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Fenômenos psíquicos dificilmente conhecem fronteiras claras. Mal um termina o outro já está começando. É o caso do conjunto de fenômenos ligado à demanda: o pedido, a reclamação, o queixume, o desejo…

Diz Lacan que a única demanda que temos a demanda de amor. Talvez, possamos imaginar que todo o resto são variações – neuróticas, perversas e psicóticas – dessa demanda.

Um tipo especial é a reclamação. Ela se divide em duas: uma ligada à cobrança de seus direitos, ao posicionamento do sujeito frente às suas feridas narcísicas; e outra ligada à pura queixa, que se repete infinitamente, como aquele famoso personagem de desenho animado, uma hiena que dizia sempre: “oh, vida, oh, azar…”.

Notemos a imagem abaixo:

reclamação: um certo tipo de neurose

É o caso do sujeito (fumante, claro…) que diz: eu vou me enforcar, a vida é ruim demais, nossa, cruz credo, oh, azar… E vai, assim, regando, bem vagarosamente, a árvare na qual amarrou sua forca frouxa. Enquanto isso, acende seu cachimbo…

Não seria esse tipo de reclamação um tipo de pedido de amor? Mas, por que ele toma essa forma? Por que ele se apresenta assim como impossível?

Foucault, no final da História da Loucura, parece fazer um elogio ao que ele chama “desrazão”. Trata-se do outro da razão. Não a loucura produzida pelos discursos médicos e psicológicos. A desrazão é aquilo que sempre escapa às tentativas incessantes do controle racional, da hierarquização, do equilíbrio, da clareza. A desrazão é o que não tem sentido, é o que atrapalha a organização, é o que não cessa de repetir das formas mais variadas e sem controle. Foucault sempre cita três autores que consiguiram dar um pouco de voz a essa desrazão: Nietzsche, Artaud e Bataille.

Pois bem, acredito que é possível traçar a origem dessa noção em Nietzsche, em especial, no livro A Origem da Tragédia. A desrazão seria talvez uma variação do que Nietzsche chama de dionisíaco. É preciso, então, traçar as semelhanças entre esses conceitos, suas diferenças, seus possíveis pontos de (des)encontro.

Mas, é com outro conceito que a noção de desrazão talvez encontre seu melhor par. Trata-se da pulsão. Freud elaborou o conceito de Trieb um pouco para diferenciá-lo do instinto. A pulsão não tem um objeto pré-fixado pela natureza. A pulsão diz de como nosso desejo é plástico, um tanto incontrolável e contingencial.

Jean Laplanche, numa obra genial, Vida e Morte em Psicanálise, traça a história do conceito no pensamento freudiano. Em resumo, Laplanche diz que a pulsão em Freud era “demoníaca”, mas foi sendo “apaziguada”, se transformando em Eros. Para contrabalançar esse apaziguamento da pulsão, Freud teve que elaborar o conceito de pulsão de morte. Para Laplanche, a pulsão de morte é o incontrolável, é o resto que nunca conseguimos digerir da sexualidade do outro, é aquilo contra o quê o ego luta para apaziguar.

Essa relação entre a desrazão e a pulsão sexual de morte (é como Laplanche vai chamar a pulsão de morte) é uma tarefa a ser feita. Assim como na história da loucura houve uma tentativa de apaziguar a loucura, transformando-a em doença mental, em diagnóstico psiquiátrico, tirando-lhe seu poder disruptivo, sua voz de contestação, também, na história da psicanálise, houve uma tentativa de apaziguar a pulsão, de torná-la “Eros”, de fazê-la talvez se reencontrar com o instinto…

Há três vídeos interessantes sobre a parábola de Kafka, dois mais recentes:

http://www.youtube.com/watch?v=4WOrNlVtS8A

http://www.youtube.com/watch?v=V96JFsvTom4

E uma versão clássica, narrada por Orson Wells:

http://www.youtube.com/watch?v=FZYugbqI3rQ

A prábola está no livro O Processo. Em português, recomendo a edição da Companhia das Letras, cuja tradução é assinada por Modesto Carone.

