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Whiplash

Whiplash é um filme interessante para pensarmos como nossas fantasias sadomasoquistas podem estar presentes na relação pedagógica.

A relação entre Andrew Neiman (o aluno) e Terrence Fletcher (o professor) é claramente sadomasoquista.

Algumas notas:

1) tais fantasias estão presentes inclusive no mais sublime, a música. É um erro supor q a arte é uma esfera dessexualizada da vida… Estórias como essa mostram sempre o contrário: o sexual perpassa, coloniza, invade, o que deveria ser, supostamente, uma área livre do pulsional…

2) ideais de perfeição estão à serviço do sadomasoquismo: Andrew quer ser o melhor, Fletcher quer explorar esse ideal… a disciplina obsessiva do músico é alimentada por dois senhores: o ideal de ser o melhor; a servidão ao ideal.

Andrew e Fletcher

3) o filme sugere uma interpretação edípica clássica. Andrew foi abandonado, ainda bebê, pela mãe. Seu pai parece ser extremamente cuidadoso e presente. Eles assistem filmes juntos e comem pipoca (Andrew não deixa de colocar passas na pipoca que divide com o pai, mesmo não gostando delas… ele “come as da beirada”…).

3.1) o pai de Andrew na cena da vingança de Fletcher é acolhedor e não conflitivo. Ao ver q o filho “falhou”, ele o acolhe e sugere ir pra casa. É justamente nessa cena q Andrew volta para o palco e enfrenta Fletcher.

3.2) Fletcher ocuparia o lugar de uma mãe a quem se quer, sob qualquer preço, agradar? Ele responderia de alguma forma às possíveis fantasias de Andrew sobre as razões do abandono da mãe? Conquistar Fletcher significa conquistar o amor da mãe que o abandonou?

4) Fletcher mente quanto ao suicídio de um dos seus alunos. Ele sabe perfeitamente o que significa exigir de um aluno ir “além dos seus limites”. Essa hybris que ele quer impor a todos é trágica e cínica: sadicamente ele vive uma passividade projetada e imposta ao outro. Fantasia justificada, de forma legítima, pelo sublime ato heroico, pelo bem da arte… Ser o melhor músico justifica todo abuso.

5) Existe uma via facilitadora na nossa cultura para as fantasias sadomasoquistas. Essa via são os muitos lugares heroicos que criamos. Numa conversa de almoço, Andrew discute com alguém que deseja ser um bom jogador de futebol. A discussão passa não apenas pela comparação de quem é o maior, melhor etc, mas também pelo ponto crucial dos herois da cultura: quem será lembrado após a morte? Mesmo após ter vivido mal, acabado drogado etc… Mesmo assim, quem será lembrado? Mais uma vez, parece que o par sadomasoquismo é indissociável: o sadismo imposto pelo ideal (o grande músico) sobrevive em grande medida às custas do masoquismo da vida real (vida solitária, de dor e sangue, de impossibilidade amorosa etc).

5.1) regras, objetivos, disciplina, motivação: a gente tá dentro do campo do ideal do eu, do q queremos ser, do q acreditamos q devemos ser… O ideal do eu é muito ambivalente: ora ele age como motivador, ora como carrasco… Não ser o q se deseja ser é, a um só tempo, aditivo e veneno… Nesse sentido, acho q disciplina é quando a gente entende q o ideal não precisa ser atingido de uma só vez… sacar melhor q o princípio da realidade é o princípio do prazer modificado… rs… ou seja: q a gente vai conquistando aos poucos… 

5.2) nossos modelos morais geralmente são pessoas motivadas, isto é, q tinham um motivo, uma razão para existir e fazer coisas. Saber do seu próprio desejo, ou pelo menos, acreditar q sabemos o q desejamos é uma conquista psíquica de grande alívio… motivar-se é dar uma razão para o q se quer fazer… quanto menos razões discrepantes e impossíveis, melhor! Imagino q na constituição do eu, inevitavelmente, há elementos enganosos, ligados aos desejos dos outros q tomamos como nossos… os imperativos da cultura, p.ex., são elementos desse tipo… daí, a importância de terapêuticas q nos ajudem a discernir melhor o q é meu e o q é do outro… quais são as minhas motivações e quais são aquelas q me foram impostas… 

