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golppista

 

Patricia Highsmith, num dos livros dedicado ao seu personagem mais famoso, desenha o que me parece ser uma das fantasias fundamentais da perversão. Ripley, o personagem, quer mostrar que todos nós somos perversos; que todos temos desejos macabros e inconfessáveis; que não há relação amorosa verdadeira, mas apenas interesse egoísta, abuso e alienação. O perverso tem horror à intimidade e acredita que a confiança é apenas um tipo de ingenuidade exagerada.

O desenho feito por Highsmith pode ser visto didaticamente no documentário “O Golpista do Tinder” (The Tinder Swindler), a partir das armações de Shimon Hayut ou Lev Leviev (muitos nomes, para múltiplos golpes). Leviev conhece mulheres no Tinder. Ele se apresenta como agente secreto do exército israelense ou como um bilionário do ramo dos diamantes. Seduz com viagens, presentes e muito, muito romantismo gentil e dedicado. Quando suas vítimas estão plenamente apaixonadas, ele começa a mirabolar histórias: perseguições, tentativas de assassinato e, principalmente, a impossibilidade de usar seus cartões de crédito. Ora, por que não emprestar alguns milhares de dólares para alguém que já te mostrou ter milhões? Que te levou para passear em seu avião particular e para jantar nos hotéis mais caros da Europa? É uma questão de tempo e suas apaixonadas parceiras começam a se endividar de forma astronômica.

Pois bem, uma das primeiras reações, praticamente inevitável, é julgar e condenar a vítima. “O golpe tá aí, cai quem quer”: um lema recente do “jeitinho brasileiro”, uma das sociedades mais brutais e perversas do Ocidente. O elogio ao perverso – a inteligência, a frieza de Hayut – é diretamente proporcional à continuidade da violência contra as vítimas: quanta ingenuidade! É justamente aí, diante do automático, que devemos nos deter e desconfiar, fazendo dialogar a sociologia e a psicanálise: quem é que quer que pensemos isso? Por que interpretamos o mundo assim de maneira tão fácil?

Hayut é um criminoso. Ponto. Deixo aos juristas a nomeação específica: estelionato, roubo, dano moral… ele deve infligir vários artigos do código penal… Do ponto vista psicanalítico, interessa dizer que é um perverso, um criminoso que seduz para roubar e depois culpar a vítima. A reação que temos ao ver o filme ainda é parte da fantasia geral de Hayut: vejam como são ingênuas, vejam como são cegas… e, vejam, como não podemos confiar em ninguém. O desejo máximo do perverso, insisto, é implodir a confiança, rir da intimidade.

O cartaz que circula para a propaganda do filme – figura acima – reforça a imagem que o patriarcado perverso quer impor às vítimas: elas são tão estúpidas quanto peixes fisgadas pelo anzol. O ideal de riqueza representado pelo diamante também reforça o estereótipo praticamente indestrutível: somos todos interesseiros, egoístas. O capitalismo cria o ambiente perfeito para esse tipo de crime. Mais que nunca, dinheiro é libido.

Infelizmente, o documentário deixa esse gosto amargo: é preciso mesmo ensinar, desde cedo, a não confiar em ninguém. Registre tudo por escrito, guarde suas conversas no Whatsapp: isso pode dar um filme. Para não decretar a vitória do perverso, o mais importante é mostrar os matizes do encontro humano. Sim, o outro pode nos escravizar, explorar, abusar, violentar, enganar, trair… mas o outro também é fonte de alegria, amor, partilha, cuidado, solidariedade… O perverso fará de tudo para pintar o bem como mera ilusão, como transitória. O perverso ama idealizar uma tal natureza humana como, no fundo, imutável e instintiva: uns são peixe, outros pescadores. O perverso ama a metonímia, pegar um pedacinho da história humana e tratar como o todo, o verdadeiro. O excesso e a exceção são as cenas prediletas do perverso: o homem que trai, o assassino, o fascismo… tudo isso é prova incontestável da natureza humana e todos que neguem isso são apenas ingênuos que merecem ser enganados para deixar de ser bobo.

O filme, no entanto, acontece graças à solidariedade das vítimas expondo os crimes de Hayut. O que é espantoso, ao final, é ver que o trambiqueiro continua não apenas livre, mas riquíssimo e acompanhado por uma linda modelo israelense. Da mesma forma, é espantoso que as vítimas ainda continuem devendo milhares de dólares, se as autoridades sabem quem é o criminoso, com provas abundantes. O gosto amargo permanece: o crime compensa, afinal. E é o que temos vivido sob o capitalismo de forma geral: quanto mais rico, mais homem, mais branco, menos você será punido, não importa o que você faça. A perversão não é apenas a de um sujeito particular, mas também estrutural. Estrutura que favorece explicitamente alguns grupos em detrimento de outros.

Há ainda muito a se pensar sobre o caso. A mãe de Hayut aparece de forma brevíssima e parece odiar o filho: diz não ter nada a ver com ele e que ele mudou de nome. Nem sinal do pai. Esperemos que isso não traga de volta as teorias perigosas – e um tanto machistas – de que a perversão é a falta do nome do pai… Sejamos explícitos: o patriarcado e seu mito da mulher que encontra seu príncipe é o motor dessa história.

Sim, é preciso ter cuidado ao se conhecer alguém. O amor maduro tem a paciência como virtude. Conhecer o outro leva muito, muito tempo. Intimidade não se constrói imediatamente. Confiança é algo que se desenvolve aos poucos. E não estamos no campo da perversão se mantemos sempre o cuidado sobre os efeitos do desejo do outro sobre nós. Ora, o outro pode inclusive desejar coisas legítimas, sem violência, e isso não combinar com o que queremos para uma relação. Aprender a ouvir seus limites, o que te faz gozar com o outro, não é aceitar que não há amor… ao contrário: é mostrar que o amor é um trabalho, um tipo de brincar compartilhado muito sofisticado. E é claro que devemos aprender a ler os sinais do mal. O mal existe, o perverso existe, o sadismo, a violência, o desejo de explorar e matar: tudo isso existe. Ripley, Hayut e os perversos se recusam, no entanto, a acreditar que há defesas eficientes contra esses desejos infantis e perversos. O fato de tais desejos existirem em todos nós não significa que todos queiramos realizá-los, que gozemos com isso. Ao contrário: a maioria reivindica seus ganhos narcísicos a partir da renúncia à perversão infantil. A maioria parece reconhecer que é muito mais prazeroso e vivo cuidar e ser cuidado, proteger e ser protegido, amar e ser amado. Isso quer dizer que não devemos estar preparado para o aparecimento do pulsional, da sexualidade infantil – a nossa e a do outro? Ao contrário! Aceder a um amor mais maduro nos torna mais preparados para manejar as nossas perversões e as do outro quando elas aparecerem.