Trecho do filme dirigido por Perec.

(Em francês, legendas em inglês)

http://www.youtube.com/watch?v=4ToPoGaA24c

“Eu sou a lenda” (http://wwws.br.warnerbros.com/iamlegend/) é um filme fraco do ponto de vista cinematográfico e interessante do ponto de vista moral. Enquanto cinema, I am Legend é o que a indústria de Hollywood propõe: diversão, efeitos especiais, final feliz. Do ponto de vista moral, entretanto, é possível pensar alguma coisa a respeito. Pra começar, lembremos que a fantasia que alimenta a estória é uma das mais poderosas da nossa infância: estamos realmente sós, e pior: os outros são monstros que querem nos matar. As variações dessa fantasia, claro, são imensas, mas o enredo é basicamente o mesmo.

Muito semelhante, aliás, é a estória contada no excelente livro A Estrada, de Cormac McCarthy (http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=3219533&sid=18020512391221337408282525&k5=1BB8F608&uid=) . Numa atmosfera calcinada e apocalíptica, pai e filho tentam sobreviver à fome e aos ataques de hordas de canibais. O fim do mundo é aterrorizante. O livro de McCarthy capta bem as imagens de uma catástrofe sem limites e seus efeitos psíquicos.

As duas obras, o filme e o livro, se encontram num ponto: é preciso seguir em frente. Essa é, a meu ver, uma das mensagens morais das duas. São obras que, apesar de nos apresentarem um mundo acabado, não abandonam a idéia de que deve-se seguir adiante. Tentar até o último suspiro: Radicalizar o que nos disse Brecht num tempo no qual as utopias ainda eram possíveis: Neu beginnen kannst du mit dem letzten Atemzug. [Você pode começar de novo, com o último suspiro].

Do ponto de vista da psicanálise, Winnicott tem muito a nos dizer sobre essa solidão fundamental. Sobre as catástrofes ou, para usar seu conceito, o breakdown.

O filme e o livro tem muito a ver com a conclusão de Winnicott: “only out of non-existence can existence start” (In. Psychoanalytic explorations. Fear of breakdown, p. 95). O nosso problema é exatamente esse: existir a partir da não-existência.

Acabei de ler o interessante romance de João Gilberto Noll, A Céu Aberto (1996).

Há aspectos muito bons neste livro, se analisado a partir de Bataille. E é apenas desta perspectiva que falo aqui.

Para começar, a narrativa não é linear. O espaço e o tempo no romance são bastante fluídos. Um dos centros narrativos é o corpo. O corpo do personagem-narrador, o corpo das pessoas que ele vai encontrando. Toda esta fluidez faz lembrar o conceito de informe, de Georges Bataille.

O informe qualifica um certo poder que as formas têm de se deformar, de passar do semelhante ao des-semelhante. Criações artísticas podem mostrar esta qualidade das coisas e das imagens. Mostrar como as formas se abrem, se dilaceram. Quando aplicado ao universo humano, o informe ganha precisamente um sentido ideológico forte: as formas humanas mesmo dilaceradas, abertas, perfuradas, despedaçadas permanecem formas humanas. As terríveis formas dos corpos em mutação – mesmo quando acompanhadas de gozo – são ainda nossos semelhantes e nosso destino possível.

Pois bem, o romance de Noll coloca o processo do informe em movimento. O protagonista tem um irmão, por exemplo, cujo corpo doente se transforma em mulher com quem se casa. Incesto, androgenia, doença.

O clima no início do romance é de guerra. O narrador, não nomeado, vai procurar o pai que está no front. Os lugares não têm nome. Tudo pode ser em qualquer lugar. De fato, a impressão é esta: a estória pode acontecer em qualquer lugar. A heterotopia é levada ao seu limite.

Mas, já na página 26, o narrador fala de seu romance com Artur. Não só nesta relação, mas em outras posteriormente no romance, a homossexualidade será explorada como mais um recurso de choque, dentre vários outros recrutados pelo escritor. Aqui parece estar o ponto fraco, me parece, do livro. As relações são descritas como pornografia simples (cf. p. 27). Ao contrário do excelente recurso da androgenia, p.ex., voltamos ao século XIX, quando o homoerotismo ainda era o bicho-papão do pequeno burguês envergonhado.

