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Quando eu fiquei surdo, o que mais me impressionou foi a boca da jornalista se mexendo. Quantas formas tem uma abertura. Meneava em imaginárias vogais. Meus olhos vogavam sobre aqueles lábios. E as imagens das pessoas mortas, das crianças desaparecidas, das guerras e dos loucos, da miséria e dos magnatas, todas essas imagens não diziam mais nada. Eu sempre gostei de mergulhar. O que me atraía era o fundo silêncio de fechar os olhos. Mas, quando eu fiquei surdo, eu já não podia fechar os olhos. O que mais impressionou, quando eu fiquei surdo, foi ver o tanto de mudo que havia.