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O conto “Pai contra Mãe”, de Machado de Assis, é uma aula sobre o que se pode chamar perversão social. De forma sucinta: só há o caçador de escravos e a impiedade com relação a eles numa dada cultura escravocrata. Essa forma de perversão específica, esse tipo de gozo, é possível ali. Num certo sentido, toda perversão é social. O conceito de perversão é altamente problemático exatamente pelo relativismo moral que ele faz aparecer. O gozo perverso é um gozo não compartilhado… por algum grupo específico, mas talvez não por outro…

Pensem em outro conto: o caso de Morell, de Jorge Luís Borges, na História Universal da Infâmia. Mais uma vez, a situação do escravo. A perversão, mais uma vez, aquele tipo específico de perversão, só é possível ali, naquele contexto social. Seria interessante comparar os dois contos.

Li A Parte Obscura de Nós Mesmos, de Roudinesco. O livro é muito interessante, mas parece que a autora comete esse erro do presentismo. Ela compara um perverso como Gilles de Rais, o barba azul, com um nazista como Hoss. Ora, há enormes diferenças entre um caso e outro. É verdade que há semelhanças. É preciso, então, uma teoria que dê conta dos dois pesos. A diferença e a semelhança. Pra ficar nesse exemplo. As condições da nobreza francesa davam a de Rais a possibilidade de seqüestrar as crianças camponesas e assassiná-las. As condições do regime nazista também ofereciam possibilidade de gozo para gente como Eichmann e Hoss. Mas, são as mesmas condições? O “gozo” é o mesmo?

Há, em toda categoria nosográfica, uma tendência ao universalismo e ao essencialismo. Isso parece inevitável. Se eu digo “perversão”, necessariamente digo que os comportamentos a, b e c, de motivações x, y e z, quando acontecem – em qualquer tempo e em qualquer contexto – significam algo semelhante? Se assim for, as categorias nosográficas são conceitos sempre em “xeque”. Mas, haverá limite para esse relativismo historicista? Penso que não. Não há algo como “gozo do mal”, uma essência a-histórica, que caracterizaria toda e qualquer perversão, em qualquer contexto histórico-social.

A psicanálise tem algo importante a oferecer a essa “visada” historicista ao apontar para singularidade do sujeito. Ao rejeitar noções como “inconsciente coletivo”, de Jung, Freud, acredito, estava apontando para a individualidade do processo de se constituir sujeito. Sem negar o peso da cultura sobre nós, Freud apontava diversas vezes para essa singularidade. Um perverso só existe numa sociedade, a partir de uma história específica. Ok, podemos dizer que perversão é uma tentativa de negar as normas sociais aceitas pela maioria. Mas, e os heróis, os visionários?

Pra terminar: o perigo do reducionismo ao biológico é justamente esse. Quando tememos não ter uma base sólida para dizer o que é a perversão independente do contexto, desejamos que o “cérebro” seja essa base invariável. Passamos, então, a procurar algo que não varie nunca. Roudinesco fala bem dessas tentativas “perversas” do reducionismo biológico… O melhor exemplo é a psiquiatria contemporânea que deseja uma explicação genético-hormonal para qualquer comportamento humano…

Então, ela me disse isso: “minha imaginação é um crime”. Assim, sem mais, nem menos. Numa conversa virtual, fruto do puro acaso. Google, Skype, MSN. Oráculos pós-modernos, sabe? Mas, olha, as frases devem ser curtas. É… tipo assim. Pra causar suspense. Minha imaginação é um crime, ela disse. E nunca mais a vi. Fantasmas na webcam. Bons tempos aqueles das imagens distorcidas na minha Telefunken.

Uma velha Telefunken

Uma velha Telefunken

Eu juro: sempre pensei que Telefunken era japonês. Mas não. A gente se engana. Demorava um pouco pra esquentar. Ligava e esperava. A imagem vinha com um ruído. E quando desligava aparecia aquele pontinho de luz intensa que demorava a sumir. Poltergeist. Eu dizia polster. Devia imagina pôster, sei lá. Geist ainda não fazia sentido. Mal sabia o que viria depois. A gente nunca sabe, acho. Cara, essa frase me traumatizou. Minha imaginação é um crime.

