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Antígona e Polinices

Antígona e Polinices

Imaginem vocês: a polícia entra no prédio onde moramos e mata nossos filhos sob alegação que ali, de fato, havia um narcotraficante escondido… Que isso seja um fato… vocês aceitariam esse argumento? Vocês acham que tem justificativa esse tipo de ação como política pública regular? Isso faz algum sentido num Estado minimamente decente? Nós aceitaríamos isso se fosse num prédio de classe média? Por que aceitamos calados quando é na favela? O argumento-Poliníces não vale. Não pode valer.

Pode dar facada no sujeito no ponto de ônibus? Pode, uai. Ele se recusou a dar o celular.
Pode dar tiro na cabeça da criança da favela? Pode, uai. Ele era suspeito.
Pode bombardear um hospital, uma escola? Pode, uai. Os terroristas atiraram lá de dentro.
Pode prender as pessoas sem julgamento numa ilha? Pode, uai. Eles eram suspeitos muito suspeitos.

A destituição do direito à vida do outro em razão de uma ação qualquer do outro. Esse é o efeito radical do argumento-Polinices. Seja feito pelo assaltante, o traficante, o policial, o governador, o pai de família, o vizinho, o colega do trânsito, o torcedor do time adversário… qualquer um… qualquer um pode se achar Creonte e esvaziar toda responsabilidade sobre sua violência em nome de uma suposta má ação do outro (vestir a camisa errada, dirigir mal, ouvir música alta, fazer bagunça demais, ser traficante, ser assaltante, não entregar o celular na hora certa).

O argumento-Polinices: mas ele estava armado, era ladrão, agiu contra o Estado, por isso mesmo, ficam cancelados todos os seus direitos civis, toda possibilidade de defesa, toda humanidade.

O argumento-Polinices é o máximo da lógica cínica. O máximo. É ainda mais radical que o “Arbeit Macht Frei”, no portão de Auschwitz. E o é por ser dele uma dobra ideológica. Dobra que, a um só tempo, oculta e reforça os efeitos fascistas de uma ação que se pretende justa. O argumento-Polinices se dirige a todos, indistintamente. Não escolhe apenas um povo, uma religião. É qualquer um, por qualquer motivo. Do celular ao ataque por avião. É o mesmo argumento: você atacou, você não obedeceu, estão suspensos seus direitos civis. Mais que suspensos: há um cancelamento, uma destituição, uma dissolução, pois não há retorno, não há volta atrás, zero a posteriori, nenhuma condição de justiça, nem de memória, nem de reparação.

 

O trabalho torna livre

O trabalho torna livre

 

(Pensem nesse verdadeiro emblema do cinismo: a expressão “bala perdida”. É crível que uma bala que vise assassinar alguém tenha endereço certo? É para fazer crer em tal errância ou para instituir como natural um outro destino dessa bala? A cabeça do menino negro? É esse o destino natural, inevitável? E, por azar, mera contingência, desgarrada, a bala perdida mata alguém longe do campo de extermínio, seu habitat natural… Não é brilhante esse cinismo?)

“Estamos há mais de dez anos na faixa de 50 mil homicídios por ano”: a maioria absoluta desse “número” é de jovens, mais: jovens que são negros e pobres. Quais atos de memória e luta e luto? Nem esse direito, o direito de relembrar o horror, de tentar fazer o luto desse oxímoro, a barbárie civilizada, nem esse direito lhe concedemos. Os números constantes e abundantes não podem deixar dúvidas: é uma política pública. Não é apenas descaso ou incompetência. É uma ação deliberada. Junção da máquina pública, altamente civilizada, com os tentáculos do sadismo desobjetalizante mais radical: exterminar os desobedientes.

(50 mil por ano, há mais de dez anos… quantos precisaremos matar para tornar cabível uma comparação com regimes totalitários hiper visíveis na II Grande Guerra e depois nos regimes totalitários do século XX? Precisa passar de 5 milhões? Quantos? Se o número se mantém, se as mortes acontecem de fato, todos os dias, se elas se distribuem com regularidade entre populações… o que mais precisamos para designar tal estado de coisas como uma política pública – não apenas de Estado – de extermínio? De autorização para o extermínio? De legitimação do extermínio como resolução de conflitos morais e políticos?)

