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Há uma fotografia, no MOMA, de Irving Penn, datada de 1949, e que se chama Girl in Bed on the Telephone. Eis a foto:

Girl in Bed on the Telephone

A foto é de uma beleza impressionante. Em primeiro lugar, pela captura de uma cena íntima, mais que prosaica. Em segundo, pela composição plástica da cena: as voltas do lençol, a renda da blusa da garota, o amarrotado do travesseiro.

A Psicanálise nos ensina que amamos a partir da fantasia. Nossos objetos de amor são, por assim dizer, substitutos do que nunca pode ser substituído. Essas marcas originárias são a fonte inesgotável de nossas fantasias de amor. É sempre a essas relações pretéritas-presentes que retornamos. Freud dizia que o encontro com o objeto de amor é, de fato, um reencontro. Ao contrário de uma velha teoria popular do amor que diz que sempre estamos procurando um objeto perdido, Freud está dizendo que reencontramos, de fato, o objeto das origens.

Voltemos à fotografia de Penn: pensem na singela diferença entre a marca das dobras do lençol e as marcas um tanto informes, um tanto “em ondas”, fazendo aparecer voltas, espaços ocultos, sombras. Percebam que a perna “em v” da garota acaba por tensionar o lençol. Essa linha diagonal desequilibra a leve curva que parece fazer o corpo da moça. Vejam ainda o fio do telefone que parece passar por debaixo do pescoço da garota. Um fio que não faz reta, ao contrário: que se deixa moldar pelas voltas do travesseiro ocupado apenas na extremidade. Um fio cuja origem também não temos acesso: a tomada imaginada é prosaico demais. Há uma força metafórica muito importante aqui nesse fio que vai para “fora da cena”, para um outro lugar…

Seus olhos fechados transformam o travesseiro no corpo do outro imaginado. Ele já esteve ali? Seria mesmo ele? Não poderia ser ela? De repente, o expectador começa a fantasiar também sobre essa cena. Ocupa-se o lugar do travesseiro ou o lugar dela: quem abraçaríamos assim? Por quem nos deixaríamos abraçar assim? Ou ainda: por quem repetimos essa cena solitária mas de profunda comunicação com o outro?

O telefone traz a voz do outro. Mais: o tom, o ruído da respiração, uma presença apenas parcial. Mas, isso basta para trazer o outro para perto, para dentro. Basta um pedaço do outro. Winnicott chamava esse tipo de pedaço que nos faz reencontrar uma relação intensa com o outro de objeto transicional. Toda essa cena me parece ter um forte caráter transicional: o travesseiro não de fato o outro, a voz mediada também não é o outro, a imagem pensada de olhos fechados também não é… Mas como recusar que o outro ali está nessas dobras, nessas linhas, nessas curvas?

O objeto transicional é muito mais do que um simples substituto para um objeto amado (na nossa cultura, quase sempre, a mãe). É um objeto que marca uma transição entre o eu e o outro, é o meio, é o entre-lugar, é o outro em mim, é o cheiro e o gosto do outro impregnado no meu corpo. O bico, a fralda, o ursinho, o travesseirinho: são objetos profundamente investidos porque marcam uma posição do sujeito diante desse outro. O objeto transicional garante, em certa medida, a posição do “bebê da mamãe” ou, em termos técnicos, de sermos objeto de desejo do outro. A garota que abraça o travesseiro abraça também um lugar que ela ocupa dentro de uma relação.

O aparente auto-erotismo da cena, na verdade, é totalmente colonizado pela presença do outro. Como disse: ela ocupa apenas a extremidade do travesseiro… ela quase cai no “lugar do outro”… Talvez, ela já esteja adormecida, sonhando. Talvez, a relação esteja bem no início. Talvez, seja esta seja uma cena de luto, do fim de uma relação… Mais uma vez o expectador fica sem saber, em suspense permanente, sobre o sentido da cena. Na minha opinião, isso é o fundamental: o suspense desse sentido que toda relação amorosa traz – e também a suspensão de um sentido único que toda boa obra de arte, como essa fotografia, traz. Por mais evidente e prosaica que ela pareça ser no início, num primeiro olhar… Não sabemos ao certo o que reencontramos, mas seja lá o que for, isso, quando aparece, sempre produz um efeito. E é, justamente, sobre esse efeito que uma análise versa.