Acho que não conseguia ligar o Atari nela. Ou conseguia? Não tinha aquela caixinha preta? A chavinha? Foi no tempo da Sharp? Acho que hoje não tem mais chuvisco-polstergeist, tem? Acho que não. Hoje é só a imaginação. Ou era antes também? Então, depois tinha o Corujão. Até as listas coloridas aparecerem, de madrugada. Fim da programação. Bons tempos aqueles. Havia um momento sem programação, imaginem. Incrível. Hoje? Minha imaginação é um crime. É isso mesmo. Tipo aquele cara do Poe, sabe?

Lacan, na entrevista publicada no livrinho que se chama Le Triomphe de La Religion, brinca com o significante foi (fé). Ele diz, por exemplo, que “L’angoisse est une chose tout à fait futile, foireuse.” (A angústia é algo bem fútil, coisa de feira.). Ele lembra que hoje em dia até os cientistas têm medo: “avoir les foies” (ter os fígados, literalmente).

A análise, segundo ele, cuida das coisas que não funcionam. E o real é aquilo que não funciona. Frente a essa perspectiva fatalista, ele lembra: “Les choses sont faites de drôleries.” (As coisas são feitas de bobagens.).

Lacan lembra que a religião, “sobretudo a verdadeira”, pode dar sentido a tudo. Daí, ele insistir: a religião é invencível. Ela triunfará porque sempre produz sentido. Ela explica tudo. A religião, diz ele, é feita para isso: para curar os homens, isto é, para eles não se apercebam do que não funciona.

A psicanálise, ao contrário, é um sintoma: o sintoma é o que há de mais real. Por silogismo: ela é o que menos funciona. Mais: ela é o que mais mostra o não-funcionamento das coisas, seu mau-funcionamento (quem sabe o funcionamento do mal?).

A relação entre psicanálise e religião é de conflito: a religião encontra correspondência de tudo com tudo, é a sua função, diz Lacan. A psicanálise não faz isso também? Ela não é uma hermenêutica? Talvez haja aqui uma crítica semelhante àquela feita por Laplanche: a psicanálise é uma anti-hermenêutica. Ela assume a paradoxal condição de ser um exercício hermenêutico a fim de mostrar que toda interpretação é falha, incompleta, sujeita aos mais diversos equívocos. Lacan é pessimista quanto a esse exercício: “(…) on guérira l’humanité de la psychanalyse. À force de le noyer dans le sens, dans le sens religieux bien entendu, on arrivera à refouler ce symptôme.” (…vai se curar a humanidade da psicanálise. À força de afogá-la no sentido, no sentido religioso bem entendido, chegaremos a recalcar o sintoma.).

O que é incompreensível nessa entrevista é o motivo pelo qual Lacan diz que “La vraie religion, c’est la romaine. (…) Il y a une vraie religion, c’est la religion chrétienne.”. Ora, seria isso mais uma das bobagens (drôleries) de Lacan? Ironia para mostrar uma das principais características do discurso religioso de se desejar único? Aposto minhas fichas nessa hipótese.

A coisa fica mesmo engraçada quando Lacan começa a falar de seus Écrits: “eu não os escrevi para que sejam compreendidos, eu os escrevi para sejam lidos.” As pessoas não compreendem os escritos, mas eles causam algo nelas. A interpretação de Lacan é curiosa: mais uma vez lutando contra o sentido. O paradoxo, no entanto, permanece: o que é essa “coisa” que a leitura de seus textos produzem em seus leitores? Isso não parece… religioso demais? Algo do tipo: não é para entender, mas para sentir. Não é para compreender, mas fazer…

Ainda mais drôle é a passagem na qual Lacan brinca com o som foi. Transcrevo:

Je vous le demande, qu’est-ce qui n’est pas um acte de foi?

C’est ça qu’il y a d’horrible, c’est qu’on est toujours dans la foire.

