mais na descrição de fenômenos que são em seguida agrupados, ordenados e correlacionados entre si. Além disso, é inevitável que, já ao descrever o material, apliquemos sobre ele algumas ideias abstratas obti­das não só a partir das novas experiências, mas também oriundas de outras fontes. Tais ideias iniciais – os futuros conceitos básicos da ciência – se tornam ainda mais indispensáveis quando mais tarde se trabalha sobre os dados observados. No princípio, as idéias devem conter certo grau de indefinição, e ainda não é possível pensar em uma delimitação clara de seu conteúdo. Enquanto elas permanecem nesse estado, podemos concordar sobre seu significado remetendo-nos repetida­mente ao material experiencial a partir do qual elas aparentemente foram deriva­das; contudo, na realidade, esse material já estava subordinado a elas. Em rigor, essas idéias iniciais possuem o caráter de convenções. Entretanto, é preciso que não tenham sido escolhidas arbitrariamente, e sim determinadas pelas relações significativas que mantêm com o material empírico. É comum que imaginemos poder intuir tais relações antes mesmo de podermos caracterizá-las e demons­trá-las, mas só depois de termos investigado mais a fundo determinado campo de fenômenos é que poderemos formular com mais precisão seus conceitos básicos e modificá-los progressivamente, até que se tornem amplamente utilizáveis e, por­tanto, livres de contradição. É apenas então que talvez tenha chegado a hora de confinar os conceitos em definições. Entretanto, o progresso do conhecimento não suporta que tais definições sejam rígidas, e como ilustra de modo admirável o exemplo da física, mesmo os “conceitos básicos” que já foram fixados em definições também sofrem uma constante modificação de conteúdo. [1]

Os conceitos de uma ciência têm, portanto, uma história. E o que essa história mostra é que a origem desses conceitos é contingencial, fruto da frágil articulação entre o experimento e a linguagem. Um campo não recobre o outro. Inúmeras metáforas na filosofia da ciência já foram usadas para tornar essa impotência da ciência mais visível. Cito duas: (a) conceitos são como mapas: não recobrem todo território, se assim fosse, seriam inúteis; (b) conceitos são como andaimes: servem apenas de apoio através do qual apenas uma parte do real pode ser acessado.

É importante observar, en passant, que Freud não é um realista: ele diz claramente que “os fatos observados” já estão subordinados às ideias que futuramente se tornarão os “conceitos básicos” de uma ciência. Ou seja, não há um fato puro ao qual poderíamos recorrer para garantir a veracidade dos nossos conceitos. Na verdade, nossos conceitos são forjados para fazer aparecer essa realidade que julgamos “encontrar”.

2. Fascismo do pensamento

Não deixa de ser curioso que a história de muitas ciências recalque esse traço de sua “personalidade”, por assim dizer. Digo recalque porque acredito que o processo de recusa do caráter transitório de nossos conceitos é mais do que mera recusa ou repressão. É um processo de defesa bem articulado que funciona como o recalque, inclusive ensejando o retorno do recalcado em formas sintomáticas diversas.

Há muitos “sintomas” oriundos desse recalcamento. Cito alguns: (1) apenas um autor é aceito como detentor da verdade sobre certo saber; (2) a história da disciplina é transformada num tipo de hagiografia bem comportada e não numa pesquisa sobre as condições de possibilidade dessa disciplina; (3) a disciplina tende a recusar traduzir seus termos de forma interdisciplinar e tende a se fechar esotericamente, sendo acessível apenas aos “iniciados”; (4) qualquer crítica aos conceitos é entendida como “resistência” ou inapetência (ignorância) e é exigido do crítico uma imediata resposta “para colocar algo no lugar” do que é criticado.

Há vários nomes para essa doença do pensamento. Podemos chamá-la dogmatismo, triunfo da religião, proselitismo. Mas, o nome que prefiro é fascismo do pensamento. O batismo é de Michel Foucault, quando escreve o prefácio ao Anti-Édipo, de Deleuze e Gattari. O autor toma o fascismo como inimigo maior, adversário estratégico. O fascismo que há em nós, ele lembra, “o fascismo que nos faz amar o poder, desejar essa coisas mesma que nos domina e nos explora”. Ele levanta questões fundamentais:

Como fazer para não se tornar fascista mesmo quando (e sobretudo quando) cremos ser um militante revolucionário? Como livrar nosso discurso e nossos atos, nossos corações e nossos prazeres do fascismo? Como desalojar o fascismo que está incrustado no nosso comportamento?[2]

Dentre os conselhos que o autor nos dá para liberar o nosso pensamento da doença fascista, destaco um:

Liberte-se das velhas categorias do Negativo (a lei, o limite, a castração, a falta, a lacuna), que o pensamento ocidental tem por tanto tempo sacralizado como forma do poder e modo de acesso à realidade. Prefira o que é positivo e múltiplo, a diferença à uniformidade, o fluxo às unidades, os agenciamentos móveis aos sistemas. Considere que o que é produtivo não é sedentátio, mas nômade.[3]

O pensamento não-fascista não é um pensamento relativista. Ao contrário do que os fascistas acreditam, as críticas da desconstrução não são terroristas, isto é, atos de sabotagem que visam a implantação de outro fascismo. É importante ler essa sugestão de Foucault como aquilo que ela é: um convite. Convite à diferença e ao nomadismo do pensamento.

