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Já escrevi uma resenha desse livro que acaba de ganhar sua segunda edição – agora digital. Quero, no entanto, voltar a recomendá-lo aqui. Lúcio Marzagão consegue algo notável nesse romance. Ele nos transporta aos últimos momentos de vida de Freud, momentos de dor intensa, de sofrimento, mas ainda de reflexão, de paixão pela psicanálise. De forma ficcional, mas a partir de um imenso trabalho de pesquisa sobre esses últimos anos de Freud, Lúcio nos dá um panorama que vale apreciar com cautela. Aprendemos muito sobre psicanálise ouvindo esse Freud ficcional, mas que respeita profundamente o pensamento do inventor da psicanálise.

À venda na Amazon, em formato digital.

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A Psicanálise do Olhar

Tive a sorte, há já 10 anos atrás, de ser professor de Liliane Camargos. Professor substituto, ainda muito inexperiente. Eis que essa aluna me impõe uma tarefa: “professor, não posso enxergar direito o que você escreve no quadro. Me diga aí o que o você está fazendo”. Eu, que gosto tanto de escrever no quadro, de fazer esquemas… como traduzir isso? Pois, tive que aprender a ver diferente. Aprender a olhar com outros olhos.

Passou o tempo, Liliane escreveu essa pérola em forma de dissertação de mestrado, na UFMG. Tive a honra de escrever o prefácio desse texto que sai hoje em formato digital.

O leitor interessado na psicanálise do olhar, a pulsão escópica, o ver e o ser visto, tem aqui uma obra de referência. Como disse no prefácio, sinto que a teoria psicanalítica se moveu aqui. Desses movimentos teóricos onde a crítica ao texto é a um só tempo desconstrução e renovação. Algo raro e precioso. Se Liliane me ensinou a pensar no olhar diferente na prática, nesse livro, ela dá uma aula sobre como pensá-lo a partir da psicanálise.

O livro está à venda, em formato digital, na Amazon, com preço muito acessível. Confiram e divulguem esse trabalho. Merece mesmo.

Se você quer o livro impresso, ele está à venda na Livraria da Travessa.

Fazia supervisão clínica com o Prof. Lúcio Marzagão quando ele me convidou para escrever um livro em co-autoria. Na época, fazia mestrado sob orientação do Prof. Paulo de Carvalho Ribeiro. A ideia inicial era fazer interpretações literárias – sob a forma de literatura – de contos consagrados; a interpretação propriamente psicanalítica; e um glossário com conceitos básicos de psicanálise. Dessa forma, Lúcio selecionou seis contos:

  • O Relógio de Ouro, de Machado de Assis.
  • A Caolha, de Júlia Lopes de Almeida.
  • O Homem que Precisava ter Ciúmes, de Menotti Del Pichia.
  • A Mulher que Passou, de Guido de Verona.
  • O Barril de Amontillado, de Edgar Alan Poe.
  • Duas Mães, de Miguel de Unamuno.

Todos os contos estão presentes na íntegra na primeira e nessa segunda edição do livro.

O trabalho, ao longo de 1999 e 2001, rendeu boas conversas entre os autores. Lúcio fez os textos literários, Paulo as interpretações psicanalíticas que se seguem a cada um desses contos e eu pelo glossário de conceitos que serve de Apêndice ao livro.

Sobre esse pequeno dicionário, há algo curioso. Fiz várias entrevistas com Lúcio e as gravava em fica cassete. Foram mais de 30 fitas de 1h30 cada… Quis dar ao vocabulário o tom informal que Lúcio tanto preza. De toda forma, ele me pedia para “academicizar” mais o texto, o que tentei fazer também.

Quanto aos textos do Prof. Paulo César, produziam-me os mesmos intensos sentimentos despertados em suas aulas e na orientação de mestrado. Sentia que a psicanálise era ensinada por ele com o mesmo vigor radical dos textos de Freud. Há nos textos de Paulo algo da ordem de um desnudamento do inconsciente, da revelação do sexual, raramente visto nos textos de psicanálise. Desde o período no mestrado, mas também ao longo de todos esses anos nos quais venho acompanhando o trabalho do Prof. Paulo, tento seguir seus passos nessa tarefa copernicana, teorica e clinicamente.

