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Um egoísmo forte constitui uma proteção contra o adoecer, mas, num último recurso, devemos começar a amar a fim de não adoecermos, e estamos destinados a cair doentes se, em conseqüência da frustração, formos incapazes de amar. Isso acompanha mais ou menos os versos do quadro que Heine traça sobre a psicogênese da Criação:

Krankheit ist wohl der letzte Grund / Des ganzen Schöpferdrangs gewesen;  / Erschaffend konnte ich genesen, / Erschaffend wurde ich gesund. [A doença foi sem dúvida a causa final de todo anseio de criação. Criando, pude recuperar-me; criando, tornei-me saudável.]

Reconhecemos nosso aparelho mental como sendo, acima de tudo, um dispositivo destinado a dominar as excitações que de outra forma seriam sentidas como aflitivas ou teriam efeitos patogênicos. Sua elaboração na mente auxilia de forma marcante um escoamento das excitações que são incapazes de descarga direta para fora, ou para as quais tal descarga é, no momento, indesejável. (Freud, ESB, XIV, 101-2; )

Gostaria de usar essa passagem de “Para introduzir o narcisismo” para desenvolver, brevemente, uma ideia: amar não é uma aposta em contraposição ao amar contra o adoecer.

O que é uma aposta? Diz o Houaiss: “ajuste entre pessoas com opiniões diferentes acerca de um fato, que será averiguado posteriormente, devendo aquela que perder ou errar em seu julgamento pagar à outra o valor anteriormente estipulado”. Trata-se, como vemos, de um tipo de disputa, de luta entre dois. Não apenas isso: uma disputa que envolve um tipo de dobra ao derrotado: além da derrota, deve-se pagar algo pelo erro. A palavra “ajuste” na definição não é muito honesta: o fim da aposta não é bem um ajuste, mas uma imposição programada. Travestida de justiça / ajuste, a aposta legitima a imposição do que foi previamente estipulado. A honra dos apostadores, isto é, não colocar em discussão, após finda a aposta, suas consequências, é também um modo de impedir, legitimamente, que se reconverse sobre as condições da aposta.

Apostar tem um sentido muito positivo de se empenhar, acreditar, ter fé, para além do sentido básico de arriscar. O prazer da aposta passa pela confirmação de nossas crenças onipotentes sobre o mundo e o outro. De repente, a certeza de que as cartas virão, o cavalo correrá mais, o dado irá parar em tal número, a sorte virá. Apostadores, no entanto, não param de apostar mesmo depois que ganham. Seria pouco dizer que a motivação é apenas essa: vencer. Temos que pressupor também que a aposta coloca sobre a mesa a imagem arruinada de nós mesmos. Apostar é sempre correr o risco de perder. E essa perda pode muito bem ser atribuída ao azar, ao destino, a um outro. O arruinado pela aposta sempre terá o álibi do acaso para desresponsabilizar-se quanto ao seu desejo de tudo perder. É como se ele precisasse dessa cena de desapossamento, impotência radical de ver o dado em outra posição, o cavalo ficando para trás, as cartas que nunca chegam.

A aposta brinca com essa moeda cujas faces são a onipotência e a impotência. Sabemos como esses pares de opostos funcionam bem em nossa vida psíquica. O que significa então propor que uma relação amorosa é uma aposta? Que estamos sempre entre a onipotência e a impotência diante do outro. É justamente isso o que a psicanálise deseja evitar.

Voltemos à citação de Freud. O egoísmo é uma proteção contra o adoecer e adoecer significa sentir excitações “como aflitivas”, incapazes de serem dominadas. Em contraposição a isso, é necessário trabalho psíquico. Observem: o aparelho psíquico é um dispositivo que faz exatamente esse trabalho de “ligação” / “escoamento” dessas excitações. Jean Laplanche insiste nesse aspecto da pulsão sexual de vida. A tarefa dela é ligar a pulsão sexual de morte, pura “aflição”, puro desligamento… Em grande medida, podemos chamar de amor, trabalho de amor, essa tarefa de nos deixar menos aflitos. Entendam: a onipotência e o desamparo como faces da mesma moeda aflitiva…

E o que isso tudo tem a ver com a citação de Heine? O que isso tem a ver com criar?