Permitam-me explicar isto melhor a partir de duas definições de cultura que encontrei no Mal-Estar da Pós-Modernidade, de Bauman. A primeira, atribuída a Pierre Boulez, diz: “a cultura consiste em transformar o inacreditável no inevitável” (p. 167). A segunda, do próprio Bauman assevera: a cultura é um “dispositivo de antialeatoriedade, um esforço para estabelecer e manter uma ordem; como numa guerra contínua contra a aleatoriedade e esse caos que a aleatoriedade ocasiona” (p. 164).

Quando Noll traz elementos inverossímeis para o campo do literário, ele interrompe o processo padrão de transformar o inacreditável em inevitável. Não queremos saber de corpos que se transformam, de falta de sentido, de caos. Geralmente, tratamos nossas crenças como inevitáveis. O típico pensamento burguês que diz: “não pode ser de outro jeito”. Há, no romance de Noll, cenas brilhantes que mostram que pode sim ser de outro jeito, que nossas vidas podem tomar formas inimagináveis, ou melhor, absolutamente evitáveis. Mostrar a vida como mera contingência é ir contra o modo de pensamento burguês clássico, ideal e idealizante.

O romance, aliás, começa justamente com a procura pelo “pai” que estava na guerra. Vejam: é tentador intpretar isto como uma crítica à sociedade falocêntrica que não se sustenta mais. A cena do cuspe no olho do pai é exemplar. O pai é conspurcado, não pode mais nada. Sem o pai, o que sobra?

Pois bem, há inúmeras maneiras de ir contra este pensamento burguês-religioso. Uma delas é mostrar o que a cultura tenta esconder o tempo todo. Mostrar seu lado aleatório, contingencial também. Durante séculos, a homossexualidade foi um tema e uma forma de vida proibidos. Mostrá-la seria uma forma de chocar, de mostrar uma “verdade” que estava sendo negligenciada.

Há um terrível paradoxo nesse tipo de crítica. Burgueses adoram o proibido também. Aliás, sempre produziram sua moral ilibada sobre os excrementos que desejavam esconder. A prostituta e o amante sempre sustentaram os “bons casamentos”… Falar do proibido, então, pode contribuir para o formato do pensamento burguês que queremos criticar. A homossexualidade, a prostituição, o incesto, p.ex., são temas que a moralidade burguesa suporta bem… (Pensem na indústria da pornografia, no tráfico de mulheres, na pedofilia… são práticas cotidianas, mas “escondidas”). Mas, não venham falar de corpos que se transformam, de aleatoriedade, de falta de sentido, de corpos dilacerados… Não falem do informe, pois isto destrói a segurança do pensamento religioso-burguês. (Tudo tem um lugar certo, naturalmente garantido).

Pois bem, o uso que Noll faz da homossexualidade no seu romance me pareceu pornográfico. E, neste sentido, contrário ao projeto estético muito mais eficaz de outros trechos do romance. Pensem no diálogo das páginas 71-2, sobre a morte do padre que fingia morrer toda noite. Um dia, ele morre de verdade. Claro, não é por acaso que um padre finge de morto toda noite.

Uma outra cena “pornográfica” que merece ser citada se desenrola entre as pgs. 103-7. Vejam o problema de Noll: a linguagem é bem fragmentada (crítica ao sentido linear). O parceiro é “filho de Artur”, novamente algo incestuoso no ar… A relação homossexual-violenta oscila entre a pornografia e o informe. De um lado a “carne” (sangue, violência), do outro sadismo regado a ácido para não sentir dor (106). Mais burguês, impossível…

(Cabe um parêntese aqui. Não tenho dúvidas de que o vínculo homoerótico pode ter vários sentidos no romance. Acho, aliás, que estes vários sentidos devem ser explorados e contrapostos a fim, justamente, de evitar a redução deste vínculo ao pornográfico.)