Efeito mais nefasto da prática do argumento-Polinices: deixar muitos de nós na posição de Antígona. Por mais que reclamemos, esbravejemos, façamos as exéquias de um ou outro cadáver… por mais que tentemos… seremos silenciados, restaremos impotentes… o argumento-Polinices nos calará de novo, com um exemplo fulgurante da vítima-que-no-fundo-é-algoz… (Quer defender traficante? Olha só esse vídeo aqui dele botando o coleguinha no micro-ondas! Quer defender muçulmano? Olha ele aqui arrancando clitóris das mocinhas! Quer defender adolescente infrator? Olha… etc. etc. etc…).

Erro radical para desmontar o argumento-Polinices: erigir o algoz-que-no-fundo-é-vítima. Ora, a questão não se reduz a essa obviedade… que pobres excluídos e violentados todos os dias se vinguem e tenham a violência como recurso prioritário à inclusão… A questão é por que diabos tais condições de possibilidade permanecem. Sempre será essa a pergunta fundamental: por que uma parcela da população só pode lutar com seus corpos mortificados? Por que devem morrer e matar para serem minimamente incluídos na conversa? Quando matar-e-morrer é falar: quando tal sinonímia foi instituída? O que a mantém? Quais seus ganhos secundários? Qual sua lógica de funcionamento psíquica, social, política?

O fato de o algoz ser, também, vítima em nada o autoriza a romper o pacto pelo direito à dignidade e à vida. Em nada. Incensar o algoz-que-no-fundo-é-vítima faz uma cortina de fumaça e esconde os crimes mais nefastos: aqueles feitos por Creonte. A começar por esse crime, o crime de manter o status quo dessas relações de poder. Os crimes dos ricos são sempre escamoteados por esse argumento que tem lá sua grande dose de verdade… mas, observem: tem um efeito de hipostasiar um só tipo de crime… o crime do pobre é o crime a ser observado, criticado, medido, eliminado… nesse entretempo, o crime do rico continua ceifando vidas e sendo completamente obnubilado… e para que esse crime de “cima” nunca seja tematizado, é bom que se mantenha sempre viva a possibilidade de criarmos mais e mais criminosos lá “debaixo”

Observem ainda: uma das condições para o argumento-Polinices funcionar é uma discrepância de forças. O pai que espanca o filho é paradigmático. Ele vai argumentar: mas ele é bagunceiro demais! Ora, tal argumento não justifica espancar a criança. E também não adianta APENAS defender a criança nos termos de apontar para sua tendência antissocial como um pedido de socorro. A questão é: o que mantém essa situação? Como alterá-la? É preciso reconhecer essa discrepância de forças e neutralizar o efeito perverso nela possível: qual seja, transformar um na relação em objeto parcial, alguém destituído de humanidade, no limite, objeto-dejeto.

E quão rápido surgirão as Ismênias! As que vão defender, em silêncio obsequioso, a ação de Creonte. Até se escondem sob o manto da covardia, mas, no fundo, amam a política de Creonte. Ismênia bate panelas na varanda quando a corrupção é do outro, mas nunca bateu panelas pela fome de séculos, pela falta de escolas e hospitais públicos. Nunca. Nunca reclamou da violência que dizima seus conterrâneos. Apenas daquela que chega, “perdida”, à sua porta, ao seu bairro nobre. Ismênia é tão cínica quanto Creonte, mas não diz claramente a que vem. Esconde-se sob o medo: é melhor manter a ordem, é melhor uma ditadura que queira mesmo o bem, que silencie de uma vez por todas os conflitos sociais, que resolva, por fim todas as nossas questões políticas… Ismênia será a primeira a se lembrar Etéocles: ele sim, lutou pelo País! Ele sim, quis defender o País, o status quo! É ele nosso heroi! Ele é incorruptível! Ele apoia Creonte que quer matar apenas aqueles violentos! Podem até tirar Creonte do poder (não deixem que ele saiba desse meu desejo), mas é para colocar um Creonte ainda mais violento, ainda mais voraz, um Etéocles ressuscitado que nos vingue de qualquer possível Polinices por vir! Quanto mais cedo matarmos Polinices, quanto mais evitarmos o luto e o reconhecimento do que significa sua morte, melhor!