J’ai dit “foi”, je n’ai pas dit “foire”.

C’est ma façon de traduir “foi”. La foi, c’est la foire. Il y a tellement de fois, de fois qui se nichent dans les coins, que malgré tout, ça ne se dit bien que sur le forum, c’est-à-dire la foire.

“Foi”, “forum”, “foire”, ce sont des jeux de mots.

C’est du jeu des mots, c’est vrai. Mais j’attache énormément d’importance aux jeux de mots, vous le savez. Cela me paraît la clé de la psychanalyse.

Eu gostaria de comentar essa passagem.

Em primeiro lugar: o jogo de palavras. Fé / feira / fórum. Imediatamente, o leitor vai ligar esses sentidos, vai tentar unir esses sentidos. O efeito desconstrutor, por assim dizer, do jogo de palavras – mostrar semelhanças inesperadas, aproximar coisas diferentes, tornar absurdo aquilo que é ordinário etc. – é muito rapidamente colonizado pelo desejo de sentido, desejo religioso, podemos dizer. Sim: a fé é questão comunitária, da feira, do fórum.

E ainda temos um duplo sentido que torna ainda mais engraçado o jogo de palavras: foire é também diarréia, em francês. O que temos, então? “(…) on est toujours dans la foire”: estamos sempre na merda, na feira… Não saímos mesmo desse lugar religioso que é o compartilhado. Ser-falante é ser-de-fé: “L’être parlant est um animal malade” (o ser falante é um animal doente), diz Lacan, um tanto pessimista.

Mas, qual não é a surpresa de ver Lacan, mais uma vez, esboçando uma idéia… religiosa: “a chave da psicanálise”. Ora, quem procura a chave, no singular mesmo, é a religião. Nem a psicanálise, nem qualquer outro saber possuem uma “chave”. O jeu des mots (jogo de palavras) é apenas uma pequena chave. Tem o valor de chiste, talvez, que, aliás, só funciona na feira dos falantes…

Então, a fé: diaféia? A coisa é véia, está nas nossas veias, mas é feia assim?

“Il est vrai que je suis incompréhensible.” (É verdade que sou incompreensível). O desejo de ser incompreensível… Como interpretá-lo? Se eu não posso compreender, devo ter… fé?

Eu já não me recordo onde – peço ajuda a um bom leitor – Winnicott diz que a criança, em primeiro lugar, acredita na mãe, só depois, talvez, começa a compreendê-la. Talvez porque a compreensão será sempre atravessada pelo amor dessa crença, pela fé de que o seio bom sempre estará ali…

O incompreensível sempre tem razão. Se eu não sou claro sobre o que falo, se eu jogo com as palavras, se essa é a minha chave, eu desconstruo o tempo todo e fico imune a qualquer crítica… isso não é uma outra forma de religião? Ela aqui não encontra também o seu triunfo?

As citações são do livro: Lacan, Jacques. Le triomphe de la religion. Paris: Seuil, 2005.

O que fazer com tanto dinheiro? Ela sempre jogara os mesmos números na loteria: a data de aniversário dele. Ganhara. 50 milhões de dólares. O carro que sempre queria. A casa no campo. Paris.

Dois anos depois da festa, ela viu a notícia. O magnata russo Abramovich comprara um lote na lua para sua namorada. “Meu Deus”, pensou, “que presente bizarro! O cara não deve nunca ter ouvido falar de Psicanálise… O que a namorada vai pensar ao receber o presente? Será que ela vai ter que ir para lua aproveitar o seu presentinho?”.

No entanto, a idéia não saía de sua cabeça. Um lote na lua. Podia ser pequeno, talvez ali, um pouco antes do lado escuro, sem muita vista para Terra. Na sua pesquisa, com o americano que tinha os direitos de venda dos terrenos lunares, ela descobriu que os lotes nas crateras eram bem mais baratos. Estava decidido, então: “amor, adivinha o que eu comprei pra você?”.

***

A notícia: http://www1.folha.uol.com.br/folha/ciencia/ult306u471568.shtml

Escrevi o conto abaixo à la Moacyr Scliar, nas suas colunas da Folha. A reportagem-inspiração segue abaixo.