Os textos de Lúcio são também inspiradores. Ele faz os personagens dos contos ganharem uma sobrevida… Voltam para continuar a história… Outras perspectivas se descortinam. Se os textos de Paulo causam-me a sensação de retirada dos véus, os de Lúcio me dão a impressão de sutileza… É como se um véu fosse colocado sob um ponto para o qual gostaríamos de chamar mais a atenção. Não revela, mas releva, revira. Dos preciosos anos de supervisão clínica que tive com Lúcio, essa foi uma das lições mais importantes que guardei. Pra revelar algumas coisas da ordem do inconsciente, é preciso sutileza e invenção poética. Através do Prof. Lúcio aprendi a amar o pragmatismo, essa filosofia que ensina a importância de redescrever as coisas, pensar em outros modos de dizer.

A primeira edição, de 2001, esgotou-se rapidamente. Finalmente, onze anos depois, com a facilidade da edição digital, decidimos reeditá-lo. Discutimos bastante se iríamos ou não corrigir alguma coisa no texto para além da revisão ortográfica ou mais técnica. Reli o vocabulário e senti vontade de mexer em várias coisas: ampliar, tirar, corrigir. Na verdade, isso redundaria em escrever um novo livro. É óbvio que um percurso intelectual de 11 anos produz mudanças. Seria trágico se não fosse assim. Enfim, decidimos por deixar como veio à luz o livrinho. E combinamos, claro, de escrever mais livros para dirimir o desejo de dizer novas coisas, redescrever o que dissemos, revelar de outros modos, o que tentamos nesses textos.

Na época e ainda hoje me sinto privilegiado de ter participado desse projeto. Sou imensamente grato aos dois professores pelo acolhimento nesse e em outros projetos conjuntos.

Então, fica o convite a todos para conversarmos sobre esse livro. Agora, no formato digital, espero que ele possa alçar voos mais amplos e alcançar mais leitores, mais pessoas dispostas à interlocução entre a psicanálise e a literatura.

O livro em formato digital está à venda na Amazon.

Se você quiser o livro em formato impresso, ele pode ser solicitado na Livraria da Travessa.

Em tempo: parabéns à editora, Noga Sklar, que fez um trabalho muito bacana e tem uma política de preços acessíveis. Acredito e apoio essa ideia. Que a KBR também alce alto voo!

Amizade na trilha do saber

Terminou a IX Jornada de Direito e Psicanálise, da Faculdade de Direito, da UFPR. Como sempre, a experiência para mim foi mais que enriquecedora. Além da excepcional qualidade dos trabalhos apresentados, da troca de ideias, o próprio projeto é fascinante. Propor a muitos que se leia o mesmo texto revela o tanto que o texto não existe, ele é pretexto para encontros de leituras possíveis. A amizade que daqui decorre é o desejo de que sua leitura nunca seja a única, nunca seja solitária. A amizade é uma forma de autorizar o olhar do outro. É perguntar, vendo: o que você vê? Admitir sua própria insuficiência. Não para ser preenchido pelo outro, pois este também é tão insuficiente quanto você. É pra criar um espaço no meio. Nem eu, nem outro, melhor: eu e outro. Amizade é a força desse entre-lugar.

Sentimos falta do humor do Cyro dessa vez. Suas provocações – pelo menos o entre-lugar que se forma entre eu e Cyro, para mim, é esse: o da provocação. Toda sua irreverência: menos, menos, menos. Menos texto, menos citações… mais sujeito autorizado a dizer em seu próprio nome. O motivo que o afastou de nós nesse ano, sabemos, o corpo e sua intransigência, corpo do outro que seja, exige mesmo distâncias. Mas seu texto veio. E nos emocionou a todos. Todos torcemos muito para o melhor, Cyro, para o mais suave.

A foto de Eduardo Dias Gontijo é tão ilustrativa disso que encontro nesse grupo. A paisagem sertaneja, algo inóspita, algo pobre das marcas civilizatórias, contrasta com a riquíssima força de um abraço a três. Vão juntas as crianças, não se sabe para onde. Parecem estar se divertindo bem nesse abraço. Talvez até tropiquem umas nas outras. Que importa? Essa é a graça.

