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A foto acima é um altar montado pelo Estado. São as cabeças de Lampião e seu bando. Vejam o espetáculo armado durante o governo de Getúlio que venceu o maior dos cangaceiros.

Observem nos detalhes. Para falar com Barthes: observem o obtuso. As máquinas de costura, nos extremos da imagem, mais acima. Os chapéus enfeitados, os adereços brilhantes.

Expor a cabeça do inimigo com suas armas. A cabeça de Lampião é a que está mais abaixo. Altar às avessas: agora, ele já não manda nada.

Por que esta produção de acéfalos? Esta produção sagrada de acéfalos?

A cabeça de Lampião ficou no museu de Salvador até 1964. Exposta ao público. À la Lênin… Diz a lenda que foi Antônio Carlos Magalhães quem mandou enterrar a cabeça do famigerado “inimigo do Estado”. Disseram que a Bahia não crescia porque o espírito de Lampião não descansava. Ao som dos atabaques e sob o olhar cuidadoso de muitos Orixás, enterraram a cabeça do desgraçado. A Bahia, aí sim, pôde, enfim, crescer.

Além dessa imagem, analiso o fenômeno do cangaço em minha tese de doutorado: Violência e Dominação em Sargento Getúlio, de João Ubaldo Ribeiro. Ela pode ser lida em:

http://sites.google.com/site/fabiobelo76/Home


Até semana passada não sabia que existia um país cujo nome é Mianmar.

Pesquisei no Google Earth (“mianmar” lat=21.913965, lon=95.956223) e vi, nas imagens do satélite, algumas imagens surpreendentes. Como esta:

 myanmar.jpg

Fiquei sabendo, pelas notícias dos jornais, que é um país em de muitos monges budistas, pelos quais tenho simpatia. Me parecem pacíficos, apesar de religiosos. É a única religião que não me traz, de forma imediata, a imagem da guerra. Ao contrário, parecem sempre estar lutando contra forças terríveis.

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 Pelo que apurei (no JB e na Folha), Mianmar tem 500 mil monges budistas. O país tem 53 milhões de habitantes. Os monges formam uma segunda força naquele país, atrás apenas do Exército. As crianças vão estudar nos monastérios para fugir da miséria. Mianmar é um país pobre. Antigamente, se chamava Birmânia. Parece ter sido colonizado pela Inglaterra. Rússia e China mantêm negócios militares com Mianmar. Os primeiros querem vender reatores nucleares para a ditadura que governa o país há 45 anos. Em troca de quê? Petróleo e gás, em abundância no subsolo de Mianmar.

A Folha conta a história de Mianmar, de forma resumida: http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u332049.shtml

Os últimos dias em Mianmar estão quentes. Aumentaram o preço dos combustíveis e a população, com a ajuda dos monges, saem as ruas em protesto. Um fotógrafo japonês foi assassinado por tentar mostrar as imagens das detenções e da violência:

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Acho que devemos contrapor as imagens que vemos pelo satélite e estas imagens da violência. É preciso colocar uma ao lado da outra. É mais um exemplo de como o Estado se sustenta à base da violência. Não há Estado sem morte.

Sobre a corrida: 

“Comecei, mas posso não terminar.”

“Comecei, mas não posso terminar.”

O lugar do não e o verbo com o qual ele faz par, estamos a ver, é determinante.

É curioso… O não parece marcar muito mais o sentido que o sim. Pense – à la Wittgenstein – quais os usos da palavra “sim” e quais os usos da palavra “não”.

No seu texto sobre a negação, Freud lembra bem: o não marca o lugar o desejo: “Não é minha mãe!”

O sim expressa ênfase: “quero sim”, “claro, vamos sim”. Expressa prontidão: “Sim?” [no sentido de "pois não?" (sic!)].

O não da criança talvez seja a primeira forma de expressar a diferença entre o seu desejo e o desejo da mãe. Pense na anorexia seletiva da criança: “não, cebola não!”.

O conto “Composição I”, de Sérgio Sant’Anna, pode ser lido como uma reflexão sobre a lei. Mais especificamente: algumas formas assumidas pela lei: o arbitrário, o tabu, a dominação.

Há várias menções às relações de poder no conto:

(1) a mãe e a empregada. A mãe ganhou de presente uma campainha para chamar a empregada. Esta acha que a campainha serve para chamar cachorro e sente raiva por isso.

(2) o empregado e o patrão: o pai reclama do emprego. Diz que se não houver aumento, sairá do emprego. Ele, em casa, é o chefe. Mas, fora, é submisso.

(3) o pai com a mulher: “Papai olha com raiva para mamãe, mas dessa vez ele não diz que ela o está sempre interrompendo e é burra e não entende nada das coisas que ele fala.” (p. 80). A brutalidade excessiva do pai também aparece com a filha.

(4) o pai com os filhos: o sorriso que não é permitido à mesa. A cena terrível das batatas espremidas na mão da filha.

(5) do pai com o Estado: “os militares é que deviam tomar o poder” (p. 79).