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Seu sonho de ficção científica finalmente havia se realizado. Dez anos depois do primeiro anúncio sobre as pesquisas do Grupo de Kyoto, liderado pelo Dr. Kamitani, a máquina seria lançada. Ele não esperava ver isso ainda vivo. Ele sabia e desejava profundamente que isso se tornasse realidade.

A KBR, Kamitani Brain Reader, seria comercializada a preços populares. Depois dos testes feitos em presidiários, loucos e crianças infratoras, a máquina estava liberada para o grande público.

Tratava-se de um pequeno vídeo instalado acima do crânio. Feita de titânio e silício, a máquina não incomodava. Ao contrário: era um gadget de design arrojado. Era mesmo um sinal que o futuro havia chegado.

Sim: os pensamentos eram públicos. Finalmente, ele poderia saber o que os outros pensam. Bastava ver… Lá estava a televisão: textos e imagens desfilavam claramente. O Grupo de Kyoto já pesquisava o som do aparelho. Mas a escrita bastava. Era suficiente para tornar a telepatia – sempre suspeita – enterrada para sempre.

Ele fora um dos primeiros a adquirir a máquina. Comprou duas: a outra era para a esposa.

(…)

Um mês após o lançamento, a KBR começou a apresentar defeitos em todo o mundo. Reclamações choviam: o pensamento não era assim tão claro. Ainda precisava ser lido, interpretado. Na verdade, a telepatia não foi alcançada. Nenhuma transparência. Nenhum acesso ao recôndito da alma alheia.

Ele, então, guardou sua KBR. Seu sonho futurista continuava melhor na ficção científica. Nenhuma máquina seria capaz de eliminar o sentido? Por que nosso desejo não pode ser reduzido a uma substância? Estaríamos, afinal, para sempre, condenados a sermos intérpretes uns dos outros? A ciência não nos salvaria disso?

Depois de guardar sua KBR, ele voltou a ler sua empoeirada coleção de Assimov.

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Para quem não é assinante do UOL ou da Folha, segue abaixo o texto retirado do seguinte link: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/fe1512200801.htm

São Paulo, segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Grupo cria programa que lê pensamento

Usando ressonância magnética, japoneses conseguiram decodificar a visão de uma pessoa examinando o seu cérebro

Aprimoramento pode levar nova tecnologia a ser capaz de registrar sonhos; método remete a debate sobre ética e privacidade no futuro

DA “NEW SCIENTIST”

As letras para as quais você olha agora podem ser recriadas com um programa de computador usando mapeamento cerebral por ressonância magnética. Em um feito inédito na neurociência, um grupo de cientistas japoneses anunciou pela primeira vez uma tecnologia de “leitura da mente” capaz de recriar imagens a partir de nada mais do que puro pensamento.
O método foi apresentado em estudo sexta-feira na revista “Neuron”. Experimentos semelhantes já haviam sido feitos, mas as imagens observadas eram “escolhidas” pelos cientistas e não produzidas diretamente pela máquina de leitura cerebral, como feito agora.
O neurocientista Jack Gallant, autor dos primeiros trabalhos nessa linha, já havia mostrado no início do ano que era possível identificar qual imagem, num grupo de várias, estava sendo observada pelos voluntários dos experimentos. Para fazer isso, criou um programa capaz de comparar a atividade cerebral das pessoas durante a observação de um objeto com a atividade pré-registrada num “treinamento”. O programa conseguia então apontar qual imagem era a observada.
Agora, Yukiyasu Kamitani, do Laboratório de Neurociência Computacional ATR, em Kyoto, foi um passo além. Sua equipe usou uma imagem de atividade cerebral obtida em uma máquina de ressonância magnética funcional para recriar imagens em preto-e-branco a partir do zero.
“Ao analisar sinais cerebrais quando alguém vê uma imagem, podemos reconstruí-la”, afirma Kamitani. Isso significa que a leitura da mente poderia ser usada para “extrair” qualquer coisa sobre a qual uma pessoa está pensando, sem os cientistas terem a menor idéia do que poderá vir.