O fantasma de Etéocles também aparecerá frequentemente no Estado tomado pelo argumento-Polinices… Ele reaparecerá sob a forma, p.ex., do político que irá “resolver tudo”, mas sem mexer em nada nas condições que tornaram tais relações de poder possíveis! Etéocles veste a camisa da seleção brasileira! Do seu palácio, de sua fazenda, de seu helicóptero, joga flores aos destentados que jura defender! Ele vai salvá-los, mas sem mexer nos impostos dos mais ricos! Ele vai salvá-los com a cantilena do esforço e do mérito! Ele vai contar histórias bonitas de um Silvio Santos que nasceu pobre, trabalhou muito e venceu na vida! O fantasma de Etéocles brilha e ofusca as masmorras de Creonte.

Discrepância de força entre o adulto e a criança, o ladrão e o assaltado, o assaltante e o policial, o Estado e o cidadão. Todas essas discrepâncias têm um destino pulsional e um uso político. Nenhuma é natural. Todas podem ser manejadas, rearticuladas, repensadas. Em todas o argumento-Polinices pode ser usado, mas é sobretudo na relação entre Estado e cidadão que tal argumento é intolerável. A discrepância é infinita. No limite, é o Estado quem deve proteger o cidadão, inclusive protegê-lo do próprio Estado. Dar condições concretas, à altura do Estado, de luta contra o Estado. A lógica fascista é basicamente quando essa luta entre discrepantes é tornada impossível em desfavor do mais fraco. A lógica cínica é quando tal estado de coisas é descrito como inevitável e explicado como visando a um bem maior. O argumento-Polinices reúne essas duas lógicas e põe em operação concreta, no dia-a-dia do Brasil, a prática de extermínio de pobres e negros.

A citação dos 50 mil mortos foi retirada dessa matéria: http://www.cartacapital.com.br/sociedade/violencia-brasil-mata-82-jovens-por-dia-5716.html

Ele é coerente. Ele diz a verdade. Ele se liga ao que diz. Sua verdade é sua prática e sua identidade. E diz ao outro de forma clara e corre todos os riscos de dizer essa verdade. Risco de ser odiado… mas não nos enganemos: é desse ódio que ele se nutre e regozija.

Ele não hesita em enunciar seus discursos verdadeiros: a mulher que merece ser estuprada, o gay a ser curado de sua orientação sexual, o marginal amarrado ao poste, a ditadura militar que só torturou vagabundo.

O que é a verdade, quando pensada no campo moral? É apenas um tipo de elogio às práticas concretas que se articulam a discursos específicos. O machismo, enquanto prática e discurso, é uma verdade, é um discurso verdadeiro e enseja práticas morais claras, concretas: da exigência de depilações e regimes aos espancamentos e assassinatos de lgbts e mulheres.

E qual é a parrésia ubuesca do machista? Dizer de forma clara o que se é, o que se deve ser e como o outro deve ser: não apenas como fanfarronice ou deboche cínico, mas como signo de sua conduta, como prova contundente do que endereça a si mesmo e ao outro.

Quando alguém diz, de um lugar legítimo de enunciação, que uma mulher merece ser estuprada ou que tortura e estupros são métodos legítimos de confissão, não se pode duvidar: ele é capaz de estuprar, de agredir, de conduzir sua existência de tal modo que esse recurso à violência esteja disponível, seja possível.

A meu ver, é preciso reconhecer uma parrésia do mal ligada ao fascismo. Há pessoas que acreditam na verdade desses discursos, isto é, fomentam o desejo de produzir um mundo no qual a violência tem prioridade na resolução de conflitos morais. Um mundo no qual a alteridade está fixada de uma vez por todas como objeto: de uso, de escárnio, de extermínio.

Covardia e sadismo são práticas concretas, sustentadas por discursos verdadeiros. É preciso manter em mente essa articulação entre processos de subjetivação, jogos/dispositivos de poder e discursos verdadeiros. Três eixos indissociáveis para se entender a sempre urgente necessidade de manter os discursos e as práticas fascistas afastados dos campos democráticos de enunciação legítima (o congresso nacional, a universidade…).

A exaustão da democracia – a dificuldade em fazer acordos amplos, em fazer concessões, em abrir mais e mais espaços para alteridades, para diferenças – é a brecha predileta da fantasia fascista da resolução rápida e fácil de conflitos morais. Ao invés das infinitas conversas e discussões, acata-se ao ato imperativo, conclusivo. Esse ato, sempre sádico e covarde, impede de pulsar o que é o coração da democracia: o empoderamento dos mais fracos, o reconhecimento e o empoderamento sistemático da verdade de outras práticas de vida e outras práticas discursivas que por sua vez também são parresiásticas em grande medida.

