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burro

Um dos fenômenos clínicos mais potentes para se mostrar como a razão é colonizada pelo pulsional é a teimosia, a burrice, a inibição intelectual pra uma tarefa (cognitiva ou afetiva). O sujeito pode ser advertido, inclusive por ele mesmo: “não vá nesse caminho!” ou “vá por ali, por ali é melhor!” e mesmo assim… persiste, burramente, no caminho que lhe conduzirá ao seu conhecido abismo, seu atoleiro mortífero… Dali ele dificilmente consegue sair: o absurdo prazer do masoquismo, o faz existir resistindo à mudança, repetindo infinitamente, disco arranhado, a mesma toada. Repetir (mesmo que seja a desgraça) é uma garantia de controle sobre como existimos. Repetir nos dá uma consistência ontológica… e se a repetição for marcada pela dor essa consistência parece ainda mais concreta, indubitável. “Sinto dor, logo existo”: é esse o melô do masô. Não é apenas porque é “gostoso apanhar” (muitas vezes esse prazer consciente da dor não está presente nos casos de masoquismo!)… é porque o prazer que dá consistência à tópica do eu é um prazer paradoxal: só sinto que existo na iminência de ser dilacerado. A repetição boçal, a estupidez afetiva, a teimosia que aponta para o fracasso: tudo isso são fenômenos clínicos importantes para demonstrar derivações do masoquismo mortífero…

 

V CONPDL

Vem aí o V Congresso Nacional de Psicanálise, Direito e Literatura!

Com o tema “Leituras interdisciplinares sobre violências de gênero: ‘o remorso de baltazar serapião’, de valter hugo mãe“, nesta edição o CONPDL se propõe a promover o diálogo entre a Psicanálise, o Direito e a Literatura no que diz respeito às violências de gênero.

A obra literária eleita para esta edição é o romance “o remorso de baltazar serapião“, de valter hugo mãe, que aborda, entre outros temas, o amor de um homem por uma mulher em meio a uma cultura patriarcal que supervaloriza os sentimentos dos homens em detrimento do reconhecimento da condição das mulheres como sujeitos de direito e de desejo. O livro representará no V CONPDL um aporte literário para se trabalhar asviolências de gênero sem pretender ser a única via para discutir essa questão sob os olhares da Psicanálise, do Direito e da Literatura.

O V Congresso Nacional de Psicanálise, Direito e Literatura acontecerá na cidade de Belo Horizonte, Minas Gerais, entre os dia 14 e 16 de setembro de 2016. O envio de trabalhos a serem apresentados no Congresso e publicados nos anais do evento deve ser feito até o dia 30 de julho de 2016 e, para terem o seu trabalho aceito, as/os autoras/es devem se inscrever para participar do evento. As inscrições devem ser feitas no site da FUNDEP com prazo e endereço de página ainda a serem divulgados aqui no site, em breve. Para mais informações, clique aqui.

A falta da falta: nome da onipotência. A falta começa quando o bebê tem q lidar com o excesso deixado pelo(a) cuidador(a). A falta concreta do abraço que dá contorno e trilhamento pra essas primeiras excitações pulsionais circularem de forma não disruptiva, não caótica… Holding que faz tópica, faz um lugar, um contorno pro corpo. A falta do holding constitutivo, na justa medida, vai dando a certeza que existimos sem o outro, que podemos estar sozinhos na presença de alguém. No entanto, a falta desmedida nos ensina de forma bastante vigorosa: os excessos internos, por serem alteritários, precisam do outro para algum apaziguamento. Os apaixonados entendem isso perfeitamente!! Não é apenas a ausência de seu objeto de amor que lhes atormenta! É a presença permanente das marcas desse objeto, dentro do sujeito, em todos os seus poros, que é doloroso ter que suportar. E que grande alívio sentimos quando somos correspondidos, quando, no abraço do objeto, preservada sua autonomia como outro sujeito, sabemos que não estamos sós.

O ódio ama a hipérbole: “todos são canalhas”; “todos corruptos”; “tudo errado”.

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O ódio ama a metonímia: “se há um x em y, todo y terá x”; “se fez isso uma vez, sempre fará”.

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O ódio odeia o perdão e ama o que é fixo e imutável. O ódio faz acreditar que a alma humana é imutável: em sua maldade e/ou bondade.