Pixels mentais
“É absolutamente espantoso”, comenta John-Dylan Haynes, do Instituto Max Planck para Cognição Humana, de Leipzig (Alemanha). “Isso é um passo realmente importante.”
O experimento de Kamitani começa com uma pessoa observando uma seleção de imagens compostas de quadrados brancos ou pretos numa grade de dez por dez. Ao mesmo tempo, mapeia seus cérebros. Cada quadrado é como um pixel, um ponto na tela de computador.
O programa, então, acha os padrões de atividade cerebral que correspondem a cada pixel. Depois, a pessoa se senta na máquina de ressonância funcional e passa a olhar para figuras novas. É aí que um outro programa compara essa nova leitura com a anterior e reconstrói o quadro de pixels.
A qualidade de imagens obtida no experimento era um pouco baixa, mas foi suficiente para identificar as letras da palavra “neuron” (neurônio em inglês). Números e formas também foram mostrados às pessoas e puderam ser reconstruídos da mesma maneira (veja quadro à direita). Já vale como uma prova de princípio, diz Haynes .
Como a ressonância magnética funcional tem se aprimorado muito nos últimos anos, Kamitani afirma que seu quadro pode no futuro ser produzido com um número maior de pixels, produzindo imagens com muito mais qualidade.
O próximo passo dos cientistas é tentar reconstruir imagens sobre as quais as pessoas estão apenas pensando, sem vê-las diretamente. Seria então possível “fazer a filmagem de um sonho”, diz Kamitani.
Haynes diz que isso pode levantar questões éticas no futuro. Publicitários, por exemplo, poderiam tentar ler os pensamentos dos transeuntes para adequar seus anúncios a elas.

Ladrões de sonhos
“Isso [a nova pesquisa] não leva necessariamente àquilo, mas o espírito do que está sendo feito está alinhado com com a leitura cerebral e com as aplicações que viriam com ela”, afirma o neurocientista.
“Com uma técnica que permite ler o que as pessoas pensam, nós claramente precisamos de diretrizes éticas sobre quando e como isso pode ser feito”, diz. “Muitas pessoas querem que seja possível ler suas mentes -uma pessoa paralisada, por exemplo. Mas não deveria ser permitido fazer isso com um propósito comercial.”
O próprio Kamitani se diz ciente dos potenciais abusos que a tecnologia poderia propiciar. “Se a qualidade de imagens melhorar, poderia haver um sério impacto em nossa privacidade”, diz. “Nós teremos que discutir com muitas pessoas -não apenas os cientistas- sobre como aplicar essa tecnologia. (CELESTE BEVIER)

O projeto de Bataille na Revista Documents é criticar a noção clássica de identidade. Segundo a leitura de G. Didi-Huberman, Bataille deseja fazer ver que a noção de identidade que temos construído no Ocidente é demasiadamente teológica. Ela encontra suas raízes no mito da imagem e semelhança entre Homem e Deus. É contra essa imagem divina do humano que Bataille deseja lutar. Afinal, a idealização da identidade gera fenômenos como o nazismo, para citar apenas o mais evidente e um dos mais cruéis.

Num determinado momento da revista, aparecem duas imagens contrapostas. São as seguintes:

fox-follies

abattoir

Acima temos pernas de mulheres. Abaixo patas de boi no muro de um abatedouro. Quais são as semelhanças – as identidades – possíveis aqui? O corte da cortina é um corte-sedução, o corte do abate é um corte-mortífero. Será que não há nada de mortífero no corte-sedução? E será que nada seduz nesse corte da morte?

Pensem no seguinte: quem propõe a animalização da mulher? Para ficar no ordinário: o funk carioca. As “cachorra”, as “potranca”, as “eguinha pocotó”… O devir-animal da mulher – um dos aspectos da dominação masculina – se dá, portanto, na articulação identitária entre o animal e o humano. Essa redução, ou melhor, essa identificação deve ser desconstruída: e é isso o que Bataille faz ao contrapor essas duas imagens.