5.3) O próprio processo de formação do eu é um tipo de disciplina, um tipo de docilização… nosso ideal cultural hoje casa-se perfeitamente aqui: self made man, fitness, entrepreneur… isso atende fácil às nossas fantasias sadomasoquistas… ora nos martirizamos, ora somos martirizados… Há q se estar atendo aos prazeres inconscientes q esses modelos propõem… seja na medida q os atendemos, seja qdo nos recusamos, à la Bartleby, a nos submeter a eles. Talvez, devamos abrir também outros espaços para a preguiça, a desordem, aos aspectos indisciplinados do desejo… A pergunta é: quando? com quem? como? Como abrir espaço para esse pulsional mais livre, sem perder as fundamentais conquistas da disciplina?

6) No diálogo com Nicole, a namorada, Andrew antecipa, de forma obsessiva, o fracasso do encontro amoroso: não terei tempo, vc irá exigir demais de mim, vc não irá compreender, só vou pensar em música e bateria, mesmo quando estiver com vc… etc. etc… É como se a relação com a música exigisse dele tudo, toda energia psíquica disponível, todo investimento amoroso. Como se a relação amorosa constituísse risco ao pacto simbiótico que ele deseja estabelecer com a música.

[Já falei um pouco da relação entre psicanálise e música nesse artigo: http://www.fabiobelo.com.br/wp-content/textos/musica.pdf]

Da obra de Fabíola Tasca

Da obra de Fabíola Tasca

A intervenção artística de Fabíola Tasca, Primeira Pessoa, traz uma bela metáfora para pensarmos nas relações amorosas. Um vídeo sobre a obra pode ser visto aqui: http://vimeo.com/19717261

O outro (tu, ela, ele, vós, nós, vós…), não raro, nos faz a vez de boia.

A começar pelo início do início. Palavra-boia pra navegar no social.

Depois e sempre: reconhecimento-boia pra navegar no amor.

O eu também é uma espécie de boia, por certo… É nele que navegamos… Mas não é por acaso que os gregos alertaram para o amor excessivo por si mesmo como um tipo de afogamento… Freud vai recuperar o mito de Narciso para nos alertar sobre isso: o egoísmo é um investimento libidinal nesse objeto paradoxal que é o eu. A um só tempo objeto e também eu, boia e navegante.

O eu é uma boia que funciona apenas em seu devir outro para outrem. Não existe em si mesmo, para si mesmo, à revelia do outro. Só existe plenamente a partir do outro, com o outro.

O perigo é desejar ser boia eterna para alguém. Ou desejar que alguém ou algo ocupe também essa função… Há um modo paradoxal de não viver procurando a salvação (essa espécie de estar apenas vivo, sem risco algum…).

No mar aberto da vida, há tantas boias que passam por nós! Umas pequenas demais, murchas demais, grandes demais, algumas cheias demais, sempre prestes a estourar e a nós deixar em e com pedaços…

E como é bom encontrar para o eu o bom abraço de uma boia. A sábia boia que sabe aproveitar as forças da maré e deslizar suave conosco para outras praias, nunca conhecidas de antemão… (Como não pensar na paixão como uma espécie de surf?)

Amar é o jogo entre nadar e voltar ao descanso da boia. Saber que há algum repouso em alto mar, mas também estar ciente de que não é possível colar-se à boia. Que é preciso ir e voltar, estar por perto, saber de outras boias, talvez, e, por isso mesmo, reiterar a escolha daquela que nos faz flutuar melhor, que nos convida melhor a não afogar em si mesmo ou na busca desenfreada por uma boia perfeita…

Sim, é também o eu que enche a boia-outro de ar. O eu não ocupa a posição apenas de ser salvo… É preciso cuidar da boia que nos fornece apoio. Há que se reconhecer o direito de toda boia murchar sem o sopro quente e vital do eu que a anima a continuar flutuando. Para ser salvo, é preciso também esse esforço, esse trabalho de fôlego, com e para o outro…

Primeira pessoa: a que somos e a que nos reconhece como tal. Boia e sopro um do outro. No mar (infinitos jogos-de-amar) de ambos.