Obrigado ao Jacinto – buon giorno, rifriggerio! – pela iniciativa, por estar nos abraçando nessa caminhada tão bacana.

Aos meus colegas, deixo aqui o link – desejo de link – para o meu texto sobre o Grande Sertão: “Do desejo de vingança à capacidade de perdoar: julgamento e psicanálise”.

Recentemente, vi duas metáforas do amor. A primeira compara uma moça a um livro aberto que lamenta sempre encontrar em seu caminho amantes analfabetos:

Amantes Analfatbetos

Tal imagem não me parece interessante, pois pressupõe que teremos sempre alguém que saberá nos ler “adequadamente”. Nesse sentido, sempre poderemos culpar o outro por uma leitura equivocada. Sempre poderemos alegar que temos acesso privilegiado ao texto, afinal, o texto é nós mesmos. Essa metáfora não é interessante pois coloca o sujeito permanentemente numa posição passiva. A mulher – no desenho – é sempre passiva e sempre precisará de um outro para existir. É claro que a metáfora da leitura como um todo seria bem importante para a psicanálise. No entanto, apenas se cada um fosse leitor e livro um do outro. Não é possível ocupar uma posição apenas nesse jogo.

Metáfora mais interessante a meu ver é proposta numa obra chamada “marcas/máculas do tempo”, de Ruby Chishti:

Blemishes of Time IV - Ruby Chishti

Observem como a artista coloca os sujeitos em igualdade. Os dois têm sua cumbuquinha e os dois suas torneirinhas. O título da obra talvez brinque com uma ambiguidade: blemish pode ser marcar e também macular. Os dois amantes, então, poderiam tirar as marcas e as sujeiras um do outro. Observem como nessa metáfora a passividade deixou de ser um ponto fundamental. É claro que ela pode aparecer: um amante pode recusar usar sua cumbuca e acreditar que apenas ele deve ser “lavado”…

A partir de Laplanche, sabemos, o amor é a reabertura da situação originária. A passividade sempre estará em cena. Isso não quer dizer que tenhamos que nos colar a essa posição. É possível acolher algo da passividade sem estar completamente submetido a ela.

Segundo vi nos jornais, a atriz Carolina Dieckmann teve suas fotos roubadas e divulgadas na internet. Nas fotos, a atriz aparece nua e em poses sensuais. Muito já foi dito e escrito sobre o evento. Dois grandes grupos de textos podem ser percebidos: o primeiro acusa Dieckmann de narcisismo ou de falta de bom senso; o segundo ataca os criminosos que divulgaram as fotos sem permissão. Faço parte do segundo grupo e acho muito importante criticar o primeiro grupo.

Por que alguém diante de um crime tão lesivo à nossa comunidade moral – uma comunidade que defende ferozmente o direito à privacidade, à liberdade sexual e à liberdade de expressão individual – suscita em seus membros uma reação tão moralista? Por que se coloca em debate o suposto narcisismo de Dieckmann e se escamoteia o crime de expor sem permissão parte da vida íntima de alguém? O que se deseja ao obnubilar a perversão da invasão em prol de tornar perversa uma prática particular? Vamos por partes.

Em primeiro lugar, as práticas sexuais privadas não dizem respeito à comunidade moral, não devem e nem precisam ser aprovadas por ninguém e nem devem ser julgadas a priori. Demoramos alguns séculos para construir a liberdade civil: nenhuma igreja, nenhum estado, nenhum grupo político pode proibir o sujeito de fazer o que quiser fazer, desde que este não machuque ninguém. Dieckmann não fere o direito de ninguém ao se fotografar nua, nem expõe sua nudez a pessoas que não querem vê-la. Ela apenas faz algo que provavelmente lhe dá prazer. E ninguém tem nada a ver com isso. Julgá-la, seja chamando-a de narcisista ou retirando-lhe o bom senso, é inverter o vetor da justiça que o caso exige.

