Blog

Até que a morte os una.

Há um modo terrível de controlar a dor proveniente do passado (da situação originária, dos momentos constitutivos do eu): produzir situações de dor. Como se o eu dissesse: não me causaram dor, eu mesmo me causo dor! E ai de quem encontrar um(a) parceiro(a) com esse regime de funcionamento. O sujeito pode muito bem estragar tudo para causar dor no outro e esta dor, por sua vez, vai lhe causar dor, desta vez, com clara autoria. O sujeito irá se culpar – uma das grandes traduções internas da dor – pelo seu fracasso, pela sua burrice, por mais um mau passo.

O mortífero une: é esse o risco. Se articular com um outro que nos cause dor é também uma forma de lidar com nossas dores originárias. É uma forma de tornar consciente e presente um tormento inconsciente e pretérito. O masoquismo é, antes de tudo, uma forma de controlar a dor, tentar fazer um circuito inteligível pra ela.

A relação amorosa pode ser, então, uma articulação para repetir uma situação de dor anterior. Repetimos causando dor no outro, fazendo com que essa dor nos cause dor e ainda entrando, repetidamente, em relações que nos cause dor. São múltiplas derivações de uma defesa: atualizar o pretérito, revivê-lo no presente é uma forma, na maior parte das vezes, malograda de elaborá-lo.

A análise talvez nos ajude a pensar no uso de nossas dores e das do outro. O quanto é tolerável, desejável (já que é parte importante de nossas defesas), causar e sentir? A questão se impõe, pois, convenhamos, parece inevitável que isso aconteça em alguma medida.

Em alguma medida… Uma advertência importante quanto a isso: não se trata de quantidade, mas de potência. Sabemos dos venenos cuja potência não se mede pela quantidade, mas pelo efeito que causam. Uma gota é suficiente para nos trucidar. Em outras palavras: o objeto pode ser amabilíssimo, mas se ele possui aquele traço, aquela gota venenosa, que provoca aquela dor específica, desestruturante, devastadora: isso basta. Basta uma gota… mesmo num amável oceano de tranquilidade. (Afinal, o que faz holding também não é quantidade, mas qualidade, potência do afeto).

Até que o mortífero os separe… até que saibamos lidar melhor com o nosso mortífero e o do outro… essa é certamente uma das tarefas precípuas do cuidado de si engendrado por uma análise. Desprezar esse achado é insistir em fazer do laço uma mortalha – como nas impressionantes imagens de Mapplethorpe. Pode até funcionar, mas cabe colocar em questão se é assim, necessariamente, que deve ser e continuar.

ROBERT MAPPLETHORPE: IMAGEM DA SÉRIE WHITE GAUZE, 1984 ROBERT MAPPLETHORPE: IMAGEM DA SÉRIE WHITE GAUZE, 1984

repeticao

Uma prova contundente da existência do inconsciente é quando, num namoro, trocamos o nome dela(e) por de um(a) outra(o). Eis a treta armada… rs… 

Pensemos no caso de João que, sem querer, coitado, troca o nome de Luísa pelo de Adelaide. Luísa, com razão, perguntará: “João, who the fuck is Adelaide?!”… E João não poderá dizer, acreditando piamente nas recentes pesquisas neurocientíficas que asseguram a morte da psicanálise… “puxa, foi só um erro de sinapse… foi mal!”.

O ponto aqui é tb poder conversar sobre esse pré-consciente do João… Nesse lugar onde depreendemos, com razão, que ele ainda mantém relações com Adelaide… Mas acho que o ponto do inconsciente é ainda outro: não é tão simples quanto uma troca (queria que Luísa fosse Adelaide!)… é muito pior…

Pensem numa hipótese para interpretar alguns lapsos… João está preso numa repetição: algo nele faz com que todos os objetos sejam o mesmo. O encontro com novos objetos é uma repetição infinita de um mesmo encontro… Essa tal Adelaide não é um nome de uma outra, mas dele mesmo… O que se convoca no lapso não é a Adelaide, mas o João que estava lá com a Adelaide e que de repente se vê no mesmo lugar agora que está com Luísa… É triste do mesmo jeito… rs… mas é diferente, entendem? É mais trágico…