O conto é excelente, pois deixa ver como as relações de poder são complexas e atravessadas por várias formas de lei. A do trabalho, a da dominação masculina, a da ordem familiar…

Marcada pelo itálico, uma outra relação se revela: a do incesto entre os irmãos. No escuro, após o evento do jantar, os irmãos se encontram rompendo o tabu do incesto. Seria uma forma de lutar contra o arbitrário? De mostrar para o pai que nem toda lei deve ser seguida? Que à noite há exceção às regras violentas? Mostrar que ele não controla tudo? (Lembremos, entretanto, que o narrador, o irmão, teme é o olhar da mãe… é ela quem deve controlar a sexualidade dos filhos, não?)

Uma interpretação suplementar da cena do incesto: os “olhos fechados” da irmã podem ser o sinal de prazer, mas também, mais uma vez, sinal de obediência. Seria, então, o incesto mais uma forma de se submeter ao poder masculino? Mas, desta vez, amorosamente instituído?

O conto pode ser visto, então, como uma alegoria sobre os frágeis limites entre o tabu e o arbitrário, a regra e o seu descumprimento.

O conto pode ser lido em:

Sant’Anna, Sérgio. Contos e novelas reunidos. São Paulo: Cia. das Letras, 1997, pp. 78-87.

(Originalmente o conto pertence ao livro Notas de Manfredo Rangel, repórter (a respeito de Kramer).

 

Recomendo também um bom ensaio sobre o livro no qual está o conto:

http://coralx.ufsm.br/grpesqla/revista/num09/art_03.php

O sábio rabino Nilton Bonder nos lembra um importante momento da história do povo judeu.

Antigamente, para que alguém fosse considerado judeu, ele (a) deveria ter pai judeu. A tradição era patrilinear.

No período da invasão romada da Palestina, os romanos estupravam as mulheres judias. Um impasse se colocou ao povo judeu. Seu próprio futuro estava em risco. Qual solução adotar?

A matrilinearidade foi a solução adotada. Mudou-se uma lei milenar para garantir uma outra lei – a da sobrevivência enquanto povo.

Quantas vezes temos que mudar a lei para preservar uma outra, talvez mais importante? Quando devemos trair para manter a tradição? Quando manter a tradição é propor o seu próprio fim?

Esta história está nas páginas 88 e 89 do seguinte livro:

Bonder, Nilton. A alma imoral: traição e tradição através dos tempos. Rio de Janeiro: Rocco, 1998. 

A relação de vários transtornos psíquicos com a lei merece investigação em pormenor. As categorias clássicas – histeria, perversão, psicose, neurose obsessiva… – colocam em funcionamento certas relações entre o sujeito e a lei.

Na psicose, a lei muitas vezes é impositiva e recai sobre o sujeito. Como se ela existisse apenas para o sujeito. Pensem em O Processo, de Kafka, como uma alegoria do adoecimento psicótico: a lei parece existir somente para Josef K. É o que parece querer dizer a famosa parábola do “porteiro da lei”…

Na perversão, o sujeito parece querer burlar as leis compartilhadas. Ele faz sua própria lei e muitas vezes quer aplicá-la aos outros. Penso no filme Seven como exemplo, no limite, desta relação. (A religião, neste sentido, mais próxima da perversão do que da neurose obsessiva como queria Freud). O famoso malandro brasileiro entra aqui: a lei que vale é a dele…

Mas, a relação do neurótico obsessivo com a lei é a que mais chama a atenção. O obsessivo quer cumprir a lei e quer que todos a cumpram. Não cumpri-la significa culpa. É como se a lei o preservasse de uma bagunça caótica contra a qual ele deve lutar com unhas e dentes. O filme Melhor Impossível mostra bem isto: qualquer coisa pode virar lei: andar na rua (apenas sobre as linhas!), lavar as mãos (duas vezes, com sabão, esfregando 10 vezes…). Aqui há um furor legiferante. 

Mas é absurdo dizer que todo mundo se relaciona com a lei da mesma forma o tempo todo. Num certo sentido, todos achamos em determinados momentos que é sobre nós que recai o peso das obrigações (fonte inesgotável de nossos sonhos de ganhar na megasena!); pensamos também, diversas vezes, que se todos fizessem o que pensamos poderíamos ter um futuro melhor (fonte do desejo de mudar o (a) namorado (a) de fazê-lo (a) desejar aquilo que queremos…); por último, mas não menos importante, muitas vezes gostamos de seguir as regras e desejamos que todos a sigam (quando jogamos com os amigos, quando brincamos não nos sentimos frustrados com a trapaça?).

Este texto poderia ter vários títulos além do que lhe foi atribuído: o obsessivo e o corrupto, o legal e o ilegal, o normal e o anormal, o certinho e o malandro…

Mas vamos falar de algo mais abstrato: a regra e a exceção.

Num país como o Brasil, cujo presidente do Senado é comprovadamente sonegador de impostos, adúltero e corrupto, a discussão vem sempre a calhar.

Mas, a questão é também da micro-política: a sala de aula, o trânsito, a fila… Situações quotidianas que trazem o dilema: a regra ou a exceção?