O fato de negros, índios, gays e mulheres continuarem pagando com a própria vida pelo simples fato de serem o que são, por agirem de acordo com suas verdades que em nada agridem a ninguém, é prova suficiente que a democracia ainda é frágil e que precisamos ser enérgicos em denunciar, discordar, se contrapor a esses discursos e essas práticas.

Alguns minicontos a partir da maravilhosa notícia do vídeo:

https://vimeo.com/58607904

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Então, João pensou: posso, por fim, assistir aos jogos do Atlético tranquilo. Tiro meu coração, coloco na máquina e só depois, desastre ou vitória, sinto o que virá. Saber-sentir só-depois tem lá suas vantagens.

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Verônica não hesitou: manteve em casa, guardado no guarda-roupa, em compartimento secreto, o coração de Mônica. Todos os dias ouvia o órgão que vibrava, ainda quente, como quando dormia escutando-o ao seu lado.

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Ramon colecionava corações de outros traficantes que matava. Queria, dizia ele, fazer uma escola de samba batibum dos vacilão. Exibia, na casa mais alta da favela, em vitrine aberta, a afinada orquestra dos finados.

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Whiplash

Whiplash é um filme interessante para pensarmos como nossas fantasias sadomasoquistas podem estar presentes na relação pedagógica.

A relação entre Andrew Neiman (o aluno) e Terrence Fletcher (o professor) é claramente sadomasoquista.

Algumas notas:

1) tais fantasias estão presentes inclusive no mais sublime, a música. É um erro supor q a arte é uma esfera dessexualizada da vida… Estórias como essa mostram sempre o contrário: o sexual perpassa, coloniza, invade, o que deveria ser, supostamente, uma área livre do pulsional…

2) ideais de perfeição estão à serviço do sadomasoquismo: Andrew quer ser o melhor, Fletcher quer explorar esse ideal… a disciplina obsessiva do músico é alimentada por dois senhores: o ideal de ser o melhor; a servidão ao ideal.

Andrew e Fletcher

3) o filme sugere uma interpretação edípica clássica. Andrew foi abandonado, ainda bebê, pela mãe. Seu pai parece ser extremamente cuidadoso e presente. Eles assistem filmes juntos e comem pipoca (Andrew não deixa de colocar passas na pipoca que divide com o pai, mesmo não gostando delas… ele “come as da beirada”…).

3.1) o pai de Andrew na cena da vingança de Fletcher é acolhedor e não conflitivo. Ao ver q o filho “falhou”, ele o acolhe e sugere ir pra casa. É justamente nessa cena q Andrew volta para o palco e enfrenta Fletcher.

3.2) Fletcher ocuparia o lugar de uma mãe a quem se quer, sob qualquer preço, agradar? Ele responderia de alguma forma às possíveis fantasias de Andrew sobre as razões do abandono da mãe? Conquistar Fletcher significa conquistar o amor da mãe que o abandonou?

4) Fletcher mente quanto ao suicídio de um dos seus alunos. Ele sabe perfeitamente o que significa exigir de um aluno ir “além dos seus limites”. Essa hybris que ele quer impor a todos é trágica e cínica: sadicamente ele vive uma passividade projetada e imposta ao outro. Fantasia justificada, de forma legítima, pelo sublime ato heroico, pelo bem da arte… Ser o melhor músico justifica todo abuso.

5) Existe uma via facilitadora na nossa cultura para as fantasias sadomasoquistas. Essa via são os muitos lugares heroicos que criamos. Numa conversa de almoço, Andrew discute com alguém que deseja ser um bom jogador de futebol. A discussão passa não apenas pela comparação de quem é o maior, melhor etc, mas também pelo ponto crucial dos herois da cultura: quem será lembrado após a morte? Mesmo após ter vivido mal, acabado drogado etc… Mesmo assim, quem será lembrado? Mais uma vez, parece que o par sadomasoquismo é indissociável: o sadismo imposto pelo ideal (o grande músico) sobrevive em grande medida às custas do masoquismo da vida real (vida solitária, de dor e sangue, de impossibilidade amorosa etc).

