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Tive a oportunidade de ouvir o Prof. Vladimir Safatle proferindo palestra aqui em Belo Horizonte, no dia 27 de agosto de 2008. Seu texto versava sobre a necessidade de o Brasil julgar a Ditadura que governou o Brasil de 1964 a 1984. Seu argumento é poderoso. Resumo a seguir.

Para Safatle, o argumento de que mexer na lei de anistia trará instabilidade para o país é falso. Argentina e Chile fizeram julgamentos de seus ditadores e nem por isso voltaram ao governo militar.

Para o autor, o contrário talvez seja mais verdadeiro: não julgar o que aconteceu é manter o cadáver insepulto, como ocorreu com Polinices, na Antígona. Foi isso que levou Tebas à ruína. É preciso reconhecer os nossos inimigos.

Quando algo não tem lugar no simbólico acaba retornando no real.  A crença de que “nada ocorreu” é nefasta pois faz aparecer no real da política brasileira o horror de uma república de mentira: votos comprados, leis “que não pegam”, desigualdade social aviltante…

Nossa democracia tem o caráter completamente deformado. Está longe de se constituir um Estado Democrático de Direito. Pesa sobre ela os cadáveres das vítimas da ditadura que exigem reparação justa pelos crimes cometidos pelo Exército.

É preciso pensar de novo, de forma radical, a lei da anistia. Lei que exige esquecimento daquilo que não se pode e nem se deve esquecer. É preciso julgar de forma clara e pelas vias legais da República os responsáveis pela ditadura militar. Só assim teremos uma base sólida para escapar de uma democracia de mentira – regime sob o qual vivemos no Brasil.

O texto do Prof. Safatle ainda não foi publicado. Assim que tiver notícias disso, coloco o link aqui no blog.

De qualquer forma, seu texto uniu, de forma soberba, psicanálise e política. É preciso parar de mentir e fingir que nada aconteceu ou de que está tudo perdoado. Não está. Só pode haver perdão se houver julgamento.

Sherazade, de Hilal Sami Hilal (2007)

Sherazade, de Hilal Sami Hilal (2007)

A obra acima é de Hilal Sami Hilal. São livros emendados uns nos outros. A obra se chama Sherazade.

Os livros fazem um labirinto, um desenho sem forma, um mapa. Formam o s, o s às avessas, os cabelos de Sherazade. Sibilam nas páginas abertas e fechadas das mil e uma noites. O leitor entra na sala e observa de cima o infinito das palavras que ainda não foram ditas. Biblioteca de Babel, livros de areia.

Umas das mais brilhantes traduções da história de Sherazade que eu já vi. Incrível.


Reproduzo abaixo a coluna de Luiz Felipe Pondé, publicada na Folha de São Paulo, dia 25 de agosto de 2008, pra quem não é assinante. Pra quem é assinante UOL ou Folha, eis o link: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2508200817.htm

A coluna de Pondé é daquelas que quase exigem uma resposta. Cedo à tentação – deve ser coisa de macho disputando território… Vamos por pontos.

1) Concordo com Pondé sobre o que ele diz sobre a teologia. De fato, a discussão não passa por ela. Na Academia, os argumentos teológicos não têm vez. A religião tem entrado na conversa quase sempre como objeto de análise e não como parceiro conversacional. De maneira geral, concordo também com Richard Rorty, que diz ser a religião uma “conversation stopper”. Mas esse é ponto secundário.

2) O que interessa é o argumento de Pondé sobre a tal “psicologia evolucionista”. Segundo ele, há pessoas que negam “qualquer influência biológica definitiva no comportamento humano”. Estou nesse grupo? Bem, se “definitiva” significa determinante, única, exclusiva, estou. Mas, se significa apenas dizer que a biologia é apenas mais um dos fatores que determinam o comportamento humano, então não estou. Para o bem do argumento, vamos supor que Pondé queira dizer – pelos exemplos que ele dá logo depois – a primeira alternativa: a biologia é a mais importante variável para se entender o comportamento humano.

3) Os exemplos de Pondé são eloqüentes. Ele centra a questão no ponto central: a sexualidade humana. Cem anos de psicanálise não foram suficientes para mostrar o ridículo da noção de instinto e do darwinismo dos gêneros. Mas, vamos tentar mais uma vez.