A parte final do livro, quando o narrador fica no navio é especialmente bem escrita. Novamente, a heterotopia em primeiro plano. Quer um lugar mais não-lugar que uma cabine fechada dentro de um navio? A única presença, a figura destentada do velho capitão do mar, novamente traz o elemento homossexual. Mais uma vez ligado ao abjeto, ao sujo… Até âncora tatuada no peito ele tinha (p. 142). Mais clichê impossível.

Na última página, uma frase que merece ser citada: “Eu parecia de fato me encontrar na passagem do estado bruto da vida para uma espécie de existência mais difusa e elementar.” (164). Ora, o “retorno ao inorgânico”, a pulsão sexual de morte, o sem-sentido: tudo isto vai contra a moral burguesa, a “alta” cultura. E é exatamente para onde Noll parece querer conduzir seu leitor. Ele quer deixá-lo “a céu aberto”, sem nenhuma proteção moral, sem nenhuma certeza. Mas, muitas vezes, ele mesmo volta a dar as velhas certezas da cultura burguesa que ele parece querer criticar: mulher/prostituta, homossexualismo/violência, incesto/prazer…

Observações importantes:

Para entender a diferença entre o erotismo que traz os elementos da pulsão sexual de morte e a pornografia a serviço da moral burguesa leiam: O Erotismo, de Bataille, Penser la pornographie, de Ruwen Ogien e La pornographie ou l’épuisement du désir, de Michela Marzano.

altardelampiao.jpg

A foto acima é um altar montado pelo Estado. São as cabeças de Lampião e seu bando. Vejam o espetáculo armado durante o governo de Getúlio que venceu o maior dos cangaceiros.

Observem nos detalhes. Para falar com Barthes: observem o obtuso. As máquinas de costura, nos extremos da imagem, mais acima. Os chapéus enfeitados, os adereços brilhantes.

Expor a cabeça do inimigo com suas armas. A cabeça de Lampião é a que está mais abaixo. Altar às avessas: agora, ele já não manda nada.

Por que esta produção de acéfalos? Esta produção sagrada de acéfalos?

A cabeça de Lampião ficou no museu de Salvador até 1964. Exposta ao público. À la Lênin… Diz a lenda que foi Antônio Carlos Magalhães quem mandou enterrar a cabeça do famigerado “inimigo do Estado”. Disseram que a Bahia não crescia porque o espírito de Lampião não descansava. Ao som dos atabaques e sob o olhar cuidadoso de muitos Orixás, enterraram a cabeça do desgraçado. A Bahia, aí sim, pôde, enfim, crescer.

Além dessa imagem, analiso o fenômeno do cangaço em minha tese de doutorado: Violência e Dominação em Sargento Getúlio, de João Ubaldo Ribeiro. Ela pode ser lida em:

http://sites.google.com/site/fabiobelo76/Home


Até semana passada não sabia que existia um país cujo nome é Mianmar.

Pesquisei no Google Earth (“mianmar” lat=21.913965, lon=95.956223) e vi, nas imagens do satélite, algumas imagens surpreendentes. Como esta:

 myanmar.jpg

Fiquei sabendo, pelas notícias dos jornais, que é um país em de muitos monges budistas, pelos quais tenho simpatia. Me parecem pacíficos, apesar de religiosos. É a única religião que não me traz, de forma imediata, a imagem da guerra. Ao contrário, parecem sempre estar lutando contra forças terríveis.

monges.jpg

 Pelo que apurei (no JB e na Folha), Mianmar tem 500 mil monges budistas. O país tem 53 milhões de habitantes. Os monges formam uma segunda força naquele país, atrás apenas do Exército. As crianças vão estudar nos monastérios para fugir da miséria. Mianmar é um país pobre. Antigamente, se chamava Birmânia. Parece ter sido colonizado pela Inglaterra. Rússia e China mantêm negócios militares com Mianmar. Os primeiros querem vender reatores nucleares para a ditadura que governa o país há 45 anos. Em troca de quê? Petróleo e gás, em abundância no subsolo de Mianmar.