5.1) regras, objetivos, disciplina, motivação: a gente tá dentro do campo do ideal do eu, do q queremos ser, do q acreditamos q devemos ser… O ideal do eu é muito ambivalente: ora ele age como motivador, ora como carrasco… Não ser o q se deseja ser é, a um só tempo, aditivo e veneno… Nesse sentido, acho q disciplina é quando a gente entende q o ideal não precisa ser atingido de uma só vez… sacar melhor q o princípio da realidade é o princípio do prazer modificado… rs… ou seja: q a gente vai conquistando aos poucos… 

5.2) nossos modelos morais geralmente são pessoas motivadas, isto é, q tinham um motivo, uma razão para existir e fazer coisas. Saber do seu próprio desejo, ou pelo menos, acreditar q sabemos o q desejamos é uma conquista psíquica de grande alívio… motivar-se é dar uma razão para o q se quer fazer… quanto menos razões discrepantes e impossíveis, melhor! Imagino q na constituição do eu, inevitavelmente, há elementos enganosos, ligados aos desejos dos outros q tomamos como nossos… os imperativos da cultura, p.ex., são elementos desse tipo… daí, a importância de terapêuticas q nos ajudem a discernir melhor o q é meu e o q é do outro… quais são as minhas motivações e quais são aquelas q me foram impostas… 

5.3) O próprio processo de formação do eu é um tipo de disciplina, um tipo de docilização… nosso ideal cultural hoje casa-se perfeitamente aqui: self made man, fitness, entrepreneur… isso atende fácil às nossas fantasias sadomasoquistas… ora nos martirizamos, ora somos martirizados… Há q se estar atendo aos prazeres inconscientes q esses modelos propõem… seja na medida q os atendemos, seja qdo nos recusamos, à la Bartleby, a nos submeter a eles. Talvez, devamos abrir também outros espaços para a preguiça, a desordem, aos aspectos indisciplinados do desejo… A pergunta é: quando? com quem? como? Como abrir espaço para esse pulsional mais livre, sem perder as fundamentais conquistas da disciplina?

6) No diálogo com Nicole, a namorada, Andrew antecipa, de forma obsessiva, o fracasso do encontro amoroso: não terei tempo, vc irá exigir demais de mim, vc não irá compreender, só vou pensar em música e bateria, mesmo quando estiver com vc… etc. etc… É como se a relação com a música exigisse dele tudo, toda energia psíquica disponível, todo investimento amoroso. Como se a relação amorosa constituísse risco ao pacto simbiótico que ele deseja estabelecer com a música.

[Já falei um pouco da relação entre psicanálise e música nesse artigo: http://www.fabiobelo.com.br/wp-content/textos/musica.pdf]

Da obra de Fabíola Tasca

Da obra de Fabíola Tasca

A intervenção artística de Fabíola Tasca, Primeira Pessoa, traz uma bela metáfora para pensarmos nas relações amorosas. Um vídeo sobre a obra pode ser visto aqui: http://vimeo.com/19717261

O outro (tu, ela, ele, vós, nós, vós…), não raro, nos faz a vez de boia.

A começar pelo início do início. Palavra-boia pra navegar no social.

Depois e sempre: reconhecimento-boia pra navegar no amor.

O eu também é uma espécie de boia, por certo… É nele que navegamos… Mas não é por acaso que os gregos alertaram para o amor excessivo por si mesmo como um tipo de afogamento… Freud vai recuperar o mito de Narciso para nos alertar sobre isso: o egoísmo é um investimento libidinal nesse objeto paradoxal que é o eu. A um só tempo objeto e também eu, boia e navegante.

O eu é uma boia que funciona apenas em seu devir outro para outrem. Não existe em si mesmo, para si mesmo, à revelia do outro. Só existe plenamente a partir do outro, com o outro.

O perigo é desejar ser boia eterna para alguém. Ou desejar que alguém ou algo ocupe também essa função… Há um modo paradoxal de não viver procurando a salvação (essa espécie de estar apenas vivo, sem risco algum…).

No mar aberto da vida, há tantas boias que passam por nós! Umas pequenas demais, murchas demais, grandes demais, algumas cheias demais, sempre prestes a estourar e a nós deixar em e com pedaços…

E como é bom encontrar para o eu o bom abraço de uma boia. A sábia boia que sabe aproveitar as forças da maré e deslizar suave conosco para outras praias, nunca conhecidas de antemão… (Como não pensar na paixão como uma espécie de surf?)