O texto genial de Freud, “As Exceções” (Tipos de Caráter Encontrados no Trabalho Analítico), assinala a relação íntima entre a perversão e o sujeito que se vê como exceção à regra. Qual regra? Qualquer uma, mas em especial aquela que diz respeito à convivência que coloca o direito do outro em igual patamar ao seu próprio.

Ricardo III, exemplo máximo deste tipo de caráter, se via como exceção. Ele podia matar e roubar porque acreditava que a “natureza”, por tê-lo feito aleijado, já o havia punido demais. Indicação preciosa para aqueles que se sentem excessivamente punidos quando têm que cumprir uma regra: a onipotência do narcisismo (“eu sou diferente, não culpo as mesmas regras que os reles mortais”) revela a fragilidade do narcisismo (“sou muito ferido, já sofri demais, não me submeto a mais nada, se não morro…”).

Um importante conceito da sociologia – papel social – merece ser criticado.

O conceito parece trazer consigo uma velha teoria da vida como teatro, da vida como palco. Nós seríamos “atores sociais” representando papéis nos mais diversos palcos da vida: trabalho, amor, família, clube etc. Talvez possamos ainda supor um papel que desempenharíamos sozinhos, por assim dizer, na coxia, papéis para os quais apenas o espelho - se tanto! – seria espectador.

O que há de equivocado neste conceito?

Em primeiro lugar, a metáfora parece inadequada. Não podemos, como os atores, mudar de vida com tanta facilidade como supõe a força metafórica do conceito. Nossa vida é regulada por dispositivos políticos, econômicos, ideológicos etc. que servem exatamente para que continuemos “atuando” os mesmos “papéis” sempre. Então, não seria melhor nomear este tipo de coisa com um nome mais adequado, menos falso? Que tal “propensões sociais”?

Em segundo lugar, o conceito “papel social” e seu correlatos dão a falsa impressão de uma autonomia subjetiva. Novamente, tem-se a impressão de que somos atores num teatro e que podemos sair do palco quando bem entendermos. Os defensores da autonomia vão dizer: mas todos podemos mudar de vida, não? Ora, claro! Mas, quais são as possibilidades sociais, psíquicas, econômicas, políticas etc., disto acontecer? Onde não é possível mudar? É possível abandonar a linguagem? Até que ponto não há também uma série de “mudanças que nada mudam”?

Um terceiro ponto: o conceito de papel social também parece colocar em xeque ou relativizar demais a noção de responsabilidade. Peca, portanto, nos dois lados: ora por aumentar demais a autonomia, ora por desprezá-la. Afinal, se somos atores, quem escreveu o script? Não fomos nós, claro! Pois, apenas representamos… Não somos. Então, como fica a responsabilidade?

O quarto ponto: pense no papel do morto. Podemos representá-lo? Talvez, neste ponto específico, os existencialistas estejam certos. Não podemos representar nossa existência, pois não podemos representar nossa morte. Se somos para-a-morte é porque não podemos vivê-la. Está aí um “papel social”, o de morto, que não podemos representar sem, automaticamente, não representar mais nenhum. Que algum cadáver represente para nós não é coisa que ele faça. Isso, lidar com a morte, é problema dos vivos apenas.

É um conceito sedutor… mas que merece ser repensado.

[Parece que O Mercador de Veneza, de Shakespeare, começa justamente com a frase: "life is but a stage"... Fica bem... numa peça de teatro!]

Variação de uma frase de Bataille citada por Barthes:

“A neurose é a apreensão timorata de um futuro impossível…”

O recalcamento – lembremos – incide também – quiçá, fundamentalmente – sobre o futuro, não apenas sobre o passado.

O vendedor de peixes

Na pintura de Van Ostade, pode-se perceber a admiração das crianças e da mulher pelo trabalho do jovem que abre o peixe.

A idade do jovem trabalhador é indefinida, assim como seu rosto, tampado pela sombra de seu chapéu.

Curiosamente, o vendedor tem tamanho intermediário, como que completando a “escadinha” das crianças presentes no quadro.

Até o bebê se interessa pelo trabalho do jovem. Os outros dois irmãos observam com o mesmo meio-sorriso da mãe. A admiração parece ser o traço que os une.

No século XVII, quando o quadro foi pintado, a Europa começa a viver os efeitos da Reforma (século XVI). O trabalho em si começa a ser valorizado. O indivíduo começa a ser valorizado. O trabalhador é a união destes dois pólos valorativos: o sujeito que trabalha. Talvez, para usar a lógica protestante, para agradar a Deus, para ser salvo.

É importante observar, então, como a arte participa na formação da ideologia. Como a representação de um fato social não é gratuita, não é meramente “artística”. Há uma série de valores em jogo na criação artística que vão muito além da estética.

Uma curiosidade: observe no canto inferior esquerdo o cesto do vendedor de peixes.

Examine agora outro quadro de Van Ostade, A vendedora de Peixe [http://rijksmuseum.nl/assetimage.jsp?id=SK-A-3246], e veja um personagem, também no canto inferior à direita, de costas, com chapéu semelhante ao deste jovem vendedor, carregando um cesto também semelhante.

Seria o vendedor deste quadro (1661) filho da vendedora de peixes (1672)? Talvez, para contrapor a família que compra o peixe à família que o vende?