A Folha conta a história de Mianmar, de forma resumida: http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u332049.shtml

Os últimos dias em Mianmar estão quentes. Aumentaram o preço dos combustíveis e a população, com a ajuda dos monges, saem as ruas em protesto. Um fotógrafo japonês foi assassinado por tentar mostrar as imagens das detenções e da violência:

 fotografo.jpg

Acho que devemos contrapor as imagens que vemos pelo satélite e estas imagens da violência. É preciso colocar uma ao lado da outra. É mais um exemplo de como o Estado se sustenta à base da violência. Não há Estado sem morte.

Sobre a corrida: 

“Comecei, mas posso não terminar.”

“Comecei, mas não posso terminar.”

O lugar do não e o verbo com o qual ele faz par, estamos a ver, é determinante.

É curioso… O não parece marcar muito mais o sentido que o sim. Pense – à la Wittgenstein – quais os usos da palavra “sim” e quais os usos da palavra “não”.

No seu texto sobre a negação, Freud lembra bem: o não marca o lugar o desejo: “Não é minha mãe!”

O sim expressa ênfase: “quero sim”, “claro, vamos sim”. Expressa prontidão: “Sim?” [no sentido de "pois não?" (sic!)].

O não da criança talvez seja a primeira forma de expressar a diferença entre o seu desejo e o desejo da mãe. Pense na anorexia seletiva da criança: “não, cebola não!”.

O conto “Composição I”, de Sérgio Sant’Anna, pode ser lido como uma reflexão sobre a lei. Mais especificamente: algumas formas assumidas pela lei: o arbitrário, o tabu, a dominação.

Há várias menções às relações de poder no conto:

(1) a mãe e a empregada. A mãe ganhou de presente uma campainha para chamar a empregada. Esta acha que a campainha serve para chamar cachorro e sente raiva por isso.

(2) o empregado e o patrão: o pai reclama do emprego. Diz que se não houver aumento, sairá do emprego. Ele, em casa, é o chefe. Mas, fora, é submisso.

(3) o pai com a mulher: “Papai olha com raiva para mamãe, mas dessa vez ele não diz que ela o está sempre interrompendo e é burra e não entende nada das coisas que ele fala.” (p. 80). A brutalidade excessiva do pai também aparece com a filha.

(4) o pai com os filhos: o sorriso que não é permitido à mesa. A cena terrível das batatas espremidas na mão da filha.

(5) do pai com o Estado: “os militares é que deviam tomar o poder” (p. 79).

O conto é excelente, pois deixa ver como as relações de poder são complexas e atravessadas por várias formas de lei. A do trabalho, a da dominação masculina, a da ordem familiar…

Marcada pelo itálico, uma outra relação se revela: a do incesto entre os irmãos. No escuro, após o evento do jantar, os irmãos se encontram rompendo o tabu do incesto. Seria uma forma de lutar contra o arbitrário? De mostrar para o pai que nem toda lei deve ser seguida? Que à noite há exceção às regras violentas? Mostrar que ele não controla tudo? (Lembremos, entretanto, que o narrador, o irmão, teme é o olhar da mãe… é ela quem deve controlar a sexualidade dos filhos, não?)

Uma interpretação suplementar da cena do incesto: os “olhos fechados” da irmã podem ser o sinal de prazer, mas também, mais uma vez, sinal de obediência. Seria, então, o incesto mais uma forma de se submeter ao poder masculino? Mas, desta vez, amorosamente instituído?

O conto pode ser visto, então, como uma alegoria sobre os frágeis limites entre o tabu e o arbitrário, a regra e o seu descumprimento.

O conto pode ser lido em:

Sant’Anna, Sérgio. Contos e novelas reunidos. São Paulo: Cia. das Letras, 1997, pp. 78-87.

(Originalmente o conto pertence ao livro Notas de Manfredo Rangel, repórter (a respeito de Kramer).

 

Recomendo também um bom ensaio sobre o livro no qual está o conto:

http://coralx.ufsm.br/grpesqla/revista/num09/art_03.php