4) A psicanálise não nega que a biologia tenha influência sobre o comportamento humano. Isso é um truísmo. O que a psicanálise e as ciências humanas sustentam é que a biologia não é fator determinante. No caso dos gêneros, p.ex., o que temos? Não há macacos travestis e nem transexuais. Zebras não transam com leões. E baleias não tiram sarro com golfinhos. Mas, nós, humanos, ah, quantas coisas inventamos… Recusamos a divisão simplista dos sexos – tão cara à teologia – há muito tempo.

5) O argumento da mulher com pudor é ainda pior. Diz ele que a mulher promíscua “carrega cria pesada”. Só se for o peso da consciência da pobre macaca… Realmente, é raro que a dominação masculina seja tão explícita, mas de vez em quando… é demais. O homem, claro, pode ser promíscuo… Uma pergunta: se a questão é apenas da cria pesada ou dores do parto, durante a gravidez a mulher pode ser promíscua à vontade, certo? Ooops…

6) O problema maior desses argumentos é que eles naturalizam uma parte da vida humana que é claramente influenciada pela cultura. Eu disse influenciada. Não disse que a cultura tira o nosso corpo da jogada, que ela inventa o corpo do nada. Insisto: os corpos são parte do jogo. O que muda é como usamos os corpos, quais são os processos que os docilizam, quais são os discursos que produzem as verdades sobre eles. Cada cultura produz discursos e práticas sobre os corpos muito diferentes umas das outras. De fato, é uma escolha metodológica estar mais atento a isso do que a morfologia do cérebro das mulheres promíscuas… (geralmente, biologicistas adoram reduzir a subjetividade ao cérebro).

7) Pra terminar: a teoria de Pondé, nem de longe, explica o uso do corpo da mulher na nossa cultura. A prostituição é apenas um exemplo. Basta fazer a genealogia dessa prática para ver que as coisas não são tão simples. Como dizia o velho Gilberto Freyre: é preciso a escrava da senzala para sustentar o pudor da moça na casa grande.

8) Darwin precisa de Bourdieu e Freud. Mais diálogo, menos teologia.

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São Paulo, segunda-feira, 25 de agosto de 2008
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LUIZ FELIPE PONDÉ

Quem tem medo do macaco?


A universidade é um dos lugares menos democráticos do planeta

QUEM TEM medo de Darwin? A religião, dirão os mais apressados. E com razão, se pensarmos na obsessão do debate Deus versus Dawkins.
A verdade é que na universidade esse problema é menor e esconde uma briga muito mais feroz. A briga com a teologia é menos significativa por duas razões básicas. A primeira razão é que o darwinismo é materialista como as ciências “duras” enquanto a teologia não é, e por isso ela toma de dez a zero.
A segunda razão é que a teologia é a louca da casa (vive de favor na universidade, não é ciência nem filosofia), relegada ao lugar de vender Jesus como um bom parceiro em lutas sociais ou um bom amigo quando você está deprimido, por culpa dos próprios teólogos que barateiam Deus. Com exceção da medicina, nenhuma “ciência” deveria se comprometer com a felicidade porque ela sempre fica boba quando faz isso. Explico-me: ou a teologia rompe com a “felicidade” ou ela será sempre ridícula.
A briga séria é entre o darwinismo e as teorias que negam qualquer influência biológica definitiva no comportamento humano. Existe um pânico contra a psicologia evolucionista e o macaco no homem e a macaca na mulher. E como a universidade funciona em lobbies, com perseguições e inquisições, facilmente você pode calar alguém se ele ou ela não concordar com você. A universidade é um dos lugares menos democráticos do planeta.
Essas teorias que temem o macaco afirmam que tudo no humano é socialmente construído. Obviamente essas teorias acham que salvarão o mundo, construindo seres humanos livres de seus instintos indesejáveis. Dizem elas: dê uma boneca cor de rosa pra meninos e eles crescerão pensando que são Cinderela. Se a boneca for um bebê, o menino terá desejos de amamentar bebês. Se ensinarmos as meninas a bater nos outros, elas serão como Clint Eastwood.
Desde a caverna a humanidade está dividida em machos e fêmeas, com variações aqui e ali, e que devem ser respeitadas na sua diversidade. De repente é a “ideologia” que ensina você a “escolher” o sexo. Mentira: ninguém “escolhe” o sexo. A palavra “ideologia” deveria ser acompanhada com frases do tipo “o Ministério da Saúde adverte…”. A facilidade com a qual deixamos de falar em “sexo” e passamos a falar em “gênero” (sexualidade construída socialmente) revela a superficialidade da idéia.
Qual o problema desse delírio? Por exemplo, ele invade as escolas, e os professores um dia dirão para as crianças que não existem machos e fêmeas na espécie humana e que hábitos morais são “pura invenção”.
Professores de escolas costumam se viciar em pensamentos da moda. Essas modas pioram as já difíceis relações entre homens e mulheres depois da emancipação feminina. Por exemplo, essas modas dizem aos homens: sejam sensíveis e chorem. O problema é que a sofrida macaca na mulher, assustada ancestralmente com o parto dolorido e arriscado, tende a ser seletiva na vida sexual. De nada serve a ela, nunca serviu, machos que choram. Aí o marido chorão “dança”, apesar do “coro do gênero” dizer o contrário. Dizem “tudo bem se o homem for sustentado pela mulher”.
Imaginemos nossas mulheres ancestrais com barrigas grandes tendo que caçar para homens-macacos preguiçosos. Elas até podem, mas não gostam. Será que por isso a imagem de força, segurança e experiência entusiasmam nossas mulheres normais? Fêmeas promíscuas ficavam mais grávidas e há 100 mil anos isso aumentava o risco de morrer de parto e de carregar crias pesadas.
Sexo é fisiologicamente caro para as mulheres e barato para os homens, e isso não é ideológico. Nossas fêmeas inteligentes perceberam isso e “transmitiram essa natureza perspicaz para sua prole feminina”. Na savana africana, deveria existir uma luta pelo direito ao pudor.
O fato é que ninguém sabe onde começa e termina a relação entre natureza e cultura. Qualquer afirmação nessa área é pura especulação. Um pouco de senso comum ajudaria os profetas da “natureza zero” serem menos delirantes: seria normal imaginar que somos uma mistura de natureza e cultura, coisa que qualquer pessoa comum sabe.
O lançamento da coleção de DVDs “Evolução” (ed. Duetto) é boa chance de conhecer o darwinismo sem medo e com bela apresentação visual. Da próxima vez que você for ao zoológico, olhe no olho de um chimpanzé e veja se não parece haver ali uma alma encarcerada como a sua.