1) A Psicanálise é também um método terapêutico. Não há dúvida de que, ao transformar parte do que é inconsciente em consciente, ela transforma as pessoas. Se considerarmos a neurose como um estilo de vida, então é possível pensar no desenvolvimento de outro estilo, outra forma de se relacionar consigo mesmo e com os outros.

2) Mas, é preciso estar atento ao desejo de “ser outro”, tão comum nas neuroses. Nossos romances familiares estão repletos de narcisismo. Uma família melhor, um pai mais amigo, uma mãe mais compreensiva: esses desejos implicam também no suposto ego que daí adviria. Isso está geralmente implícito: “se eu tivesse tido um pai mais compreensivo… hoje eu seria…”. Parte fundamental de uma análise é exatamente esclarecer os limites dessa “mudança” desejada, desse ser outro que aparece como ideal imaginário.

3) Na Conferência XXVII, sobre a transferência, Freud diz alguma coisa que merece muitíssima atenção: “Der geheilte Nervöse ist wirklich ein anderer Mensch geworden, im Grunde ist er aber natürlich derselbe geblieben, d. h. er ist so geworden, wie er bestenfalls unter den günstigsten Bedingungen hätte werden können.” (GW, XI, 452). Traduzindo: “o neurótico curado se transformou realmente em um outro homem, mas, no fundo, naturalmente, ele permaneceu ele mesmo, isto é, ele assim se tornou o que poderia ter se tornado no melhor dos casos, sob as melhores condições.” Freud conclui: “Aber das ist sehr viel.” Ou seja: “Mas, isso é muita coisa.” O que, qualquer um que já se submeteu a uma análise, há de concordar…

3.1) Mas, o que Freud quer dizer com isso? Como assim, o sujeito curado é aquele que se transformou… naquilo que ele seria “no melhor dos casos”… então, voltamos ao romance familiar? Mas, então, a Psicanálise usaria o método per via di levare, isto é, aquele método que vai “retirando” a pedra para que se revele a escultura escondida atrás do bloco de mármore? Mas, não seria melhor encará-la pelo método per via de porre, como na pintura, onde colocamos os elementos onde desejamos? Será mesmo que o sujeito “no seu melhor” está lá, guardado, sob os escombros de sua neurose? Não seria melhor pensar a Psicanálise como também uma técnica de subjetivação, de invenção de si mesmo, de uma prática ético-estética-existencial?

3.2) Mas, é preciso admitir que a frase de Freud tem algo de revelador: ele permaneceu o mesmo… “im Grunde”, no fundo… No fundamento, há algo, de fato, que não muda. Isso me parece… fundamental: por mais consciente que tenha se tornado o sujeito, por mais brilhantemente que saiba interpretar seus sonhos, por mais esperto que fique diante de seus atos falhos… ali, onde ele resplandece, paira, sempre, invisível, o que não cessa de se dar a ver, o inconsciente. Aí, nesse lugar, o sujeito permanece o mesmo. No fundo sem beira do inconsciente, no profundo do seu desejo, no indomável do pulsional, ele não muda e não há nada que a Psicanálise possa fazer quanto a isso… a não ser dotá-lo de um pouco mais de consciência – o sagaz contentamento, a gaia ciência – diante d’isso.

4) Pensem no tromp-l’oeil como metáfora primordial desse processo.

a) A obra yes/no, de Markus Raetz: http://youtu.be/FtyIIO9LoYo

b) Squaring the circle, de Troika: http://youtu.be/dVG4RwxDGA4

Quando eu fiquei surdo, o que mais me impressionou foi a boca da jornalista se mexendo. Quantas formas tem uma abertura. Meneava em imaginárias vogais. Meus olhos vogavam sobre aqueles lábios. E as imagens das pessoas mortas, das crianças desaparecidas, das guerras e dos loucos, da miséria e dos magnatas, todas essas imagens não diziam mais nada. Eu sempre gostei de mergulhar. O que me atraía era o fundo silêncio de fechar os olhos. Mas, quando eu fiquei surdo, eu já não podia fechar os olhos. O que mais impressionou, quando eu fiquei surdo, foi ver o tanto de mudo que havia.

Freud: uma nova serra para sua máquina. Instale já. Corta muito.