Não está mais próximo da psicanálise a ideia de que devemos lutar para tornar menos relevante o julgamento moralista sobre tais práticas na esfera pública? A psicanálise não deve treinar nosso olhar a fazer mais visível a traquinagem do sujeito que fere um direito civil fundamental do que um suposto narcisismo a ser punido? Não estamos diante do famoso e trágico exemplo de culpar a vítima do estupro, pois ela usava uma mini-saia provocativa? As proporções são diferentes, mas entendam a lógica do julgamento: moças devem ter bom senso ou serem menos narcisistas… afinal, “se se expõem desse jeito, podem ser expostas de qualquer forma”…

Nesse caso e em outros nos quais a quebra de privacidade é feita em nome da suposta perversão da vítima o que temos é o que se pode chamar de perversão legitimada, uma dobra cínica da lei, por assim dizer, que apaga seu caráter sádico em nome de uma pedagogia exemplar. Lembremos: a ideia do castigo público não serve apenas para dissuadir o povo a cometer crimes. Essa é a superfície da lógica punitiva. O que está em questão é a excitação provocada pela cena da punição, tanto nos seus algozes-didatas quanto nos alunos-vorazes-de-privacidade-roubada que podem também gozar tranquilamente: não estamos cometendo crime algum ao ver as fotos roubadas de alguém tão narcisista, afinal, ela foi narcisista e não teve o bom senso de tomar cuidado com suas práticas exibicionistas. Essa terrível lógica só pode ser cínica: tenta inverter completamente o sentido do crime. Criminaliza a prática individual de um prazer mais que legítimo em nossa cultura e descriminaliza o crime tornando-o ato de punição exemplar.

Pessoal, assim que começarem minhas atividades acadêmicas na UFMG, pretendo levar adiante dois projetos de pesquisa. O primeiro é sobre Laplanche e Winnicott e pode ser lido integralmente aqui: http://fabiobelo.com.br/wp-content/textos/projetonet.pdf

O segundo ainda é um esboço a partir do projeto que orientei na Milton Campos: http://fabiobelo.com.br/wp-content/textos/projetonetfoucault.pdf

O objetivo desse segundo projeto é pensar na psicanálise como um dispositivo de cuidado de si. Esses dispositivos são estudados por Foucault no curso Hermenêutica do Sujeito. Uma via para pensar na construção da subjetividade contemporânea é o diálogo com a literatura: pensar em como o sujeito tem sido construído ao sob o regime de governo liberal. Quem é o homo oeconomicus e qual o papel da psicanálise nessa construção? Qual a relação – as diferenças, os pontos de contato – da psicanálise com outras práticas, contemporâneas ou antigas, de cuidado de si? Qual o lugar da psicanálise na genealogia dessas práticas?

Convido a todos os possíveis interessados nesses diálogos à produção de textos, troca de ideias e construção de espaços públicos de discussão.

