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O filme “Por que você não chora?”, dirigido por Cibele Amaral (2021), entra na estante dos indispensáveis para a formação em psicologia clínica. O filme narra a história do encontro entre uma paciente borderline e uma estagiária em psicologia. A princípio, o espectador é levado a crer que o filme será sobre o percurso errante da paciente borderline, aliás, interpretada de forma muito boa por Bárbara Paz. Sem dúvida, o espectador terá uma visão bem didática dos principais aspectos desse tipo de sofrimento psíquico e a extrema dificuldade no estabelecimento da relação terapêutica com a paciente. No entanto, o filme vai se desenrolando e nossa atenção se volta para Jéssica, a estagiária, em final de curso de Psicologia, interpretada de forma brilhante por Carolina Monte Rosa. A advertência da professora para que Jéssica fizesse análise ou acompanhamento terapêutico é um dos mantras que repetimos nas supervisões clínicas. Caso você queira atender alguém, cuidar de alguém, você deve, antes e prioritariamente, cuidar de você mesmo, submeter-se à análise e/ou à psicoterapia. Isso é indispensável, pois uma pressuposição básica da clínica é que o sujeito não pode conhecer-se a si mesmo sem o auxílio do outro. Somos dominados por nosso inconsciente e precisamos do outro para que ele nos aponte aquilo que não conseguimos – porque não desejamos e não toleramos – ver em nós mesmos. Não vou falar sobre o final do filme, mas a advertência ganhará todo seu valor no desfecho. Em que pese o caráter um tanto didático do filme, recomendo-o enfaticamente a todas as pessoas que querem trilhar o caminho da clínica.

 

chora