Na aula de 22 de janeiro de 1975, do curso Os Anormais, Michel Foucault nos fala dos monstros. Ele nos lembra que a noção de monstro é essencialmente uma noção jurídica. O monstro é aquele que viola as leis: da sociedade, da natureza. Basta existir para que ele já esteja infringindo as leis. O monstro combina o impossível com o proibido.

Parece que o direito sempre está a questionar: “qual é o grande monstro natural que se oculta detrás de um gatuno?” (p. 71). Em Lombroso essa questão fica especialmente visível.

O primeiro monstro apontado por Foucault é o misto. A mistura de espécies, de indivíduos, de sexos, de vida e de morte, de formas. Transgressões, portanto, dos limites naturais.

Gostaria de ilustrar essas transgressões com algumas imagens que se encontram no final do século XVIII, num livro chamado Les Écarts de la Nature, de F. Regault (1775). Retirei essas imagens do livro de Didi-Huberman, La Ressemblance Informe.

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 Os siameses aparecem como uma “mistura” de corpos, de indivíduos.

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Observem: um crânio, várias faces. Observem ainda a “pose” da mão do monstro: algo clássico.

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Uma terceira imagem, semelhante à primeira, invertendo as posições dos siameses.

Uma outra imagem do monstruoso, talvez naquilo que ele tem de grotesco. A figura é intitulada “Le petit Pépin, exposé en spectacle à Paris en 1757 et 1758″:

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Monstro de circo. Observem como já há diferentes lugares para a observação do monstro: o direito, o circo, o hospital. Ele freqüenta muitos discursos ao mesmo tempo. Obviamente, estamos muito próximos do campo da fantasia, do surreal.

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Mais uma vez, a postura clássica de um corpo musculoso, porém, sem membros e sem cabeça. Um monstro que, por assim dizer, não perde a classe…

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 Terminemos com essas duas obras de Picasso. Apenas para que comparemos, a partir do pensamento de Bataille, como o corpo vai ser representado – e desconstruído. Para longe da figura ideal, aparece o monstro.

Fenômenos psíquicos dificilmente conhecem fronteiras claras. Mal um termina o outro já está começando. É o caso do conjunto de fenômenos ligado à demanda: o pedido, a reclamação, o queixume, o desejo…

Diz Lacan que a única demanda que temos a demanda de amor. Talvez, possamos imaginar que todo o resto são variações – neuróticas, perversas e psicóticas – dessa demanda.