Amar é o jogo entre nadar e voltar ao descanso da boia. Saber que há algum repouso em alto mar, mas também estar ciente de que não é possível colar-se à boia. Que é preciso ir e voltar, estar por perto, saber de outras boias, talvez, e, por isso mesmo, reiterar a escolha daquela que nos faz flutuar melhor, que nos convida melhor a não afogar em si mesmo ou na busca desenfreada por uma boia perfeita…

Sim, é também o eu que enche a boia-outro de ar. O eu não ocupa a posição apenas de ser salvo… É preciso cuidar da boia que nos fornece apoio. Há que se reconhecer o direito de toda boia murchar sem o sopro quente e vital do eu que a anima a continuar flutuando. Para ser salvo, é preciso também esse esforço, esse trabalho de fôlego, com e para o outro…

Primeira pessoa: a que somos e a que nos reconhece como tal. Boia e sopro um do outro. No mar (infinitos jogos-de-amar) de ambos.

 

Há um passo fundamental com relação ao masoquismo: entender que, diante de objetos tóxicos, o melhor nem sempre é buscar antídotos ou algum tipo de imunidade. O ideal, tenho acreditado, é simplesmente aprender a evitar entrar em contato e a cortar o contato com essas vias de intoxicação. A questão nem sempre é aprender a conviver com o objeto sádico-venenoso. Aliás, quase nunca será…

É importante pensar nas situações sociais onde isso se torna um tanto quanto inevitáveis, como em algumas relações de trabalho ou familiares. A questão é mesmo aprender a se afastar e manter afastado o objeto tóxico… Renunciar à narcose do desejo. Cuidado de si em contraposição a esse tipo de necropsia de si mesmo pós envenenamento…

Nota importante: muitas dessas pessoas tóxicas tentarão uma última cartada, qual seja vão tentar te deixar culpado, como se você as estivesse abandonando… A culpa, sabemos, tem uma toxidade bastante elevada… 

Cartaz

Segue a programação do curso de atualização em Psicologia Jurídica, coordenado por mim, Paula Dias e Liliane Camargos:

http://fabiobelo.com.br/wp-content/disciplinas/progpsijur.pdf

As inscrições podem ser feitas aqui:

http://www.cursoseeventos.ufmg.br/CAE/DetalharCae.aspx?CAE=6443

 

Acho incrível que depois da Ditadura ainda consigamos confundir liberdade de expressão com discursos de ódio. Mais incrível ainda que tal confusão seja encampada por Schwartsman.

Ao básico: posso dizer o que quiser, desde que não fira o direito civil e não cercee o direito de livre expressão de outros grupos. Isso é liberdade de expressão.

Para ficar no exemplo do infame candidato: ele pode sim defender o casamento hetero e a família hetero, pode falar q essa forma de amor é mais pura e é modelo moral a ser seguido. Pode até falar asneiras cientificistas. Problema nenhum.

(Se ele tentar publicar isso em revistas de sociologia, antropologia ou psicologia, ele certamente não vai conseguir… mas como é debate político público, como é discurso religioso, ele pode falar… no discurso acadêmico fica restrita a liberdade de expressão pelas regras da ciência e do campo discursivo: há q se provar o q se diz, há q se argumentar obedecendo princípios básicos etc… o q não impede de forma alguma o discurso das ciências humanas ser livre, propor novas hipóteses etc.)

O problema começa quando ele fala que “temos que enfrentar essa minoria”. Isso é crime gravíssimo. Ele está incitando o ódio, não está defendendo um ponto de vista. São coisas completamente diferentes. Ele claramente deseja cercear o direito de pessoas do mesmo sexo se beijarem ou se abraçarem em público, p.ex.

Insisto: ele pode até falar que sente nojinho ou que não concorda com essa forma de amor. Direito dele. Acho tosco, mas é direito dele. Outra coisa é impor uma forma de vida aos outros ou proibir formas de conduzir a vida que em nada ferem a manutenção laço social laico e democrático.

Um argumento q ele usa no debate e é inacreditavelmente presente nessas discussões é a iminente e drástica redução populacional que advirá se legitimarmos o amor gay. O candidato disse: temos 200 milhões e em breve seremos 100 milhões! rs… Isso é tão ridículo, mas é tão revelador quanto ao que realmente está em questão aqui… Que tipo de feroz “contágio” gay será esse? O desejo homossexual é assim tão desejável e perigoso a ponto de todos aderirem a ele? E quem disse que homossexuais não podem ter filhos? (Sem reduzir de novo o fato de ter filhos ao fato de gerar bebês).