Uma Serra chamada Freud

Uma Serra chamada Freud

 

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Acabo de ler O Queijo e os Vermes, de Carlo Ginzburg (1976). “O cotidiano e as idéias de um moleiro perseguido pela Inquisição”, como diz o subtítulo, é o tema desse ensaio brilhante. O tal moleiro, Menocchio, falava demais. Falou tanto que a Santa Inquisição o prendeu por três anos e depois de o ter libertatado, por ter voltado a falar, o matou.

Mas, o que ele falava? Que o mundo vinha do caos. Que os anjos surgiam desse caos, assim como os vermes surgem do queijo. Que Maria não era virgem, que os padres vendiam suas mercadorias… E  mais: que turcos, judeus e cristãos seriam salvos igualmente.

A pesquisa de Ginzburg é tentar articular esse saber de Menocchio com o saber culto da época e tenta entender como se dá a passagem desse saber para o campo da sabedoria popular. Menocchio é, segundo o autor, um caso raro. Ele sabia ler e havia lido alguns trechos da Bíblia, além de alguns outros textos tais como o Deccameron. Espalham-se pelo livro essas análises de Ginzburg, seu ponto forte.

Mas, nesse comentário aqui, desejo apenas mencionar o item 5, do Prefácio à Edição Italiana, no qual Ginzburg critica duramente Michel Foucault. Ele diz: “O que interessa sobretudo a Foucault são os gestos e os critérios da exclusão; os exclusos, um pouco menos.” (p. 16, da edição de bolso, da Cia. das Letras, 2006, trad. Maria Betânia Amoroso).

No mesmo parágrafo, citando a critica de Derrida a Foucault, ele continua: “Não se pode falar numa linguagem historicamente participante da razão ocidental e, portanto, do processo que levou à repressão da própria loucura. O que ponto em que se apóia a pesquisa de Foucault – disse Derrida em poucas palavras – não existe, não pode existir. A essas alturas o ambicioso projeto foucaultiano de uma “arqueologia do silêncio” transformou-se em silêncio puro e simples – por vezes acompanhado de uma muda contemplação estetizante.” (p. 17)

Muito bem. O que Ginzburg está criticando? Duas formas de se fazer história: um positivismo ingênuo de poder saber o que um moleiro do século XVI realmente pensava e porque falava o que dizia… e uma posição diametralmente oposta, a contemplação estetizante de um evento histórico, cujo sentido, por inapreensível, recusamos articular. É nesse segundo grupo que Ginzburg situa Foucault. Citanto o livro de Pierre Rivière, tal postura é chamada “irracionalismo estetizante”.

No Posfácio dessa edição, Renato Janine Ribeiro lembra que essa crítica a Foucault é para dizer que há respeito à diferença de Menocchio, mas esse respeito à diferença – procedimento metodológico de um fazer histórico – não é afirmação de uma diferença irredutível e que por isso mesmo culminaria numa decisão de nada dizer. (p. 194). Em nota, diz Ribeiro, defendendo Foucault, ao que parece: “o respeito à diferença não o dispensou de investigar que lógicas sustentam discursos e práticas dos mais variados. É claro que esse tipo de leitura tem o risco de quem a faz pretender saber mais do que os práticos ou discursadores que ele está falando. Desse risco vem, certamente, a cautela extrema de Pierre Rivière.” (p.194n1).

Ou seja: o que Ginzburg está interpretando como irracionalismo mudo, Ribeiro sugere ver como cautela extrema. Claro, concordo com Ribeiro.

Quanto à leitura de História da Loucura também não me parece verdade que a loucura vira silêncio puro e simples. Nada disso: ela ganha várias definições, um novo e importante conceito é forjado nessa pesquisa de Foucault: o conceito de Desrazão. A velha crítica do paradoxo – você não pode usar uma linguagem da Razão para falar da Desrazão – é pobre. Há aqui uma confusão: a linguagem não é uma rede homogênea e sem furos, reino e morada da razão pura. A linguagem é um conjunto infinito de jogos, cujas regras variam e são coladas às formas de vida das quais esses jogos emergem. Racionalidade não é uma propriedade inerte e a-histórica. É apenas o nome para o nosso desejo de compreender o mundo através da conversa. (Como vêem, sigo Rorty bem de perto aqui).

Pra concluir, então: a história de Menocchio, narrada por Ginzburg, é muito interessante. Pode ser lida em articulação com o que Foucault fala sobre a loucura no século XVI. Aliás, o tema da loucura aparece também em O Queijo e os Vermes, afinal, foi uma questão para os inquisidores saber se Menocchio era ou não louco. (p. 37-8, p. ex.). O próprio Ginzburg assevera: hoje ele seria um louco com “delírio religioso” (p. 38)… seria mesmo?