A soberania do inconsciente não está nessa formosura de simplesmente trocar o nome (e o desejo por) um objeto X por um objeto Y… Quem dera! Sua soberania mortífera está em colocar de joelhos o sujeito que acredita que pode se livrar de si mesmo, ou melhor, disso que há nele, que sempre o atacará, a cada vez que se relacionar com um novo objeto… A crença de que posso mudar, ser totalmente outro, de repente, fracassa e me leva de volta ao mesmo, à repetição do que exige ser ouvido e reconhecido.

A cena do lapso pode, claro, significar o desejo de trocar o objeto de desejo… mas não devemos desconsiderar a hipótese de que o horror que João produz em Luísa é para que ele mesmo escute: “como ousas me confundir com outro? como ousas desafiar minha identidade? como ousas crer que podes te livrar assim do que te habita e que mal reconheces?”. Adelaide talvez nem esteja mais na jogada… rs… Ela é apenas esse pivô de fantasia que torna a cena possível. Em muitos casos, o foco pode não ser ela, mas algo em João que persiste qualquer que seja a relação que mantenha…

Pra terminar: claro, para se haver com isso, reconhecer o que há de inconsciente no lapso, o que insiste em repetir, João deverá ir à análise… Caso contrário, corre o risco de repetir uma vez mais e sempre essa troca de nomes indiscreta e bem desconfortável… Até que um dia ele possa entender a importância de nomear o que é um tanto sem nome e que, no entanto, o habita e domina.

frankenstein

[Sobre Frankenstein] A consciência de sua monstruosidade é diretamente proporcional a saber-se radicalmente desacolhido, não-amado. Por mais que Frankenstein tenha conhecido um ou outro momento de alegria, de amor, de reconhecimento… sua escolha final, procurar o abrigo de impossível hospitalidade, o pólo norte, é sinal de que nunca pudera vencer a grotesca ambivalência de ser a um só tempo filho desejado e amontoado de cadáveres. Imaginem o quão horripilante é Frankenstein. Suas cores fétidas e cadavéricas… É uma metáfora muito potente da coincidência entre ser e ser abjeto.

As origens alteritárias disso não podem ser esquecidas. De repente, o susto do pai: o que foi que fiz? O que desejei? Hybris do pai: desejar fazer um bebê sozinho, sem a presença de nenhum outro (não somente de uma mulher)… A hybris da onipotência é um outro nome para a solidão. Frankenstein, o filho, apenas leva adiante, de forma ainda mais aguda, o que lhe foi transmitido. E se Frankenstein tivesse tido um bebê (como a menininha da foto)? E se ele pudesse reparar seu abandono acolhendo alguém com quem se identificasse projetivamente?

Há algo em nós mesmos e no outro que é dessa ordem, da monstruosidade… Inacolhível, intratável? Questão de grau, talvez… cada um com um tipo de monstruosidade, com uma quantidade dela… alguns controlam bem a sua e toleram bem a do outro… a psicanálise coloca, me parece, essa questão: como tratar a minha monstruosidade? Como lidar com a do outro? Como traçar sua história e mudá-la de alguma maneira? Existem lugares não tão inóspitos nos quais a monstruosidade de alguém pode ser reconhecida de outra forma, não-monstruosa? (O conto de fada do patinho feio é uma versão mais feliz desse mito).