Quero desenvolver a tese de que criar é o avesso de apostar. Criar, especialmente se entendido a partir de Winnicott, é dar lugar em si mesmo àquilo que é encontrado no mundo. Para Winnicott, o seio é criado na medida em que ele chega no momento em que o bebê o deseja. Nem muito antes, nem muito depois. E por chegar no momento suficientemente oportuno, o bebê é capaz de criar aquilo que encontra. Quanto mais desencontrada for a relação entre o objeto e o desejo, mais o bebê entrará na situação de aposta. Seja na vertente onipotente, seja na vertente do desamparo. Quanto mais no tempo for a relação, mais capaz será o bebê de amar o seio, isto é, dar conta de suas ausências, de seu modo de existir como independente de si mesmo…

Amar o objeto é ser capaz de tolerar e trabalhar sobre as diferenças entre o seio que inventei-encontrei e o seio que realmente existe. O seio que existe e estará sempre além e aquém daquilo que sou capaz de inventar-encontrar engloba a autonomia radical do outro e fundamentalmente seu inconsciente (algo que o próprio outro não controla). Quando amo não aposto na relação: convido ao trabalho e à criação conjunta de uma área intermediária entre a autonomia radical do outro e o que consigo criar-encontrar dele e nele. Essa área intermediária, transicional, é um espaço potencial. Isso quer dizer que algo da contingência está preservado pelo trabalho de amor. Esse trabalho, na medida em que é criativo, abre-se também ao que ainda não existe. Ao contrário da aposta, no entanto, a criatividade potencial não busca o excesso da onipotência e nem o caos do desamparo. Essa criatividade conjunta, amorosa, busca manter firme os contornos do eu e do outro para que ambos possam fruir, cada um à sua maneira e em seu tempo, desse terceiro espaço que apenas o encontro entre ambos faz aparecer. A aposta é o lugar do perder ou ganhar em detrimento do outro. O encontro criativo e amoroso é o lugar de, simultaneamente, deixar-se inventar pelo outro, inventar-se e inventar o outro.




Chama a atenção o título da matéria e seu conteúdo: http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2014/04/1435877-pesquisa-que-indica-apoio-a-ataques-a-mulheres-esta-errada-diz-ipea-so-26-concordam.shtml

Primeiro: não é “só” 26%. Isso é mais q um quarto da população…

O detalhe que me chamou a atenção foi a outra pergunta: “A questão perguntava aos entrevistados se eles concordavam com a afirmação de que “mulher que é agredida e continua com o parceiro gosta de apanhar”. Neste caso, 65,1% concordavam, segundo a errata divulgada pelo órgão (na primeira divulgação, esse percentual era de 26%)”.

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1. Narcisismo como interrupção

A foto abaixo de Laura Williams é um ótimo ensejo para pensarmos em como nossa identidade é determinada pelo olhar do outro. Somos, a um só tempo, espelho e reflexo para / do outro. O narcisismo é uma operação psíquica que tenta, em alguma medida, se apropriar desse jogo infinito de espelhos. Eu reflexo do outro que se vê no eu do outro que se vê ainda replicado no olhar daquele outro eu… Esse mis-en-abîme das identificações deve ser interrompido. O narcisismo é o nome dessa interrupção. Um momento de dizer: eu sou eu. Sabemos, no entanto, os riscos do narcisismo. Não por acaso Freud optou por esse mito para descrever esse processo. O risco de perder-se em si mesmo é sempre iminente, na medida em que é convocado sempre esse recalcamento da nossa origem alteritária, especular. Riscos mortíferos do narcisismo. Invisibilizar o espelho: não mostrar nada de si para o outro, não ver nada do outro em si mesmo, não ver, enfim, algo de si no outro…

Qual face?