Algumas notas sobre a antropofagia:

1) Há uma idealização da antropofagia na crítica literária brasileira.

2) O crítico antropófago se orgulha dessa metáfora: se apropriar do outro.

3) Há uma recusa em perceber que a antropofagia é, sobretudo, uma recusa ao diálogo.

Há diálogo aqui?

Há diálogo aqui?

 

Devorar o outro não é dialogar com ele. Apropriar-se assim da alteridade… faz a alteridade desaparecer. Haverá, afinal, outra forma de mantê-la viva e ao mesmo tempo se apropriar de sua diferença? E ainda: a questão passa, necessariamente, pela apropriação?

Um texto interessante: http://www.goethe.de/wis/bib/prj/hmb/the/ess/pt1507941.htm

O conto “Pai contra Mãe”, de Machado de Assis, é uma aula sobre o que se pode chamar perversão social. De forma sucinta: só há o caçador de escravos e a impiedade com relação a eles numa dada cultura escravocrata. Essa forma de perversão específica, esse tipo de gozo, é possível ali. Num certo sentido, toda perversão é social. O conceito de perversão é altamente problemático exatamente pelo relativismo moral que ele faz aparecer. O gozo perverso é um gozo não compartilhado… por algum grupo específico, mas talvez não por outro…

Pensem em outro conto: o caso de Morell, de Jorge Luís Borges, na História Universal da Infâmia. Mais uma vez, a situação do escravo. A perversão, mais uma vez, aquele tipo específico de perversão, só é possível ali, naquele contexto social. Seria interessante comparar os dois contos.

Li A Parte Obscura de Nós Mesmos, de Roudinesco. O livro é muito interessante, mas parece que a autora comete esse erro do presentismo. Ela compara um perverso como Gilles de Rais, o barba azul, com um nazista como Hoss. Ora, há enormes diferenças entre um caso e outro. É verdade que há semelhanças. É preciso, então, uma teoria que dê conta dos dois pesos. A diferença e a semelhança. Pra ficar nesse exemplo. As condições da nobreza francesa davam a de Rais a possibilidade de seqüestrar as crianças camponesas e assassiná-las. As condições do regime nazista também ofereciam possibilidade de gozo para gente como Eichmann e Hoss. Mas, são as mesmas condições? O “gozo” é o mesmo?

Há, em toda categoria nosográfica, uma tendência ao universalismo e ao essencialismo. Isso parece inevitável. Se eu digo “perversão”, necessariamente digo que os comportamentos a, b e c, de motivações x, y e z, quando acontecem – em qualquer tempo e em qualquer contexto – significam algo semelhante? Se assim for, as categorias nosográficas são conceitos sempre em “xeque”. Mas, haverá limite para esse relativismo historicista? Penso que não. Não há algo como “gozo do mal”, uma essência a-histórica, que caracterizaria toda e qualquer perversão, em qualquer contexto histórico-social.

A psicanálise tem algo importante a oferecer a essa “visada” historicista ao apontar para singularidade do sujeito. Ao rejeitar noções como “inconsciente coletivo”, de Jung, Freud, acredito, estava apontando para a individualidade do processo de se constituir sujeito. Sem negar o peso da cultura sobre nós, Freud apontava diversas vezes para essa singularidade. Um perverso só existe numa sociedade, a partir de uma história específica. Ok, podemos dizer que perversão é uma tentativa de negar as normas sociais aceitas pela maioria. Mas, e os heróis, os visionários?

Pra terminar: o perigo do reducionismo ao biológico é justamente esse. Quando tememos não ter uma base sólida para dizer o que é a perversão independente do contexto, desejamos que o “cérebro” seja essa base invariável. Passamos, então, a procurar algo que não varie nunca. Roudinesco fala bem dessas tentativas “perversas” do reducionismo biológico… O melhor exemplo é a psiquiatria contemporânea que deseja uma explicação genético-hormonal para qualquer comportamento humano…

Então, ela me disse isso: “minha imaginação é um crime”. Assim, sem mais, nem menos. Numa conversa virtual, fruto do puro acaso. Google, Skype, MSN. Oráculos pós-modernos, sabe? Mas, olha, as frases devem ser curtas. É… tipo assim. Pra causar suspense. Minha imaginação é um crime, ela disse. E nunca mais a vi. Fantasmas na webcam. Bons tempos aqueles das imagens distorcidas na minha Telefunken.