Das muitas micro estórias que há no Grande Sertão: Veredas, essa é uma das que eu mais gosto. (minha predileta ainda continua a de Maria Mutema). É ao mesmo tempo tão inocente e sádica essa estorinha. E a conclusão, à la koan chinês ou chiste freudiano, deixa a coisa com ar de parábola…
Seo Ornelas, nessa ocasião, tinha amizade com o delegado dr. Hilário, rapaz instruído social, de muita civilidade, mas variado em sabedoria de inventiva, e capaz duma conversação tão singela, que era uma simpatia com ele se tratar. – “Me ensinou um
meio-mil de coisas… A coragem dele era muito gentil e preguiçosa… Sempre só depois do final acontecido era que a gente reconhecia como ele tinha sido homem no acontecer…” Ao que, numa tarde, seo Ornelas – segundo seu contar – proseava nas entradas da cidade, em roda com o dr. Hilário mais outros dois ou três senhores, e o soldado ordenança, que à paisana estava. De repente, veio vindo um homem, viajor. Um capiau a pé, sem assinalamento nenhum, e que tinha um pau comprido num ombro: com um saco quase vazio pendurado da ponta do pau. – “… Semelhasse que esse homem devia de estar chegando da Queimada Grande, ou da Sambaíba. Nele não se via fama de crime nem vontade de proezas. Sendo que mesmo a miseriazinha dele era trivial no bem-composta…” Seo Ornelas departia pouco em descrições: – “…Aí, pois, apareceu aquele homenzém, com o saco mal-cheio estabeleci do na ponta do pau, do ombro, e se aproximou para os da roda, suplicou informação: – O qual é que é, aqui, mó que pergunte, por osséquio, o senhor doutor delegado?-ele extorquiu. Mas, antes que um outro desse resposta, o dr. Hilário mesmo indicou um Aduarte Antoniano, que estava lá – o sujeito mau, agarrado na ganância e falado de
ser muito traiçoeiro. – O doutor é este, amigo… – o dr. Hilário, para se rir, falsificou. Apre, ei – e nisso já o homem, com insensata rapidez, desempecilhou o pau do saco, e desceu o dito na cabeça do Aduarte Antoniano – que nem fizesse questão de aleijar ou matar… A trapalhada: o homenzinho logo sojigado preso, e o Aduarte Antoniano socorrido, com o melor e sangue num quebrado na cabeça, mas sem a gravidade maior. Ante o que, o dr. Hilário, apreciador dos exemplos, só me disse: – Pouco se vive, e muito se vê… Reperguntei qual era o mote. – Um outro pode ser a gente; mas a gente não pode ser um outro, nem convém… – o dr. Hilário completou. Acho que esta foi uma das passagens mais instrutivas e divertidas que em até hoje eu presenciei…” (GSV, 657, negrito meu)
Minha interpretação: se vc está no lugar do poder, nunca se identifique, nunca se explicite, dirija o olhar do outro para uma outra cena, um outro lugar. Faça-o procurar a chave que perdeu do outro lado da rua, debaixo do poste, porque ali está claro… O dr. “Hilário” ensina bem: para se defender, não é o caso de se passar por outro, melhor fazer o outro ocupar nosso lugar.

“Nem todo mundo acredita na monogamia, mas todos vivem como se acreditassem. Todos têm consciência de estar mentindo ou querendo dizer a verdade quando estão em jogo a verdade e a lealdade ou a fidelidade. Todos se consideram a si mesmos traidores ou traídos. Todos sentem ciúmes ou se sentem culpado, e sofrem a angústia de suas preferências. E os poucos felizardos que aparentemente sofrem de ciúmes sexuais estão sempre ou se mostrando intrigado com isso ou se vangloriando do privilégio. Ninguém jamais foi excluído da sensação de ter sido deixado de fora. E todos vivem com a obsessão daquilo que foram excluídos. Noutras palavras: acreditar na monogamia não diferente de acreditar em Deus.” (Adam Phillips. Monogamia. Trad. Carlos Sussekind. São Paulo: Cia. Das Letras, 1997: 1, ênfase minha).

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De um ponto de vista que se pode chamar “senso-comum-darwinista” podemos elaborar no mínimo duas ideias centrais em torno da monogamia. A primeira diz respeito à espécie: é óbvio que a monogamia é contraproducente para animais como nós. Precisamos do máximo de variação genética para que tenhamos mais chance de transmitir algo de nossa própria carga genética. Isso vale para os homens e para as mulheres: quanto mais parceiros tivermos ao longo da vida, maior a variação genética, mais protegidos estarão nossos bebês. Poderíamos perder um ou dois para a gripe, mas não todos. Poligamia, desse ponto de vista, é um requisito à autoconservação do maior número possível de bebês diante das contingências ambientais.

Esse mesmo senso-comum-darwinista, agora pensando no indivíduo, pode nos informar com segurança: nosso esforço em direção à monogamia se dá devido às marcas deixadas por nosso estado pré-maturo. Nossa intensa ligação com a mãe ou com alguns poucos adultos que cuidaram – também como questão de vida ou morte – de nós, acaba por nos fazer erigir um modelo amoroso que tentamos repetir o resto da vida. Penso em fenômenos concretos aqui: redes neuronais que se formam nesse período, estabelecimento de padrões comportamentais etc.

Duas forças em sentidos opostos, portanto, a partir desse senso-comum-darwinista. Mesmo que o primeiro pareça ser bem mais forte, estaremos sempre às voltas com o segundo. Queremos diversidade, mas com as garantias da segurança.

