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CONTÉM SPOILER
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Fantasia é um circuito imaginário que visa circunscrever vivências traumáticas. A fantasia é um tipo de cicatriz, uma marca que obriga a lembrança a permanecer no mesmo lugar. A fantasia é um modo singular de se obter prazer e um modo particular de situar o outro nessa cena. A fantasia é a repetição, geralmente imaginária, de uma cena traumática. Sonhos, devaneios e delírios possuem a mesma lógica da fantasia.
Asger, Michael e Iben vivem, cada um a seu modo, o horror de ter atuado suas fantasias.
Durante a maior parte do filme, somos levados a acreditar na fantasia imediata diante da violência entre homens e mulheres: “um homem espanca uma mulher”. Tudo leva a crer nisso: os antecedentes de Michael, o choro e a descrição da cena de violência por parte de Mathilde, o choro de Iben… e, claro, os milhões de casos reais de violência contra a mulher.
Percebam o que o diretor Gustav Möller produz de forma magistral: veja como é fácil acreditar na fantasia. Realidade e fantasia não se distinguem assim tão facilmente!
Quando, finalmente, descobrimos que Iben é psicótica e matou seu bebê, tudo muda. O delírio de Iben – o bebê tinha cobras na barriga e ela as retirou para acalmá-lo – é atuado de forma trágica.
“Sequestra-se uma mulher; mata-se um bebê”: a fantasia do policial Asger era essa. Tudo se encaixava. Michael, o ex-marido, tinha antecedentes criminais. Aliás, o suposto crime autorizava uma outra fantasia, enunciada pelo próprio Asger: o criminoso deveria ser executado.
E é aqui que o filme ganha sua potência máxima. O delírio psicótico de Iben encontra-se com a fantasia neurótica de Asger. Descobrimos também praticamente nas cenas finais do filme que Asger irá a julgamento no dia seguinte por ter matado um jovem de 19 anos. Ele confessa a Iben que não o matou por legítima defesa – como mentira no primeiro depoimento. Asger matou porque desejava matar, porque imaginava que isso o livraria de algumas “cobras” internas. Obviamente, não se livrou.
A neurose é o negativo da perversão: essa é uma das teses mais importantes de Freud e sobre a importância da fantasia. Em resumo, o que se quer dizer com isso? É que o neurótico vai apenas fantasiar ali onde o perverso irá atuar. Um exemplo notável é justamente o assassinato: todos nós já fantasiamos matar alguém – pelos motivos mais variados, dos mais banais aos mais nobres… mas nem todos realizamos. De maneira geral, o desejo de matar é recalcado, mas sobrevive na fantasia: muitas vezes realizamos esse desejo de maneira disfarçada no sonho, no devaneio, no teatro, no brincar…
Na fantasia neurótica, preserva-se mais a distinção entre eu e outro, entre o meu desejo e o que o outro deseja. Quando caminhamos em direção à perversão e à psicose, essas distinções vão se apagando.
A atuação da fantasia perversa – o policial que mata (podendo efetivamente não matar) em nome da lei ou do combate ao crime – reduz o outro a um objeto específico: o outro é mau, precisa ser eliminado.
A atuação do delírio psicótico – a mãe que mata seu bebê para silenciá-lo porque ele tem “cobras dentro da barriga” – também é impor ao objeto um significado pessoal. A diferença aqui parece estar no tanto que a fantasia perversa é compartilhada e o tanto que o delírio psicótico é singular.
O filme “Culpa”, de Gustav Möller, é brilhante porque mistura esses três campos. A fantasia neurótica, a perversa e o delírio psicótico. É nessa mesma direção que Freud, já em 1907, em “Atos obsessivos, práticas religiosas”, aponta: a neurose religiosa protege o sujeito mandando para o inconsciente suas fantasias perversas… mas, de repente, aparece o religioso matando em nome de Deus, sendo homofóbico, racista… isso quando não segue adiante constrói um delírio religioso (lembremos que o caso Schreber é também um delírio com Deus).
Michael, Asger e Iben são criminosos e merecem, cada um, julgamento específico. O diretor, no entanto, parece desejar que vejamos o contexto social também. Os crimes de Michael são de menor monta, mas foram suficientes para que o campo jurídico o tratasse como monstro, retirando dele todo direito de convivência com os filhos. Iben, situada por esse mesmo campo como a boa mãe / mulher possivelmente agredida, acaba por arrancar as tripas de seu próprio bebê. O crime de Asger é também muito perverso se pensarmos no contexto: um policial não pode matar quando tem a chance de não matar, ele não pode julgar – crime que ele acaba cometendo mais uma vez ao tentar ajudar Iben – ele não pode torturar. Vejam: o campo jurídico e o Estado podem ser instrumentos de perversão assim como a religião. A princípio, os três servem para conter as perversões, mas nada garante que agirão assim.
A pobre Mathilde, filha de Iben e Michael, viu toda a cena de violência da mãe e depois a violência do pai levando a mãe à força para o hospital psiquiátrico. Mathilde ficou sozinha em casa com o corpo do pequeno Oliver aberto. Não é possível sequer imaginar o horror dessa cena. Mais uma vez, o roteiro do filme é brilhante ao destacar a força do imaginário, a potência da narrativa. Não aparece uma gota de sangue no filme… no entanto, é inevitável que o vejamos.
Recomendo muito esse filme para que possamos pensar com calma sobre esses conceitos psicanalíticos: fantasia e delírio; neurose, psicose e perversão. Pensar em como a culpa ou nosso desejo de justiça pode atuar como instrumento de perversão. Perversão, aliás, no limite, muito próxima da desobjetalização encontrada em algumas psicoses.
O que está no centro do filme é o corpo dilacerado do pequeno Oliver. É esta a fantasia inconsciente. É em resposta a essa fantasia que todo filme é montado. É para responder a uma fantasia de passividade radical que construímos nossas narrativas religiosas, jurídicas, morais, estéticas… Que essas narrativas, de repente, possam produzir exatamente aquilo que pretendiam evitar não é surpresa alguma. Afinal, quase nunca estamos dispostos a reconhecer nossa passividade, nossa violência, nossa falibilidade comum. Sempre querendo manter a imagem de infalíveis, moralmente superiores… Recusar o inconsciente e as fantasias – sexuais – que o habitam sempre levará o sujeito à repetição trágica do pior.
culpa