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O ódio odeia o matiz, a nuance, a transitoriedade das fronteiras e das identidades.

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O ódio ama a certeza e despreza a dúvida, o pensamento e o diálogo (interno e também com o outro externo).

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O ódio deseja, no limite, o apagamento de toda alteridade, de toda diferença.

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Viver com o outro é uma espécie sofisticada de esconde-esconde, no qual é uma alegria se esconder e uma desgraça não ser encontrado… Façam trabalhar essa ideia de Winnicott… O ódio é sempre invasivo. O ódio odeia o respeito pelo espaço do outro.

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O ódio sustenta a crença de que é possível eliminar, para sempre, o mal. O ódio, aliás, é mestre em designar o que é o mal e tem a renovada esperança de distingui-lo completamente do bem.

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Para elaborar o ódio é preciso saber generalizações são sempre abstrações perigosas, um modo fácil de operar com a angústia produzida pela multiplicidade de sentidos da realidade humana.

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Para elaborar o ódio é preciso um exercício contra metonímias, contra a lógica cínica de reduzir a parte pelo todo. A estratégia é sempre mostrar como outras partes, outros sentidos, estão sempre presentes.

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Para elaborar o ódio é preciso saber que o perdão não significa esquecer, mas sustentar uma barreira contra o que nos violenta e invade. Manter esse não vivo, porém sem que ele vise a destruição do ódio ao qual visa barrar. É preciso sustentar a imagem do horror, lembar-se dele para que ele não se repita.

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Para elaborar o ódio é preciso estar disposto à conversa infinita, a sustentar o exercício da suspeita permanente sobre nossas certezas. Criar um espaço no qual seja mais autorizado descontruir para reconstruir diferentemente. O avesso do ódio é tomar a estética como modo de vida: é sempre preciso criar mais, reinventar, mantendo vivo o processo dialético entre desconstruir e reconstruir.

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O ódio sustenta a distinção entre o eu e o não-eu. Separar-se, constituir-se como unidade requer ódio. É preciso o lento trabalho do amor para lembrar que a tópica da diferença assim instituída admite porosidades, fronteiras mais fluídas. Abrir espaço para as delícias das identificações, dos compartilhamentos, do estar junto: sem perder-se e sem se impor em demasia. Sustentar a tensão, muito mais que tentar resolvê-la…

É preciso ainda fazer trabalhar a ideia de que durante muito tempo ouvimos e compreendemos o outro antes, muito antes, de poder articular uma palavra. Muito antes ainda de poder articulá-las com sentido para nós mesmos e para o outro. E ainda muito antes de poder falar sobre o que falamos.

Bem, penso que essa passividade radical marcada pela escuta (já denunciada há muito por Plutarco) será recalcada como o é, em grande medida, as múltiplas formas da passividade da situação antropológica fundamental.

E qual é o principal retorno desse recalcado? Aí é q está: a recusa a ouvir o outro. É como se disséssemos: “vc que me obrigou a te ouvir, muito antes de meu eu estar lá… q me obrigou a te ouvir de tal forma a para sempre te ser devedor da palavra, bem, agora, não te escuto mais… me recuso. Falo como se nunca tivesse te escutado, falo como se a incompreensão fosse o principal da comunicação, falo para não ser compreendido, falo, enfim, para não ser escutado, tal como gostaria de não ter escutado nas origens, prova máxima de minha passividade excitante e angustiante”.

Esse é o canal no YouTube do IV CONPDL:

 

https://www.youtube.com/channel/UCPBHy9UfYoSv0umo_K3sFuw

 

Aqui vocês vão encontrar todas as mesas do IV CONPDL.

 

Os anais estarão sempre disponíveis em: http://www.conpdl.com.br/

Palestra proferida com Prof. Paulo César Ribeiro, na USP, sobre narcisismo, gênero e sexualidade.

 

https://www.youtube.com/watch?v=laoyarWZUfw&feature=youtu.be&t=6h16m37s

Plutão

Um coração em Plutão.
Um rabo de baleia (ou sereia?).
Um pato, um cão.

Cada um vê o que quer e o que consegue.
Qualquer pedra se faz enigma.
O Rorschach imita a vida que imita a arte.