3. História como antídoto

A história de uma disciplina pensada como o exame sistemático das condições de possibilidade dessa disciplina é o melhor antídoto contra o fascismo do pensamento. Reveladas as condições de possibilidade, encontramos a contingência dos conceitos, sua origem móvel e múltipla. Além disso, aponta-se para o devir-diferente de todo conceito, de todo pensamento.

O que é particularmente assombroso, na minha opinião, é que a Psicanálise sofra dessa doença. Ela que parece uma disciplina profundamente interessada na historicidade. Ela que sempre denuncia a ilusão da religião e da certeza. Ela que sempre aponta para o “umbigo”, o limite da interpretação.

21/06/2009


[1] Freud, Sigmund. Pulsões e destinos da pulsão. In _____. Escritos sobre a psicologia do inconsciente. Trad. Elsa Susemihl, Helga Araújo, M. Rita Salzano e Luiz Alberto Hanns. Rio de Janeiro: Imago, 2004 [1915]: 145. Negrito meu.

[2] Foucault, Michel. Préface. In ____. Dits et écrits I. Paris: Quarto/Gallimard, 2001 [1977]: 133-6.

[3] Ibid.

Numa entrevista a F. Ewald, Michel Foucault lembra o que pode ser a ética de um intelectual: tornar-se capaz permanentemente de se desprender de si mesmo (isso que é o contrário da atitude da conversão).

Foucault localiza na Universidade o espaço adequado para essa ética. “Ser ao mesmo tempo um universitário e um intelectual, é tentar fazer jogar um tipo de saber e de análise que é ensinada e recebida na universidade de forma a modificar não somente o pensamento dos outros, mas também o seu próprio. Esse trabalho de modificação de seu próprio pensamento e aquele dos outros me parece ser a razão de ser dos intelectuais.”

Ewald compara, então, essa atitude de Foucault àquela de Sartre que passou sua vida desenvolvendo uma intuição fundamental. E pergunta se essa vontade de se “desprender de si mesmo” é uma forma de se singularizar.

É muito interessante a resposta de Foucault:

“Eu não diria que há algo de singular. Mas, o que sustento, é que essa mudança não toma a forma nem de uma iluminação súbita que “abre os olhos” nem de uma permeabilidade a todos os movimentos da conjuntura; eu queria que isso fosse uma elaboração de si por si [soi par soi], uma transformação estudiosa, uma modificação lenta e árdua pelo cuidado constante da verdade.”

O que acho interessante nessa resposta é o seguinte: Foucault nega, mas não se detém em explicar por que essa ética do intelectual não levaria, necessariamente, a uma singularidade. Acho que deveríamos explorar isso de alguma forma, pois muito é “incensado” em torno da singularidade hoje em dia.

É curioso também como Foucault localiza na Universidade o espaço para essa ética, não? Se tomarmos essa ética como ideal, é preciso estudar quais são as forças que parecem lutar a favor da conversão nesses espaços onde deveria reinar o desprendimento.

Finalmente, essa passagem me faz lembrar de algo que Bion fala acerca da importância do pensamento como atividade libidinal. O pensar como um jogo. O desejo de mudar o próprio pensamento e o pensamento dos outros: seria isso uma forma de tornar mais aprazível o que Bion chamava de transformação dos elementos beta em elementos alfa? O que antes não podia ser pensado… agora, devidamente transformado, pode.  Então, eu quero dizer que o intelectual pode agir como uma mãe em sua capacidade de rêverie? Aqui é preciso muito cuidado: na mesma entrevista, Foucault lembra que o papel de um intelectual não é dizer aos outros o que eles devem fazer (p. 1495). O insight que quero desenvolver aqui é outro: o intelectual como lugar de rêverie é simplesmente manter o movimento psíquico do pensamento possível, transformando elementos-beta em elementos-alfa e deixando-os mais livres.

Obs: todas as citações desse post estão na p. 1494, do II vol., da edição nova dos Dits et Écrits. O texto, pra quem tem outras edições, é o de n. 350 e se chama “La souci de la vérité”.