A Psicanálise nos convida a criticar radicalmente as identidades propostas pela “cultura”. Aparentemente, as crenças sobre o que somos não são construídas socialmente. Ao contrário: a todo momento somos convidados a articular nossa identidade com uma nossa suposta natureza. Bataille, leitor de Freud, sabe que não há nenhuma natureza a-histórica a garantir qualquer traço identitário. É preciso mostrar sua origem histórica.

Em tempo: pensar nas raízes teológicas da identidade é também levar Nietzsche em consideração.


Ser interdisciplinar é, antes de tudo, ser indisciplinado. Explico: os saberes se constituem como grandes campos de força: atraem certos discursos, repelem outros. Diz Pierre Bourdieu, na sua teoria dos campos, que há dois grandes movimentos aqui, obviamente, sem muitas fronteiras nítidas: o da ortodoxia e o da heresia. Como circula o capital simbólico dentro desses campos? De maneira geral, o campo está estruturado para se manter e o faz, fundamentalmente, criando táticas de identidade. Identidade no sentido mais cru: tornar-se idêntico a si mesmo, evitar a diferença, o de “fora” deve ser claramente identificado como o de “fora”. Voltando: ser interdisciplinar é ser indisciplinado. É recusar, em primeiro lugar, a semelhança/identidade como princípio organizador fundamental dos saberes.

Isso traz à tona uma das descobertas mais importantes da Psicanálise, a meu ver: nossa identidade está profundamente marcada pelo afeto. Não somos o que somos porque nascemos assim. Somos o que somos porque há um maciço investimento libidinal na imagem que acreditamos ser. Se Freud denunciou isso através do mito de Narciso, Lacan tentou explicitar isso ainda mais falando de um “estádio do espelho”. Os dois, mutatis mutandis, diziam algo semelhante: nossa identidade não é dada desde o início, como um a priori, mas é sempre a partir do olhar de um outro e sempre a partir do investimento amoroso do outro sobre essa imagem.

Sejamos interdisciplinares aqui: o que a sociologia das ciências de Bourdieu tem a ver com a teoria psicanalítica sobre o narcisismo? O próprio Freud já nos alertava quando falava do “narcisismo das pequenas diferenças”. É o português fazendo piada do espanhol. É o brasileiro fazendo piada do português. O narcisismo pode ser compreendido como um tipo de defesa contra o de “fora”. É um exercício tautológico: desejar ser sempre o mesmo. É repetir, à exaustão, 1 = 1.

Soma-se a isso o fato de, na nossa cultura, o pertencimento ser ainda um rígido valor moral. É quase sinônimo de virtude: pertencer. Esse pertencimento que está talvez entre a submissão e a fidelidade. De um ponto de vista clínico, sabemos como são poderosos os fantasmas de traição. Talvez essas esferas da vida social – a moral amorosa burguesa e a moral dos campos simbólicos – se comuniquem aqui também. “Pular o muro” ou trazer alguém de “fora” pode desarranjar a casa…

Mas, é claro que a interdisciplinaridade não tem a ver apenas com a indisciplina. Ser interdisciplinar é estar aberto ao diálogo e à desconstrução de fronteiras imaginárias. Aliás, é sempre manter em mente que as fronteiras são sempre imaginárias e são um tributo ao nosso desejo de sentido e permanência. Desejo de dialogar: abrir espaço para a hospitalidade. Não foi Derrida quem brincou com os termos hóspede/hospedeiro? Quem tem medo de interdisciplinaridade sempre trata o hóspede como um hospedeiro.