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Notas p/ um artigo sobre livre-arbítrio:

1. A tese de Agostinho gira em torno de atrelar o mal ao livre-arbítrio. O objetivo é impedir que deus seja responsabilizado pelo mal. Se ele é eternamente bom, não pode ser autor do mal. E por que o mal existe? Porque há o livre-arbítrio. E por que há o livre-arbítrio? Para provar que o homem escolhe a deus e não sua ausência…

1.2. Se tomarmos – um pouco como faz Agamben – algo da teologia como modelo político, não teríamos nesse tipo de tese agostiniana uma das fontes genealógicas da excessiva responsabilização dos mais pobres para sempre resguardar o poder? (Pode-se, evidentemente, dar vários nomes aqui a esse arranjo social: sistema, família, sociedade de bem, homens de bem, sujeitos responsáveis… etc.). Ou seja, por que o sujeito faz o mal? Porque ele escolheu fazê-lo, é responsável por ele. Sua história política, seu lugar-no-mundo social não poderá, no limite, ser usado como argumento ou co-responsabilidade pelo mal.

2. O filmes de zumbi, como contra-exemplo. A questão fascinante nos filmes de zumbis é que eles perdem justamente a capacidade de escolher. São humanos tomados pela fúria (um vírus, uma influência maligna…) e incapacitados de livre-arbítrio. São uma imagem de nós mesmos, ou melhor, desse outro interno que temos que controlar, frente ao qual o tempo todo respondemos como livres. Não ser dominado pelas paixões é sempre o grande diferencial da liberdade. Liberdade se mede, fundamentalmente, a partir da minha relação com esse outro interno. O zumbi é a representação da derrota frente a esse outro. Em espelho, esse outro devora aqueles que resistem a ele…

3. Já insisti, em outro texto, na responsabilidade como charneira indivíduo / social, dispositivo exemplar do poder pastoral. Em que medida o livre-arbítrio só pode ser reconhecido como responsabilidade? Em que medida pode ser questionado na medida em que co-responsabilizamos o entorno social e deslocamos a noção de responsabilidade para a noção de resposta? Esse deslocamento não é justamente a tarefa que o inconsciente, tal como descrito pela psicanálise, impõe à noção de liberdade?

Dia desses, cometi um lapso de memória. Dizia aos alunos que Freud havia escrito que o conflito psíquico era como uma luta entre a baleia e o urso polar. O trabalho analítico, dizia ainda esse Freud imaginado, teria como tarefa fabricar um ringue possível para essa luta.

Qual não foi minha surpresa, ao retomar o texto de Freud, com a promessa de endereçar a passagem correta aos alunos, encontrar algo em nada semelhante à minha lembrança. A luta era entre a psicanálise e outras teorias e nenhum sinal de trabalho para fazer a luta acontecer! Ao contrário: Freud está dizendo claramente que a luta é impossível e que tais controvérsias são infrutíferas. Continuar lendo…

EXTENSÃO:

  • Os dois formulários de Atividade Acadêmica Optativa:
    • Relatório de Conclusão
    • Proposta de Trabalho
  • Em caso de palestras e seminários, cópia dos certificados.
  • Em caso de Projeto de Extensão:
  • Cópia do Projeto com aprovação pela Câmara Departamental
  • Registro no CENEX
  • Trabalho final, com nota e conceito dados por um professor do Departamento de Psicologia, a convite do aluno.

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O poder pastoral coloca para funcionar tecnologias que fabricam a um só tempo o indivíduo e o rebanho. De maneira geral, tal modo de dominação se exerce a partir de práticas de exame de si mesmo, geralmente conduzidas por um outro ou já internalizadas ao longo do tempo. A psicoterapia, a meu ver, continua a história dessas práticas confessionais.

Um conceito começa a aparecer no século XX de forma mais clara, mais precisa e mais impositiva: a responsabilidade. A impressão é que vamos laicizando a culpa. O ideal externo passa do par alma/deus para o par indivíduo/cidadão-empreendedor de si mesmo. Ainda há um ideal externo, um modelo a ser seguido pelo indivíduo e pelo rebanho. A responsabilidade é um conceito-dobradiça, é a charneira entre o individual e o coletivo. Pede-se sempre que o sujeito se responsabilize e ao fazer isso estamos conduzindo-o a um certo modo de agir.