 

Há um passo fundamental com relação ao masoquismo: entender que, diante de objetos tóxicos, o melhor nem sempre é buscar antídotos ou algum tipo de imunidade. O ideal, tenho acreditado, é simplesmente aprender a evitar entrar em contato e a cortar o contato com essas vias de intoxicação. A questão nem sempre é aprender a conviver com o objeto sádico-venenoso. Aliás, quase nunca será…

É importante pensar nas situações sociais onde isso se torna um tanto quanto inevitáveis, como em algumas relações de trabalho ou familiares. A questão é mesmo aprender a se afastar e manter afastado o objeto tóxico… Renunciar à narcose do desejo. Cuidado de si em contraposição a esse tipo de necropsia de si mesmo pós envenenamento…

Nota importante: muitas dessas pessoas tóxicas tentarão uma última cartada, qual seja vão tentar te deixar culpado, como se você as estivesse abandonando… A culpa, sabemos, tem uma toxidade bastante elevada… 

Cartaz

Segue a programação do curso de atualização em Psicologia Jurídica, coordenado por mim, Paula Dias e Liliane Camargos:

http://fabiobelo.com.br/wp-content/disciplinas/progpsijur.pdf

As inscrições podem ser feitas aqui:

http://www.cursoseeventos.ufmg.br/CAE/DetalharCae.aspx?CAE=6443

 

Acho incrível que depois da Ditadura ainda consigamos confundir liberdade de expressão com discursos de ódio. Mais incrível ainda que tal confusão seja encampada por Schwartsman.

Ao básico: posso dizer o que quiser, desde que não fira o direito civil e não cercee o direito de livre expressão de outros grupos. Isso é liberdade de expressão.

Para ficar no exemplo do infame candidato: ele pode sim defender o casamento hetero e a família hetero, pode falar q essa forma de amor é mais pura e é modelo moral a ser seguido. Pode até falar asneiras cientificistas. Problema nenhum.

(Se ele tentar publicar isso em revistas de sociologia, antropologia ou psicologia, ele certamente não vai conseguir… mas como é debate político público, como é discurso religioso, ele pode falar… no discurso acadêmico fica restrita a liberdade de expressão pelas regras da ciência e do campo discursivo: há q se provar o q se diz, há q se argumentar obedecendo princípios básicos etc… o q não impede de forma alguma o discurso das ciências humanas ser livre, propor novas hipóteses etc.)

O problema começa quando ele fala que “temos que enfrentar essa minoria”. Isso é crime gravíssimo. Ele está incitando o ódio, não está defendendo um ponto de vista. São coisas completamente diferentes. Ele claramente deseja cercear o direito de pessoas do mesmo sexo se beijarem ou se abraçarem em público, p.ex.

Insisto: ele pode até falar que sente nojinho ou que não concorda com essa forma de amor. Direito dele. Acho tosco, mas é direito dele. Outra coisa é impor uma forma de vida aos outros ou proibir formas de conduzir a vida que em nada ferem a manutenção laço social laico e democrático.

Um argumento q ele usa no debate e é inacreditavelmente presente nessas discussões é a iminente e drástica redução populacional que advirá se legitimarmos o amor gay. O candidato disse: temos 200 milhões e em breve seremos 100 milhões! rs… Isso é tão ridículo, mas é tão revelador quanto ao que realmente está em questão aqui… Que tipo de feroz “contágio” gay será esse? O desejo homossexual é assim tão desejável e perigoso a ponto de todos aderirem a ele? E quem disse que homossexuais não podem ter filhos? (Sem reduzir de novo o fato de ter filhos ao fato de gerar bebês).

Pessoal, nós já vivemos tempos sombrios. Tempos nos quais tínhamos apenas pichação e panfletos anônimos para dizer o que pensávamos. Tempos nos quais dizer o que se pensa poderia nos condenar à morte e à tortura. Isso é não ter liberdade de expressão.

