Blog

1. Narcisismo como interrupção

A foto abaixo de Laura Williams é um ótimo ensejo para pensarmos em como nossa identidade é determinada pelo olhar do outro. Somos, a um só tempo, espelho e reflexo para / do outro. O narcisismo é uma operação psíquica que tenta, em alguma medida, se apropriar desse jogo infinito de espelhos. Eu reflexo do outro que se vê no eu do outro que se vê ainda replicado no olhar daquele outro eu… Esse mis-en-abîme das identificações deve ser interrompido. O narcisismo é o nome dessa interrupção. Um momento de dizer: eu sou eu. Sabemos, no entanto, os riscos do narcisismo. Não por acaso Freud optou por esse mito para descrever esse processo. O risco de perder-se em si mesmo é sempre iminente, na medida em que é convocado sempre esse recalcamento da nossa origem alteritária, especular. Riscos mortíferos do narcisismo. Invisibilizar o espelho: não mostrar nada de si para o outro, não ver nada do outro em si mesmo, não ver, enfim, algo de si no outro…

Qual face?

Continuar lendo…

Notas p/ um artigo sobre livre-arbítrio:

1. A tese de Agostinho gira em torno de atrelar o mal ao livre-arbítrio. O objetivo é impedir que deus seja responsabilizado pelo mal. Se ele é eternamente bom, não pode ser autor do mal. E por que o mal existe? Porque há o livre-arbítrio. E por que há o livre-arbítrio? Para provar que o homem escolhe a deus e não sua ausência…

1.2. Se tomarmos – um pouco como faz Agamben – algo da teologia como modelo político, não teríamos nesse tipo de tese agostiniana uma das fontes genealógicas da excessiva responsabilização dos mais pobres para sempre resguardar o poder? (Pode-se, evidentemente, dar vários nomes aqui a esse arranjo social: sistema, família, sociedade de bem, homens de bem, sujeitos responsáveis… etc.). Ou seja, por que o sujeito faz o mal? Porque ele escolheu fazê-lo, é responsável por ele. Sua história política, seu lugar-no-mundo social não poderá, no limite, ser usado como argumento ou co-responsabilidade pelo mal.

2. O filmes de zumbi, como contra-exemplo. A questão fascinante nos filmes de zumbis é que eles perdem justamente a capacidade de escolher. São humanos tomados pela fúria (um vírus, uma influência maligna…) e incapacitados de livre-arbítrio. São uma imagem de nós mesmos, ou melhor, desse outro interno que temos que controlar, frente ao qual o tempo todo respondemos como livres. Não ser dominado pelas paixões é sempre o grande diferencial da liberdade. Liberdade se mede, fundamentalmente, a partir da minha relação com esse outro interno. O zumbi é a representação da derrota frente a esse outro. Em espelho, esse outro devora aqueles que resistem a ele…

3. Já insisti, em outro texto, na responsabilidade como charneira indivíduo / social, dispositivo exemplar do poder pastoral. Em que medida o livre-arbítrio só pode ser reconhecido como responsabilidade? Em que medida pode ser questionado na medida em que co-responsabilizamos o entorno social e deslocamos a noção de responsabilidade para a noção de resposta? Esse deslocamento não é justamente a tarefa que o inconsciente, tal como descrito pela psicanálise, impõe à noção de liberdade?

Dia desses, cometi um lapso de memória. Dizia aos alunos que Freud havia escrito que o conflito psíquico era como uma luta entre a baleia e o urso polar. O trabalho analítico, dizia ainda esse Freud imaginado, teria como tarefa fabricar um ringue possível para essa luta.

Qual não foi minha surpresa, ao retomar o texto de Freud, com a promessa de endereçar a passagem correta aos alunos, encontrar algo em nada semelhante à minha lembrança. A luta era entre a psicanálise e outras teorias e nenhum sinal de trabalho para fazer a luta acontecer! Ao contrário: Freud está dizendo claramente que a luta é impossível e que tais controvérsias são infrutíferas. Continuar lendo…

EXTENSÃO:

  • Os dois formulários de Atividade Acadêmica Optativa:
    • Relatório de Conclusão
    • Proposta de Trabalho
  • Em caso de palestras e seminários, cópia dos certificados.
  • Em caso de Projeto de Extensão:
  • Cópia do Projeto com aprovação pela Câmara Departamental
  • Registro no CENEX
  • Trabalho final, com nota e conceito dados por um professor do Departamento de Psicologia, a convite do aluno.

Continuar lendo…

O poder pastoral coloca para funcionar tecnologias que fabricam a um só tempo o indivíduo e o rebanho. De maneira geral, tal modo de dominação se exerce a partir de práticas de exame de si mesmo, geralmente conduzidas por um outro ou já internalizadas ao longo do tempo. A psicoterapia, a meu ver, continua a história dessas práticas confessionais.