Um tipo especial é a reclamação. Ela se divide em duas: uma ligada à cobrança de seus direitos, ao posicionamento do sujeito frente às suas feridas narcísicas; e outra ligada à pura queixa, que se repete infinitamente, como aquele famoso personagem de desenho animado, uma hiena que dizia sempre: “oh, vida, oh, azar…”.

Notemos a imagem abaixo:

reclamação: um certo tipo de neurose

É o caso do sujeito (fumante, claro…) que diz: eu vou me enforcar, a vida é ruim demais, nossa, cruz credo, oh, azar… E vai, assim, regando, bem vagarosamente, a árvare na qual amarrou sua forca frouxa. Enquanto isso, acende seu cachimbo…

Não seria esse tipo de reclamação um tipo de pedido de amor? Mas, por que ele toma essa forma? Por que ele se apresenta assim como impossível?

Foucault, no final da História da Loucura, parece fazer um elogio ao que ele chama “desrazão”. Trata-se do outro da razão. Não a loucura produzida pelos discursos médicos e psicológicos. A desrazão é aquilo que sempre escapa às tentativas incessantes do controle racional, da hierarquização, do equilíbrio, da clareza. A desrazão é o que não tem sentido, é o que atrapalha a organização, é o que não cessa de repetir das formas mais variadas e sem controle. Foucault sempre cita três autores que consiguiram dar um pouco de voz a essa desrazão: Nietzsche, Artaud e Bataille.

Pois bem, acredito que é possível traçar a origem dessa noção em Nietzsche, em especial, no livro A Origem da Tragédia. A desrazão seria talvez uma variação do que Nietzsche chama de dionisíaco. É preciso, então, traçar as semelhanças entre esses conceitos, suas diferenças, seus possíveis pontos de (des)encontro.

Mas, é com outro conceito que a noção de desrazão talvez encontre seu melhor par. Trata-se da pulsão. Freud elaborou o conceito de Trieb um pouco para diferenciá-lo do instinto. A pulsão não tem um objeto pré-fixado pela natureza. A pulsão diz de como nosso desejo é plástico, um tanto incontrolável e contingencial.

Jean Laplanche, numa obra genial, Vida e Morte em Psicanálise, traça a história do conceito no pensamento freudiano. Em resumo, Laplanche diz que a pulsão em Freud era “demoníaca”, mas foi sendo “apaziguada”, se transformando em Eros. Para contrabalançar esse apaziguamento da pulsão, Freud teve que elaborar o conceito de pulsão de morte. Para Laplanche, a pulsão de morte é o incontrolável, é o resto que nunca conseguimos digerir da sexualidade do outro, é aquilo contra o quê o ego luta para apaziguar.

Essa relação entre a desrazão e a pulsão sexual de morte (é como Laplanche vai chamar a pulsão de morte) é uma tarefa a ser feita. Assim como na história da loucura houve uma tentativa de apaziguar a loucura, transformando-a em doença mental, em diagnóstico psiquiátrico, tirando-lhe seu poder disruptivo, sua voz de contestação, também, na história da psicanálise, houve uma tentativa de apaziguar a pulsão, de torná-la “Eros”, de fazê-la talvez se reencontrar com o instinto…

Há três vídeos interessantes sobre a parábola de Kafka, dois mais recentes:

http://www.youtube.com/watch?v=4WOrNlVtS8A

http://www.youtube.com/watch?v=V96JFsvTom4

E uma versão clássica, narrada por Orson Wells:

http://www.youtube.com/watch?v=FZYugbqI3rQ

A prábola está no livro O Processo. Em português, recomendo a edição da Companhia das Letras, cuja tradução é assinada por Modesto Carone.

Trecho do filme dirigido por Perec.

(Em francês, legendas em inglês)

http://www.youtube.com/watch?v=4ToPoGaA24c

“Eu sou a lenda” (http://wwws.br.warnerbros.com/iamlegend/) é um filme fraco do ponto de vista cinematográfico e interessante do ponto de vista moral. Enquanto cinema, I am Legend é o que a indústria de Hollywood propõe: diversão, efeitos especiais, final feliz. Do ponto de vista moral, entretanto, é possível pensar alguma coisa a respeito. Pra começar, lembremos que a fantasia que alimenta a estória é uma das mais poderosas da nossa infância: estamos realmente sós, e pior: os outros são monstros que querem nos matar. As variações dessa fantasia, claro, são imensas, mas o enredo é basicamente o mesmo.