O maior dos pesos. – E se um dia, ou uma noite, um demô­nio lhe aparecesse furtivamente em sua mais desolada solidão e dissesse: “Esta vida, como você a está vivendo e já viveu, você terá de viver mais uma vez e por incontáveis vezes; e nada haverá de novo nela, mas cada dor e cada prazer e cada suspi­ro e pensamento, e tudo o que é inefavelmente grande e pequeno em sua vida, terão de lhe suceder novamente, tudo na mesma seqüência e ordem – e assim também essa aranha e esse luar entre as árvores, e também esse instante e eu mesmo. A perene ampulheta do existir será sempre virada novamente – e você com ela, partícula de poeira!: – Você não se prostraria e rangeria os dentes e amaldiçoaria o demô­nio que assim falou? Ou você já experimentou um instante imenso, no qual lhe responderia: “Você é um deus e jamais ouvi coisa tão divina!”: Se esse pensamento tomasse conta de você, tal como você é, ele o transformaria e o esmagaria talvez; a questão em tudo e em cada coisa, “Você quer isso mais uma vez e por incontáveis vezes?”, pesaria sobre os seus atos como o maior dos pesos! Ou o quanto você teria de estar bem con­sigo mesmo e com a vida, para não desejar nada além dessa última, eterna confirmação e chancela? (Nietzsche, A Gaia Ciência, § 341).

Este é um dos meus aforismos preferidos de Nietzsche. O maior dos pesos…

Podemos, talvez, associar esse pensamento a uma forma de existencialismo. Será correto isso? Assumir a responsabilidade por cada ação, infinitamente.

A dialética entre o arrependimento e o perdão ficam suprimidos aqui? Ou isso é conversa de niilista?

E mais: como não se lembrar da crítica à identidade presente em Freud? Ora, a noção de narcisismo sugere dois movimentos concomitantes e talvez inseparáveis: sempre desejamos ser o que somos e sempre desejamos ser mais do que somos. Mais uma vez, meu alvo aqui são noções como as de “papel social”: imagine uma peça de teatro que nunca sai de cartaz. Imagine um eu que nunca perca seu reinado.

O peso sugerido por Nietzsche nesse aforismo é o peso da ambivalência inerente ao narcisismo. André Green, num livro interessante explorou isso de alguma forma: narcisismo de vida, narcisismo de morte.

Seu laço de esquecimento

Seu laço de esquecimento

O que a Mulher Maravilha tem a ver com a história da psicologia?

É um caso curioso: William Moulton Marston (1893-1947), aluno de Hugo Münsterberg, inventou parte do que hoje chamaríamos detector de mentiras, o polígrafo.

O curioso é que Marston inventou também a famosa heroína, a Mulher Maravilha, que, com seu laço mágico, fazia com que qualquer um dissesse a verdade, nada mais que a verdade…

Será o caso de se pensar numa relação possível entre o sonho desses primeiros psicólogos de tentar medir a mentira através das medidas fisiológicas e o mito da super-heroína?

É temerário dizer que o teste psicofisiológico funcione como laço da Mulher Maravilha. Não é nessa direção que iremos tirar o melhor dessa história. É preciso pensar, antes, no desejo de verdade que anima as duas invenções, uma no campo da ciência e outra no campo da arte-entretenimento.

Em tempo: dizem as más línguas, que Marston vivia com duas mulheres, em plena América. Poligamia consentida… Isso torna a história ainda mais curiosa.

http://www.palabravirtual.com/index.php?ir=ver_voz1.php&wid=223&p=Rosario%20Castellanos&t=Silencio%20cerca%20de%20una%20piedra%20antigua

O link acima traz a voz belíssima de Carmen Farías declamando o poema “Silencio cerca de una piedra antigua”.

O poema – que também se encontra na página citada – pode ser lido como uma reflexão entre a violência e o esquecimento.

Os versos “el caracol que no guardó del mar / ni el eco de la más pequeña ola” são impressionantes. Remete a uma inimaginável violência. O ruído das grandes conchas – que sempre me fascinaram quando criança – desaparece. É como se o próprio mar ao qual essas conchas são a referência desaparecesse.

Isso tem muito a ver com o que a psicanálise tem insistido: a palavra como único recurso contra o recalcamento. É preciso pensar nas “palabras / en el idioma o lápida / bajo el que sepultaron vivo a mi antepasado”. Essas palavras dos vivos mortos ou dos mortos vivos, mensagens enigmáticas que exercem sobre nós o mesmo estranho fascínio que a ausência-presença do mar dentro do som de uma concha.