Uma velha Telefunken

Uma velha Telefunken

Eu juro: sempre pensei que Telefunken era japonês. Mas não. A gente se engana. Demorava um pouco pra esquentar. Ligava e esperava. A imagem vinha com um ruído. E quando desligava aparecia aquele pontinho de luz intensa que demorava a sumir. Poltergeist. Eu dizia polster. Devia imagina pôster, sei lá. Geist ainda não fazia sentido. Mal sabia o que viria depois. A gente nunca sabe, acho. Cara, essa frase me traumatizou. Minha imaginação é um crime.

Acho que não conseguia ligar o Atari nela. Ou conseguia? Não tinha aquela caixinha preta? A chavinha? Foi no tempo da Sharp? Acho que hoje não tem mais chuvisco-polstergeist, tem? Acho que não. Hoje é só a imaginação. Ou era antes também? Então, depois tinha o Corujão. Até as listas coloridas aparecerem, de madrugada. Fim da programação. Bons tempos aqueles. Havia um momento sem programação, imaginem. Incrível. Hoje? Minha imaginação é um crime. É isso mesmo. Tipo aquele cara do Poe, sabe?

Lacan, na entrevista publicada no livrinho que se chama Le Triomphe de La Religion, brinca com o significante foi (fé). Ele diz, por exemplo, que “L’angoisse est une chose tout à fait futile, foireuse.” (A angústia é algo bem fútil, coisa de feira.). Ele lembra que hoje em dia até os cientistas têm medo: “avoir les foies” (ter os fígados, literalmente).

A análise, segundo ele, cuida das coisas que não funcionam. E o real é aquilo que não funciona. Frente a essa perspectiva fatalista, ele lembra: “Les choses sont faites de drôleries.” (As coisas são feitas de bobagens.).

Lacan lembra que a religião, “sobretudo a verdadeira”, pode dar sentido a tudo. Daí, ele insistir: a religião é invencível. Ela triunfará porque sempre produz sentido. Ela explica tudo. A religião, diz ele, é feita para isso: para curar os homens, isto é, para eles não se apercebam do que não funciona.

A psicanálise, ao contrário, é um sintoma: o sintoma é o que há de mais real. Por silogismo: ela é o que menos funciona. Mais: ela é o que mais mostra o não-funcionamento das coisas, seu mau-funcionamento (quem sabe o funcionamento do mal?).

A relação entre psicanálise e religião é de conflito: a religião encontra correspondência de tudo com tudo, é a sua função, diz Lacan. A psicanálise não faz isso também? Ela não é uma hermenêutica? Talvez haja aqui uma crítica semelhante àquela feita por Laplanche: a psicanálise é uma anti-hermenêutica. Ela assume a paradoxal condição de ser um exercício hermenêutico a fim de mostrar que toda interpretação é falha, incompleta, sujeita aos mais diversos equívocos. Lacan é pessimista quanto a esse exercício: “(…) on guérira l’humanité de la psychanalyse. À force de le noyer dans le sens, dans le sens religieux bien entendu, on arrivera à refouler ce symptôme.” (…vai se curar a humanidade da psicanálise. À força de afogá-la no sentido, no sentido religioso bem entendido, chegaremos a recalcar o sintoma.).

O que é incompreensível nessa entrevista é o motivo pelo qual Lacan diz que “La vraie religion, c’est la romaine. (…) Il y a une vraie religion, c’est la religion chrétienne.”. Ora, seria isso mais uma das bobagens (drôleries) de Lacan? Ironia para mostrar uma das principais características do discurso religioso de se desejar único? Aposto minhas fichas nessa hipótese.

A coisa fica mesmo engraçada quando Lacan começa a falar de seus Écrits: “eu não os escrevi para que sejam compreendidos, eu os escrevi para sejam lidos.” As pessoas não compreendem os escritos, mas eles causam algo nelas. A interpretação de Lacan é curiosa: mais uma vez lutando contra o sentido. O paradoxo, no entanto, permanece: o que é essa “coisa” que a leitura de seus textos produzem em seus leitores? Isso não parece… religioso demais? Algo do tipo: não é para entender, mas para sentir. Não é para compreender, mas fazer…

Ainda mais drôle é a passagem na qual Lacan brinca com o som foi. Transcrevo:

Je vous le demande, qu’est-ce qui n’est pas um acte de foi?