burro

Um dos fenômenos clínicos mais potentes para se mostrar como a razão é colonizada pelo pulsional é a teimosia, a burrice, a inibição intelectual pra uma tarefa (cognitiva ou afetiva). O sujeito pode ser advertido, inclusive por ele mesmo: “não vá nesse caminho!” ou “vá por ali, por ali é melhor!” e mesmo assim… persiste, burramente, no caminho que lhe conduzirá ao seu conhecido abismo, seu atoleiro mortífero… Dali ele dificilmente consegue sair: o absurdo prazer do masoquismo, o faz existir resistindo à mudança, repetindo infinitamente, disco arranhado, a mesma toada. Repetir (mesmo que seja a desgraça) é uma garantia de controle sobre como existimos. Repetir nos dá uma consistência ontológica… e se a repetição for marcada pela dor essa consistência parece ainda mais concreta, indubitável. “Sinto dor, logo existo”: é esse o melô do masô. Não é apenas porque é “gostoso apanhar” (muitas vezes esse prazer consciente da dor não está presente nos casos de masoquismo!)… é porque o prazer que dá consistência à tópica do eu é um prazer paradoxal: só sinto que existo na iminência de ser dilacerado. A repetição boçal, a estupidez afetiva, a teimosia que aponta para o fracasso: tudo isso são fenômenos clínicos importantes para demonstrar derivações do masoquismo mortífero…

 

V CONPDL

Vem aí o V Congresso Nacional de Psicanálise, Direito e Literatura!

Com o tema “Leituras interdisciplinares sobre violências de gênero: ‘o remorso de baltazar serapião’, de valter hugo mãe“, nesta edição o CONPDL se propõe a promover o diálogo entre a Psicanálise, o Direito e a Literatura no que diz respeito às violências de gênero.

A obra literária eleita para esta edição é o romance “o remorso de baltazar serapião“, de valter hugo mãe, que aborda, entre outros temas, o amor de um homem por uma mulher em meio a uma cultura patriarcal que supervaloriza os sentimentos dos homens em detrimento do reconhecimento da condição das mulheres como sujeitos de direito e de desejo. O livro representará no V CONPDL um aporte literário para se trabalhar asviolências de gênero sem pretender ser a única via para discutir essa questão sob os olhares da Psicanálise, do Direito e da Literatura.

O V Congresso Nacional de Psicanálise, Direito e Literatura acontecerá na cidade de Belo Horizonte, Minas Gerais, entre os dia 14 e 16 de setembro de 2016. O envio de trabalhos a serem apresentados no Congresso e publicados nos anais do evento deve ser feito até o dia 30 de julho de 2016 e, para terem o seu trabalho aceito, as/os autoras/es devem se inscrever para participar do evento. As inscrições devem ser feitas no site da FUNDEP com prazo e endereço de página ainda a serem divulgados aqui no site, em breve. Para mais informações, clique aqui.

A falta da falta: nome da onipotência. A falta começa quando o bebê tem q lidar com o excesso deixado pelo(a) cuidador(a). A falta concreta do abraço que dá contorno e trilhamento pra essas primeiras excitações pulsionais circularem de forma não disruptiva, não caótica… Holding que faz tópica, faz um lugar, um contorno pro corpo. A falta do holding constitutivo, na justa medida, vai dando a certeza que existimos sem o outro, que podemos estar sozinhos na presença de alguém. No entanto, a falta desmedida nos ensina de forma bastante vigorosa: os excessos internos, por serem alteritários, precisam do outro para algum apaziguamento. Os apaixonados entendem isso perfeitamente!! Não é apenas a ausência de seu objeto de amor que lhes atormenta! É a presença permanente das marcas desse objeto, dentro do sujeito, em todos os seus poros, que é doloroso ter que suportar. E que grande alívio sentimos quando somos correspondidos, quando, no abraço do objeto, preservada sua autonomia como outro sujeito, sabemos que não estamos sós.

O ódio ama a hipérbole: “todos são canalhas”; “todos corruptos”; “tudo errado”.

*

O ódio ama a metonímia: “se há um x em y, todo y terá x”; “se fez isso uma vez, sempre fará”.

*

O ódio odeia o perdão e ama o que é fixo e imutável. O ódio faz acreditar que a alma humana é imutável: em sua maldade e/ou bondade.