Temos que ter muito cuidado e carinho com esse direito civil fundamental. A democracia torna a parrésia (o dizer verdadeiro, o dizer o q se pensa, e agir tal como se diz) um ato necessariamente solidário. Se eu digo o que penso tenho q necessariamente estar atento ao tipo de efeito que causo no outro. Se o q digo visa limitar direitos civis de terceiros, não posso continuar a dizer. Tenho sim q ser silenciado por esse pacto que tudo me permite dizer, desde que não coloque em risco esse mesmo pacto. É exatamente por essa razão que não se pode ter um partido nazista e nem fundamentalista numa democracia.

Esse é o nosso paradoxo: a gente pode pensar tudo, desde que o que pensemos não coloque em risco as condições políticas de se pensar.

Nesse sentido, defendo sim a impugnação da candidatura desse candidato. O TSE dará um sinal bem claro do nosso compromisso com a democracia e também com a liberdade de expressão.

http://www1.folha.uol.com.br/poder/2014/10/1525170-analise-punir-fidelix-seria-um-desservico-ao-processo-eleitoral.shtml

Loteria

Há melhor metáfora para se compreender a resistência à realização do desejo que o esquecimento de conferir o jogo de loteria? Sabemos de muitos casos nos quais jogos premiados nunca são requeridos. Esse esquecimento me parece revelador.

Penso no prazer que temos nos sonhos, devaneios e fantasias provenientes da suposta premiação. Boa parte do prazer do jogo, acredito, reside na criação de vidas possíveis, realizações de desejos até então impossíveis. Apostar é viver no futuro do pretérito. Viver a vida sonhando viver outra vida é um romance neurótico. A insatisfação com o presente é uma das faces manifestas do prazer de vidas impossíveis vividas na fantasia. O masoquismo proveniente desse confronto – entre a vida real e as fantasias – é a razão pela qual esquece-se de conferir o prêmio.

O prazer inconsciente de nunca se ter o que se deseja de fato encontra suas raízes na própria constituição subjetiva. Podemos ler o recalcamento originário, condição para a vida psíquica neurótica, como um tipo de renúncia radical à realização do desejo. Ou melhor, a sempre realizá-lo pela mediação da fantasia… nunca diretamente. Devemos ao recalcamento originário o prêmio paradoxal de ter nos livrado dos desejos infantis radicalmente mortíferos. A realização desses desejos implicaria na própria morte do eu (constituído, aliás, para fazer frente, resistir, a esses desejos…). Ao mesmo tempo, deixar de realizá-los é razão de permanente infortúnio, fonte dessas fantasias de outras vidas possíveis. A utopia freudiana do desejo, traduzida nessa metáfora da loteria, é reverter todo prêmio ganho em um novo jogo. (Aliás, Freud, no artigo sobre os princípios do funcionamento psíquico, fala sobre essa mítica utopia ensejada pela alucinação da satisfação proveniente das primeiras mamadas… Examino essa ideia no texto “críticas ao bebê solipsista de Freud”, presente nesse livro.)

Tarefa analítica: entender/elaborar o prazer paradoxal de que nem todo desejo deve ser realizado e que muitos outros podem. Ou ainda: autorizar-se ao prazer/excitação (Lust) com aquilo que se quer; resistir aos aspectos mais mortíferos do desejo. Para voltar à metáfora: um bom percurso analítico mostraria que é uma delícia fantasiar e dar lugar a desejos que não podemos / devemos realizar, ao mesmo tempo em que nos convidaria a ir buscar o prêmio para só então elaborar o devir realidade de algumas de nossas fantasias. Entender que amar não é uma aposta… Entender que a realidade é sempre um tanto inventada: como aquelas sombras que produzimos… Bom, mas essa já é uma outra metáfora.

coelho

Todo-Abismo-é-navegável-a-barquinhos-de-papel

 

Tive a honra de ser convidado para ser o paraninfo de uma turma da Psicologia / UFMG.

Eis o discurso que fiz em homenagem a esse momento mais que especial: http://www.fabiobelo.com.br/wp-content/textos/discursoparaninfo.pdf

Obrigado mais uma vez, pessoal!