Pessoal, nós já vivemos tempos sombrios. Tempos nos quais tínhamos apenas pichação e panfletos anônimos para dizer o que pensávamos. Tempos nos quais dizer o que se pensa poderia nos condenar à morte e à tortura. Isso é não ter liberdade de expressão.

Temos que ter muito cuidado e carinho com esse direito civil fundamental. A democracia torna a parrésia (o dizer verdadeiro, o dizer o q se pensa, e agir tal como se diz) um ato necessariamente solidário. Se eu digo o que penso tenho q necessariamente estar atento ao tipo de efeito que causo no outro. Se o q digo visa limitar direitos civis de terceiros, não posso continuar a dizer. Tenho sim q ser silenciado por esse pacto que tudo me permite dizer, desde que não coloque em risco esse mesmo pacto. É exatamente por essa razão que não se pode ter um partido nazista e nem fundamentalista numa democracia.

Esse é o nosso paradoxo: a gente pode pensar tudo, desde que o que pensemos não coloque em risco as condições políticas de se pensar.

Nesse sentido, defendo sim a impugnação da candidatura desse candidato. O TSE dará um sinal bem claro do nosso compromisso com a democracia e também com a liberdade de expressão.

http://www1.folha.uol.com.br/poder/2014/10/1525170-analise-punir-fidelix-seria-um-desservico-ao-processo-eleitoral.shtml

Loteria

Há melhor metáfora para se compreender a resistência à realização do desejo que o esquecimento de conferir o jogo de loteria? Sabemos de muitos casos nos quais jogos premiados nunca são requeridos. Esse esquecimento me parece revelador.

Penso no prazer que temos nos sonhos, devaneios e fantasias provenientes da suposta premiação. Boa parte do prazer do jogo, acredito, reside na criação de vidas possíveis, realizações de desejos até então impossíveis. Apostar é viver no futuro do pretérito. Viver a vida sonhando viver outra vida é um romance neurótico. A insatisfação com o presente é uma das faces manifestas do prazer de vidas impossíveis vividas na fantasia. O masoquismo proveniente desse confronto – entre a vida real e as fantasias – é a razão pela qual esquece-se de conferir o prêmio.

O prazer inconsciente de nunca se ter o que se deseja de fato encontra suas raízes na própria constituição subjetiva. Podemos ler o recalcamento originário, condição para a vida psíquica neurótica, como um tipo de renúncia radical à realização do desejo. Ou melhor, a sempre realizá-lo pela mediação da fantasia… nunca diretamente. Devemos ao recalcamento originário o prêmio paradoxal de ter nos livrado dos desejos infantis radicalmente mortíferos. A realização desses desejos implicaria na própria morte do eu (constituído, aliás, para fazer frente, resistir, a esses desejos…). Ao mesmo tempo, deixar de realizá-los é razão de permanente infortúnio, fonte dessas fantasias de outras vidas possíveis. A utopia freudiana do desejo, traduzida nessa metáfora da loteria, é reverter todo prêmio ganho em um novo jogo. (Aliás, Freud, no artigo sobre os princípios do funcionamento psíquico, fala sobre essa mítica utopia ensejada pela alucinação da satisfação proveniente das primeiras mamadas… Examino essa ideia no texto “críticas ao bebê solipsista de Freud”, presente nesse livro.)

Tarefa analítica: entender/elaborar o prazer paradoxal de que nem todo desejo deve ser realizado e que muitos outros podem. Ou ainda: autorizar-se ao prazer/excitação (Lust) com aquilo que se quer; resistir aos aspectos mais mortíferos do desejo. Para voltar à metáfora: um bom percurso analítico mostraria que é uma delícia fantasiar e dar lugar a desejos que não podemos / devemos realizar, ao mesmo tempo em que nos convidaria a ir buscar o prêmio para só então elaborar o devir realidade de algumas de nossas fantasias. Entender que amar não é uma aposta… Entender que a realidade é sempre um tanto inventada: como aquelas sombras que produzimos… Bom, mas essa já é uma outra metáfora.

coelho

Todo-Abismo-é-navegável-a-barquinhos-de-papel

 

Tive a honra de ser convidado para ser o paraninfo de uma turma da Psicologia / UFMG.

Eis o discurso que fiz em homenagem a esse momento mais que especial: http://www.fabiobelo.com.br/wp-content/textos/discursoparaninfo.pdf

Obrigado mais uma vez, pessoal!