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O ciumento, muitas vezes, se comporta como a criança que deseja exclusividade do amor dos pais. Algumas crianças se sentem angustiadas quando veem seus pais dando atenção a outras pessoas ou a outras crianças (os irmãos, incluídos). É como se ainda não conseguissem compreender que seus pais podem amar outras pessoas sem deixar de amá-las. Exigem uma permanência concreta do amor, como se o afastamento momentâneo colocasse em risco a própria existência da relação. O ciumento é apaixonado: a passividade que expressa diante de seu objeto de amor é de tal ordem que o faz imaginar que, sem esse amor, ele não seria ninguém.

O ciúme é uma das primeiras formas de simbolização do desamparo. O ciumento diz claramente: não ame ninguém para além de mim; sem seu amor, eu morro. Desamparo invertido e transformado num insaciável desejo de onipotência, onipresença e onisciência. O ciumento quer tudo do objeto. Quer ser o único a produzir alegria no objeto de amor, quer saber de tudo dele, quer estar o tempo todo presente. Numa palavra: quer ter poder total sobre seu alvo amado. O ciúme é como o amor dos que amam os pássaros apenas nas gaiolas. O ciúme é o contrário da liberdade: tanto para o ciumento quanto para o próprio alvo desse afeto. É estar aprisionado ao outro desejando fundir-se a ele. No limite, a única forma de controlar completamente o outro é se transformando nele. O amor enciumado tem uma viscosidade paralisante e mortífera para todos os envolvidos. Continuar lendo…

Larissa Bacelete foi minha aluna de introdução à Psicanálise, pelos idos de 2004. É dessas alunas que marcam nossa história, pois deixam claro que o desejo de saber fica ainda melhor na amizade. A amizade entendida aqui como uma relação amorosa que se assume marcada pelo acaso do encontro e pela força do desejo como única garantia do estar-junto.

Ao longo desse tempo, muitos grupos de estudo, muitos encontros, muita produção conjunta de saber. E agora temos o lançamento de um fruto maduro e precioso que é sua dissertação de mestrado em formato de livro:

Como já tentei dizer no Prefácio do livro, essa obra me parece indispensável para quem procura uma interpretação crítica da perversão. Próxima ao pensamento de Jean Laplanche e também valendo-se de outros autores (Bonnet, McDougall, Rousillon), Larissa nos apresenta uma hipótese brilhante sobre as origens da perversão. Contrariamente ao que o senso comum apressadamente conclui, o perverso não deve ser caracterizado como monstro ou radicalmente distinto de todos nós. Apontar para a história libidinal do perverso é fundamental não apenas para dar a esse arranjo psíquico uma possibilidade de escuta mais acolhedora e mais disponível para propor novos arranjos menos violentos, não no sentido moralizante, mas no sentido terapêutico naquilo que ele tem de mais precioso e ético. Continuar lendo…

É curioso… há algumas relações amorosas que depois de terminadas precisam ser retomadas para que terminem definitivamente.

Funciona como um estranho processo de luto e insight. É preciso ressuscitar o objeto que já sabemos morto, ter com ele, reviver ainda as mesmas desgraças que queríamos evitar. Até que, nesse segundo tempo, uma certeza se instala e acaba por matar aquela esperança cheia de veneno masoquista (“e se tentássemos ainda mais uma vez?”). O tempo das mãos limpas, de ter tentado no seu melhor conviver com o outro e reconhecer, definitivamente, um impasse, o impossível de qualquer interseção. Ou melhor, que a interseção se fazia no mal-estar, trazendo o que havia de pior em cada um dos parceiros.

Esse tempo não é apenas o tempo do término. É parte importante do recomeço, finalização de um luto que precisou ainda por um momento trazer de volta o que havíamos hesitado em sepultar.

Essa vivência parece ter uma outra dobra: na verdade, não é apenas desse objeto de amor atual que queríamos nos livrar. Ter vivido o término em dois tempos é um modo de dizer pra si mesmo que é preciso re-examinar uma relação ainda mais pretérita… Como se disséssemos para nós mesmos que há ainda algo do passado a ser resolvido. O insight é desse luto-com-a-presença-do-objeto é esse: é de grande alívio se livrar do morto atual, mas é ainda mais impactante reconhecer que não era esse o cadáver insepulto, mas um outro, cuja presença e influência no nosso fracasso amoroso só agora, através dessa penosa vivência, podemos reconhecer…