Muito semelhante, aliás, é a estória contada no excelente livro A Estrada, de Cormac McCarthy (http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=3219533&sid=18020512391221337408282525&k5=1BB8F608&uid=) . Numa atmosfera calcinada e apocalíptica, pai e filho tentam sobreviver à fome e aos ataques de hordas de canibais. O fim do mundo é aterrorizante. O livro de McCarthy capta bem as imagens de uma catástrofe sem limites e seus efeitos psíquicos.

As duas obras, o filme e o livro, se encontram num ponto: é preciso seguir em frente. Essa é, a meu ver, uma das mensagens morais das duas. São obras que, apesar de nos apresentarem um mundo acabado, não abandonam a idéia de que deve-se seguir adiante. Tentar até o último suspiro: Radicalizar o que nos disse Brecht num tempo no qual as utopias ainda eram possíveis: Neu beginnen kannst du mit dem letzten Atemzug. [Você pode começar de novo, com o último suspiro].

Do ponto de vista da psicanálise, Winnicott tem muito a nos dizer sobre essa solidão fundamental. Sobre as catástrofes ou, para usar seu conceito, o breakdown.

O filme e o livro tem muito a ver com a conclusão de Winnicott: “only out of non-existence can existence start” (In. Psychoanalytic explorations. Fear of breakdown, p. 95). O nosso problema é exatamente esse: existir a partir da não-existência.

Acabei de ler o interessante romance de João Gilberto Noll, A Céu Aberto (1996).

Há aspectos muito bons neste livro, se analisado a partir de Bataille. E é apenas desta perspectiva que falo aqui.

Para começar, a narrativa não é linear. O espaço e o tempo no romance são bastante fluídos. Um dos centros narrativos é o corpo. O corpo do personagem-narrador, o corpo das pessoas que ele vai encontrando. Toda esta fluidez faz lembrar o conceito de informe, de Georges Bataille.

O informe qualifica um certo poder que as formas têm de se deformar, de passar do semelhante ao des-semelhante. Criações artísticas podem mostrar esta qualidade das coisas e das imagens. Mostrar como as formas se abrem, se dilaceram. Quando aplicado ao universo humano, o informe ganha precisamente um sentido ideológico forte: as formas humanas mesmo dilaceradas, abertas, perfuradas, despedaçadas permanecem formas humanas. As terríveis formas dos corpos em mutação – mesmo quando acompanhadas de gozo – são ainda nossos semelhantes e nosso destino possível.

Pois bem, o romance de Noll coloca o processo do informe em movimento. O protagonista tem um irmão, por exemplo, cujo corpo doente se transforma em mulher com quem se casa. Incesto, androgenia, doença.

O clima no início do romance é de guerra. O narrador, não nomeado, vai procurar o pai que está no front. Os lugares não têm nome. Tudo pode ser em qualquer lugar. De fato, a impressão é esta: a estória pode acontecer em qualquer lugar. A heterotopia é levada ao seu limite.

Mas, já na página 26, o narrador fala de seu romance com Artur. Não só nesta relação, mas em outras posteriormente no romance, a homossexualidade será explorada como mais um recurso de choque, dentre vários outros recrutados pelo escritor. Aqui parece estar o ponto fraco, me parece, do livro. As relações são descritas como pornografia simples (cf. p. 27). Ao contrário do excelente recurso da androgenia, p.ex., voltamos ao século XIX, quando o homoerotismo ainda era o bicho-papão do pequeno burguês envergonhado.

Permitam-me explicar isto melhor a partir de duas definições de cultura que encontrei no Mal-Estar da Pós-Modernidade, de Bauman. A primeira, atribuída a Pierre Boulez, diz: “a cultura consiste em transformar o inacreditável no inevitável” (p. 167). A segunda, do próprio Bauman assevera: a cultura é um “dispositivo de antialeatoriedade, um esforço para estabelecer e manter uma ordem; como numa guerra contínua contra a aleatoriedade e esse caos que a aleatoriedade ocasiona” (p. 164).