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De um ponto de vista psicanalítico, acredito que as fantasias que sustentam a monogamia giram em torno da situação originária. Situação na qual o bebê depende de forma radical do outro – geralmente a mãe. Estabelece-se esse padrão amoroso: o outro deve me amar exclusivamente, pois se não o fizer corro o risco de morrer.

O ciúme talvez seja, inicialmente, uma forma de protesto desse tipo: “Como você ousa desejar outrem sabendo que isso me condenaria à morte?”. Há algo de narcísico, de ameaça ao narcisismo, nos ciúmes. Algo secundário que poderia se enunciar assim: “o que o outro tem que eu não tenho?” ou “o que falta em mim para você procurar no outro?”. A relação com a inveja – como bem explica Melanie Klein – parece inevitável aqui. O eu do ciumento – o mártir da monogamia – é profundamente afetado pela inveja. Ele está sempre desconfiado de que o terceiro irá tomar o seu amor, pois ele sempre suspeita de que não tem o suficiente para oferecer.

Mas quem, nas origens, tinha o suficiente a oferecer para a mãe? Nesse sentido, quase delirante, de que o supostamente teríamos faria com que ela fosse exclusivamente nossa, que a fizesse não desgrudar seu desejo de nós? Ter todo esse “charme” também não nos condenaria a uma prisão eterna no desejo materno? E se a monogamia fosse esse desejo, de ser possuído – muito mais que possuir – pela mãe para sempre? De, para retomar a citação de Phillips acima, nunca ter sido excluído?

Essa ligação do narcisismo e o ciúme não pode começar do lado da mãe também? Não apenas o bebê e sua onipotência de não aceitar ser rejeitado, mas também, talvez alimentando e implantando essa onipotência, a identificação da mãe com seu bebê. No sentido indicado por Nietzsche:

Uma espécie de ciúme. – É fácil as mães sentirem ciúme dos amigos de seus filhos, quando eles têm sucesso extraordinário. Habitualmente a mãe ama, em seu filho, mais a si mesma do que ao próprio filho.” (Nietzsche, F. Humano, Demasiado Humano: um livro para espíritos livres. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Cia. das Letras, 385).

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Para além do senso-comum-darwinista: a impressão que tenho é que a biologia é convocada muito mais pelos poligâmicos. Na mesma proporção que a religião é álibi inquestionável da monogamia. Cabe pensar no caráter fantasístico dessas teorias. A suspeita psicanalítica – também de Nietzsche e Foucault – com relação às teorias que tendem ao universal, ao absoluto e a uma recusa do contingencial parece, no entanto, ameaçar muito mais a monogamia do que as relações amorosas sem exigência de exclusividade.

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Por que tendemos a colocar D. Juan ou Carmen do lado da perversão e não “Amélia” (a dona de casa, fiel à casa, ao marido e aos filhos) ou Charles (o marido apaixonado de Mme. Bovary)? Os quatro, cada um a sua maneira, não estão escolhendo como desejar de forma singular? Ser fiel é tão singular quanto não desejar pactos monogâmicos. A diferença está, parece, no que endereçamos ao outro. A perversão residiria na proporção da diferença entre (a) o pacto que dissemos estar cumprindo com o outro e (b) o efetivo cumprimento desse pacto anunciado e assinado com o outro? Mas quantos pactos podemos estabelecer com o outro, quantos tem a marca da fidelidade? Por que temos a impressão de que tão logo descumprimos um desses, estaremos descumprindo todos? A fidelidade, ela mesma, exige fidelidade e exclusividade a ela mesma. Essa lógica do “tudo ou nada” erigida pela monogamia, uma lei tão severa, um pacto tão avesso ao perdão e ao matiz, não poderia estar também do lado da perversão?

As mútuas agressões e vilipêndios entre monogâmicos e poligâmicos são instrutivas nesse respeito. As acusações, de um lado e de outro, tendem a ver o outro como “deficitário” de algo. Os primeiros veem os segundos como “fóbicos ao amor”. No sentido inverso, os poligâmicos acusam os monogâmicos de “fóbicos ao desejo”.

