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great freedom

 

Contém spoiler!!!
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O filme “Great Freedom” é um desses filmes que nos deixam a pensar sobre a loucura humana. A história é um tanto clichê: o encontro entre um homem gay e um heterossexual na cadeia; o gay sensível e cuidadoso prefere voltar à prisão a abandonar seu parceiro que também se apaixona. Nesse sentido, à primeira vista, o filme reforça a imagem da vida gay infeliz e condenada ao ostracismo. No entanto, é preciso um olhar mais cuidadoso aqui: o filme está relatando o horror de viver na Alemanha nazista e pós-guerra, sob a qual imperava o parágrafo 175 do código criminal. Tal parágrafo condenava à prisão todos que praticassem a homossexualidade e outras práticas sexuais consideradas imorais.

Nesse contexto, é óbvio que homens gays estão mesmo condenados à solidão e à marginalidade. As lésbicas não aparecem no filme e seria uma questão muito importante entender por quê a perseguição a elas, apesar de também existir, não foi tão violenta e mortífera. Ao contrário, há espaço para a erotização da cena lésbica quando posta a serviço do desejo heterossexual dos homens… mas essa é outra discussão.

O que interessa comentar no momento é como o filme mostra a força do desejo – no caso, o desejo do encontro gay. Mesmo na prisão, os homens buscam subterfúgios para se encontrarem, transarem e também se amarem de maneira íntima e duradoura. O desejo e o amor são mais fortes que a estrutura perversa que pretende condenar à repressão e/ou à morte todos aqueles que se aventuram em sua direção.

Por que a homossexualidade, em especial a dos homens, causa tanto horror? Por que tanta perseguição e violência contra uma prática sexual consentida entre adultos? A hipótese da psicanálise é multifacetada. Em primeiro lugar, a homossexualidade é uma das formas mais visíveis da ampliação do termo sexual proposto por Freud. Sexual é tudo aquilo que nos dá prazer e que não está determinado por um fim incrustrado em nossa biologia. O prazer sexual é sempre singular. Ao contrário do que propõe o pensamento metafísico religioso, o sexual se reduziria ao sexo e este estaria ligado à reprodução. O prazer é meramente coadjuvante nesse processo. Ora, a cena homossexual mostra a “grande liberdade” – é um ótimo nome para o filme – dos prazeres humanos… mesmo sob as prisões da moral e dos costumes.

Em segundo lugar, a psicanálise mostra que a cultura atrela fortemente passividade à feminilidade. A cultura machista e patriarcal está fundada na rejeição sistemática de tudo que diz respeito a esse par passividade / feminilidade. A misoginia e a homofobia possuem algumas fontes semelhantes. O horror à mulher e ao gay é constantemente reforçado para manter sempre ereta e infalível a potência fálica / ativa / masculina dos homens.

O fundamentalismo religioso – judeus, cristãos e mulçumanos são bem semelhantes quanto a isso – é profundamente marcado pela homofobia. Ao longo da história, movimentos políticos totalitários, de esquerda ou direita, também vão se valer da força emocional que essa bandeira homofóbica produz. Mais recentemente, desde o nazismo em particular, a homofobia fundamentalista tem sido pesadamente utilizada pelo espectro político da direita.

Nos EUA e no Brasil, países nos quais o fundamentalismo protestante tem ganhado posições políticas e jurídicas decisivas, temos visto vários retrocessos ligados às bandeiras misóginas e homofóbicas.

Há uma terceira razão pela qual a homossexualidade sempre estará em pauta na disputa política. A direita protestante compreendeu que defender a “família”, a heterossexualidade como modelo natural e sagrado do amor humano ou ainda a impossibilidade do direito ao aborto, é portar uma bandeira emocional que retirará o foco do que é mais relevante do ponto de vista político e econômico.