Quando Noll traz elementos inverossímeis para o campo do literário, ele interrompe o processo padrão de transformar o inacreditável em inevitável. Não queremos saber de corpos que se transformam, de falta de sentido, de caos. Geralmente, tratamos nossas crenças como inevitáveis. O típico pensamento burguês que diz: “não pode ser de outro jeito”. Há, no romance de Noll, cenas brilhantes que mostram que pode sim ser de outro jeito, que nossas vidas podem tomar formas inimagináveis, ou melhor, absolutamente evitáveis. Mostrar a vida como mera contingência é ir contra o modo de pensamento burguês clássico, ideal e idealizante.

O romance, aliás, começa justamente com a procura pelo “pai” que estava na guerra. Vejam: é tentador intpretar isto como uma crítica à sociedade falocêntrica que não se sustenta mais. A cena do cuspe no olho do pai é exemplar. O pai é conspurcado, não pode mais nada. Sem o pai, o que sobra?

Pois bem, há inúmeras maneiras de ir contra este pensamento burguês-religioso. Uma delas é mostrar o que a cultura tenta esconder o tempo todo. Mostrar seu lado aleatório, contingencial também. Durante séculos, a homossexualidade foi um tema e uma forma de vida proibidos. Mostrá-la seria uma forma de chocar, de mostrar uma “verdade” que estava sendo negligenciada.

Há um terrível paradoxo nesse tipo de crítica. Burgueses adoram o proibido também. Aliás, sempre produziram sua moral ilibada sobre os excrementos que desejavam esconder. A prostituta e o amante sempre sustentaram os “bons casamentos”… Falar do proibido, então, pode contribuir para o formato do pensamento burguês que queremos criticar. A homossexualidade, a prostituição, o incesto, p.ex., são temas que a moralidade burguesa suporta bem… (Pensem na indústria da pornografia, no tráfico de mulheres, na pedofilia… são práticas cotidianas, mas “escondidas”). Mas, não venham falar de corpos que se transformam, de aleatoriedade, de falta de sentido, de corpos dilacerados… Não falem do informe, pois isto destrói a segurança do pensamento religioso-burguês. (Tudo tem um lugar certo, naturalmente garantido).

Pois bem, o uso que Noll faz da homossexualidade no seu romance me pareceu pornográfico. E, neste sentido, contrário ao projeto estético muito mais eficaz de outros trechos do romance. Pensem no diálogo das páginas 71-2, sobre a morte do padre que fingia morrer toda noite. Um dia, ele morre de verdade. Claro, não é por acaso que um padre finge de morto toda noite.

Uma outra cena “pornográfica” que merece ser citada se desenrola entre as pgs. 103-7. Vejam o problema de Noll: a linguagem é bem fragmentada (crítica ao sentido linear). O parceiro é “filho de Artur”, novamente algo incestuoso no ar… A relação homossexual-violenta oscila entre a pornografia e o informe. De um lado a “carne” (sangue, violência), do outro sadismo regado a ácido para não sentir dor (106). Mais burguês, impossível…

(Cabe um parêntese aqui. Não tenho dúvidas de que o vínculo homoerótico pode ter vários sentidos no romance. Acho, aliás, que estes vários sentidos devem ser explorados e contrapostos a fim, justamente, de evitar a redução deste vínculo ao pornográfico.)

A parte final do livro, quando o narrador fica no navio é especialmente bem escrita. Novamente, a heterotopia em primeiro plano. Quer um lugar mais não-lugar que uma cabine fechada dentro de um navio? A única presença, a figura destentada do velho capitão do mar, novamente traz o elemento homossexual. Mais uma vez ligado ao abjeto, ao sujo… Até âncora tatuada no peito ele tinha (p. 142). Mais clichê impossível.

Na última página, uma frase que merece ser citada: “Eu parecia de fato me encontrar na passagem do estado bruto da vida para uma espécie de existência mais difusa e elementar.” (164). Ora, o “retorno ao inorgânico”, a pulsão sexual de morte, o sem-sentido: tudo isto vai contra a moral burguesa, a “alta” cultura. E é exatamente para onde Noll parece querer conduzir seu leitor. Ele quer deixá-lo “a céu aberto”, sem nenhuma proteção moral, sem nenhuma certeza. Mas, muitas vezes, ele mesmo volta a dar as velhas certezas da cultura burguesa que ele parece querer criticar: mulher/prostituta, homossexualismo/violência, incesto/prazer…

Observações importantes:

Para entender a diferença entre o erotismo que traz os elementos da pulsão sexual de morte e a pornografia a serviço da moral burguesa leiam: O Erotismo, de Bataille, Penser la pornographie, de Ruwen Ogien e La pornographie ou l’épuisement du désir, de Michela Marzano.