O que nos ensinam esses personagens da literatura, esses estereótipos? Charles é tedioso e tolo. E D. Quixote atrás de Dulcinéia? Romeu e Julieta? Já as adúlteras… Emma Bovary ou Anna Karenina não me parecem exatamente em busca de um amor livre da mesma forma que Carmen. As duas ainda querem uma monogamia com “mais desejo”… Carmen e D. Juan temem o casamento como verdadeiro assassinato do desejo…

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E todos vivem com a obsessão daquilo que foram excluídos: uma forma de se lidar com o trauma é repetindo-o. Na posição passiva ou ativa. O poligâmico pode pensar assim: “Não fui o excluído. Eu excluo. Eu seduzo e tão logo vejo que o outro me ama, dispenso-o. Agora sou eu quem está na posição ativa.”

Pensemos ainda no que há de repetição da passividade nessa cena de exclusão quando alguns de nós reiteradamente provocamos nossas rupturas amorosas. Quando realmente, o outro rompe o pacto amoroso porque efetivamente o estávamos colocando na posição materna. O sujeito vai sofrer seu abandono repetidas vezes.

O viés moralista da teoria psicanalítica aqui tem que ser alvo de suspeita também. Pessoas que querem ter relações amorosas mais “liquidas” ou mais numerosas ao mesmo tempo não são necessariamente compulsivas. Aliás, a configuração monogâmica tem tudo para ser compulsiva, não?

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Não há biologia e nem moral universal que sustente nossa aphrodisia. Nossas práticas amorosas vão ter que ser pensadas no caso a caso. Essa reflexão começa sempre com a suspeita de que não somos totalmente fieis ao nosso próprio desejo, afinal, ele não é propriamente nosso…

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Casamento estável – Um casamento no qual cada um quer alcançar um objetivo individual através do outro se conserva bem; por exemplo, quando a mulher quer se tornar famosa através do homem, e o homem quer se tornar amado através da mulher.” (Nietzsche, F. Humano, Demasiado Humano: um livro para espíritos livres. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Cia. das Letras, 399).

A monogamia, percebe-se, pode ser cada vez mais estável quanto mais mono for. Na mesma direção caminha o conselho do filósofo:

A unidade de lugar e o drama. – Se os cônjuges não morassem juntos, os bons casamentos seriam mais comuns.” (Nietzsche, F. Humano, Demasiado Humano: um livro para espíritos livres. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Cia. das Letras, 393).

Quanto mais bem separados estiverem, maiores as chances de um casal estar junto. Talvez por que essa separação seja também uma forma de não depositar nossas fantasias no outro, nossas expectativas. Outra face do narcisismo no amor, portanto: quanto mais vivemos através do outro, menor a chance de viver bem com o outro.

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No texto “A fidelidade feminina é imperdoável”, Paulo César de Carvalho Ribeiro analisa o conto “O homem que precisava ter ciúmes”, de Menotti del Picchia.

Não se pode desprezar, nos dizem o conto e a análise, um evento psíquico notável: muitos sujeitos buscam ter ciúmes. Mais ou menos consciente, o ciúme é buscado, intensificado. Imaginar o outro com um terceiro é muitas vezes uma fantasia profundamente excitante. Claro, na maior parte das vezes, essa excitação vem misturada com forte angústia.

Freud já nos falou disso no caso Schreber: eu, um homem, identificado com minha mulher, quero sentir o que ela sente ao ser penetrada. Por não aceitar essa identificação, projeto nela meu desejo de ser penetrado e tenho ciúmes. A identificação com a mulher, com o feminino, com a passividade é uma fonte importante nos ciúmes masculinos.

A princípio, não me parece simplesmente uma questão de inverter vetores aqui para se compreender os ciúmes na mulher. De qualquer forma, eis uma lógica possível: eu, uma mulher, identificada com um homem, quero penetrar ativamente uma mulher. Como também me angustio diante dessa cena, projeto no meu homem o desejo que é meu.

De qualquer forma, é fundamental deixar sobre a mesa esse fato: a monogamia muitas vezes se sustenta através da fantasia da traição. Não apenas fantasia: é possível imaginar relações estáveis exatamente por não serem monogâmicas. O objeto produzindo excitação justamente por permitir essa projeção de nossos desejos inconscientes ligados às identificações de gênero. Devemos suspeitar da angústia gerada por essa projeção, pois ela é também fonte de excitação.