Um conceito começa a aparecer no século XX de forma mais clara, mais precisa e mais impositiva: a responsabilidade. A impressão é que vamos laicizando a culpa. O ideal externo passa do par alma/deus para o par indivíduo/cidadão-empreendedor de si mesmo. Ainda há um ideal externo, um modelo a ser seguido pelo indivíduo e pelo rebanho. A responsabilidade é um conceito-dobradiça, é a charneira entre o individual e o coletivo. Pede-se sempre que o sujeito se responsabilize e ao fazer isso estamos conduzindo-o a um certo modo de agir.

Continuar lendo…

O ciumento, muitas vezes, se comporta como a criança que deseja exclusividade do amor dos pais. Algumas crianças se sentem angustiadas quando veem seus pais dando atenção a outras pessoas ou a outras crianças (os irmãos, incluídos). É como se ainda não conseguissem compreender que seus pais podem amar outras pessoas sem deixar de amá-las. Exigem uma permanência concreta do amor, como se o afastamento momentâneo colocasse em risco a própria existência da relação. O ciumento é apaixonado: a passividade que expressa diante de seu objeto de amor é de tal ordem que o faz imaginar que, sem esse amor, ele não seria ninguém.

O ciúme é uma das primeiras formas de simbolização do desamparo. O ciumento diz claramente: não ame ninguém para além de mim; sem seu amor, eu morro. Desamparo invertido e transformado num insaciável desejo de onipotência, onipresença e onisciência. O ciumento quer tudo do objeto. Quer ser o único a produzir alegria no objeto de amor, quer saber de tudo dele, quer estar o tempo todo presente. Numa palavra: quer ter poder total sobre seu alvo amado. O ciúme é como o amor dos que amam os pássaros apenas nas gaiolas. O ciúme é o contrário da liberdade: tanto para o ciumento quanto para o próprio alvo desse afeto. É estar aprisionado ao outro desejando fundir-se a ele. No limite, a única forma de controlar completamente o outro é se transformando nele. O amor enciumado tem uma viscosidade paralisante e mortífera para todos os envolvidos. Continuar lendo…

Larissa Bacelete foi minha aluna de introdução à Psicanálise, pelos idos de 2004. É dessas alunas que marcam nossa história, pois deixam claro que o desejo de saber fica ainda melhor na amizade. A amizade entendida aqui como uma relação amorosa que se assume marcada pelo acaso do encontro e pela força do desejo como única garantia do estar-junto.

Ao longo desse tempo, muitos grupos de estudo, muitos encontros, muita produção conjunta de saber. E agora temos o lançamento de um fruto maduro e precioso que é sua dissertação de mestrado em formato de livro:

Como já tentei dizer no Prefácio do livro, essa obra me parece indispensável para quem procura uma interpretação crítica da perversão. Próxima ao pensamento de Jean Laplanche e também valendo-se de outros autores (Bonnet, McDougall, Rousillon), Larissa nos apresenta uma hipótese brilhante sobre as origens da perversão. Contrariamente ao que o senso comum apressadamente conclui, o perverso não deve ser caracterizado como monstro ou radicalmente distinto de todos nós. Apontar para a história libidinal do perverso é fundamental não apenas para dar a esse arranjo psíquico uma possibilidade de escuta mais acolhedora e mais disponível para propor novos arranjos menos violentos, não no sentido moralizante, mas no sentido terapêutico naquilo que ele tem de mais precioso e ético. Continuar lendo…

É curioso… há algumas relações amorosas que depois de terminadas precisam ser retomadas para que terminem definitivamente.

Funciona como um estranho processo de luto e insight. É preciso ressuscitar o objeto que já sabemos morto, ter com ele, reviver ainda as mesmas desgraças que queríamos evitar. Até que, nesse segundo tempo, uma certeza se instala e acaba por matar aquela esperança cheia de veneno masoquista (“e se tentássemos ainda mais uma vez?”). O tempo das mãos limpas, de ter tentado no seu melhor conviver com o outro e reconhecer, definitivamente, um impasse, o impossível de qualquer interseção. Ou melhor, que a interseção se fazia no mal-estar, trazendo o que havia de pior em cada um dos parceiros.

Esse tempo não é apenas o tempo do término. É parte importante do recomeço, finalização de um luto que precisou ainda por um momento trazer de volta o que havíamos hesitado em sepultar.

Essa vivência parece ter uma outra dobra: na verdade, não é apenas desse objeto de amor atual que queríamos nos livrar. Ter vivido o término em dois tempos é um modo de dizer pra si mesmo que é preciso re-examinar uma relação ainda mais pretérita… Como se disséssemos para nós mesmos que há ainda algo do passado a ser resolvido. O insight é desse luto-com-a-presença-do-objeto é esse: é de grande alívio se livrar do morto atual, mas é ainda mais impactante reconhecer que não era esse o cadáver insepulto, mas um outro, cuja presença e influência no nosso fracasso amoroso só agora, através dessa penosa vivência, podemos reconhecer…

Olá, pessoal!