 

Convido a todos para o Encontro Nacional de Pesquisa em Psicanálise: os ciúmes dos homens.

Congresso

Programação

 

Silêncio

Silêncio

É que eu não gosto de barulho, sabe? Pra mim, o assalto é rápido. Pano, martelo, tuf. O vidro até faz um barulhinho bom, mas não incomoda. Chato seria acordar as pessoas com a martelada na janela do carro. Assusta, né? Não pode, faz mal. Eu sempre deixo minha marca no chão. É minha assinatura. Um pano de chão dobrado. Cuidadosamente dobrado. Embolado ia perder o charme. A obra de arte se completa se o assaltado pega o pano e leva pra casa. Potlatch. Adorei aquela aula do professor maluco de sociologia na faculdade de direito. Ele falou do potlatch. Desde então não assalto sem deixar algo em troca. Só não tem aquela maluquice de botar fogo em tudo. Potlatch das dádivas e trocas. É até bonito. Até terminar a faculdade demora e preciso ainda vender essas coisas que os burguesinhos deixam no carro pra gente. No fundo, eles querem distribuir renda. Eu só tô ajudando. Tem uns que são trapaceiros mesmo. Ai, ai… Escondem debaixo do banco até notebook. Vai ser burro assim… Bom, mas, trapaceiro tem que ter do próprio veneno, não é não? Como chamava mesmo o cara italiano desse conto? Esqueci. Trapaceiros trapaceados. Acho que era isso. Putz, genial. Só perde mesmo pro Rubem Fonseca. Se bem que eu acho o Cobrador barulhento demais. Melhor ir na manha, só no silêncio. Daqui a pouco tô com o canudo na mão. Melhor que arma. Vou defender depois só quem não fizer barulho. Gente barulhenta tem que mofar na cadeia mesmo. Incomoda as pessoas, né?

Um egoísmo forte constitui uma proteção contra o adoecer, mas, num último recurso, devemos começar a amar a fim de não adoecermos, e estamos destinados a cair doentes se, em conseqüência da frustração, formos incapazes de amar. Isso acompanha mais ou menos os versos do quadro que Heine traça sobre a psicogênese da Criação:

Krankheit ist wohl der letzte Grund / Des ganzen Schöpferdrangs gewesen;  / Erschaffend konnte ich genesen, / Erschaffend wurde ich gesund. [A doença foi sem dúvida a causa final de todo anseio de criação. Criando, pude recuperar-me; criando, tornei-me saudável.]

Reconhecemos nosso aparelho mental como sendo, acima de tudo, um dispositivo destinado a dominar as excitações que de outra forma seriam sentidas como aflitivas ou teriam efeitos patogênicos. Sua elaboração na mente auxilia de forma marcante um escoamento das excitações que são incapazes de descarga direta para fora, ou para as quais tal descarga é, no momento, indesejável. (Freud, ESB, XIV, 101-2; )

Gostaria de usar essa passagem de “Para introduzir o narcisismo” para desenvolver, brevemente, uma ideia: amar não é uma aposta em contraposição ao amar contra o adoecer.

O que é uma aposta? Diz o Houaiss: “ajuste entre pessoas com opiniões diferentes acerca de um fato, que será averiguado posteriormente, devendo aquela que perder ou errar em seu julgamento pagar à outra o valor anteriormente estipulado”. Trata-se, como vemos, de um tipo de disputa, de luta entre dois. Não apenas isso: uma disputa que envolve um tipo de dobra ao derrotado: além da derrota, deve-se pagar algo pelo erro. A palavra “ajuste” na definição não é muito honesta: o fim da aposta não é bem um ajuste, mas uma imposição programada. Travestida de justiça / ajuste, a aposta legitima a imposição do que foi previamente estipulado. A honra dos apostadores, isto é, não colocar em discussão, após finda a aposta, suas consequências, é também um modo de impedir, legitimamente, que se reconverse sobre as condições da aposta.