Mais uma vez, Nietzsche ajuda aqui: “Amar e ter. – Em geral, as mulheres amam um homem de valor como se o quisessem ter apenas para si. Bem gostariam de trancá-lo a sete chaves, se isto não contrariasse a sua vaidade: pois esta requer que a importância dele seja evidente também para os outros.” (Nietzsche, F. Humano, Demasiado Humano: um livro para espíritos livres. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Cia. das Letras, 401).

Existe uma cota considerável na manutenção da monogamia a ser atribuída ao sujeito que incita o terceiro a amar seu objeto de amor. Assim como os religiosos tentam convencer os outros que o seu deus é melhor que o dos outros.

(A análise e o conto de del Pichia está no livro Psicanálise e Literatura: seis contos da era de Freud. Que em breve será reedito pela KBR. Coloco o link aqui em breve!)

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De um ponto de vista mais sociológico, pensem no papel que a prostituição exerce para a manutenção da monogamia. Nietzsche sugere que o casamento requer um “auxílio natural, o do concubinato“. O argumento é obviamente machista e biologizante. O que quero fazer notar é uma certa lógica: “Todas as instituições humanas, como o casamento, permitem apenas um grau moderado de idealização prática, de outro modo remédios grosseiros se fazem necessários.” (Nietzsche, F. Humano, Demasiado Humano: um livro para espíritos livres. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Cia. das Letras, 424).

Uma passagem de Gilberto Freyre, que não canso de citar, também explicita a mesma lógica:

“Foram os corpos das negras – às vezes meninas de dez anos – que constituíram, na arquitetura moral do patriarcalismo brasileiro, o bloco formidável que defendeu dos ataques e afoitezas dos don-juans a virtude das senhoras brancas. (…) a virtude da senhora branca apóia-se em grande parte na prostituição da escrava negra.” (Freyre, Gilberto (2001/1933). Casa-grande & senzala: introdução à história da sociedade patriarcal no Brasil I. 45.ed. São Paulo: Record, 501).

Que essa “outra sexualidade”, o “remédio grosseiro”, possa estar mais na fantasia ou mais no real, é um ponto. Mas, o que interessa aqui é mostrar que a monogamia como instituição social é também garantida por uma outra sexualidade, mantida por assim dizer “no inconsciente”, à margem, do social.

Em primeiro lugar, gostaria de agradecer por todo o carinho que recebi em Maringá. As questões levantadas em torno do meu texto sobre a paraskeuê e o Reizschutz foram excelentes e vão ainda me fazer trabalhar um bocado!

Muitos não puderam adquirir meu livro Sobre o Amor e Outros Ensaios de Psicanálise e Pragmatismo. Há duas opções agora. A primeira é comprar na Livraria Ouvidor Savassi, único ponto de venda do livro: http://www.livrariaouvidor.com.br/

A segunda opção é mandar um e-mail para minha afilhada, Paulyne Ortlieb: paulyneortlieb@gmail.com.

Nesse segundo caso, aqueles que desejarem dedicatória, podem fazer o pedido, com o nome a ser endereçado o autógrafo. Sinto-me honrado com o pedido de algumas pessoas nesse sentido.

Paulyne se encarregará de passar o número da conta dela na Caixa Econômica Federal e de postar o livro pelo correio o quanto antes. O valor do livro mais as taxas de postagem: R$35,00 (trinta e cinco reais).

Mais uma vez, obrigado a todos os colegas de Maringá pelo carinho e pela calorosa recepção. Estou à disposição para conversar e trocar ideias não apenas sobre o texto apresentado hoje (17/04/2012), mas também sobre os presentes no meu livro e no meu site. Para isso, temos o meu e-mail (fabiobelo76@gmail.com) e também minha página no facebook: https://www.facebook.com/fabiobelo76. Utilizo essa rede social apenas para fins profissionais, logo, aqueles que querem ter informações sobre palestras e outros temas de psicanálise, podem “assinar” ou solicitar “amizade”.