Reitero convite que fiz aqui aos alunos que já foram aprovados em Psicanálise I e II. A partir do dia 05/03/13, começo um grupo de estudos sobre o ciúme masculino. Também é sobre esse tema as 5 bolsas de iniciação científica voluntária que estou pedindo. Aos interessados:

O programa do grupo de estudos: http://www.fabiobelo.com.br/wp-content/disciplinas/grupodeestudosciume.pdf

E o projeto de pesquisa: http://www.fabiobelo.com.br/wp-content/pesquisa/projetociumenet.pdf

Fiquem à vontade para comparecer à sala 3003, na Fafich/UFMG, nessa terça, dia 5/3/13, para o primeiro encontro do grupo.

Numa análise, uma das coisas mais importantes que o neurótico obsessivo pode atingir é o reconhecimento de sua impotência. De maneira geral, o obsessivo é aquele que acredita tudo-poder, tudo-saber. Sua obsessão por organizar o mundo, dar sentido fixo às coisas, é sinal dessa onipotência de várias faces.

Giorgio Agamben recupera de forma exemplar a teoria da potência de Aristóteles para nos ensinar que só sabemos efetivamente de nossa potência quando podemos, efetivamente, poder não fazer. O exemplo é simples: o fogo pode apenas queimar. Ele não pode não poder queimar. Assim também é com a maior parte dos animais: podem apenas fazer o que determina sua potência particular: uma formiga não pode não-poder-fazer seus buracos na terra…

Nulla rende tanto poveri e cosí poco liberi come questa estraniazione dell’impotenza. Colui che è separato da ciò che può fare, può, tuttavia, ancora resistere, può ancora non fare. Colui che è separato dalla propria impotenza perde invece, innanzitutto, la capacità di resistere. E como è soltanto la bruciante consapevolezza di ciò che non possiamo essere a garantire la verità di ciò che siamo, cosí è solo la lucida visione di ciò che non possiamo o possiamo non fare a dar consistenza al nostro agire. (Nudità, p. 69-70)

Traduzindo, rapidamente: nada torna tão pobre e tão pouco livre como esse desconhecimento da impotência. Aquele que é separado daquilo que pode fazer, pode, entretanto, ainda resistir, pode ainda não fazer. Aquele que é separado da própria impotência perde, por sua vez, antes de tudo, a capacidade de resistir. E como é apenas o irritante [incendiário...] reconhecimento daquilo que não podemos ser que garante a verdade do que somos, também é só a lúcida visão daquilo que não podemos ou podemos não fazer a que dá consistência ao nosso agir.

Ora, o que Agamben, via Aristóteles, está tentando demonstrar é que alguém compelido ao fazer, que não consegue se distanciar do que faz, é pobre em liberdade. Nossa liberdade é sempre marcada por esse negativo de não poder fazer. Isso é como eleger Bartleby como um modelo literário dessa liberdade: preferir não fazer, como faz o personagem de Melville, é o início de toda liberdade possível. Na neurose obsessiva, preferir não fazer, finalmente, poder não-poder, é uma libertação.

Obviamente, não se trata de ir até onde Bartleby foi. Poder inclusive não-poder viver… A literatura, mais uma vez, mostra o que está em jogo, de forma muito radical: a vida, como um todo, é determinada por esse distanciamento de nossa potência. Reconhecer essa impotência, poder não fazer, vale para todas as tarefas da vida, inclusive para o próprio viver.

A compulsão do obsessivo – “ter que fazer”, “não poder não fazer” – acaba por transformar a pulsão num tipo de instinto. Aquilo que caracteriza a liberdade pulsional – poder ser e fazer sempre mantida a possibilidade de poder não ser e não fazer – é recusado pelo obsessivo. Ao longo de seu processo analítico, o que se busca é justamente um pouco mais de espaço para o reconhecimento dessa impotência que se confunde com a liberdade.

A liberdade pulsional, no limite, autoriza a plena contingência do que somos e fazemos. Humanos podemos matar crianças e adotar bebês na mesma proporção. Podemos fazer arte e guerra: ao mesmo tempo… Podemos prolongar a vida ou simplesmente suspendê-la. Pensemos na morte que desejamos e na que desejamos evitar.

Não seria também, no fundo, contra um terrível desejo de morte, que tudo desorganiza e confunde, que o obsessivo luta? Não seria por esse motivo sua compulsão a controlar a vida, no sentido de manter a vida viva, mais que vivê-la, de forma menos onipotente? O obsessivo é um Bartleby que luta contra esse desejo final de poder não ter que viver.

Lição expandida para todos: a vida que temos não tem que ser vivida necessariamente. Se esse pensamento, inevitavelmente, traz a sombra terrível do auto-extermínio, precisamos dele, no entanto, para mudarmos de vida, escolher outros caminhos. E só conseguimos mudar quando conseguimos reconhecer que não precisamos, que não somos obrigados, a continuar a viver como vivemos. Que há sim possibilidades – duramente conquistadas, fruto de muita elaboração psíquica – de poder não fazer, de poder não viver algumas formas de vida e de se autorizar, também no limite, a poder não saber o que nos espera.