O nazismo, de fato, é o paradigma desse uso estratégico de bandeiras emocionais para desviar a atenção das reformas políticas e econômicas que estão sendo implantadas. A industrialização, a exploração trabalhista e a colonização da África conduzidas pela Alemanha nazista ficam em segundo plano quando 10 mil homens serão conduzidos à morte por serem homossexuais. Esse tipo de discurso de proteção da família e da moral sagrada serve de escudo para tornar praticamente invisível toda destruição que será implementada por esses supostos defensores da moral.

“Great Freedom” é um filme excelente justamente por isso: mostra claramente que não há nada de errado na vida gay. Que ela é mesmo, aliás, exemplar do prazer não guiado pelo instinto. Que ela é tão problemática e tão deliciosa quanto a vida heterossexual. E os encontros acontecem ao longo do tempo, independentemente, dos regimes políticos e religiosos que nos oprimem. O filme é dividido em três tempos por esse motivo: 1945, 1957 e 1969. 12 anos de diferença e passamos do nazismo à regência absurda do parágrafo 175 na Alemanha Ocidental (os comunistas, da Alemanha Oriental, revogaram as emendas nazistas no parágrafo), e daí para a abolição da lei na Alemanha…

Uma cena interessante é quando os prisioneiros estão reunidos (cena da imagem abaixo) para ver a transmissão da chegada do homem à lua. Uma imagem cínica nesse contexto: a liberdade humana conhecendo novas fronteiras e ao mesmo tempo presa a uma tolice como cercear práticas sexuais consentidas entre adultos.

O filme serve de alerta quanto a essa tolice mortífera. Hans escolhe voltar para a cadeia para ficar com Viktor. Certo, isso pode mesmo ser interpretado como romantismo, como reforçar a imagem que o gay só pode ser feliz no gueto. Acho possível, mas injusta essa interpretação. Também é injusta, mas muito possível a interpretação que reforça a fantasia de que, no fundo, o heterossexual brutal irá se render ao cuidado amoroso do homem gay e vai também descobrir em si seus desejos homossexuais.

A interpretação que prefiro é ler a escolha de Hans como sendo aquela mais fiel a seu desejo: cuidar de Viktor. Não se tratava mais da soberania do sexo. Aliás, a visita de Hans ao bar gay (Gross Freiheit, a grande liberdade) mostrou isso: ele teria acesso à prática sexual irrestrita… mas isso não era o mais importante.

Um detalhe importante é que Viktor estava tentando se livrar da dependência química… ele é o heterossexual clássico. O sujeito que assassinou o amante de sua mulher. Aquele que não tolera nenhuma falha em sua masculinidade. Viktor não tolera a passividade… mas será ele quem fará a tatuagem – um gesto de intensa dignidade – que tampará os números tatuados que Hans recebeu no campo nazista.

Sim, insisto, tudo isso pode mesmo ser interpretado como clichê romântico. O gay que liberta o homem de suas prisões heterossexuais. Sem dúvida, essa fantasia está presente na narrativa do filme e, claro, também no desejo de muitos homens gays (a fantasia de que ele é infinitamente melhor, mais prazeroso que qualquer mulher poderia ser para outro homem).

No entanto, prefiro enfatizar a interpretação que aponta para a primazia do cuidado e do amor, sob o império de leis sádicas que visam destruir a diferença e a singularidade. Hans e Viktor reforçam o ideal da vida gay como o avesso brilhante da vida fascista. A vida gay como liberdade e escolha deliberada. A vida fascista como submissão aos trilhos de uma coletividade massificada e estéril. Sim, a esterilidade do lado heterossexual e fascista. A vida que cria modos novos, prenhe de engenhosidade para encontrar caminhos para o amor – ou para a lua – é uma vida que entende a articulação entre desejo e singularidade. No caso do filme, é um casal gay que mostra e vive isso. Obviamente, isso não quer dizer que é o único tipo de enlace verdadeiro e prazeroso.

Recomendo que vejam o filme. Vale a pena. Está na plataforma MUBI.