C’est ça qu’il y a d’horrible, c’est qu’on est toujours dans la foire.

J’ai dit “foi”, je n’ai pas dit “foire”.

C’est ma façon de traduir “foi”. La foi, c’est la foire. Il y a tellement de fois, de fois qui se nichent dans les coins, que malgré tout, ça ne se dit bien que sur le forum, c’est-à-dire la foire.

“Foi”, “forum”, “foire”, ce sont des jeux de mots.

C’est du jeu des mots, c’est vrai. Mais j’attache énormément d’importance aux jeux de mots, vous le savez. Cela me paraît la clé de la psychanalyse.

Eu gostaria de comentar essa passagem.

Em primeiro lugar: o jogo de palavras. Fé / feira / fórum. Imediatamente, o leitor vai ligar esses sentidos, vai tentar unir esses sentidos. O efeito desconstrutor, por assim dizer, do jogo de palavras – mostrar semelhanças inesperadas, aproximar coisas diferentes, tornar absurdo aquilo que é ordinário etc. – é muito rapidamente colonizado pelo desejo de sentido, desejo religioso, podemos dizer. Sim: a fé é questão comunitária, da feira, do fórum.

E ainda temos um duplo sentido que torna ainda mais engraçado o jogo de palavras: foire é também diarréia, em francês. O que temos, então? “(…) on est toujours dans la foire”: estamos sempre na merda, na feira… Não saímos mesmo desse lugar religioso que é o compartilhado. Ser-falante é ser-de-fé: “L’être parlant est um animal malade” (o ser falante é um animal doente), diz Lacan, um tanto pessimista.

Mas, qual não é a surpresa de ver Lacan, mais uma vez, esboçando uma idéia… religiosa: “a chave da psicanálise”. Ora, quem procura a chave, no singular mesmo, é a religião. Nem a psicanálise, nem qualquer outro saber possuem uma “chave”. O jeu des mots (jogo de palavras) é apenas uma pequena chave. Tem o valor de chiste, talvez, que, aliás, só funciona na feira dos falantes…

Então, a fé: diaféia? A coisa é véia, está nas nossas veias, mas é feia assim?

“Il est vrai que je suis incompréhensible.” (É verdade que sou incompreensível). O desejo de ser incompreensível… Como interpretá-lo? Se eu não posso compreender, devo ter… fé?

Eu já não me recordo onde – peço ajuda a um bom leitor – Winnicott diz que a criança, em primeiro lugar, acredita na mãe, só depois, talvez, começa a compreendê-la. Talvez porque a compreensão será sempre atravessada pelo amor dessa crença, pela fé de que o seio bom sempre estará ali…

O incompreensível sempre tem razão. Se eu não sou claro sobre o que falo, se eu jogo com as palavras, se essa é a minha chave, eu desconstruo o tempo todo e fico imune a qualquer crítica… isso não é uma outra forma de religião? Ela aqui não encontra também o seu triunfo?

As citações são do livro: Lacan, Jacques. Le triomphe de la religion. Paris: Seuil, 2005.

O que fazer com tanto dinheiro? Ela sempre jogara os mesmos números na loteria: a data de aniversário dele. Ganhara. 50 milhões de dólares. O carro que sempre queria. A casa no campo. Paris.

Dois anos depois da festa, ela viu a notícia. O magnata russo Abramovich comprara um lote na lua para sua namorada. “Meu Deus”, pensou, “que presente bizarro! O cara não deve nunca ter ouvido falar de Psicanálise… O que a namorada vai pensar ao receber o presente? Será que ela vai ter que ir para lua aproveitar o seu presentinho?”.

No entanto, a idéia não saía de sua cabeça. Um lote na lua. Podia ser pequeno, talvez ali, um pouco antes do lado escuro, sem muita vista para Terra. Na sua pesquisa, com o americano que tinha os direitos de venda dos terrenos lunares, ela descobriu que os lotes nas crateras eram bem mais baratos. Estava decidido, então: “amor, adivinha o que eu comprei pra você?”.

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A notícia: http://www1.folha.uol.com.br/folha/ciencia/ult306u471568.shtml