Movidos pela vã esperança de sermos,
muito longe, bem diferentes,
afinal, poderemos inventar/descobrir/destruir outros mundos?

Entrevista para a TV Minas sobre o livro “Os ciúmes dos homens”.

Parte 1

Parte 2

Difícil comentar sobre esse adesivo da Presidenta nas bombas de gasolina. O que os autores querem é certamente nosso ódio. É o tipo de vilania que não deseja o diálogo. A baixeza que quer impedir o pensamento. É por isso que quero conversar sobre isso. Certamente servirá de exemplo de como o machismo é poderoso e não hesita em lançar suas garras onde quer que ele possa reduzir a mulher a um corpo penetrável, abusável, humilhado sistematicamente.

Não me lembro da popularidade de FHC no segundo mandato. Lembro que foi baixa. Lembro que foi um governo muito, muito ruim: para os mais pobres, para a Universidade, p.ex. Nunca vi, mesmo nas áreas mais duramente atacadas por sua política neoliberal mais cruel, algo desse nível difamatório. “Boca de suvaco”, acho que era essa a ofensa do Macaco Simão. Se é comum que homens se ofendam também feminilizando o corpo do outro ou sua imagem, no caso do Presidente FHC, não me lembro dessa ofensa sexual. Idem para o Presidente Lula. Muito ataque pessoal, certamente, mas não me lembro de um ataque sexual. Também para o Senador Aécio, que foi alvo de muitos ataques na campanha: o mais próximo desse ataque foi acusá-lo de ter batido certa vez em uma mulher. Nada, de novo, que atacasse seu corpo, sua dignidade sexual e de gênero.

Enfim, acho que o espírito insepulto da ditadura finalmente aparece de forma pornográfica. Impossível não lembrar das centenas de mulheres abusadas nos porões da ditadura. Choques na vagina, no ânus. Estupros coletivos, “corretivos”. E não encontravam (e ainda hoje não encontram) ambiente seguro, no laço social. Pensem nisso: medo constante de ser estuprada, de ser atacada. É nesse contexto surreal que se faz um chiste, uma piadinha de penetrar uma mulher com uma bomba de gasolina.

Freud escreve um livro sobre os chistes para dizer que o humor servirá de disfarce, atalho, para fantasias inconscientes. Esse “mas é só uma brincadeira” dos fascistas do humor é o que há de mais sério no que diz respeito à pulsão sexual de morte. Querem fazer rir para disfarçar o indisfarçável desejo de humilhar.

A mídia que divulga isso sem uma contundente crítica é absolutamente conivente com esse sadismo. No portal G1, onde vi as imagens, nenhum comentário, zero de defesa à mulher Dilma. É lamentável que o jornalismo se preste a isso. Divulgar isso sem uma nota de repúdio absoluto é ser conivente com a violência mais covarde que se pode fazer contra a cidadania das mulheres, contra as mulheres.

É um grande erro daqueles que criticam o governo atual silenciar-se diante da crítica a um só tempo hiperbólica e reducionista que se faz ao PT. Esse exemplo é apenas um dentre os muitos filhotes de serpente que já nasceram nas ruas e no Congresso. A crítica que se fecha ao diálogo abre espaço apenas para o fascismo. É um grande erro somar-se à voz de quem vê graça em estupro. Desse tipo de crítica, acreditem, não nascerá nenhuma defesa das mulheres, dos oprimidos, dos sistematicamente “fodidos”. Na verdade, juntar-se aos batedores de panela, aos que acreditam nessa farsa grotesca de reduzir o PT ao que há de pior, dará força apenas àqueles que sempre fuderam os mais pobres.

Longe de mim, como percebem, recusar o que há de sexual na política. É preciso, sempre, denunciar sua presença. Sua onipresença. O desejo de trancafiar crianças, depois de maltratá-las por anos. O desejo de recusar a existência de outros amores que não os heteronormativos. O desejo de educar e/ou punir mulheres estuprando-as… São desejos que andam de mãos dadas. Não se enganem: o inconsciente, o que há de mais mortífero em nós, não descansa jamais. E ele não perdoará a favorável contingência de um ambiente fascista para realizar-se naquilo que ele tem de mais radical, de mais mortífero.