Apostar tem um sentido muito positivo de se empenhar, acreditar, ter fé, para além do sentido básico de arriscar. O prazer da aposta passa pela confirmação de nossas crenças onipotentes sobre o mundo e o outro. De repente, a certeza de que as cartas virão, o cavalo correrá mais, o dado irá parar em tal número, a sorte virá. Apostadores, no entanto, não param de apostar mesmo depois que ganham. Seria pouco dizer que a motivação é apenas essa: vencer. Temos que pressupor também que a aposta coloca sobre a mesa a imagem arruinada de nós mesmos. Apostar é sempre correr o risco de perder. E essa perda pode muito bem ser atribuída ao azar, ao destino, a um outro. O arruinado pela aposta sempre terá o álibi do acaso para desresponsabilizar-se quanto ao seu desejo de tudo perder. É como se ele precisasse dessa cena de desapossamento, impotência radical de ver o dado em outra posição, o cavalo ficando para trás, as cartas que nunca chegam.

A aposta brinca com essa moeda cujas faces são a onipotência e a impotência. Sabemos como esses pares de opostos funcionam bem em nossa vida psíquica. O que significa então propor que uma relação amorosa é uma aposta? Que estamos sempre entre a onipotência e a impotência diante do outro. É justamente isso o que a psicanálise deseja evitar.

Voltemos à citação de Freud. O egoísmo é uma proteção contra o adoecer e adoecer significa sentir excitações “como aflitivas”, incapazes de serem dominadas. Em contraposição a isso, é necessário trabalho psíquico. Observem: o aparelho psíquico é um dispositivo que faz exatamente esse trabalho de “ligação” / “escoamento” dessas excitações. Jean Laplanche insiste nesse aspecto da pulsão sexual de vida. A tarefa dela é ligar a pulsão sexual de morte, pura “aflição”, puro desligamento… Em grande medida, podemos chamar de amor, trabalho de amor, essa tarefa de nos deixar menos aflitos. Entendam: a onipotência e o desamparo como faces da mesma moeda aflitiva…

E o que isso tudo tem a ver com a citação de Heine? O que isso tem a ver com criar?

Quero desenvolver a tese de que criar é o avesso de apostar. Criar, especialmente se entendido a partir de Winnicott, é dar lugar em si mesmo àquilo que é encontrado no mundo. Para Winnicott, o seio é criado na medida em que ele chega no momento em que o bebê o deseja. Nem muito antes, nem muito depois. E por chegar no momento suficientemente oportuno, o bebê é capaz de criar aquilo que encontra. Quanto mais desencontrada for a relação entre o objeto e o desejo, mais o bebê entrará na situação de aposta. Seja na vertente onipotente, seja na vertente do desamparo. Quanto mais no tempo for a relação, mais capaz será o bebê de amar o seio, isto é, dar conta de suas ausências, de seu modo de existir como independente de si mesmo…

Amar o objeto é ser capaz de tolerar e trabalhar sobre as diferenças entre o seio que inventei-encontrei e o seio que realmente existe. O seio que existe e estará sempre além e aquém daquilo que sou capaz de inventar-encontrar engloba a autonomia radical do outro e fundamentalmente seu inconsciente (algo que o próprio outro não controla). Quando amo não aposto na relação: convido ao trabalho e à criação conjunta de uma área intermediária entre a autonomia radical do outro e o que consigo criar-encontrar dele e nele. Essa área intermediária, transicional, é um espaço potencial. Isso quer dizer que algo da contingência está preservado pelo trabalho de amor. Esse trabalho, na medida em que é criativo, abre-se também ao que ainda não existe. Ao contrário da aposta, no entanto, a criatividade potencial não busca o excesso da onipotência e nem o caos do desamparo. Essa criatividade conjunta, amorosa, busca manter firme os contornos do eu e do outro para que ambos possam fruir, cada um à sua maneira e em seu tempo, desse terceiro espaço que apenas o encontro entre ambos faz aparecer. A aposta é o lugar do perder ou ganhar em detrimento do outro. O encontro criativo e amoroso é o lugar de, simultaneamente, deixar-se inventar pelo outro, inventar-se e inventar o outro.