*

O ódio odeia o matiz, a nuance, a transitoriedade das fronteiras e das identidades.

*

O ódio ama a certeza e despreza a dúvida, o pensamento e o diálogo (interno e também com o outro externo).

*

O ódio deseja, no limite, o apagamento de toda alteridade, de toda diferença.

*

Viver com o outro é uma espécie sofisticada de esconde-esconde, no qual é uma alegria se esconder e uma desgraça não ser encontrado… Façam trabalhar essa ideia de Winnicott… O ódio é sempre invasivo. O ódio odeia o respeito pelo espaço do outro.

*

O ódio sustenta a crença de que é possível eliminar, para sempre, o mal. O ódio, aliás, é mestre em designar o que é o mal e tem a renovada esperança de distingui-lo completamente do bem.

*

Para elaborar o ódio é preciso saber generalizações são sempre abstrações perigosas, um modo fácil de operar com a angústia produzida pela multiplicidade de sentidos da realidade humana.

*

Para elaborar o ódio é preciso um exercício contra metonímias, contra a lógica cínica de reduzir a parte pelo todo. A estratégia é sempre mostrar como outras partes, outros sentidos, estão sempre presentes.

*

Para elaborar o ódio é preciso saber que o perdão não significa esquecer, mas sustentar uma barreira contra o que nos violenta e invade. Manter esse não vivo, porém sem que ele vise a destruição do ódio ao qual visa barrar. É preciso sustentar a imagem do horror, lembar-se dele para que ele não se repita.

*

Para elaborar o ódio é preciso estar disposto à conversa infinita, a sustentar o exercício da suspeita permanente sobre nossas certezas. Criar um espaço no qual seja mais autorizado descontruir para reconstruir diferentemente. O avesso do ódio é tomar a estética como modo de vida: é sempre preciso criar mais, reinventar, mantendo vivo o processo dialético entre desconstruir e reconstruir.

*

O ódio sustenta a distinção entre o eu e o não-eu. Separar-se, constituir-se como unidade requer ódio. É preciso o lento trabalho do amor para lembrar que a tópica da diferença assim instituída admite porosidades, fronteiras mais fluídas. Abrir espaço para as delícias das identificações, dos compartilhamentos, do estar junto: sem perder-se e sem se impor em demasia. Sustentar a tensão, muito mais que tentar resolvê-la…

É preciso ainda fazer trabalhar a ideia de que durante muito tempo ouvimos e compreendemos o outro antes, muito antes, de poder articular uma palavra. Muito antes ainda de poder articulá-las com sentido para nós mesmos e para o outro. E ainda muito antes de poder falar sobre o que falamos.

Bem, penso que essa passividade radical marcada pela escuta (já denunciada há muito por Plutarco) será recalcada como o é, em grande medida, as múltiplas formas da passividade da situação antropológica fundamental.

E qual é o principal retorno desse recalcado? Aí é q está: a recusa a ouvir o outro. É como se disséssemos: “vc que me obrigou a te ouvir, muito antes de meu eu estar lá… q me obrigou a te ouvir de tal forma a para sempre te ser devedor da palavra, bem, agora, não te escuto mais… me recuso. Falo como se nunca tivesse te escutado, falo como se a incompreensão fosse o principal da comunicação, falo para não ser compreendido, falo, enfim, para não ser escutado, tal como gostaria de não ter escutado nas origens, prova máxima de minha passividade excitante e angustiante”.

Esse é o canal no YouTube do IV CONPDL:

 

https://www.youtube.com/channel/UCPBHy9UfYoSv0umo_K3sFuw

 

Aqui vocês vão encontrar todas as mesas do IV CONPDL.

 

Os anais estarão sempre disponíveis em: http://www.conpdl.com.br/

Palestra proferida com Prof. Paulo César Ribeiro, na USP, sobre narcisismo, gênero e sexualidade.

 

https://www.youtube.com/watch?v=laoyarWZUfw&feature=youtu.be&t=6h16m37s